{"id":1683,"date":"2014-07-06T22:58:21","date_gmt":"2014-07-07T01:58:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1683"},"modified":"2017-08-13T00:39:16","modified_gmt":"2017-08-13T03:39:16","slug":"engenho-e-arte","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/07\/engenho-e-arte\/","title":{"rendered":"Engenho e Arte"},"content":{"rendered":"<p>> Cantando espalharei por toda parte, <br \/>\n> Se a tanto me ajudar o engenho e arte. <br \/>\n> &mdash; Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>Um dos temas recorrentes nas comunidades virtuais de escritores \u00e9 a dico\u00adtomia entre talento e t\u00e9cnica, muito embora eu suspeite que tal controv\u00e9r\u00adsia floresce mais naqueles que n\u00e3o exibem nenhuma das duas coisas.<\/p>\n<p>Grosso modo, esta \u00e9 uma pol\u00eamica entre pessoas que acreditam que o mais importante \u00e9 possuir um tipo de predestina\u00e7\u00e3o para a arte e outras que est\u00e3o certas de que se pode adestrar qualquer pessoa at\u00e9 o n\u00edvel de genialidade liter\u00e1ria, faltando apenas, no atual est\u00e1gio de nosso conhecimento, a no\u00e7\u00e3o do que exatamente se deveria ensinar a tal pessoa e quando come\u00e7ar. \u00c9 um debate est\u00e9ril e normalmente est\u00fapido, que se caracteriza por muita falta de compreens\u00e3o de parte a parte, em que ambos os lados simplificam grosseira\u00admente os pensamentos opostos at\u00e9 reduzi-los aos citados extremos.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo concluir que qualquer das opini\u00f5es esteja mais certa que a outra, ou mesmo defender, mineiramente, que a verdade esteja em cima do muro. N\u00e3o tenho informa\u00e7\u00f5es suficientes para isto, e desconfio que o equ\u00edvoco do debate vai al\u00e9m da impossibilidade presente de sua solu\u00e7\u00e3o, estendendo-se \u00e0 superfluidade da defini\u00e7\u00e3o de *uma* verdade. O que pretendo definir \u00e9 que, possivelmente, haja espa\u00e7o para todo tipo de combina\u00e7\u00e3o dos citados fatores.<\/p>\n<p>Comecemos pela &#8220;arte&#8221;. <\/p>\n<p>> Tem gente que acredita que a arte \u00e9 um tipo de engenharia.<br \/>\n> *moi m\u00eame*<\/p>\n<p>Pouca coisa \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de definir quanto o conceito de \u201carte\u201d. Se no passado acad\u00eamico havia ordeiros manuais que determinavam onde p\u00f4r e tirar cada elemento para se atingir uma composi\u00e7\u00e3o harmoniosa, o modernismo mandou tudo isto \u00e0s favas (n\u00e3o sem certo preju\u00edzo, em minha modesta opini\u00e3o), permitindo que se pintasse uma c\u00f3pia da Mona Lisa com bigode ou se expusesse um mict\u00f3rio como escultura. Na literatura, a revolu\u00e7\u00e3o do verso livre deu origem a muita obra grandiosa, mas principalmente encorajou gera\u00e7\u00f5es a escreverem porcarias grandes.<\/p>\n<p>Querer encontrar uma defini\u00e7\u00e3o abrangente do que seria &#8220;arte&#8221; e do que seria &#8220;bom&#8221; em termos liter\u00e1rios \u00e9 um trabalho de S\u00edsifo. Melhor que cada um defina isto nos termos de suas prefer\u00eancias pessoais. Aquilo que eu creio ser arte e que eu creio ser bom tem tais e tais caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p>No fundo, esta \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o frustrante, porque este relativismo permite que qualquer coisa seja arte se for chamada de arte por um n\u00famero suficiente de pessoas. Isso explica a dificuldade de se diferenciar a arte da impostura, abre caminho para aventureiros ganharem dinheiro se fazendo de artistas e desorienta quem tem anseios realmente art\u00edsticos. Somos cegos num imenso tiroteio de possibilidades e quem est\u00e1 ganhando? Gente como Paulo Coelho, J. K. Rowling, John Green e E. L. James.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m diz que as artes em geral, literatura inclu\u00edda, est\u00e3o passando por um per\u00edodo de grande decad\u00eancia, eu tendo a concordar: mas a decad\u00eancia n\u00e3o \u00e9 pela falta de talento, mas pela falta de rumo. Existem infinitas estradas para se percorrer, todos somos livres para seguir qualquer delas, mas \u00e9 imposs\u00edvel que todas levem a lugares que valham a pena. <\/p>\n<p>Quem sofre com isso \u00e9 quem tem &#8220;talento&#8221;.<\/p>\n<p>> &#8220;Temperamento art\u00edstico&#8221; \u00e9 uma doen\u00e7a que aflige aos amadores.<br \/>\n> G. K. Chesterton<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 &#8220;talento&#8221;, para al\u00e9m de uma marca de \u00f3timo chocolate? H\u00e1 autores capazes de capturar uma vislumbre da eternidade nos tr\u00eas versos de um hai-kai, mas cuja obra medra na gaveta. H\u00e1 outros que escrevem perfeitas porcarias, como o Raphael Draccon, mas que desfrutam do status de celebridades porque s\u00e3o talentosos para divulgar o que fazem, e a literatura que traficam competentemente ocupa espa\u00e7os e lhes rende grana. <\/p>\n<p>Ambos os tipos de talentos s\u00e3o respeit\u00e1veis. Eu, por exemplo, queria ter mais do tipo de talento que o Draccon tem. Ali\u00e1s, eu queria ter mais talento, de uma forma geral.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova e a frase da ep\u00edgrafe \u00e9 inocente. Quem estuda a hist\u00f3ria da literatura mais a fundo sabe que na R\u00fassia do s\u00e9culo XIX o que fazia sucesso eram folhetins franceses que equivaliam em qualidade \u00e0s s\u00e9ries rom\u00e2nticas Sabrina, J\u00falia e Bianca que at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo eram vendidas em nossas bancas. Autores do porte de Dostoi\u00e9vski come\u00e7aram escrevendo sob tal influ\u00eancia, em alguns casos erigindo como modelos e \u00eddolos autores t\u00e3o cultos e profundos quanto uma Barbara Cartland.<\/p>\n<p>A falta de talento para organizar uma rede de relacionamentos, cativar apoiadores e conservar amizades poderosas sempre foi um problema para os artistas em geral. E n\u00e3o h\u00e1 nenhuma rela\u00e7\u00e3o entre a falta deste talento e a abund\u00e2ncia do outro: n\u00e3o \u00e9 por ser um recluso, um misantropo ou um exc\u00eantrico que voc\u00ea ser\u00e1 genial.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que muda, nos dias de hoje, \u00e9 que mesmo para aqueles que se prop\u00f5em a ser a ant\u00edtese da literatura comercial e rasa existe uma grande dificuldade para saber o que fazer. Cada encruzilhada na vida de um autor lhe oferece 99 caminhos para escolher e tudo \u00e9 muito nebuloso. A \u00fanica coisa clara \u00e9 que dinheiro \u00e9 bom, dinheiro \u00e9 bola, dinheiro \u00e9 a mola do mundo.<\/p>\n<p>Mas o centro da pol\u00eamica \u00e9 se o talento bastaria para produzir uma obra de qualidade. E aqui falamos do suposto e idealizado talento liter\u00e1rio, o tipo de talento de Machado de Assis e Dostoi\u00e9vski. Algumas pessoas acreditam que sim, porque enxergam o produto final destes autores, e n\u00e3o t\u00eam acesso aos cadernos de rascunhos deles \u2014 muitas vezes os pr\u00f3prios autores destru\u00edram sua obra de juventude por vergonha dela. O trabalho do artista \u00e9 sempre subestimado, muitas vezes pelo pr\u00f3prio artista, que gosta de se apresentar como um &#8220;escolhido&#8221;, um &#8220;iluminado&#8221;. \u00c9 claro e evidente para quem tem acesso a edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas das cl\u00e1ssicas que foram compostas em um processo doloroso, que envolveu trabalho. Pode ser que em alguns casos elas tenham sido escritas rapidamente, mas n\u00e3o \u00e9 menor o trabalho s\u00f3 porque foi feito r\u00e1pido. A rapidez n\u00e3o \u00e9 d\u00e1diva de um anjo, mas fruto de um treina\u00admento.<\/p>\n<p>Mas qual parte \u00e9 respons\u00e1vel pelo &#8220;sucesso&#8221; de uma obra: a inspira\u00e7\u00e3o original ou o trabalho envolvido?<\/p>\n<p>> Inspira\u00e7\u00e3o? N\u00e3o sei quem \u00e9. Quando aparece encontra-me sempre a trabalhar.<br \/>\n> Pablo Picasso<\/p>\n<p>Dif\u00edcil dizer. Certamente n\u00e3o adianta tentar moldar e polir merda para fazer uma est\u00e1tua. O talento do escultor n\u00e3o ser\u00e1 apreciado, e possivelmente ser\u00e1 muito lamentada a perda de seu tempo. Mas \u00e9 ilus\u00e3o achar que a escolha de um belo bloco de m\u00e1rmore assegura a qualidade de uma escultura, se o respons\u00e1vel n\u00e3o tiver capacidade de extra\u00ed-la do leito de rocha em que jaz.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que ambas as coisas precisam coexistir, mas n\u00e3o num estreito e imagin\u00e1rio muro mineiro, mas sim que habitem um extenso e fluido estado-tamp\u00e3o entre o imp\u00e9rio do suor e o reino da inspira\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Para alguns autores, ou para algumas ideias, s\u00f3 mesmo um trabalho absurdo resultar\u00e1 em uma obra aceit\u00e1vel, porque a ideia era essencialmente fraca. <\/p>\n<p>Para outros, a ideia j\u00e1 saltar\u00e1 com pouco trabalho, mas, ainda assim, algu\u00e9m sempre se perguntar\u00e1 qu\u00e3o grande o artista teria sido se fosse capaz de desenvolver melhor a sacada genial que encontrou.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre os g\u00eanios e os med\u00edocres \u00e9 que os primeiros n\u00e3o suscitam tais considera\u00e7\u00f5es. Os cr\u00edticos dos g\u00eanios s\u00f3 conseguem encontrar no despeito e na inveja os argumentos para denegrir as obras que jamais conseguiriam emular. Uma obra realmente genial passa a impress\u00e3o de justa medida, mesmo quando termina no meio de uma frase, mesmo quando as partes parecem desproporcionadas. A monstruosidade \u00e9 uma forma de simetria quando constru\u00edda pelas m\u00e3os de um g\u00eanio.<\/p>\n<p>E g\u00eanios, amigos, tais como deuses, s\u00f3 podem existir no passado. A genialidade \u00e9 um trof\u00e9u p\u00f3stumo. Muito raramente esta medalha \u00e9 posta no peito certo quando o cora\u00e7\u00e3o ainda bate. Normalmente os louros v\u00e3o para os impostores, para a gente que tem o talento extr\u00ednseco \u00e0 arte e \u00edntimo dos contatos, das trocas, dos conluios, dos balaios e das panelas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, n\u00f3s, os amadores, ficamos discutindo secundariedades em vez de pormos nossas patas \u00e0 obra. Com tanta gente passando fome de boas obras, ficamos desperdi\u00e7ando nossos dedos com pol\u00eamicas parcas.<\/p>\n<p>Uma parte da mediocridade de nossa era \u00e9 que muito mais gente quer fazer literatura do que gostar de literatura. Muito mais gente quer entender de literatura do que viver literatura. Muito mais gente quer viver de literatura do que viver com literatura. Ali\u00e1s, esta mediocridade n\u00e3o \u00e9 nova, s\u00f3 nunca imperou tanto e nunca foi t\u00e3o chamada de a coisa certa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>> Cantando espalharei por toda parte, > Se a tanto me ajudar o engenho e arte. > &mdash; Cam\u00f5es. Um dos temas recorrentes nas comunidades virtuais de escritores \u00e9 a dico\u00adtomia entre talento e t\u00e9cnica, muito embora eu suspeite que tal controv\u00e9r\u00adsia floresce mais naqueles que n\u00e3o exibem nenhuma das duas coisas. Grosso modo, esta \u00e9 uma pol\u00eamica entre pessoas que acreditam que o mais importante \u00e9 possuir um tipo de predestina\u00e7\u00e3o para a arte e outras que est\u00e3o certas de que se pode adestrar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[27,28,57,7,50],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1683"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1683"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1683\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4700,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1683\/revisions\/4700"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1683"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1683"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1683"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}