{"id":17,"date":"2013-06-12T18:41:00","date_gmt":"2013-06-12T21:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=17"},"modified":"2017-11-02T14:08:19","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:19","slug":"o-preco-da-passagem-1","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/o-preco-da-passagem-1\/","title":{"rendered":"O Pre\u00e7o da Passagem [1]"},"content":{"rendered":"<p>A \u00faltima coisa que vi na noite escura de 26 de abril de 1967 foram luzes azuis e vermelhas no retrovisor. &#8220;Malditos milicos, nos acharam!&#8221; \u2014 pensei e acelerei na v\u00e3 esperan\u00e7a de fugir, mas logo perdi o controle em uma curva fechada da estrada para Araruama. Jurema gritou e se encolheu, o carro atingiu a sebe com um baque e um farfalho, tudo muito r\u00e1pido, e ca\u00edmos pela ribanceira. Apenas tive tempo de pensar que muitos anos depois da ditadura talvez nos considerassem m\u00e1rtires estudantis e dessem indeniza\u00e7\u00f5es a nossas fam\u00edlias. A ironia disso me fez suportar tudo sorrindo, enquanto o r\u00e1dio do Aero Willys tocava Beatles rumo ao abismo: <em>She&#8217;s got a ticket to ri-i-i-de, but she don&#8217;t care\u2026<\/em><\/p>\n<p>Houve um clar\u00e3o e acordamos em uma praia vazia, numa noite sem lua que parecia a morte. A areia na e seca parecia a de um deserto, n\u00e3o a do litoral norte, e est\u00e1vamos deitados de costas, como cad\u00e1veres em um vel\u00f3rio. Quando nos erguemos, n\u00e3o havia nem sinal do carro por perto, nenhum ru\u00eddo de metal nem brilho de chamas. Apenas o breu espesso, entremeado de suaves golpes de frio. N\u00e3o havia sombra de estrelas no c\u00e9u, sequer um movimento do ar que denotasse a frente fria prevista pela meteorologia.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como nos enxerg\u00e1vamos. Talvez apenas soub\u00e9ssemos da presen\u00e7a um do outro pelo calor dos corpos, ou por outra forma oculta de sentido. Eu sabia que Jurema estava l\u00e1 comigo, mesmo sem delinear sua silhueta contra qualquer plano de fundo.<\/p>\n<p>Engoli em seco, pigarreei para tentar saber se ainda ouvia. Esperando um eco, um tossido, um espirro, um &#8220;oi&#8221; gritado no escuro. Alguma coisa que me certificasse de que estava vivo. Nada.<\/p>\n<p>\u2014 Onde estaremos? \u2014 perguntei sem esperan\u00e7a de resposta.<\/p>\n<p>Jurema parecia ainda catat\u00f4nica, recuperando aos poucos os sentidos. Tremia e mexia as m\u00e3os mecanicamente enquanto seus olhos perscrutavam no ar denso alguma informa\u00e7\u00e3o utiliz\u00e1vel. O brilho deles, como duas pequenas fa\u00edscas isoladas no meio de um toldo uniformemente preto que cobria os meus olhos, indicava alguma t\u00eanue luz concentrada em suas retinas e refletida fantasmagoricamente naquela vis\u00e3o: distantes rel\u00e2mpagos delineavam \u00e0 direita, muito distante, o contorno escuro de uma montanha ou ilha.<\/p>\n<p>Aquele sil\u00eancio medonho apertava a garganta e o ar pesado dificultava o esfor\u00e7o dos pulm\u00f5es, ardia nos olhos e rugia nos ouvidos com o vento que come\u00e7ava a soprar, estranhamente morno, de v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es. O c\u00e9u estava mais escuro que uma noite de lua nova e aquele vento redemoinhando daquele jeito nos fazia lembrar uma caverna imensa, uma cratera, um por\u00e3o, uma sepultura.<\/p>\n<p>Logo Jurema cedeu, come\u00e7ando a chorar. Ouvi-la solu\u00e7ar me agredia mais do que o meu pr\u00f3prio medo porque, apesar de cren\u00e7as heterodoxas, ainda est\u00e1vamos de acordo em muitas coisas, t\u00ednhamos entre n\u00f3s aquele ego\u00edsmo burgu\u00eas, aquela possessividade reacion\u00e1ria a que se chama futilmente de &#8220;amor&#8221;. Estendi os bra\u00e7os na dire\u00e7\u00e3o daquelas duas brasas morti\u00e7as que brilhavam diante de mim como olhos de fantasmas. Tateei o ar vazio com medo de encontrar coisas terr\u00edveis, mas acertei seus ombros, frios e seminus. Apertei-a contra meu corpo, tentando certificar-me de nossa materialidade naquele pesadelo. Ou tentando cruelmente roubar o pouco de calor que ela emitia.<\/p>\n<p>\u2014 Onde foi parar o Aero? \u2014 ela perguntou em seguida.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, Juju. Acho que fomos lan\u00e7ados fora. Ali\u00e1s\u2026<\/p>\n<p>Justo naquele instante, quando acabara de surgir uma quest\u00e3o capaz de levar-nos a reflex\u00f5es relevantes sobre a situa\u00e7\u00e3o em que nos encontr\u00e1vamos, fomos interrompidos pelo primeiro som distinto que ouv\u00edamos desde que acord\u00e1ramos: um navio. Sinalizou n\u00e3o muito longe da praia, um pouco al\u00e9m de onde ouv\u00edamos a mar\u00e9, e depois ouvimos alguma coisa bater na \u00e1gua de uma forma que apavorava. Sinalizou o navio uma outra vez, naquele som espectral que cortava o sil\u00eancio, violento, alto e vibrante, fazendo esquecer momentaneamente o Aero Willys, nossas pr\u00f3prias vidas e tudo mais que nos preocupasse.<\/p>\n<p>O som, grave e potente, soou uma terceira vez, &#8220;huuuuuuummmmmm&#8221;, e umas pancadas met\u00e1licas sugeriram uma \u00e2ncora ou o desativar de algum tipo de motor que n\u00e3o ouv\u00edamos. Como alunos que ficam alertas numa sonolenta manh\u00e3 de segunda-feira quando ouvem a sirene do intervalo, abandonamos nossas considera\u00e7\u00f5es e olhamos o horizonte, ou onde deveria haver um, perdido no negro painel que era tudo o que enxerg\u00e1vamos.<\/p>\n<p>A primeira novidade que pressentimos foi o som de remos anunciando a chegada de um batel. Vinha algu\u00e9m sozinho, pois era s\u00f3 de dois remos o marulho que se ouvia. Por fim foi acesa uma luz t\u00eanue, mecha de uma lanterna incandescente ou pavio de vela. A cena que vimos, iluminada pela prec\u00e1ria luz, pareceu t\u00e3o inatural que nem tivemos palavras. Tudo era t\u00e3o desprovido das propriedades t\u00edpicas das coisas que existem que achei que fosse apenas um sonho, ou um del\u00edrio que sofria. O barqueiro vinha envolto em panos escuros, de forma que nem se podia enxergar suas m\u00e3os, nem rosto, nem p\u00e9s. Agia de forma met\u00f3dica, mas n\u00e3o mec\u00e2nica, e o seu porte parecia t\u00e3o assustador que se poderia temer que fosse algum monstro fant\u00e1stico nadando naquelas \u00e1guas est\u00edgias.<\/p>\n<p>Mas, apesar de amea\u00e7ador, era apenas o piloto de um batel em um mar irreal no qual est\u00e1vamos, de alguma forma, vivendo um pesadelo. Fosse o que fosse est\u00e1vamos indefesos no frio e desorientados. Nada t\u00ednhamos contra o desconhecido, a n\u00e3o ser ave-marias e salve-rainhas que Jurema come\u00e7ava a desfiar da forma atabalhoada como rezam os desesperados. Muito comunista ela\u2026<\/p>\n<p>O batel chegou \u00e0 areia. \u00c0 luz da lanterna prec\u00e1ria percebemos melhor o h\u00e1bito monacal escuro, de capuz ca\u00eddo sobre a face. Do corpo do ser que assim se vestia, a \u00fanica parte real que se via era uma enorme e negra barba que voejava, desgrenhada, soprada ao vento daquele lugar. Dep\u00f4s os remos dentro do casco, desceu, molhando os p\u00e9s naquela \u00e1gua que n\u00e3o brilhava com a luz que a atingia, e arrastou o batel para a areia. Ent\u00e3o ergueu a cabe\u00e7a, deixando-nos ver brilhando, dentro do negrume mais acentuado oculto sob o capuz, uma solit\u00e1ria cintila\u00e7\u00e3o, ligeiramente mais avermelhada do que nossos olhos julgavam confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>O barqueiro ent\u00e3o tateou dentro de uma dobra de sua vestimenta e de l\u00e1 extraiu uma sacola de pano t\u00e3o ordin\u00e1rio quanto as luvas que lhe ocultavam as m\u00e3os e gesticulou imperceptivelmente como se virasse a palma da m\u00e3o esquerda para cima. Ent\u00e3o percebemos que n\u00e3o est\u00e1vamos s\u00f3s.<\/p>\n<p>Por alguma raz\u00e3o n\u00e3o perceb\u00earamos ainda nenhuma outra voz, mas naquele momento, t\u00e3o logo o barqueiro fez o seu gesto, sentimos o estalar como de passos na areia, o ruflar de tecidos ao vento, e logo uma numerosa multid\u00e3o come\u00e7ou a passar por n\u00f3s, sem sequer um esbarr\u00e3o em nossos ombros. Pessoas silenciosas e inodoras, que caminhavam sem pressa, dirigindo-se ao batel sem arrastar os p\u00e9s no ch\u00e3o, sem olharem em torno, parecendo at\u00e9 que n\u00e3o se moviam, mas apenas deslizavam no ar. E aqueles estalidos de gr\u00e3os de areia cresciam em nossos ouvidos como se fossem outra coisa.<\/p>\n<p>Nenhuma das pessoas deram mostra de importar-se conosco ou com o nosso atraso. Nenhuma sequer suspirava, todas estendiam os bra\u00e7os em dire\u00e7\u00e3o ao barqueiro, como para entregar algo. N\u00e3o contei quantas foram, mas embarcaram bem mais do que aparentemente o batel ex\u00edguo suportaria, e mesmo assim ele n\u00e3o pareceu afundar na \u00e1gua densa de t\u00e3o escura.<\/p>\n<p>Logo imaginei que deveria haver mais bateis ocultos na treva, talvez com suas lanternas apagadas, ou talvez a neblina excessiva que adensava aquela escurid\u00e3o ao n\u00edvel do mar estivesse me impedindo de ver as outras embarca\u00e7\u00f5es. Essas tentativas de racionaliza\u00e7\u00e3o come\u00e7aram a me cansar, como se os meus sentidos come\u00e7assem a n\u00e3o valer mais.<\/p>\n<p>De alguma forma, supus que tamb\u00e9m dever\u00edamos embarcar. Fosse qual fosse o destino da barca fundeada pouco al\u00e9m, somente nela ter\u00edamos respostas sobre nossa situa\u00e7\u00e3o, coisa que na praia, sozinhos, dificilmente encontrar\u00edamos. Jurema n\u00e3o concordou, absolutamente:<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e9rgio, tenho medo desse barco. Vamos ficar na praia e esperar.<\/p>\n<p>\u2014 Que bobagem, Juju. Prefere ficar sozinha nesta praia estranha, sem saber onde estamos? Venha! O que pode dar errado?<\/p>\n<p>\u2014 Alguma coisa me diz que n\u00e3o devemos embarcar. Vamos ficar mais um pouco na praia. Talvez o dia nas\u00e7a, talvez algo aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo bem, se n\u00e3o quer ir. Mas ao menos perguntemos ao barqueiro alguma coisa que ajude a entender o que est\u00e1 havendo. Por que o medo?<\/p>\n<p>Assim dito, Jurema concordou em me acompanhar. Aproximamo-nos com a naturalidade que not\u00e1ramos nos outros, buscando embarcar. O piloto, no entanto, estendeu seu bra\u00e7o diante de n\u00f3s, oferecendo uma barreira intranspon\u00edvel como uma cordilheira:<\/p>\n<p>\u2014 Pague o pre\u00e7o \u2014 ele disse, com uma voz estranhamente carregada nas consoantes, que tinham o peso de estampidos, e alongada nas vogais, de um tom anasalado como se n\u00e3o conseguisse dividir o fluxo de ar corretamente.<\/p>\n<p>Compreendi, ent\u00e3o, porque os passageiros ao embarcar estendiam as m\u00e3os em dire\u00e7\u00e3o ao piloto, e ficou evidente a fun\u00e7\u00e3o da bolsa que ele segurava na m\u00e3o esquerda.<\/p>\n<p>\u2014 Qual \u00e9 o pre\u00e7o? \u2014 eu perguntei.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o respondeu. Dentro das sombras projetadas pelo capuz brilhava alguma segunda coisa l\u00edquida e sutil. Um cheiro estranho, ardido e resinoso se desprendia de todo ele.<\/p>\n<p>\u2014 Diga-me qual \u00e9 o pre\u00e7o, ou n\u00e3o poderei pagar.<\/p>\n<p>\u2014 Somente podem embarcar aqueles que t\u00eam seu pre\u00e7o.<\/p>\n<p>E tendo dito isto, voltou-nos as costas e empurrou o barco para a \u00e1gua. Qualquer tentativa de atitude f\u00edsica desmaiou em meus planos quando vi a facilidade com que seus bra\u00e7os empurraram um batel grande o bastante para caber todos que haviam entrado. Era uma criatura quase monstruosa de t\u00e3o forte. Intimidadora. Talvez monstruosa mesmo. Ou talvez apenas deformada por nossa percep\u00e7\u00e3o exaltada, ou alterada.<\/p>\n<p>O batel entrou no negrume do mar e o som dos remos foi diminuindo at\u00e9, por fim, ser trocado pelo arranque met\u00e1lico. Ent\u00e3o nossos ouvidos, j\u00e1 treinados conseguiram ouvir um som, n\u00e3o de motor, mas de algo muito diferente, de algo que singrou aquele mar, afastou-se de n\u00f3s, deixou-nos s\u00f3s naquela medonha praia, abandonados a coisas que haviam sa\u00eddo de nossas preocupa\u00e7\u00f5es quando soara a buzina.<\/p>\n<p>\u2014 Acho que vi um brilho met\u00e1lico l\u00e1, refletindo a luz da lanterna. Pode ser um cromado do Aero Willys \u2014 observou Jurema, numa tentativa de me chamar de volta \u00e0 racionalidade. Dei dois passos na dire\u00e7\u00e3o apontada por Jurema, mas me detive:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso ir. Se for, me perco de voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vou contigo. Tenho medo desse mar.<\/p>\n<p>\u2014 O que pode haver de maligno no mar, ora bolas! S\u00f3 se forem tubar\u00f5es!<\/p>\n<p>Caminhamos na dire\u00e7\u00e3o do brilho imaginado por Jurema. Pisando devagar, com o cuidado de testar por sumidouros de areia movedi\u00e7a, buracos, cacos, caranguejos ou coisas piores. Coisas que ferissem, ou que\u2026 nem era bom pensar. Suponho que andamos uns dez minutos, lentamente, talvez vencendo mais que duzentos metros. N\u00e3o encontramos nem carro e nem sinal do fim da praia. Sequer mudan\u00e7a de inclina\u00e7\u00e3o, fazendo parecer que era uma praia absolutamente plana, ou ao menos imensamente mais larga do que qualquer das praias no norte do estado do Rio; ou mesmo do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Obviamente n\u00e3o encontrar o Aero Willys foi um problema, um obst\u00e1culo intranspon\u00edvel contra o qual a dial\u00e9tica marxista se debatia. Cada passo dado na esperan\u00e7a de trombar com a carca\u00e7a de metal, sem encontrar nada, a n\u00e3o ser mais daquela esquisita areia que estalava como cinzas frias quando pis\u00e1vamos, fazia as esperan\u00e7as se confundirem mais.<\/p>\n<p>\u2014 Acho que temos que voltar, S\u00e9rgio.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim. Voltar \u2014 meu tom de voz, quase rendido, deve ter agido de forma ainda mais depressiva sobre ela. Por muito tempo n\u00e3o a ouvi dizer coisa alguma. Voltamos mais devagar ainda, com a pressa dos que se dirigem para uma tortura.<\/p>\n<p>Chegamos \u00e0 praia mais enregelados, tristes e menos informados. Por indefinidas horas tentamos esperar amanhecer, mas n\u00e3o aconteceu isso e nem as nuvens grossas que roubavam as estrelas deram sinal de ceder. Seguiu a noite preta sem lua, o negrume dos c\u00e9us tornando in\u00fatil minha inf\u00e2ncia de escoteiro: n\u00e3o podia ler as horas nas constela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em quieto desespero e nervoso sil\u00eancio aguardamos quase uma eternidade sentados l\u00e1, usando apenas o escasso calor de nossos corpos como defesa contra o frio. Por fim ouvimos outro som de embarca\u00e7\u00e3o, esta em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Da mesma forma que da vez anterior, ouviu-se o som de remos na \u00e1gua, outro batel que vinha em busca de quem na praia estivesse. Outro bem-vindo transporte at\u00e9 onde encontrar respostas.<\/p>\n<p>Outra criatura envolta em obscuros mantos o trouxe. Apeou com um murm\u00fario que era ao mesmo tempo assustador, familiar, respeitoso e melanc\u00f3lico. Um cantarolar que parecia nada dizer em l\u00edngua alguma, mas apenas evocava lembran\u00e7as que eu julgava perdidas. Lembran\u00e7as que certamente Jurema tamb\u00e9m recordou.<\/p>\n<p>Bem poucos subiram. O piloto olhou em volta, ergueu a lanterna t\u00e3o r\u00fatila e emitiu um cantoch\u00e3o imemorial em vez de voz, como se convidasse os perdidos a aproximarem-se. N\u00e3o ousei faz\u00ea-lo: de algum modo n\u00e3o queria, ou n\u00e3o podia, seguir com ele. Era evidente j\u00e1, em algum lugar de meu racioc\u00ednio, que se o fizesse seria uma viagem sem volta. Por isso eu me fixei no ch\u00e3o, segurei com for\u00e7a a m\u00e3o de Jurema, que parecia querer ir.<\/p>\n<p>Ele nos viu. Sem tirar um p\u00e9 de dentro do batel ele nos mirou com a escurid\u00e3o que tinha sobre os ombros, propiciada pelo albornoz que levava.<\/p>\n<p>\u2014 Venham. N\u00e3o posso esper\u00e1-los muito \u2014 disse numa voz que parecia a de um coveiro conversando na nave de uma igreja.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vamos \u2014 eu disse \u2014 n\u00e3o temos como pagar o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade. De fato n\u00e3o t\u00eam como. Mas venham. H\u00e1 os que s\u00e3o, eles mesmos, o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vamos\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, vamos! \u2014 Jurema me interrompeu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! \u2014 disse-lhe em um cochicho \u2014 n\u00e3o me cheira bem essa hist\u00f3ria de ir sem pagar. Jurema concordou e silenciou. O piloto deu de ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem. Mas se querem meu conselho, n\u00e3o se demorem aqui por muito tempo. Outro de nossos barcos n\u00e3o demora. At\u00e9 l\u00e1, mude de ideia e embarque.<\/p>\n<p>E assim dizendo, com certa dificuldade, empurrou o batel de volta para a \u00e1gua e remou para dentro da escurid\u00e3o de piche que afogava nossos olhos, apagando a lanterna t\u00e3o logo afastou-se da praia, como se temesse alguma coisa. Ao longe, novas luminosidades alaranjadas tremulavam no ar, delineavam a montanha que v\u00edramos mais cedo.<\/p>\n<p>Uma nota de apreens\u00e3o passou por minha mente naquele momento em que o piloto remava fazendo um marulho triste na \u00e1gua silenciosa, afastava-se por aquela escurid\u00e3o inenarr\u00e1vel, murmurando sua cantiga arquet\u00edpica, at\u00e9 n\u00e3o mais se ouvir.<\/p>\n<p>Permanecemos na praia por mais eternas horas, ou minutos. A noite continuava, sem ind\u00edcio de aurora ou sequer a l\u00e2mpada de um avi\u00e3o passando. O tempo era frio, uniforme como o ar de um por\u00e3o fechado, e n\u00e3o havia mais vento, em lugar dele crescera sil\u00eancio, mais ou menos como aquele que surge na rua de uma cidadezinha quando acabou de passar a primeira rajada de chuva, brilhou o rel\u00e2mpago e ainda vai ribombar o trov\u00e3o.<\/p>\n<p>A praia come\u00e7ou a se encher de outra gente. De todos os lados chegavam passos secos que soavam na na areia como patas de algum animal de p\u00e9s peludos. Meus olhos, h\u00e1 tanto tempo acostumados ao escuro, quase podiam v\u00ea-los. N\u00e3o divisei muitos, apenas os mais pr\u00f3ximos, mas a multid\u00e3o que vi era como uma planta\u00e7\u00e3o de pequenos brilhos em pares, mas alguns brilhos vinham em trios, outros em grupos, raros eram solit\u00e1rios\u2026 Esses me faziam sentir um arrependimento terr\u00edvel de n\u00e3o ter ido no barco anterior.<\/p>\n<p>Aqueles que estavam mais perto eram em sua maioria pessoas simples, normais, muito velhas quase todas. Tinham rostos amolecidos pelas pancadas do tempo e n\u00e3o vinham de m\u00e3os vazias: carregavam pacotes que continham moedas, pedras, joias, coisas disformes e estranhas tamb\u00e9m, tudo parecendo pesar muito. Eram t\u00e3o silenciosos quanto os primeiros, pareciam evitar dolorosamente usar a voz. Eu me sentia feliz que assim fosse: n\u00e3o queria ouvir que tipo de sons viriam das fileiras de tr\u00e1s, daqueles lugares onde via aqueles estranhos alinhamentos de olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 pensando o que estou pensando? \u2014 perguntei num cochicho quase inaud\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho medo tamb\u00e9m \u2014 disse Juju.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 isso. Refiro-me \u00e0s bolsas desses infelizes.<\/p>\n<p>\u2014 O que quer dizer, S\u00e9rgio?<\/p>\n<p>\u2014 Vamos expropriar estes burgueses de parte de seu patrim\u00f4nio e usar para pagar nossa passagem. Assim n\u00e3o precisaremos de abusar de nenhuma benevol\u00eancia.<\/p>\n<p>A simples perspectiva de haver algo pr\u00e1tico a se fazer reacendeu em Jurema o fogo revolucion\u00e1rio. J\u00e1 n\u00e3o desfiava mais as ave-marias e salve-rainhas, recuperara o jarg\u00e3o do movimento e pensava em todos os conhecimentos de guerrilha urbana que tinha em mente:<\/p>\n<p>\u2014 Companheiro, boa ideia. Mas n\u00e3o vamos nos separar. Vamos juntos, de m\u00e3os dadas, porque tenho cada vez mais medo.<\/p>\n<p>De m\u00e3os dadas, casualmente, como dois namorados, sa\u00edmos no meio da multid\u00e3o, como se tiv\u00e9ssemos destino, sempre evitando aproximarmo-nos de onde houvesse qualquer alinhamento de olhos que fosse diferente de um par sim\u00e9trico. Sempre que algum ma\u00e7o de notas ou saco de moedas aparecia \u00e0 vista, subtra\u00edamos uma c\u00e9dula, ou um n\u00edquel. Era t\u00e3o f\u00e1cil quanto roubar mangas do vizinho. Por fim, sa\u00edmos de dentro da multid\u00e3o para contar o resultado da expropria\u00e7\u00e3o: dez c\u00e9dulas \u00e1speras e grandes e seis moedas que n\u00e3o reconhec\u00edamos ao tato. A escurid\u00e3o nos impedia de saber quanto fora a pilhagem, mas a facilidade de serem n\u00fameros pares facilitou as coisas:<\/p>\n<p>\u2014 Cinco notas e tr\u00eas moedas para cada um?<\/p>\n<p>\u2014 Correto, companheiro \u2014 e isto dito, ficamos combinados de pegar o barco seguinte, conforme dissera o segundo barqueiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima coisa que vi na noite escura de 26 de abril de 1967 foram luzes azuis e vermelhas no retrovisor. &#8220;Malditos milicos, nos acharam!&#8221; \u2014 pensei e acelerei na v\u00e3 esperan\u00e7a de fugir, mas logo perdi o controle em uma curva fechada da estrada para Araruama. Jurema gritou e se encolheu, o carro atingiu a sebe com um baque e um farfalho, tudo muito r\u00e1pido, e ca\u00edmos pela ribanceira. Apenas tive tempo de pensar que muitos anos depois da ditadura talvez nos considerassem m\u00e1rtires estudantis e dessem indeniza\u00e7\u00f5es a nossas fam\u00edlias. A ironia disso me fez suportar tudo sorrindo, enquanto o r\u00e1dio do Aero Willys tocava Beatles rumo ao abismo: *She&#8217;s got a ticket to ri-i-i-de, but she don&#8217;t care\u2026*<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[13,16,18,17,14,15,12,19,11,9,10],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4177,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17\/revisions\/4177"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}