{"id":1700,"date":"2014-07-18T18:47:08","date_gmt":"2014-07-18T21:47:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1700"},"modified":"2017-11-19T12:53:17","modified_gmt":"2017-11-19T15:53:17","slug":"notas-para-uma-polemica-pesada-sobre-filologia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/07\/notas-para-uma-polemica-pesada-sobre-filologia\/","title":{"rendered":"Notas para uma Pol\u00eamica Pesada sobre Filologia"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto fazia uma pesquisa sobre os &#8220;erros gramaticais de Machado de Assis&#8221;, deparei-me com uma afirma\u00e7\u00e3o importante de um fil\u00f3logo conhecido, mas cujo link acabei perdendo: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a orthographia que mudou nos \u00faltimos s\u00e9culos (no caso Brasileiro, ali\u00e1s, quatro vezes), mas tamb\u00e9m a gram\u00e1tica e a <strong>an\u00e1lise sint\u00e1tica<\/strong>.<\/p>\n<p>As obras da literatura luso-brasileira dos s\u00e9culos XVI a meados do s\u00e9culo XIX (anteriores a Herculano, Garrett e Castelo Branco) est\u00e3o cheias de &#8220;desvios&#8221; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gram\u00e1tica padr\u00e3o. O que houve? Talvez em uma pr\u00f3xima encarna\u00e7\u00e3o eu consiga produzir uma tese completa sobre o assunto. Por ora, v\u00e3o apenas as notas que tomei.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cam\u00f5es_-_Rimas_1595-209x300.jpg\" alt=\"\" width=\"209\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-5634\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cam\u00f5es_-_Rimas_1595-209x300.jpg 209w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cam\u00f5es_-_Rimas_1595-104x150.jpg 104w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cam\u00f5es_-_Rimas_1595-445x640.jpg 445w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cam\u00f5es_-_Rimas_1595.jpg 538w\" sizes=\"(max-width: 209px) 100vw, 209px\" \/><\/p>\n<p>Houve o desenvolvimento da filologia como disciplina acad\u00eamica e a inven\u00e7\u00e3o de uma enorme s\u00e9rie de &#8220;regras gramaticais&#8221; antes inexistentes. Cam\u00f5es, por exemplo, usava indistintamente os pares &#8220;inda&#8221; e &#8220;ainda&#8221; tal como &#8220;onde&#8221; e &#8220;aonde&#8221;. Foram os gram\u00e1ticos que inventaram que o &#8220;a&#8221; de &#8220;aonde&#8221; \u00e9 uma preposi\u00e7\u00e3o (mas n\u00e3o explicaram o que \u00e9 o &#8220;a&#8221; de &#8220;ainda&#8221;. Foram os gram\u00e1ticos que criaram o verbo &#8220;haver&#8221; impessoal, por analogia com o espanhol (e talvez por influ\u00eancia do falar brasileiro): os autores barrocos e neocl\u00e1ssicos diziam que &#8220;haviam casas&#8221; e &#8220;haviam muitos anos&#8221; (e at\u00e9 a \u00e9poca de Cam\u00f5es as pessoas ainda &#8220;haviam filhos&#8221; e as mulheres &#8220;haviam cabelos bonitos&#8221;). Machado de Assis, que os leu, cometeu os mesmos erros (porque n\u00e3o estudava gram\u00e1tica, mas lia).<\/p>\n<p>A norma culta se desenvolveu a partir do falar lisboeta e de um ideal de &#8220;pureza&#8221; latinista durante o per\u00edodo neocl\u00e1ssico. Esta gramaticaliza\u00e7\u00e3o regularizante da l\u00edngua efetivamente falada produziu duas heran\u00e7as: a <em>orthographia etymologica<\/em> (que eu particularmente acho muito massa e at\u00e9 gostaria de usar) e a gram\u00e1tica normativa do portugu\u00eas &#8220;padr\u00e3o&#8221; (cuja imposi\u00e7\u00e3o foi a causa de muita rea\u00e7\u00e3o anti-lisboeta nas prov\u00edncias de Portugal e de muita rejeia\u00e7\u00e3o \u00e0 influ\u00eancia portuguesa no Brasil). A primeira foi abolida em Portugal em 1910 e no Brasil em 1946, mas a segunda ainda n\u00e3o foi posta de lado.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito do vocabul\u00e1rio a gramaticaliza\u00e7\u00e3o combateu a livre altern\u00e2ncia dos ditongos &#8220;ou\/oi&#8221;, de que ainda vemos ecos em palavras como louro\/loiro, mas que j\u00e1 foi mais abrangente, admitindo noite\/noute, foice\/fouce, coito\/couto, a\u00e7oite\/a\u00e7oute, couro\/coiro, ouro\/oiro, pouco\/poico etc. Combateu a livre altern\u00e2ncia de &#8220;v&#8221; e &#8220;b&#8221; (originalmente duas consoantes que se revezavam como o &#8220;s&#8221; e o &#8220;z&#8221;) e que resultava em grafias como &#8220;bassoira&#8221; (vassoura), &#8220;baca&#8221;, &#8220;vesouro&#8221;, &#8220;brabo&#8221;, &#8220;assobio\/assovio&#8221; etc. A diferen\u00e7a entre os dois fen\u00f4menos \u00e9 que a altern\u00e2ncia do ditongo era comum mesmo na fala culta, enquanto a altern\u00e2ncia do &#8220;b&#8221; e do &#8220;v&#8221; era mais dialetal, sendo por isso tipificada como coisa de gente inculta.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas que efetivamente se falava antes desta gramaticaliza\u00e7\u00e3o era diferente do portugu\u00eas padr\u00e3o de hoje. Era menos &#8220;correto&#8221; e tinha uma an\u00e1lise sint\u00e1tica mais rica que admitia frases como &#8220;esqueceu-me dizer-lhe que a amava&#8221; (Machado de Assis) com o sentido de &#8220;me esqueci de lhe dizer que a amava&#8221;.<\/p>\n<p>Em resumo: quando vemos um autor antigo supostamente &#8220;errar&#8221; o uso da gram\u00e1tica, estamos vendo um autor que escrevia antes do triunfo da gram\u00e1tica normativa. Esta cresceu a partir das variantes predominantes, ao pre\u00e7o de fazer autores como o pr\u00f3prio Padre Vieira parecerem incultos.<\/p>\n<p>Para resolver esse problema, entram em cena os &#8220;revisores&#8221;. E eu achando que <a href=\"http:\/\/cultura.estadao.com.br\/noticias\/geral,patricia-engel-secco-defende-projeto-de-facilitar-obra-de-machado-de-assis,1164221\">a autora que modernizava Machado de Assis<\/a> era um caso isolado&#8230; Na verdade a moderniza\u00e7\u00e3o j\u00e1 acontece: mais do que adaptar a <em>orthographia<\/em> e transform\u00e1-la em ortografia, os &#8220;revisores&#8221; tamb\u00e9m &#8220;adequam&#8221; a sintaxe dos antigos autores \u00e0 gram\u00e1tica normativa de hoje. No caso da poesia, isso \u00e0s vezes resulta em quebras do ritmo do verso, o que prejudica o entendimento da poesia pelas novas gera\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o conseguem discernir a metrifica\u00e7\u00e3o. A\u00ed utilizam-se recursos como o &#8220;hiato&#8221; (a pausa for\u00e7ada entre vogais para alongar os versos) ou a ap\u00f3cope (encurtamento de uma vogal para encurtar o verso) que muitas vezes n\u00e3o estavam no original.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando lemos a obra de um autor antigo j\u00e1 estamos lendo uma vers\u00e3o &#8220;desnatada&#8221; e &#8220;pasteurizada&#8221;. Se quisermos ler o texto como o autor o pretendeu, temos de buscar edi\u00e7\u00f5es fac-similares.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto fazia uma pesquisa sobre os &#8220;erros gramaticais de Machado de Assis&#8221;, deparei-me com uma afirma\u00e7\u00e3o importante de um fil\u00f3logo conhecido, mas cujo link acabei perdendo: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a orthographia que mudou nos \u00faltimos s\u00e9culos (no caso Brasileiro, ali\u00e1s, quatro vezes), mas tamb\u00e9m a gram\u00e1tica e a an\u00e1lise sint\u00e1tica. As obras da literatura luso-brasileira dos s\u00e9culos XVI a meados do s\u00e9culo XIX (anteriores a Herculano, Garrett e Castelo Branco) est\u00e3o cheias de &#8220;desvios&#8221; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gram\u00e1tica padr\u00e3o. O que houve? 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