{"id":1749,"date":"2014-08-01T22:08:30","date_gmt":"2014-08-02T01:08:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1749"},"modified":"2017-08-13T00:36:20","modified_gmt":"2017-08-13T03:36:20","slug":"o-rei-da-literatura-fantastica-nacional-esta-nu","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/08\/o-rei-da-literatura-fantastica-nacional-esta-nu\/","title":{"rendered":"O Rei [da Literatura Fant\u00e1stica Nacional] Est\u00e1 Nu"},"content":{"rendered":"<p>A vaidade \u00e9 um pecado, segundo o Eclesiastes, que reinou em Jerusal\u00e9m. Pessoas contaminadas por ela cometem os maiores enganos sem perceberem que est\u00e3o em equ\u00edvoco, porque a vaidade produz a dissocia\u00e7\u00e3o da realidade: o vaidoso perde a capacidade de realizar uma avalia\u00e7\u00e3o isenta do mundo. Talvez por isso queira se cercar de um s\u00e9quito de admiradores. N\u00e3o s\u00f3 porque a adula\u00e7\u00e3o reconforta, mas porque a vaidade se completa no elogio.  O vaidoso faz \u00e9 apenas um meio para ordenhar a simpatia desse s\u00e9quito.<\/p>\n<p>N\u00e3o raro o n\u00edvel de autorrefer\u00eancia do vaidoso \u00e9 t\u00e3o grande que ele passa a difundir sua vis\u00e3o peculiar da realidade como regra ou dogma, colocando-se numa posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a mais por causa de sua personalidade do que pelo m\u00e9rito de sua produtividade. Ocorre que a nossa cultura, saturada de ideologias de prosperidade, apresenta um terreno f\u00e9rtil para que se criem &#8220;celebridades&#8221; a partir de uma ilus\u00e3o, de uma atitude aparente, em vez de uma ess\u00eancia, uma qualidade.<\/p>\n<p>Se o s\u00e9quito de admiradores for bastante grande e o vaidoso adquire poder, cria-se a situa\u00e7\u00e3o da f\u00e1bula da roupa nova do rei: ningu\u00e9m aponta as falhas evidentes nas ideias e na obra do autor-personagem, pois todos est\u00e3o comprometidos em uma s\u00f3 cren\u00e7a e catarse. O rei estar nu \u00e9 algo que ofende \u00e0 corte que o cerca. A nudez real n\u00e3o escandaliza a n\u00e3o ser quando percebida como tal. Antes disso, o pingolim real balan\u00e7a em v\u00e3o porque todos creem que os que veem um pingolim s\u00e3o ot\u00e1rios. Assim, quando a crian\u00e7a grita que o rei est\u00e1 pelado, este desnudamento atinge quem crera na exist\u00eancia da roupa para n\u00e3o se passar por tolo. E n\u00e3o h\u00e1 inimigo mais virulento do que aquele que criamos quando, por nossa culpa, algu\u00e9m descobre que estava fazendo papel de idiota.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo eu atra\u00ed certa inf\u00e2mia por ter comentado, de maneira \u00e1cida, as ideias liter\u00e1rias de Rafael Draccon, escritor que adquiriu certo poder no meio editorial brasileiro (minha invectiva, por isso, deve ter cimentado meu t\u00famulo liter\u00e1rio, mas n\u00e3o ligo para isso, porque nunca achei que fosse desej\u00e1vel galgar a fama agarrado ao saco alheio). [Comentei](\/lit\/2013\/08\/procuramos-escritores-amestrados\/), na \u00e9poca, a entrevista em que Draccon deu suas opini\u00f5es, mas confesso que o fiz no escuro porque, apesar da &#8220;fama&#8221; de que o autor desfrutava, para mim ele era um &#8220;famoso quem?&#8221; Nunca havia lido nada escrito por ele e nem interagira com ele nas redes sociais. Posteriormente, comecei a ter medo de estar a cometer uma injusti\u00e7a, mas deixei quieto, porque n\u00e3o se revoga palavra dita, nem se repara caco quebrado. Mas tive recentemente a oportunidade de ler uma obra de Raphael Draccon. Com o livro em m\u00e3os, veio-me \u00e0 cabe\u00e7a, imediatamente, a ideia de reavaliar o que eu dissera, agora \u00e0 luz de meu conhecimento de seu trabalho. Este texto \u00e9 fruto disso.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se espantar que Draccon proponha encargos extraliter\u00e1rios aos aspirantes escritores com quem interage: seus maiores talentos s\u00e3o estes que ele prop\u00f5e como essenciais aos novatos. \u00c9 um autor que pode ter muita influ\u00eancia nas redes sociais e nas editoras, muito poder, talvez muito dinheiro, mas se abstrairmos estes fatores, todos eles acess\u00f3rios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura em si, o que sobra \u00e9 um autor que n\u00e3o merecia ser publicado, pois o seu texto n\u00e3o possui nenhuma qualidade. Embora eu tema desintegrar o universo afirmando tal temeridade, tive a sensa\u00e7\u00e3o de que Draccon escreve pior, e muito pior, do que Paulo Coelho. Apenas em seu favor resta a impress\u00e3o de que que seu livro sofreu alguma revis\u00e3o, diferente do Mago, que nos brinda normalmente com os seus rascunhos.<\/p>\n<p>Dizer que o autor n\u00e3o tem qualquer m\u00e9rito liter\u00e1rio \u00e9 exagerado, reconhe\u00e7o. Mesmo porque &#8220;qualidade&#8221; \u00e9 tida como um conceito subjetivo. Pode ser, mas a subjetividade existe quando tentamos definir a literatura a partir do seu lado de cima. \u00c9 como tentar definir quais \u00e1rvores de uma floresta s\u00e3o mais bonitas. Quando descemos das copas e analisamos o ch\u00e3o, \u00e9 bastante objetivo que um cogumelo n\u00e3o \u00e9 uma &#8220;\u00e1rvore bonita&#8221;. A aus\u00eancia de m\u00e9rito liter\u00e1rio em Raphael Draccon n\u00e3o decorre de ele n\u00e3o atingir os p\u00edncaros, mas de ele n\u00e3o ultrapassar a reda\u00e7\u00e3o escolar, a n\u00e3o ser na quantidade de palavras, que nunca foi r\u00e9gua para se medir coisa nenhuma, a n\u00e3o ser o custo de impress\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de explicar porque acredito que o texto dele n\u00e3o tem valor, acho importante dizer ao leitor porque me dou a este trabalho. Nesse exato momento devem existir no pa\u00eds e no mundo milhares ou milh\u00f5es de pobres-diabos (como eu fui um dia) que se sentam para escrever algo sonhando serem descobertos, reconhecidos, pagos e admirados. Normalmente iniciantes escrevem atrozmente mal, e em sua maioria n\u00e3o melhorar\u00e3o muito. Dizer que um jovem de quatorze anos escreveu uma &#8220;porcaria&#8221; n\u00e3o tem nenhum sentido. *Espera-se que jovens de quatorze anos escrevam pura porcaria, interessante seria se algum conseguisse, t\u00e3o cedo, uma obra relevante.* Esses jovens de quatorze anos s\u00e3o apenas aprendizes, normalmente mal orientados (como eu fui), que ainda v\u00e3o sofrer muita incompreens\u00e3o e gastar dinheiro tentando comprar elogios. Nenhum destes jovens \u00e9 &#8220;editor&#8221;, nenhum deles \u00e9 incensado como &#8220;revela\u00e7\u00e3o&#8221; da literatura nacional, nenhum deles se prop\u00f5e como &#8220;modelo&#8221; para outros jovens, nenhum deles tem um s\u00e9quito de admiradores e nenhum deles tem o poder de articular rea\u00e7\u00f5es positivas ou negativas a autores amigos ou desafetos. <\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 Raphael Draccon. Editor de um selo de fantasia, e portanto se sup\u00f5e que reconhe\u00e7a a qualidade para poder selecionar e publicar. Jovem autor celebrado, tido e havido como modelo para muitos escritores novatos, uma personalidade influente na internet, cuja palavra \u00e9 ouvida at\u00e9 mesmo em entrevistas a jornais *mainstream*. E Raphael Draccon parece gostar disso, tanto que se prop\u00f5e a determinar um novo paradigma de autor, \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a (e com a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Paulo Coelho, diga-se de passagem). Gosta disso a ponto de se deleitar em fazer ame\u00e7as a quem o critique:<\/p>\n<p>> Faze\u00admos uma varredura da vida online da pessoa. Se houver um post sequer dela falando mal de outro autor ou comprando briga na internet, ela \u00e9 cortada na hora.<\/p>\n<p>Portanto, Raphael Draccon n\u00e3o \u00e9 uma pessoa qualquer, \u00e9 algu\u00e9m que conquistou o poder, que se prop\u00f5e como modelo, que exerce o poder com gosto e ambiciona encontrar outros como ele mesmo e formar seu feudo (&#8220;panelinha&#8221;, como prefere o Paulo Coelho) dentro do mercado editorial nacional. Como ele n\u00e3o \u00e9 uma pessoa qualquer, n\u00e3o \u00e9 covardia eu gastar tinta metaf\u00f3rica para demonstrar que ele est\u00e1 nu. <\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>O texto em quest\u00e3o \u00e9 um PDF promocional de [Drag\u00f5es de \u00c9ter: Cora\u00e7\u00f5es de Neve](http:\/\/www.raphaeldraccon.com\/blog\/wp-content\/uploads\/Drag%C3%B5es-de-%C3%89ter_Cora%C3%A7%C3%B5es-de-Neve_Preview.pdf), disponibilizado pelo pr\u00f3prio autor em seu site. Observemos, ent\u00e3o, que n\u00e3o se trata de um texto qualquer, mas de uma obra que o pr\u00f3prio Draccon escolheu divulgar como &#8220;degusta\u00e7\u00e3o&#8221; (argh!) de seu trabalho, para convencer potenciais leitores de que vale a pena comprar seus livros. O autor n\u00e3o pode, de forma nenhuma, alegar que a sele\u00e7\u00e3o desta obra para coment\u00e1rio seja, de alguma maneira, tendenciosa. Comento aquilo que ele escolheu compartilhar como exemplo do que faz. De qualquer forma, \u00e9 a obra mais conhecida e divulgada dele. <\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Quem \u00e9 esse autor que, tendo conseguido poder atrav\u00e9s do cargo de editor de um selo liter\u00e1rio, se prop\u00f5e a &#8220;cortar na hora&#8221; de suas rela\u00e7\u00f5es os autores que criem pol\u00eamicas ou critiquem outros autores? A censura \u00e9 uma arma daqueles que temem as cr\u00edticas. Raphael Draccon em bons motivos para tem\u00ea-las: seu texto \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o escolar esticada em v\u00e1rios volumes. <\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil come\u00e7ar a apontar onde est\u00e3o as falhas do livro, porque est\u00e3o praticamente em toda parte. Come\u00e7am pelo t\u00edtulo tosco e clich\u00ea, continuam pela diagrama\u00e7\u00e3o do PDF feita no Microsoft Word, passam pela obsess\u00e3o em colocar o nome do autor no rodap\u00e9 de cada p\u00e1gina e chegam a um texto que parece escrito para estudantes de quinta s\u00e9rie prim\u00e1ria (mas \u00e9 vendido como &#8220;young adult&#8221;).<\/p>\n<p>Raphael Draccon n\u00e3o escreve como escritor, mas como um jornalista semianalfabeto que tem paci\u00eancia para digitar muito. Sua linguagem n\u00e3o tem cor, n\u00e3o tem sabor, n\u00e3o tem del\u00edcias  e nem surpresas. \u1e82\u00c9 um texto que flui quadrado o tempo todo, telegr\u00e1fico, torto. Seu texto \u00e9 um enfileiramento mec\u00e2nica de voc\u00e1bulos sempre empregados no sentido literal, a n\u00e3o ser quando o autor se distrai e incorpora uma met\u00e1fora que virou lugar-comum. Nele coexistem todos os motivos que tornam um texto chato e ruim.<\/p>\n<p>Comecemos pelo didatismo. Raphael Draccon come\u00e7a o livro explicando o que \u00e9 o outono. S\u00e9rio, est\u00e1 l\u00e1: *Ainda era outono naquela \u00e9poca. Essa palavra, outono, n\u00e3o simboliza apenas a \u00e9poca das colheitas; trata-se tamb\u00e9m de um termo que representa o per\u00edodo da vida em que uma pessoa se encaminha \u00e0 velhice.* Esta frase inicial j\u00e1 \u00e9 suficiente para algu\u00e9m que j\u00e1 tinha lido outro livro na vida sentir algo estranho. Literatura n\u00e3o \u00e9 assim. Isso \u00e9 texto de livro escolar. Na verdade eu at\u00e9 tenho a sensa\u00e7\u00e3o de ter lido algo assim num livro did\u00e1tico qualquer.<\/p>\n<p>Mas poderia ser um caso isolado. N\u00e3o! Logo a seguir Raphael Draccon se dedica a nos explicar o que significa &#8220;sede&#8221;: *Era o Reino-sede, a base, o Reino de Todos os Reinos.* O autor imagina que seus leitores n\u00e3o s\u00e3o letrados o suficiente para saber que o &#8220;reino-sede&#8221; seria &#8220;a base&#8221; ou o &#8220;reino de todos os reinos&#8221;.  Mas eu posso estar implicando. Haver\u00e1 outros exemplos? Sim! O ar de professor ensinando fica mais claro um pouco adiante no mesmo segundo par\u00e1grafo: *E com base nessa informa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea poder\u00e1 melhor entender&#8230;* <\/p>\n<p>Esse tom permanece em todo o texto. O autor sobe num pedestal e de l\u00e1 conta a sua hist\u00f3ria aos leitores, adotando uma atitude superior. Precisa explicar para os imbecis que o leem o que significa outono e que sentidos figurados a palavra pode ter, precisa refor\u00e7ar neles o entendimento do conceito de &#8220;sede&#8221; e precisa dar-lhe um pito se n\u00e3o estiverem prestando aten\u00e7\u00e3o devidamente. O autor sequer imagina que seus leitores tenham assistido filmes ambientados na Idade M\u00e9dia e na Renascen\u00e7a, pois precisa explicar-lhes algo t\u00e3o b\u00e1sico sobre etiqueta cort\u00eas que a impress\u00e3o professoral s\u00f3 faz se acentuar: *E todos provavelmente j\u00e1 devem bem saber que, quando um Rei resolve se p\u00f4r a falar, qualquer pessoa, em qualquer local, e de qualquer posi\u00e7\u00e3o social, se cala.*<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Ademais do didatismo, que poderia ser um defeito menor se a qualidade da obra em si n\u00e3o ficasse abaixo do orgulho quase pedante do autor, notamos uma linguagem, como j\u00e1 foi dito acima, *telegr\u00e1fica*. Antigamente se chamava de telegr\u00e1ficos os textos que usavam o m\u00ednimo poss\u00edvel de letras, abreviando palavras quando necess\u00e1rio, porque na emiss\u00e3o do telegrama se pagava por caracteres transmitidos. Embora n\u00e3o seja econ\u00f5mico com palavras, Draccon d\u00e1 uma impress\u00e3o telegr\u00e1fica porque a narrativa \u00e9 &#8220;seca&#8221;: ele n\u00e3o se dedica a descrever cen\u00e1rios ou personagens, vai enfileirando fatos e conceitos sem se dedicar a aprofundar nenhum deles, at\u00e9 que, por fim, percebemos que a narrativa avan\u00e7a aos solavancos, sem nos dar chance de *sentir* os persoangens. A cena de coroa\u00e7\u00e3o do rei An\u00edsio \u00e9 assim: um enfileiramento de nomes engra\u00e7ados que misturam italiano, alem\u00e3o, portugu\u00eas e alguma l\u00edngua inventada, que nada fazem a n\u00e3o ser contemplar, que pensam mas nada dizem, que ficam, mas n\u00e3o fazem, enquanto o rei repete palavras vazias, que s\u00e3o parte do ritual (e que, portanto, n\u00e3o acrescentam drama nenhum).<\/p>\n<p>Esta impress\u00e3o de telegrafia surge porque Draccon permanece sempre na superf\u00edcie da narrativa e dos personagens. Tudo o que ele nos conta \u00e9 expl\u00edcito. N\u00e3o h\u00e1 subtexto, n\u00e3o h\u00e1 sutileza, n\u00e3o h\u00e1 entrelinhas a interpretar. \u00c9 um texto em que pau \u00e9 pau e pedra \u00e9 pedra. Trag\u00e9dia maior n\u00e3o pode sobrevir a uma obra de FANTASIA do que castrar a imagina\u00e7\u00e3o do leitor com uma narrativa sem lacunas para fantasiar, matando assim a iniciativa deste. At\u00e9 mesmo os pensamentos e motiva\u00e7\u00f5es dos personagens s\u00e3o expl\u00edcitos, pornogr\u00e1ficos quase. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o leitor ter d\u00favidas se um personagem \u00e9 vil\u00e3o ou mocinho. O exemplo acabado disso est\u00e1 na men\u00e7\u00e3o a Victon Ferrabr\u00e1s:<\/p>\n<p>>O Rei que baniu sua coroa, extinguiu a monarquia de Minotaurus e sagrou-se Imperador, dizem mais pela for\u00e7a que pela lei, observava An\u00edsio com os olhos apertados, como se uma ventania de gr\u00e3os de areia estivesse lhe cortando a face, e mantinha uma express\u00e3o at\u00edpica no semblante do rosto sem cabelos.<\/p>\n<p>> Em seu interior, apenas uma certeza: no futuro, ainda iria bater de frente com An\u00edsio Branford.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o aqui para o leitor sequer hesitar em formar uma imagem negativa deste personagem. Ele \u00e9 declarado inimigo desde a primeira vez que o vemos. N\u00e3o h\u00e1 como simpatizar com ele porque o autor, declaradamente, nos diz que devemos odi\u00e1-lo. Pode ser que futuramente Victon Ferrabr\u00e1s seja revelado um her\u00f3i, mas isso n\u00e3o muda a maneira desastrada com que Draccon o apresenta. *Dizendo* quem ele \u00e9, em vez de permitir que tomemos nossas conclus\u00f5es. Aqui o grande autor da fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica nacional viola o princ\u00edpio b\u00e1sico do &#8220;show, don&#8217;t tell&#8221; (demonstre, n\u00e3o diga):<\/p>\n<p>> &#8220;Show, don&#8217;t tell&#8221; \u00e9 uma t\u00e9cnica empregada em v\u00e1rios tipos de textos para permitir que o leitor experimente a hist\u00f3ria atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es, palavras, pensamentos, sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es, em vez da exposi\u00e7\u00e3o, explica\u00e7\u00e3o, descri\u00e7\u00e3o ou sistematiza\u00e7\u00e3o pelo autor. O objetivo \u00e9 n\u00e3o afogar o leitor em adjetivos pesados, mas permitir que ele mesmo interprete detalhes significantes do texto. [Adaptado da Wikipedia].<\/p>\n<p>O princ\u00edpio do &#8220;Show, Don&#8217;t Tell&#8221; \u00e9 recomendado por pessoas que Raphael Draccon n\u00e3o poderia desqualificar: Ernest Hemingway, Orson Scott Card, Chuck Palahniuk. Se \u00e9 verdade que, como toda t\u00e9cnica, esta n\u00e3o deve ser abusada, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a apresenta\u00e7\u00e3o do personagem Ferrabr\u00e1s \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico de lugar onde ela deveria ser empregada para obter o efeito de suspense.<\/p>\n<p>Isto porque n\u00e3o \u00e9, tampouco, um caso isolado. O narrador de Drag\u00f5es de \u00c9ter \u00e9 t\u00e3o onisciente que ele nos irrita. N\u00e3o contente em saber de antem\u00e3o tudo o que vai acontecer e de nos lembrar o tempo todo que ele j\u00e1 sabe e n\u00f3s n\u00e3o (*Afinal, para isso, voc\u00ea at\u00e9 estaria preparado. Mas n\u00e3o para o que viria logo em seguida*), o narrador faz quest\u00e3o de desnudar os pensamentos dos personagens o tempo todo, bloqueando qualquer tentativa nossa de interpret\u00e1-los o simpatizar com eles.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Outro fator que incomoda \u00e9 que o autor, ao mesmo tempo em que tenta incorporar \u00e0 sua narrativa o maior n\u00famero poss\u00edvel de seres mitol\u00f3gicos que estejam em dom\u00ednio p\u00fablico, nem sempre tem suficiente conhecimento destes personagens para empregar corretamente sua refer\u00eancia, chegando a cometer *erros de ortografia* em seus nomes: *Reino sombrio comandado pelo soturno mago-**linche** Oscar Zoroaster*  (em vez de lich ou liche). <\/p>\n<p>O mesmo autor que nos introduz em uma s\u00f3 hist\u00f3ria tudo e mais a pia da cozinha em termos de criaturas m\u00e1gicas e temas de fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, at\u00e9 o livro ficar parecendo escrito com um baralho de Magic: The Gathering, parece ter uma dificuldade para empregar o vocabul\u00e1rio adequado ao cen\u00e1rio medieval-fant\u00e1stico que concebeu. Assim, o rei An\u00edsio recebe um &#8220;bast\u00e3o de ouro&#8221; ao ser coroado, n\u00e3o um &#8220;cetro&#8221; e sua coroa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 anunciada por arautos e nem por clarins, mas por &#8220;corneteiros&#8221;. Pela falta de vocabul\u00e1rio espec\u00edfico, o autor, que est\u00e1 t\u00e3o preocupado em dizer o tempo todo o que os personagens pensam, deixa de nos informar visualmente sobre os fatos que acontecem, pois em vez de nos dizer que gesto \u00e9 usado para saudar o rei coroado, s\u00f3 sabemos que se trata, vagamente, de uma &#8220;rever\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico trecho em que a sem\u00e2ntica portuguesa parece alheia ao autor. Em v\u00e1rios trechos ele emprega palavras que n\u00e3o combinam com as a\u00e7\u00f5es e sentimentos que pretende descrever, o que cria imagens engra\u00e7adas, como: *An\u00edsio esperava ainda que seu pai vivesse muito mais anos do que as folhas de um carvalho.* Estranha forma de desejar longevidade a algu\u00e9m, posto que a maioria das esp\u00e9cies de carvalho s\u00e3o caducif\u00f3lias (perdem as folhas no outono) e mesmo as que t\u00eam folhas perenes n\u00e3o servem de bom exemplo, porque a perenidade \u00e9 do conjunto das folhas, n\u00e3o das folhas individualmente. Qu\u00e3o mais f\u00e1cil n\u00e3o teria sido dizer, com simplicidade e eleg\u00e2ncia, que An\u00edsio esperava que seu pai vivesse mais do que um carvalho. S\u00f3 que dizer as coisas de forma simples e elegante n\u00e3o \u00e9 a praia do Draccon, e isso \u00e9 evidente em cada linha.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que simplifica ideias e contextos para n\u00e3o for\u00e7ar a mente d\u00e9bil de seus leitores (\u00e9 assim que ele os trata, a julgar pela maneira como escreve), Raphael Draccon parece ser incapaz de concis\u00e3o. N\u00e3o falo aqui da concis\u00e3o exagerada e estilosa que alguns autores gostam de praticar. Falo da concis\u00e3o de se empregar uma quantidade razo\u00e1vel de palavras para dizer o que se quer dizer. Enquanto economiza adjetivos que dariam brilho ao texto e descri\u00e7\u00f5es que seriam \u00fateis para situar o leitor, Draccon comete per\u00edodos t\u00e3o verbosos quanto vazios. Tenho a certeza de que as 19 p\u00e1ginas do arquivo-amostra poderiam ser reduzidas a menos de 15 com uma simples revis\u00e3o que eliminasse a verbosidade desnecess\u00e1ria do autor. Ao final deste artigo incluo uma tal revis\u00e3o, que reduz o texto das duas primeiras p\u00e1ginas em mais de 30% sem prejudicar o entendimento.<\/p>\n<p>A falta de familiaridade com o vocabul\u00e1rio \u00e9 causa de sua verbosidade. Inseguro com as palavras, o autor sente necessidade de refor\u00e7\u00e1-las, faz quest\u00e3o de determinar que sabe exatamente o que est\u00e1 dizendo, porque n\u00e3o sabe muito bem. Vemos isso quando ele diz que o falecido rei fora *lan\u00e7ado ao trono nas gra\u00e7as do povo* (aqui eu imaginei populares segurando-o pelos bra\u00e7os e pernas e atirando-o sobre um imenso trono acolchoado e cheio de travesseiros. <\/p>\n<p>Esta falta de conhecimento m\u00ednimo sobre o que est\u00e1 falando leva Draccon a cometer inanidades em praticamente todo o par\u00e1grafo, tais como &#8220;acordes sincronizados&#8221; (se s\u00e3o acordes, \u00e9 porque s\u00e3o sincronizados), &#8220;n\u00e3o darei \u00eanfase ao fraquejo&#8221; (parece que o autor desconhece o verbo &#8220;fraquejar&#8221;), ou o impag\u00e1vel trecho em que compara a fala do novo rei era &#8220;como se uma orquestra invis\u00edvel e inaudita rufasse seus instrumentos intang\u00edveis&#8221;, que fica rid\u00edcula por causa do duplo sentido que adquiriram os voc\u00e1bulos &#8220;inaudito&#8221; e &#8220;intang\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de que o autor est\u00e1 for\u00e7ando a barra acima do que consegue alcan\u00e7ar fica evidente quando faz o rei pronunciar um estranho voto, para um rei que parece ser o grande her\u00f3i, ou pelo menos \u00e9 apresentado como tal:<\/p>\n<p>> E, por fim, juro que separarei o justo do injusto quando isto for inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O rei-her\u00f3i de Raphael Draccon promete somente diferenciar\u00e1 o justo do injusto quando isto for estritamente necess\u00e1rio. N\u00e3o sendo assim, justos e injustos que se ajustem.  Este \u00e9 um dos muitos trechos do livro que evidenciam a falta do trabalho de um bom leitor-beta ou de um bom revisor (ou, se houve tais processos, da falta de humildade por parte do autor em acatar sua sugest\u00f5es). Um leitor-beta teria percebido que o rei, no contexto da hist\u00f3ria, deveria justamente prometer fazer justi\u00e7a, e n\u00e3o omitir-se.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>A minha impress\u00e3o inicial de que Draccon escreve muito pior do que Paulo Coelho \u00e9 f\u00e1cil de explicar. Embora o mago seja t\u00e3o incompetente no uso da l\u00edngua quanto o &#8220;novo talento&#8221; da literatura fant\u00e1stica nacional (pobre dela!), pelo menos ele se inspira em fontes de melhor qualidade. N\u00e3o h\u00e1 como produzir algo totalmente ruim quando voc\u00ea est\u00e1 plagiando As Mil e Uma Noites, A Demanda do Santo Graal, a obra de Khalil Gibran e outros elementos do imagin\u00e1rio fant\u00e1stico orientalizante ou arabizante. Mas Raphael Draccon parece inspirado em manuais de RPG, autores americanos de baixa fic\u00e7\u00e3o e roteiros de videogames. N\u00e3o tem como sua obra ser melhor do que \u00e9.<\/p>\n<p>Tendo dito tudo que disse at\u00e9 aqui, \u00e9 quase sup\u00e9rfluo mencionar o tipo de linguagem empregado pelo autor, que \u00e9 tido como modelo pelos jovens (ai deles!), mas n\u00e3o seria completa a minha aprecia\u00e7\u00e3o de seu trabalho sem comentar tamb\u00e9m isso, ainda mais porque o prometi l\u00e1 no come\u00e7o.<\/p>\n<p>A linguagem de Raphael Draccon, como dito, \u00e9 a de uma composi\u00e7\u00e3o escolar n\u00edvel sexta s\u00e9rie, s\u00f3 que muito estendida \u2014 e n\u00e3o necessariamente a composi\u00e7\u00e3o do melhor aluno da turma. Al\u00e9m dos problemas liter\u00e1rios j\u00e1 apontados, existem outros que se referem aos n\u00edveis b\u00e1sicos de manipula\u00e7\u00e3o do idioma, erros que evidenciam falta de comando do c\u00f3digo lingu\u00edstico que o autor se pretende a utilizar.<\/p>\n<p>No primeiro par\u00e1grafo j\u00e1 vemos um continente *onde um Rei [&#8230;] iria se consagrar*. N\u00e3o \u00e9 que Raphael Draccon desconhe\u00e7a o futuro do pret\u00e9rito, ele o emprega em outros lugares, mas ele desconhece como variar o uso de suas formas sint\u00e9tica e composta para obter o melhor efeito liter\u00e1rio. Neste trecho, em particular, a forma sint\u00e9tica soaria melhor, *onde um rei se consagraria*, mas muito melhor ainda soaria a voz passiva, *onde um rei seria consagrado*. <\/p>\n<p>Draccon tamb\u00e9m evidencia dificuldades com os pronomes obl\u00edquos, especialmente em seu uso reflexivo, comentendo uma batatada como *Sobrenome nascido plebeu, **se sagrado** nobre, e iluminado pelo semidivino*. Quero crer que tenha sido falha do revisor, porque essa constru\u00e7\u00e3o equivale a tascar &#8220;eu se chamo&#8221; no meio texto.<\/p>\n<p>Por fim, para cumprir minha promessa, reduzo as duas primeiras p\u00e1ginas do texto em 30% do total de caracteres, sem retirar uma v\u00edrgula da informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao entendimento da hist\u00f3ria:<\/p>\n<p>> Era outono, s\u00edmbolo tamb\u00e9m do ocaso da vida. E Ocaso era o continente onde se consagraria um jovem rei em um outono.<\/p>\n<p>> Em Nova Ether n\u00e3o havia reino mais importante que Arzallum, cujos monarcas influ\u00edam internamente em todos os outros. Por isso, naquela tarde de outono, todos os povos do continente Ocaso oravam a seus deuses e semideuses que iluminassem o pr\u00edncipe Branford, que seria coroado.<\/p>\n<p>> Branford, um sobrenome plebeu enobrecido e divinizado. O patriarca se chamara Primo e se tornara uma lenda: o ca\u00e7ador de bruxas, salvador das fadas. Entronizado pelo povo, jazia em seu t\u00famulo, ao lado da rainha-fada Terra. Cometera muitos erros, por ser humano, mas cometera muito mais acertos, por ser her\u00f3i.<\/p>\n<p>> An\u00edsio Branford, preferido da nobreza, seria coroado rei. Seu irm\u00e3o mais novo, Axel, era querido da plebe, mas ainda era uma crian\u00e7a. Somente Primo fora amado pelo povo e pelos nobres. Desde cedo An\u00edso fora treinado a manejar a lan\u00e7a, a espada e o escudo, aprendera a montar e a falar, a portar-se na mesa e a liderar. Aprendera hist\u00f3ria, geografia e matem\u00e1tica. Axel tamb\u00e9m aprendera muito, mas como n\u00e3o seria rei, o fardo de An\u00edsio sempre fora maior. <\/p>\n<p>> Ao se olhar no espelho e ajeitar a capa, o pr\u00edncipe An\u00edsio teve medo de n\u00e3o estar preparado, apesar do \u00e1rduo treinamento e da bela capa vermelha. Qualquer s\u00fadito diria que estava, mas ele mesmo preferia que seu pai tivesse vivido mais que um carvalho.<\/p>\n<p>> Se pelo menos sua m\u00e3e estivesse viva! Mas mesmo as fadas podem morrer.<\/p>\n<p>Minha vers\u00e3o do texto ficou com 253 palavras, contra 615 do original. Uma absurda redu\u00e7\u00e3o de 59% do tamanho do texto, sem que nenhuma informa\u00e7\u00e3o essencial fosse retirada. O que nos faz sentir muita pena das \u00e1rvores que poderiam ter sido salvas, das horas de leitura que foram desperdi\u00e7adas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vaidade \u00e9 um pecado, segundo o Eclesiastes, que reinou em Jerusal\u00e9m. Pessoas contaminadas por ela cometem os maiores enganos sem perceberem que est\u00e3o em equ\u00edvoco, porque a vaidade produz a dissocia\u00e7\u00e3o da realidade: o vaidoso perde a capacidade de realizar uma avalia\u00e7\u00e3o isenta do mundo. Talvez por isso queira se cercar de um s\u00e9quito de admiradores. 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