{"id":176,"date":"2012-01-29T10:50:00","date_gmt":"2012-01-29T13:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=176"},"modified":"2017-11-02T14:09:02","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:02","slug":"encontrando-um-furo-no-futuro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/01\/encontrando-um-furo-no-futuro\/","title":{"rendered":"Encontrando um Furo no Futuro"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas semanas descobri que o meu amigo Fl\u00e1vio Sousa, pela primeira vez em anos, resolveu abrir <i>um blog<\/i> e divulgar seus escritos. Para algu\u00e9m que \u00e9 vocalista de grupo musical seria natural fazer poesia, mas ele \u00e9 ficcionista \u2014 e dos bons. Pena que seja t\u00e3o t\u00edmido para mostrar suas hist\u00f3rias, e pena ainda maior que escreva t\u00e3o bissextamente. A descoberta me excitou com a possibilidade de avaliar como anda evoluindo a escrita do meu amigo, por isso lhe mandei um e-mail perguntando-lhe se ele aceitaria que eu fizesse um coment\u00e1rio sobre seu novo conto.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio de Sousa \u00e9 um jovem (j\u00e1 nem tanto, mas sempre mais do que eu) m\u00fasico e escritor mineiro. <em>Mineiro de Cataguases<\/em>, como poderia enfatizar Washington Magalh\u00e3es.<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup> Conhe\u00e7o-o pessoalmente desde h\u00e1 tanto tempo que nem me lembro direito quando, mas ainda me lembro da circunst\u00e2ncia: ele era um rapazola magro, espinhudo e usava \u00f3culos. L\u00edamos na Biblioteca Municipal de Cataguases e estud\u00e1vamos na Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras. Ele ficou sabendo que eu estava organizando uma revista liter\u00e1ria e me procurou com textos. De l\u00e1 para c\u00e1 continuamos amigos, embora raramente nos vejamos. Fl\u00e1vio \u00e9 uma dessas pessoas das quais voc\u00ea n\u00e3o precisa de nenhum motivo para gostar, voc\u00ea simplesmente come\u00e7a a conversar e percebe que o papo flui, que as ideias s\u00e3o interessantes e por isso, naturalmente, voc\u00ea acaba entornando v\u00e1rias cervejas para regar a hist\u00f3ria, sem ver o tempo passar. Fa\u00e7o quest\u00e3o de dizer isso porque jamais um de n\u00f3s salvou a vida do outro ou lhe fez qualquer favor: nossa amizade existe porque simplesmente os santos combinam. Amizade de verdade \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Atualmente Fl\u00e1vio \u00e9 vocalista de um grupo de <em>heavy metal<\/em> chamado <a href=\"http:\/\/www.myspace.com\/spectrumbrasil\" target=\"_new\">Spectrum<\/a>. Como eu gosto do g\u00eanero, ele imaginou que eu gostaria de conhecer o seu trabalho. Por isso, t\u00e3o logo o grupo gravou seu primeiro CD, em 2010, ele fez quest\u00e3o me presentear com um exemplar. Na \u00e9poca eu me senti constrangido com o presente porque me lembrava do desastre que fora o meu coment\u00e1rio sobre um conto dele, anos antes (mais sobre isso a seguir). O CD me queimou nas m\u00e3os quando o peguei porque, obviamente, Fl\u00e1vio queria minha opini\u00e3o. Porque, obviamente, a minha opini\u00e3o tinha que ser sincera, pois eu n\u00e3o acho honesto com um amigo mentir para agradar. E eu tinha receio de que minha cr\u00edtica pudesse chate\u00e1-lo, como o epis\u00f3dio do conto chateara.<\/p>\n<p>Essas d\u00favidas, por\u00e9m, se dissiparam quando ouvi a m\u00fasica. Apesar da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser a melhor poss\u00edvel (a voz dele ficou em alguns momentos pisoteada pelo peso das guitarras), o som \u00e9 bastante limpo e claro para que se possa avaliar a qualidade das composi\u00e7\u00f5es. Pena que s\u00e3o s\u00f3 quinze minutos de m\u00fasica. N\u00e3o foi um sacrif\u00edcio ouvir o CD, muito pelo contr\u00e1rio. At\u00e9 o ripei e coloquei na minha cole\u00e7\u00e3o de m\u00fasica digital. Apesar de n\u00e3o ter gostado muito da primeira faixa (&#8220;Cuidado com o Diabo&#8221;) por achar a letra pueril demais e por ser justamente aquela em que a voz do Fl\u00e1vio ficou pior, as outras tr\u00eas s\u00e3o interessant\u00edssimas, especialmente &#8220;O Irolevo&#8221;, que \u00e9 algo totalmente inesperado para uma banda de <em>heavy metal<\/em>, g\u00eanero cujos praticantes valorizam mais a mitologia n\u00f3rdica, celta ou greco-romana. Trata-se de um rock pesado baseado no folclore brasileiro! \u00c9 uma can\u00e7\u00e3o que se destaca das outras tr\u00eas, pela melodia mais elaborada, pelo vocal mais entregue. Deixo para a perspic\u00e1cia do leitor descobrir o que significa o t\u00edtulo.<\/p>\n<p><center><iframe loading=\"lazy\" title=\"Spectrum - O Irolevo (OFICIAL FULL HD)\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-sf2yYYzQRs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/center><\/p>\n<p>Pois bem, na \u00e9poca eu n\u00e3o tive d\u00favidas em dizer ao meu amigo que o disco tinha ficado bom. Em outros tempos, talvez a banda tivesse at\u00e9 potencial para chegar ao sucesso. Mas hoje\u2026 se ao menos eles fossem mulheres e tivessem bundas bonitas! Como fazer sucesso fazendo m\u00fasica sem falar de sexo, beber at\u00e9 cair, chifre de namorada ou &#8220;pega\u00e7\u00e3o&#8221;? O resulto \u00e9 esse que est\u00e1 a\u00ed: no ano de 2011 somente uma entre as 50 can\u00e7\u00f5es mais tocadas foi do g\u00eanero <em>rock&#8217;n&#8217;roll<\/em>. Respeito muito o talento dos caras do Spectrum, mas \u00e9 uma pena que o mundo de hoje n\u00e3o respeite.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse antes, houve uma vez em que comentei um texto do Fl\u00e1vio, na melhor das inten\u00e7\u00f5es, e acabei &#8220;pegando pesado&#8221; demais. Nem eu nem ele t\u00ednhamos a maturidade que temos hoje para lidar com estas coisas, mas ele, pelo menos, j\u00e1 tinha a maturidade de n\u00e3o deixar uma coisa dessas ficar no caminho da amizade.<\/p>\n<p>O texto em quest\u00e3o era um conto sobre uma visita a uma casa abandonada. A casa era real, um pr\u00e9dio hist\u00f3rico localizado no centro de Cataguases, Minas Gerais, recentemente demolido em nome da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, quando deveria ter sido restaurado pelo seu valor hist\u00f3rico.<sup id=\"fnref:2\"><a href=\"#fn:2\" rel=\"footnote\">2<\/a><\/sup> Lembro-me vagamente, n\u00e3o retive nenhuma linha do texto propriamente dito. Apenas me recordo que era a hist\u00f3ria de dois jovens que, para pagar uma aposta, passavam a noite na casa, que tinha a fama de mal-assombrada, aproveitando o tempo para explorar o lugar, tecer coment\u00e1rios sobre o tipo de gente que fora respons\u00e1vel por aquela constru\u00e7\u00e3o e nela vivera etc., enquanto evitavam chamar a aten\u00e7\u00e3o dos vizinhos ou da pol\u00edcia, que os prenderia sob suspeita de atos obscenos ou consumo de drogas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/cuitoscope\/4312943243\/\" title=\"Untitled by \u03c6\u03c9\u03c2\u03b3\u03c1\u03b1\u03c6\u03b7, on Flickr\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/farm3.staticflickr.com\/2694\/4312943243_a0d064f19a.jpg\" width=\"167\" height=\"250\" alt=\"\"\/><\/a><\/p>\n<p>Minha rea\u00e7\u00e3o diante do texto foi de espanto. Gostei muito do modo como o Fl\u00e1vio organizou a hist\u00f3ria. Impressionou-me particularmente sua descri\u00e7\u00e3o do interior da casa e o modo como conseguiu fazer com que fosse interessante a narrativa de dez horas sem nenhum acontecimento fora das imagina\u00e7\u00f5es dos personagens. Foi narrando esta impress\u00e3o que eu comecei a responder, via e-mail, o pedido de coment\u00e1rio que o meu amigo fizera. Por\u00e9m, para ser honesto, era preciso tamb\u00e9m apontar as falhas do texto. Para um autor que escreve a intervalos irregulares, o Fl\u00e1vio obviamente escreve bem, bem demais. Mas a falta de treino cobra o seu pre\u00e7o na forma de tergiversa\u00e7\u00f5es excessivas, que \u00e0s vezes cansam, par\u00e1grafos inteiros que ficam sup\u00e9rfluos, erros de pontua\u00e7\u00e3o ou de ortografia etc. Talvez o meu rigor em enumerar as falhas tenha assustado o meu amigo, que ficou anos sem me mostrar qualquer coisa que tivesse escrito. Temo at\u00e9 que ele tenha ficado anos sem escrever.<\/p>\n<p>No dia seguinte Fl\u00e1vio me respondeu, simpaticamente como sempre, acrescentando a parte final do conto, que ainda estava in\u00e9dita (foi publicada no decorrer da semana que est\u00e1 acabando). Copiei ent\u00e3o as partes que j\u00e1 estavam no blog, acrescentei a parte final, montando o texto todo em uma sequ\u00eancia, como prefiro ler, e dediquei cerca de quarenta minutos a l\u00ea-lo e entend\u00ea-lo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/f14v10.blogspot.com\/2011\/12\/furo-no-futuro-indice\" target=\"_new\">Furo no Futuro<\/a> \u00e9 uma hist\u00f3ria dif\u00edcil de classificar. Certamente n\u00e3o \u00e9 um conto realista, mas n\u00e3o \u00e9 exatamente nem fantasia e nem fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Prefiro dizer apenas que \u00e9 uma hist\u00f3ria fant\u00e1stica (use os sentidos que quiser para a palavra) sobre um caso de <em>doppleg\u00e4nger<\/em> (n\u00e3o foi na Wikipedia que eu aprendi essa palavra, mas voc\u00ea a encontra muito bem explicada l\u00e1).<\/p>\n<p>Como toda boa hist\u00f3ria fant\u00e1stica, a explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia. Precisei ler duas vezes para achar que entendi. Talvez uma terceira leitura me traga uma terceira opini\u00e3o. Diferentemente do primeiro texto do Fl\u00e1vio que eu li, neste acontece muita coisa, e em um ritmo t\u00e3o fren\u00e9tico que \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil assimilar. Os cortes narrativos, com mudan\u00e7a de tempo\/espa\u00e7o\/narrador (ainda que uma boa parte da a\u00e7\u00e3o ocorra em flashback), levam o leitor em ziguezague, como as imagens de um clipe.<\/p>\n<p>Narrativamente falando, Fl\u00e1vio continua seguro. Talento ele tem, isso fica \u00f3bvio dentro de poucos par\u00e1grafos. Infelizmente, por\u00e9m, o texto n\u00e3o me parece uma obra acabada. A impress\u00e3o de provis\u00f3rio se instala a cada cena, culminando em tr\u00eas pontos-chave da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>No di\u00e1logo entre a personagem Cl\u00e1udia e sua tia (aqui chamada &#8220;Drica&#8221;, sem qualquer explica\u00e7\u00e3o para um tratamento t\u00e3o incomumente informal entre tia e sobrinha) as falas s\u00e3o introduzidas pelo que parecem ser marca\u00e7\u00f5es de teatro ou indica\u00e7\u00f5es de um rascunho. No di\u00e1logo entre o personagem Tales e o delegado, al\u00e9m da repeti\u00e7\u00e3o do problema das introdu\u00e7\u00f5es de di\u00e1logo, ainda temos a constru\u00e7\u00e3o apressada da cena, que falha em produzir o necess\u00e1rio clima de suspense. A cena final, por sua vez, embora seja bem sucedida em explicar a natureza do fado que sobreveio ao quieto Tales, falha no efeito de embasbacamento que deveria provocar no leitor. Ou eu estou sendo muito rigoroso nesse ponto, possivelmente.<\/p>\n<p>Gostaria de ressaltar que a quest\u00e3o das marca\u00e7\u00f5es de teatro pode n\u00e3o ser um problema, se o texto no geral assumisse uma ousadia narrativa e tentasse se organizar de uma forma diferente da narrativa tradicional. S\u00f3 coloquei as marca\u00e7\u00f5es como um problema porque est\u00e3o em desacordo com a estrutura geral do texto.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre dif\u00edcil, para mim, comentar a obra de outro escritor amador como eu, porque sempre me vejo tentado a observar de que maneira diferente eu mesmo teria organizado a hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 diferente neste caso: eu certamente teria disposto as cenas em uma ordem muito diferente. N\u00e3o necessariamente melhor, mas diferente. A cena de Cl\u00e1udia na ponte poderia abrir o texto de forma mais eficaz, em minha opini\u00e3o, do que as tergiversa\u00e7\u00f5es sobre o medo. O di\u00e1logo entre ela e sua tia, bastante reduzido ao essencial, seria dividido em duas partes, uma logo ante da cena de sangue e outra ao final. O problema com a minha ideia \u00e9 que ela tornaria desnecess\u00e1rio o aspecto fant\u00e1stico \u2014 e isto, talvez, matasse o pr\u00f3prio sentido da hist\u00f3ria, a motiva\u00e7\u00e3o que levou Fl\u00e1vio a escrev\u00ea-la. Acontece que somos pessoas diferentes, com valores diferentes, com objetivos diferentes. Naturalmente produzimos obras diferentes e eu n\u00e3o posso julgar a obra dele pela semelhan\u00e7a com a minha. Na cabe\u00e7a de Fl\u00e1vio, o verso de Raul Seixas tem uma import\u00e2ncia t\u00e3o grande que ele o usa como ep\u00edgrafe (ali\u00e1s, o motivo de eu ter pensado em usar a cena da ponte como abertura do texto se deve ao fato de a cita\u00e7\u00e3o do Raul aparecer antes dela). Na minha cabe\u00e7a o conflito pessoal de Tales seria mais importante e Cl\u00e1udia, apenas um instrumento do narrador para evitar a onisci\u00eancia. Se eu reescrevesse o conto ele seria diferente, n\u00e3o necessariamente pior ou melhor, apenas diferente \u2014 e n\u00e3o teria aquilo que o torna especial para o Fl\u00e1vio.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, em vez de fazer recomenda\u00e7\u00f5es sobre a estrutura narrativa propriamente dita (no m\u00e1ximo aludo \u00e0s escolhas que eu teria feito, deixando claro que o fa\u00e7o sem nenhuma pretens\u00e3o), prefiro avaliar o impacto do texto sobre o leitor. Acredito que a finalidade de uma obra liter\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o absoluta, &#8220;parnasiana&#8221;, mas esse efeito que produz sobre o leitor e o muda, de alguma forma. Quando um texto sucede em fazer com que o leitor pense \u2014 o que \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil hoje, por culpa do leitor, n\u00e3o do texto \u2014 \u00e9 preciso reconhecer o seu valor. Eu pensei muito lendo &#8220;Furo no Futuro&#8221;, mas percebi que poderia ter pensado mais, que poderia ter ficado mais &#8220;encucado&#8221; com as coisas que li (ou que n\u00e3o li, por estarem nas entrelinhas).<\/p>\n<p>Por isso minha \u00fanica recomenda\u00e7\u00e3o ao autor \u00e9 que madure mais o seu texto, que pratique mais. O talento est\u00e1 l\u00e1, em estado bruto e pulsante. Falta a seguran\u00e7a. Se a escrita de Fl\u00e1vio fosse uma bicicleta ele a pedalaria com ziguezagues ocasionais, perdendo um pouco de embalo nas subidas e freando com excessivo cuidado nas curvas. Mas um pouco mais de pr\u00e1tica lhe permitir\u00e1 andar quase o tempo todo em linha reta, ter for\u00e7a nas pernas para aguentar as subidas e coragem para entrar inclinado nas curvas, sem ter de frear. Eu gostaria muito que ele se dedicasse a esse treino, especialmente por causa de textos como o miniconto &#8220;Reencontro&#8221;, que saiu na revista &#8220;Verbo&#8221; e que ele n\u00e3o publicou ainda no blogue. Naquele texto, muito mais do que neste, a for\u00e7a da escrita de Fl\u00e1vio rasga e grita seu espa\u00e7o na cena. Mas estou sendo justo ao cobrar isso de um cara que j\u00e1 demonstrou um talento excepcional em outra arte?<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn:1\">\n<p>Em recente conversa, regada a generosas doses de vodca com gelo, o escritor cataguasense Washington Magalh\u00e3es, mostrando-me na capa de sua revista, <em>Tic-Tac<\/em>, as reprodu\u00e7\u00f5es das capas de mais de uma centena de obras liter\u00e1rias escritas por autores nascidos na cidade, comentou que em quase todas elas os autores, ou seus prefaciadores, fizeram quest\u00e3o de usar a express\u00e3o <em>mineiro de Cataguases<\/em>. Para Magalh\u00e3es, esta insist\u00eancia indica duas coisas: primeiro, um entendimento de que os mineiros de Cataguases n\u00e3o s\u00e3o exatamente como os outros mineiros, precisando ser deles diferenciados e segundo, uma esp\u00e9cie de &#8220;grife&#8221; liter\u00e1ria que o munic\u00edpio adquiriu desde os long\u00ednquos tempos da Revista Verde. Para mim a express\u00e3o n\u00e3o tem nada demais e \u00e9 apenas uma maneira convencional de se aludir \u00e0 origem do autor, comum em qualquer biografia. Como sempre acontece nesse tipo de discuss\u00e3o, n\u00e3o se chegou a um acordo, mas bebeu-se bastante.&#160;<a href=\"#fnref:1\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:2\">\n<p>Cataguases \u00e9 uma cidade curiosa, onde primeiro demolem e destroem tudo quanto h\u00e1 de bonito ou digno de nota, depois querem atrair turistas para ver seu &#8220;patrim\u00f4nio hist\u00f3rico&#8221;. Em minha curta vida tive a dor de acompanhar impotente a destrui\u00e7\u00e3o de pelo menos quatro pr\u00e9dios bel\u00edssimos que havia no centro da cidade, todos substitu\u00eddos por constru\u00e7\u00f5es totalmente desprovidas de est\u00e9tica, planejadas por um arquiteto sem imagina\u00e7\u00e3o e executadas em nome da grana bruta e absurda, que terraplena a beleza para abrir caminho no mundo.&#160;<a href=\"#fnref:2\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algumas semanas descobri que o meu amigo Fl\u00e1vio Sousa, pela primeira vez em anos, resolveu abrir um blog e divulgar seus escritos. Para algu\u00e9m que \u00e9 vocalista de grupo musical seria natural fazer poesia, mas ele \u00e9 ficcionista \u2014 e dos bons. Pena que seja t\u00e3o t\u00edmido para mostrar suas hist\u00f3rias, e pena ainda maior que escreva t\u00e3o bissextamente. 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