{"id":1765,"date":"2014-08-04T23:57:23","date_gmt":"2014-08-05T02:57:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1765"},"modified":"2017-11-02T14:08:10","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:10","slug":"depois-de-ler-draccon-reli-o-alquimista-e-achei-bom","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/08\/depois-de-ler-draccon-reli-o-alquimista-e-achei-bom\/","title":{"rendered":"Depois de Ler Draccon, Reli &#8220;O Alquimista&#8221; e Achei Bom"},"content":{"rendered":"<p>Muitas vezes eu lia textos de jovens autores nas comunidades do Orkut, e mais tarde aqui no Face, e ficava espantado com o baixo n\u00edvel de dom\u00ednio da norma culta. Com o tempo me acostumei com a ideia de que a escola inclusiva e universal que existe hoje n\u00e3o consegue formar um usu\u00e1rio pleno do idioma no mesmo tempo de antes, em troca, ela leva mais gente ao fim do caminho. Respirei fundo e me conformei com isso, mesmo suspeitando que algo n\u00e3o somava 100% nessa &#8220;conta de chegar&#8221;.<\/p>\n<p>Mas ainda me incomodava ver tanta gente boa sendo ignorada, sem ter chance de mostrar seu trabalho. Me refiro a gente como o Srgio Ferrari\ufeff, o Ronaldo Brito Roque, a Ilka Canavarro, o Felipe Holloway e outros amigos que trago desde os tempos de meus primeiros passos no Orkut. Era dif\u00edcil entender que n\u00e3o houvesse como vingarem autores prontos e acabados, como o Holloway, que tem um estilo ir\u00f4nico impag\u00e1vel, ou a Ilka, com suas descri\u00e7\u00f5es perfeitas e exasperantes, ou o Ronaldo com sua narrativa coloquial nihilista, ou o surrealismo do Srgio Ferrari, que transitava entre a literatura de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o dada\u00edsmo e Monteiro Lobato.<\/p>\n<p>Mas com o tempo as vis\u00f5es se foram clareando nas patas do meu cavalo, como dizia o meu xar\u00e1 Vandr\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Acabei de crer que n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para bons autores, tal como n\u00e3o h\u00e1 para bons m\u00fasicos. Autores que sabem escrever N\u00c3O SER\u00c3O LIDOS. Ou, como radicalmente disse ao Roque: ningu\u00e9m ser\u00e1 lido, mas muitos ser\u00e3o vendidos (saquem o duplo sentido).<\/p>\n<p>E a raz\u00e3o para isso \u00e9 simples: &#8220;eles&#8221; chegaram ao poder. Eu diria incompetentes, mas eles s\u00e3o competentes em muitas coisas (ainda que n\u00e3o o sejam em literatura): cria\u00e7\u00e3o de redes, cultivo de amizades \u00fateis, publicidade, marketing, etc. Houve um tempo em que os editores tapavam o nariz e publicavam Paulo Coelho, porque ele vendia e as editoras precisavam da grana. Com o tempo o mercado editorial foi se enchendo de paulo-coelhos e  eles est\u00e3o substituindo os editores porque conseguem publicar melhor os livros que vendem, j\u00e1 que n\u00e3o precisam tapar o nariz para se aproximarem deles.<\/p>\n<p>Estou lendo uma obra de um famoso autor, que tamb\u00e9m \u00e9 editor e \u00e9 tamb\u00e9m uma pessoa poderosa e influente, que come\u00e7ou em editora pequena e agora est\u00e1 em uma das maiores casas editoras do pa\u00eds, editando e &#8220;dando a sua cara&#8221; a toda uma s\u00e9rie de obras. E a leitura desta obra me deixa estarrecido e  me fez crer que a minha ironia dita ao Roque era at\u00e9 otimista.<\/p>\n<p>O cara escreve pior do que muitos membros dos grupos liter\u00e1rios amadores do Facebook. Seu texto \u00e9 confuso, did\u00e1tico, repetitivo, palavroso, sem ritmo e sem beleza. Apesar de escrever &#8220;fantasia&#8221; ele n\u00e3o deixa espa\u00e7o \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o do leitor, ele &#8220;castra&#8221; o leitor.<\/p>\n<p>Dizer que seu texto e confuso \u00e9 ser eufem\u00edstico. Ele perde um par\u00e1grafo quase inteiro discutindo se afinal existem deuses ou n\u00e3o. Primeiro diz que n\u00e3o, depois diz que sim, depois diz que n\u00e3o se tem certeza, depois diz que sim, existem, mas n\u00e3o s\u00e3o cultuados. Toda uma masturba\u00e7\u00e3o mental que poderia ser dita numa frase: &#8220;Os deuses de &#8230; n\u00e3o recebem ora\u00e7\u00f5es, o povo se lembra somente dos her\u00f3is&#8221;. N\u00e3o ficou nem mais dif\u00edcil e nem mais pedante, s\u00f3 ficou mais claro e mais curto. Acho que isto explica porque os livros da moda t\u00eam tantas p\u00e1ginas. N\u00e3o \u00e9 que tenham assunto.<\/p>\n<p>Dizer que seu texto \u00e9 repetitivo \u00e9 f\u00e1cil de provar. Em qualquer p\u00e1gina do livro pode-se contar a mesma palavra v\u00e1rias vezes. N\u00e3o falo de preposi\u00e7\u00f5es ou verbos de liga\u00e7\u00e3o, estou falando de substantivos e adjetivos.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 tamb\u00e9m palavroso. Diz que o autor deve praticar uma literatura simples, mas o tamanho de sua obra poderia ser reduzida em mais de 40% se fossem removidas as repeti\u00e7\u00f5es e as locu\u00e7\u00f5es. Um exemplo, at\u00e9 hil\u00e1rio, \u00e9 onde o seu her\u00f3i diz que &#8220;n\u00e3o dar\u00e1 \u00eanfase ao fraquejo&#8221; (que poha \u00e9 essa?) em vez de dizer que &#8220;n\u00e3o hesitar\u00e1&#8221; ou &#8220;n\u00e3o fraquejar\u00e1&#8221;. Gasta vinte e cinco bytes para dizer o que poderia ser dito em 12. E esta \u00e9 a regra de seu texto: perder tempo com min\u00facias que n\u00e3o servem para nada e deixar de descrever o cen\u00e1rio para n\u00e3o &#8220;cansar o leitor com descri\u00e7\u00f5es&#8221;. Ao mesmo tempo, devassar os pensamentos de cada personagem, sem dar ao leitor a chance de tentar imagin\u00e1-los e surpreender-se com eles, e ao mesmo tempo usar cen\u00e1rios vagos para &#8220;deixar espa\u00e7o \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o do leitor.&#8221;<\/p>\n<p>Quanto mais eu leio a obra de Raphael Draccon, mais encontro motivos para  me arrepiar os cabelos. Pobres jovens que leem estes livros burros, e n\u00e3o aprendem caminhos para apreciar obras de qualidade do passado E MESMO DO PRESENTE. Pobres de n\u00f3s autores, que temos de submeter nosso trabalho  a autores de fantasia medieval que fazem seus reis segurarem &#8220;bast\u00f5es de ouro&#8221; em vez de cetros! Isso, claro, depois de serem &#8220;lan\u00e7ados&#8221; ao trono (mentalmente imagino o rei seguro pelos bra\u00e7os e pernas e atirado por seus pajens em cima de um imenso sof\u00e1).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isto ele \u00e9 mal informado. Tenta incluir tudo quanto \u00e9 criatura ex\u00f3tica e esdr\u00faxula em sua obra, mas chega a escrever errado os nomes destas (exemplo: &#8220;linche&#8221; em vez de &#8220;lich&#8221;, o que equivale a escrever &#8220;lebrechaum&#8221; em vez de &#8220;leprechaun&#8221;). Aparentemente o autor N\u00c3O LEU, de fato, as obras que tenta citar e imitar, apenas lhes passou o olho ou leu o artigo da Wikip\u00e9dia. Isso lhe d\u00e1 uma pseudocultura, que n\u00e3o combina com o vocabul\u00e1rio raso do texto em geral, como no citado caso do &#8220;bast\u00e3o de ouro&#8221;.<\/p>\n<p>Outra coisa que me deixou espantado \u00e9 que esse autor, \u00eddolo de tantos jovens que me chamam de arrogante e convencido, escreve em um tom de livro did\u00e1tico. Sempre que introduz uma palavra diferente, ele a p\u00f5e em negrito e\/ou dar um jeito de explicar. Pode parecer incr\u00edvel, mas ele se deu ao trabalho de explicar aos leitores o que \u00e9 &#8220;outono&#8221; e qual a sua simbologia.<\/p>\n<p>O autor, aparentemente, acha que &#8220;Pr\u00f3logo&#8221; \u00e9 uma disserta\u00e7\u00e3o sobre o livro. Coisa, talvez, de quem s\u00f3 leu Tolkien, e olhe l\u00e1. Normalmente o pr\u00f3logo \u00e9 um peda\u00e7o de hist\u00f3ria que n\u00e3o faz parte da narrativa principal mas a antecede e ajuda a explicar. No livro dele, o pr\u00f3logo \u00e9 um aritgo da Wikip\u00e9dia explicando como \u00e9 o mundo que ele inventou. Eu j\u00e1 disse que ele n\u00e3o deixa o leitor pensar e muito menos imaginar? E isso \u00e9 literatura &#8220;de fantasia&#8221;, gente!<\/p>\n<p>Dizer que o seu texto \u00e9 sem ritmo e sem beleza \u00e9 chover no molhado. Sua narrativa \u00e9 um amontoado de lugares comuns que v\u00e3o al\u00e9m do rid\u00edculo. Como dizer que uma personagem &#8220;assistiu de camarote&#8221; um lobo devorar a sua av\u00f3. Bem, digamos que o uso desta met\u00e1fora desgastada era totalmente inapropriado ao clima, assim como \u00e9 impr\u00f3prio em uma hist\u00f3ria de fantasia medieval em que n\u00e3o existe ou existiria ci\u00eancia, falar que a personagem era hipocondr\u00edaca. Ali\u00e1s, personagens n\u00e3o precisam de r\u00f3tulos nem diagn\u00f3sticos, precisam de ser mostrados em palavras. &#8220;Show, don&#8217;t tell&#8221;.<\/p>\n<p>Uma marca indefect\u00edvel dos autores que s\u00f3 leem tradu\u00e7\u00f5es porcas de originais americanos ou ingleses \u00e9 a dificuldade para diferenciar os tr\u00eas pret\u00e9ritos &#8212; e o referido autor manifesta isso em cada par\u00e1grafo. De tal forma que fica dif\u00edcil saber se algo aconteceu antes ou durante outra coisa no passado. Mas a mistura de tempo verbal vai al\u00e9m, misturando presente e pret\u00e9rito em uma mesma frase e logo depois saltando ao futuro. \u00c9 de fazer o c\u00e9rebro rodopiar, e claro que isso &#8220;simplifica&#8221; a leitura, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Enfim, a referida obra n\u00e3o \u00e9 um livro &#8220;simples&#8221; para jovens adultos iniciantes na leitura. \u00c9 um livro mal escrito, de autoria de uma pessoa sem cultura, que se estende muito mais do que o necess\u00e1rio por culpa de uma linguagem palavrosa demais e por um estilo narrativo que se incha com min\u00facias sem sentido, ao mesmo tempo em que sonega ao leitor informa\u00e7\u00f5es relevantes. \u00c9 um livro t\u00f3xico, que presenta tudo que h\u00e1 de ruim em nossa literatura e faz Paulo Coelho parecer bom (e um livro de PC, bem revisado, \u00e9 bastante leg\u00edvel, porque o Mago, apesar de escrever mal, tem boa no\u00e7\u00e3o da estrutura narrativa, pelo menos melhor do que a desse Draccon superstar).<\/p>\n<p>E o autor deste calhama\u00e7o, que os ianques t\u00e3o apropriadamente descrevem com o termo &#8220;doorstopper&#8221; (segurador de porta), \u00e9 quem decide quem \u00e9 ou n\u00e3o publicado pela editora em que foi trabalhar. Ele \u00e9 a r\u00e9gua que nos mede. Estamos todos perdidos.<\/p>\n<p>Ora, dir\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 com inveja porque ele ganha muito dinheiro escrevendo! Em primeiro lugar: n\u00e3o sei n\u00e3o. Em segundo lugar: se ganhar dinheiro justificasse tudo nossos her\u00f3is seriam Judas e Silv\u00e9rio dos Reis, n\u00e3o Jesus e Tiradentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes eu lia textos de jovens autores nas comunidades do Orkut, e mais tarde aqui no Face, e ficava espantado com o baixo n\u00edvel de dom\u00ednio da norma culta. Com o tempo me acostumei com a ideia de que a escola inclusiva e universal que existe hoje n\u00e3o consegue formar um usu\u00e1rio pleno do idioma no mesmo tempo de antes, em troca, ela leva mais gente ao fim do caminho. 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