{"id":1818,"date":"2014-08-23T22:08:19","date_gmt":"2014-08-24T01:08:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1818"},"modified":"2018-10-17T19:01:40","modified_gmt":"2018-10-17T22:01:40","slug":"desafio-entre-contos-bruxas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/08\/desafio-entre-contos-bruxas\/","title":{"rendered":"Desafio Entre Contos: Bruxas"},"content":{"rendered":"<p>Este m\u00eas o desafio de fic\u00e7\u00e3o promovido pelo site EntreContos me atraiu muito, por se tratar de um tema que sempre me fascinou: bruxas. T\u00e3o excitado eu fiquei que logo parti a escrever e, quando dei por mim, constru\u00edra &#8220;<a href=\"\/lit\/2014\/07\/a-virgem-do-saba\">A Virgem do Sab\u00e1<\/a>&#8220;, baseado em <a href=\"http:\/\/eldritchdark.com\/writings\/short-stories\/176\/queen-of-the-sabbat-%28synopsis%29\">uma sinopse<\/a> deixada por Clark Ashton-Smith. Infelizmente esta hist\u00f3ria ficou longa demais para o desafio e <em>tive de escrever outra!<\/em><\/p>\n<p>Da segunda vez, mantive a inspira\u00e7\u00e3o no mesmo universo ficcional (de Lovecraft, Ashton-Smith e outros) e recorri temas extra\u00eddos de &#8220;O Horror em Red Hook&#8221; (Lovecraft), &#8220;O Colosso de Ylourgne&#8221; (Ashton-Smith) e &#8220;O Po\u00e7o e o P\u00eandulo&#8221; (Poe), al\u00e9m de algumas letras do grupo americano Blue \u00d6yster Cult (&#8220;Workshop of the Telescopes&#8221;, &#8220;I Am the One You Warned me Off&#8221;, &#8220;Astronomy&#8221;, &#8220;The Revenge of Vera Gemini&#8221;, &#8220;Harvester of Eyes&#8221; e &#8220;Wings Wetted Down&#8221;). Eu j\u00e1 me inspirara no B\u00d6C para o meu conto <a href=\"\/lit\/2012\/12\/tempo-de-semear-tempo-de-colher\">Tempo de Semear, Tempo de Colher<\/a>, que desenvolve uma ideia vagamente inspirada em &#8220;Harvest Moon&#8221;.<\/p>\n<blockquote><p>\n  <strong>ATEN\u00c7\u00c3O: SPOILERS<\/strong>\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Para dar mais profundidade, pesquisei as origens da cita\u00e7\u00e3o macabra criada por Lovecraft (a original em latim se mostrou ainda mais macabra) e li sobre a sobreviv\u00eancia de cultos pag\u00e3os nos pequenos povoados medievais.  Com tudo isso em m\u00e3os, e a cabe\u00e7a fixa no interior da Fran\u00e7a no s\u00e9culo XIV, comecei a escrever <a href=\"\/lit\/2014\/08\/a-perdicao-do-homem-beatrix-e-jeannelynne\">Beatrix e Jeannelynne<\/a>, que eu consegui deixar dentro do limite de palavras e de acordo com o tema. Al\u00e9m disso, esse conto acabou bem mais profundo e elaborado do que &#8220;A Virgem do Sab\u00e1&#8221;, embora talvez aquele seja melhor e mais bem desenvolvido.<\/p>\n<p>Ambientei a a\u00e7\u00e3o no universo ficcional de Averoigne, criado por Clark Ashton-Smith, ao contr\u00e1rio de &#8220;A Virgem do Sab\u00e1&#8221;, que eu escolhi ambientar em uma regi\u00e3o que fica a poucos quil\u00f4metros da casa em que nasci, no interior de Minas Gerais. Averoigne teria sido uma prov\u00edncia da Fran\u00e7a medieval entre os s\u00e9culos XI e XVI (segundo as datas das hist\u00f3rias que Ashton-Smith ambientou l\u00e1). Deixei dois ind\u00edcios disso: o pseud\u00f4nimo &#8220;Gaspard du Nord&#8221;, que usei para assinar, e as men\u00e7\u00f5es \u00e0 cidade de Vyonnes, que Ashton-Smith inventou como capital de Averoigne.<\/p>\n<p>A macabra ep\u00edgrafe de Lovecraft, que eu reutilizo no final, na sua forma completa (por este motivo n\u00e3o imaginei que os leitores se importariam com o par\u00e1grafo vir em latim) \u00e9 um trecho de uma obra chamada &#8220;Philosophumena&#8221;, publicada no s\u00e9culo V, e que aborda as heresias da \u00e9poca. O t\u00edtulo \u00e9 d\u00edficil de traduzir, mas seria algo como &#8220;entre os falsos mestres&#8221;. Trata-se de uma impreca\u00e7\u00e3o usada pelos romanos nos rituais de mist\u00e9rio vinculados aos cultos de fertilidade, possivelmente herdada dos mist\u00e9rios de El\u00eausis, da antiga Gr\u00e9cia. Ent\u00e3o as amigas bruxas que notaram esta voz feminina no texto, mesmo aquelas que n\u00e3o estudaram esta parte, acertaram no alvo.<\/p>\n<p>Gorgo e Mormo s\u00e3o dois t\u00edtulos atribu\u00eddos a H\u00e9cate, deusa da Lua. Gorgo quer dizer &#8220;a G\u00f3rgona&#8221; (alude ao fato de ela ter uma face terr\u00edvel) e Mormo significa &#8220;Mordedora&#8221; e \u00e9 o nome pelo qual as m\u00e3es gregas assustavam suas crian\u00e7as, uma esp\u00e9cie de bicho-pap\u00e3o. Mormo seria respons\u00e1vel por morder e arrancar peda\u00e7os de carne das crian\u00e7as choronas. A cicatriz de sua mordida seria o umbigo. Na religi\u00e3o de mist\u00e9rio, Mormo n\u00e3o \u00e9 apenas um bicho-pap\u00e3o, mas o aspecto umbilical de H\u00e9cate.<\/p>\n<p>Os nomes s\u00e3o tamb\u00e9m calculados. Gosto de pensar nos nomes de meus personagens como reflexo de sua personalidade ou uma alus\u00e3o (sempre ir\u00f4nica) ao papel que desempenham na hist\u00f3ria. Assim, os tr\u00eas nomes citados no texto (Beatrix, Jeannelynne e Pierre de la Fournaise) cont\u00eam informa\u00e7\u00f5es sobre os personagens.<\/p>\n<p>Beatrix \u00e9 o nome de uma recente Rainha da Holanda, mas eu o escolhi porque significa &#8220;Aben\u00e7oada&#8221;, em latim. Este nome esconde uma ironia, pois a personagem foi (ou seria) torturada pela Igreja em raz\u00e3o de suas pr\u00e1ticas de curandeirismo.<\/p>\n<p>Jeannelynne \u00e9 um nome surpreendentemente real, relativamente comum no norte e noroeste da Fran\u00e7a e bem antigo. Mas \u00e9 uma forma diminutiva irregular de Jeanne. Ent\u00e3o significaria &#8220;Joaninha&#8221;, ou algo assim. Foi escolhido porque na tradi\u00e7\u00e3o popular brasileira, chamar uma mulher de &#8220;Jo\u00e3o&#8221; \u00e9 aludir a uma masculinidade inerente. Aqui em Minas Gerais, antigamente, mulher que cortava o cabelo curtinho era chamada de &#8220;Maria Jo\u00e3o&#8221; ou &#8220;Jo\u00e3o&#8221;, especialmente se fosse negra. O nome dimininutivo \u00e9 ir\u00f4nico, tal como o apelido de &#8220;Pequeno Jo\u00e3o&#8221; ao personagem da hist\u00f3ria de Robin Hood porque a personagem \u00e9 andr\u00f3gina e possui v\u00e1rias caracter\u00edsticas masculinas. Possivelmente at\u00e9 mesmo dotada de algum hermafroditismo porque em sua inf\u00e2ncia ela chegou a ser vestida de menino. Jeannelynne tamb\u00e9m \u00e9 uma personagem do desenho animado Ca\u00e7adores de Drag\u00f5es: uma estalajadeira gorda, brutal e p\u00e9ssima cozinheira mas que, mesmo assim, \u00e9 amada pelo protagonista, o magrelo e tolo Gizmo.<\/p>\n<p>O nome do abade Pierre de la Fournaise \u00e9 triplamente ir\u00f4nico. Primeiro porque &#8220;Fournaise&#8221; significa &#8220;fornalha&#8221;, o que remete a um ardor sexual reprimido. Segundo porque a palavra \u00e9 frequentemente utilizada, especialmente &#8220;no popular&#8221; em refer\u00eancia aos reinos infernais. Jesus disse que os \u00edmpios seriam enviados \u00e0 fornalha de fogo. Como Pierre \u00e9 um inquisidor cruel e mis\u00f3gino, cham\u00e1-lo de infernal \u00e9 apropriado. A terceira raz\u00e3o \u00e9 que a mesma palavra tamb\u00e9m foi usada pelos marinheiros franceses para descrever os vulc\u00f5es quando descobriram-nos em lugares como Reuni\u00e3o e Maur\u00edcio. O principal vulc\u00e3o da Ilha de Reuni\u00e3o, que at\u00e9 hoje pertence \u00e0 Fran\u00e7a, \u00e9 o &#8220;Piton de la Fournaise&#8221; (Pico da Fornalha). Novamente o abade \u00e9 predestinado por seu nome a ter uma personalidade complicada.<\/p>\n<p>As artes aprendidas por Jeannelynne depois de deixar Beatrix foram a alquimia (da\u00ed utilizar um \u00e1cido para dissolver as grades da cela e permitir a fuga de Beatrix) e a magia branca dos grim\u00f3rios. A evoca\u00e7\u00e3o feita por ela inclui elementos m\u00e1gicos, alqu\u00edmicos e cabal\u00edsticos (mas v\u00e1rios deles foram introduzidos por mim ao for\u00e7ar uma tradu\u00e7\u00e3o torta de um trecho da letra de \u201cWorkshop of the Telescopes\u201d. A letra fala do ritual de fabrica\u00e7\u00e3o de um espelho m\u00e1gico e repete com frequ\u00eancia que a verdadeira vis\u00e3o \u00e9 a dos que v\u00eaem de olhos fechados. Embora eu n\u00e3o a tenha retirado de um grim\u00f3rio, \u00e9 poss\u00edvel que Sandy Pearlman, autor da letra da can\u00e7\u00e3o, o tenha feito por mim. Not\u00e1vel \u00e9 a cita\u00e7\u00e3o da salamandra como elemental do fogo, que remete a Paracelso.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o desculpas \u00e0s mo\u00e7as que apareceram a\u00ed e me criticaram por satanizar a bruxaria, mas eu n\u00e3o quis ser anacr\u00f4nico. A bruxaria medieval, tal como descrita, <strong>n\u00e3o existiu<\/strong>. Os rituais sat\u00e2nicos normalmente atribu\u00eddos \u00e0s bruxas eram praticados por crist\u00e3os degenerados, n\u00e3o por pessoas do povo que mantinham tradi\u00e7\u00f5es pag\u00e3s. Algumas das cr\u00edticas que eu recebi sobre este aspecto s\u00e3o anacr\u00f4nicas, porque a religi\u00e3o Wicca \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o recente (menos de cinquenta anos) e que parece ter pouqu\u00edssima rela\u00e7\u00e3o com as verdadeiras tradi\u00e7\u00f5es pag\u00e3s c\u00e9lticas. Ademais, a regi\u00e3o da Fran\u00e7a onde ambiento a hist\u00f3ria, a fict\u00edcia Averoigne, n\u00e3o ficava em uma regi\u00e3o de influ\u00eancia c\u00e9ltica, mas em uma regi\u00e3o central, provavelmente o Franco-Condado (boa indica\u00e7\u00e3o disso \u00e9 a onom\u00e1stica dos personagens criados por Ashton-Smith, como Gaspard <em>du Nord<\/em>).<\/p>\n<p>Quanto ao latim no final, eu procurei frases cujo sentido pudesse ser adivinhado facilmente por pessoas dotadas de uma razo\u00e1vel cultura geral.<br \/>\n<em>Libera me domine de manu malefactorum<\/em> \u00e9 latim b\u00e1rbaro e significa &#8220;Livra-me senhor, das m\u00e3os malfazejas&#8221; (ou &#8220;das m\u00e3os das mal\u00e9ficas&#8221;). Em latim cl\u00e1ssico teriam sido usados os termos &#8220;divus&#8221; (divino) e &#8220;strigae&#8221; em vez de &#8220;domine&#8221; e &#8220;malefactorum&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 uma frase f\u00e1cil de discernir, mesmo sem conhecimento latino: &#8220;Libera me&#8221; \u00e9 &#8220;livra-me&#8221;, &#8220;domine&#8221; \u00e9 &#8220;Senhor&#8221; para qualquer pessoa que j\u00e1 tenha lido obras que citam ladainhas em latim, &#8220;manu&#8221; \u00e9 claramente &#8220;m\u00e3o&#8221; e a palavra &#8220;malefactorum&#8221;, apesar de conjugada de v\u00e1rias formas, retem a raiz &#8220;mal&#8221; e pode ser associada a &#8220;malef\u00edcio&#8221; por quem tenha talento para l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Em seguida o abade cita os vers\u00edculos iniciais do salmo &#8220;De Profundis&#8221;, que foi durante muito tempo considerado o mais popular trecho da B\u00edblia. Existem v\u00e1rias vers\u00f5es musicadas dele e quem teve algum contato com m\u00fasica cl\u00e1ssica deve ter conhecido algumas delas. \u00c9 tamb\u00e9m o t\u00edtulo de um poema escrito por Oscar Wilde na pris\u00e3o e \u00e9 citado muito frequentemente como s\u00edmbolo do desespero: <em>De profundis clamavi ad te, Domine; Domine, exaudi vocem meam. Fiant aures tu\u00e6 intendentes in vocem deprecationis me\u00e6.<\/em> Em uma tradu\u00e7\u00e3o literal e bastante calcada no latim da Vulgata (em vez do original hebraico), ter\u00edamos: &#8220;Das profundezas clamo a ti, Senhor. Senhor, escuta a minha voz. Que teus ouvidos atentem \u00e0 voz de meu desespero.&#8221;<\/p>\n<p>Mesmo sem associar imediatamente a um salmo conhecido, as palavras &#8220;profundis&#8221; e &#8220;deprecationis&#8221; deveriam ser suficientes para que o leitor sentisse um ar de desespero.<\/p>\n<p>Em seguida o abade, distra\u00eddo pela &#8220;tortura&#8221; a que era submetido, interpola no salmo um trecho da Ave Maria: &#8220;Benedicta tu in mulieribus&#8221; (Bendita \u00e9s tu entre as mulheres). Al\u00e9m de ser o \u00fanico tipo de elogio ao feminino que um padre faria, a frase, no contexto em que \u00e9 posta, revela uma blasf\u00eamia horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Quanto ao \u00faltimo par\u00e1grafo, ele \u00e9 a vers\u00e3o mais extensa da impreca\u00e7\u00e3o transcrita por Lovecraft, que o autor americano extraiu de uma tradu\u00e7\u00e3o do original de Hip\u00f3lito feita para a Enciclop\u00e9dia Brit\u00e2nica.<\/p>\n<p>Deixei em latim porque n\u00e3o consigo imaginar um ritual m\u00e1gico, sat\u00e2nico ou n\u00e3o, que n\u00e3o seja versado em uma l\u00edngua antiga. Seria inconceb\u00edvel, e at\u00e9 tosco, que as bruxas falassem em portugu\u00eas, pior ainda se falassem em g\u00edria moderna. Supus que o fato de ser o original do mesmo texto da ep\u00edgrafe, repetindo nomes e voc\u00e1bulos aparentemente semelhantes, os leitores os associariam.<\/p>\n<p>Mas para quem n\u00e3o associou, l\u00e1 vai uma tradu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Venha Bombo, infernal, terrena e celestial. Habitante das encruzilhadas, tr\u00edplice, luminosa, noct\u00edvga, inimiga da luz, amiga e companheira dos que andam pela noite, que aprecias o ladrar dos c\u00e3es e o cheiro do sangue, que vais por entre os cad\u00e1veres e os sepulcros dos mortos, que desejas o sangue e que trazeis o terror aos mortais. Gorgo, Mormo e Lua de mil formas, vem apreciar nossos sacrif\u00edcios.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Certamente n\u00e3o \u00e9 algo que voc\u00ea gostaria de ouvir algu\u00e9m dizendo perto de voc\u00ea caso estivesse perambulando por um local deserto \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Espero que com estes esclarecimentos voc\u00eas consigam reinterpretar o texto e apreci\u00e1-lo mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este m\u00eas o desafio de fic\u00e7\u00e3o promovido pelo site EntreContos me atraiu muito, por se tratar de um tema que sempre me fascinou: bruxas. T\u00e3o excitado eu fiquei que logo parti a escrever e, quando dei por mim, constru\u00edra &#8220;A Virgem do Sab\u00e1&#8220;, baseado em uma sinopse deixada por Clark Ashton-Smith. Infelizmente esta hist\u00f3ria ficou longa demais para o desafio e tive de escrever outra! 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