{"id":1843,"date":"2014-09-05T22:17:06","date_gmt":"2014-09-06T01:17:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1843"},"modified":"2017-08-13T00:31:29","modified_gmt":"2017-08-13T03:31:29","slug":"aventuras-do-ogro-em-sampa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/09\/aventuras-do-ogro-em-sampa\/","title":{"rendered":"Aventuras do Ogro em Sampa"},"content":{"rendered":"<p>Depois de semanas anunciando que apareceria no lan\u00e7amento dos livros da Caligo Editora, vi-me gentilmente for\u00e7ado pelas circunst\u00e2ncias a comparecer, superando minha verdadeira pa\u00fara de cidade grande. O bugre aqui, como ningu\u00e9m deve saber, \u00e9 nativo da ro\u00e7a com orgulho, do tipo que se espanta com o burburinho de Juiz de Fora e que, em outros tempos, ao ouvir o notici\u00e1rio policial das r\u00e1dios Record e Globo, jurava diante da m\u00e3e que nunca poria os p\u00e9s em S\u00e3o Paulo ou no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Mas a vida n\u00e3o \u00e9 assim: a gente vai crescendo e se acostumando, at\u00e9 com o imponder\u00e1vel. Muito embora eu tenha pisado em outro pa\u00eds antes de ter pisado em qualquer das duas cidades (pisar no aeroporto n\u00e3o \u00e9 bem exatamente pisar na cidade), eu acabei convencendo meio mundo, a mim e \u00e0 minha m\u00e3e, que n\u00e3o haveria mal algum em me aventurar nas metr\u00f3poles, ainda mais porque ando em Belo Horizonte mais ou menos uma vez cada nove ou dez meses, e a nossa capital estadual, h\u00e1 um bom tempo, anda mais perigosa do que qualquer m\u00e3e sup\u00f5e. <\/p>\n<p>A S\u00e3o Paulo mesmo eu s\u00f3 n\u00e3o fora por falta de motivo e excesso de dist\u00e2ncia. Quando constru\u00edram o aeroporto regional, em Goian\u00e1, eu at\u00e9 fiquei animado com a possibilidade de viajar mais longe e mais f\u00e1cil, mas de nada adianta ir mais r\u00e1pido se eu tiver que ir sem um olho da cara e uma perna. <\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/dsc_0064.jpg\" alt=\"O Ogro em Sampa\" width=\"1920\" height=\"1088\" class=\"size-full wp-image-1844\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/dsc_0064.jpg 1920w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/dsc_0064-120x68.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/dsc_0064-250x142.jpg 250w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/dsc_0064-768x435.jpg 768w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/dsc_0064-800x453.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/p>\n<p>Claro que tudo correu tranquilamente, pelo menos t\u00e3o tranquilamente quanto poss\u00edvel, dada a dist\u00e2ncia e o tempo curto, que n\u00e3o me permitiu aproveitar quase nada. Fui de \u00f4nibus, partindo \u00e0 meia-noite de Juiz de Fora, o famoso &#8220;coruj\u00e3o da Cometa&#8221;. Cheguei em Sampa \u00e0s 7h30, meio amarrotado, um tanto sonolento e com as pernas dormentes, implorando por uma caminhada. Conforme prometido (e eu estava duvidando muito) a escritora e designer M\u00e1rcia Saito estava me esperando no Terminal Tiet\u00ea, para ser minha cicerone nos dois dias que pude passar na cidade. Sua presteza em me fazer companhia nesses dois dias me fez ter a estranha e inesperada sensa\u00e7\u00e3o de que ela \u00e9 a minha primeira f\u00e3. S\u00f3 desejo que n\u00e3o permane\u00e7a a \u00fanica&#8230;<\/p>\n<p>Por sorte M\u00e1rcia parece ter boa disposi\u00e7\u00e3o para caminhar, e nem se assustou com as minhas pernas longas. \u00c9 verdade que eu n\u00e3o soltei meu passo de ganso, num gesto de cavalheirismo, mas em v\u00e1rios momentos ela me deu a entender que suportaria um ritmo mais forte do que o imposto por meu cansa\u00e7o matinal. <\/p>\n<p>Ocorre que existem certas estranhezas na gente, que s\u00f3 s\u00e3o percept\u00edveis quando as contemplamos de bem longe. H\u00e1 uma certa seguran\u00e7a psicol\u00f3gica em Belo Horizonte, talvez porque, apesar do tamanho intimidador, do tr\u00e2nsito louco, da viol\u00eancia urbana e da fei\u00fara que acomete boa parte de suas ruas, a cidade ainda tem um misterioso ar provinciano, que se expressa no falar dos moradores, uma familiaridade que se nota nas camisas do Atl\u00e9tico Mineiro e, argh!, do Cruzeiro e algumas outras coisas meio inexplic\u00e1veis. Da\u00ed eu me sentir em casa quando vou a Beag\u00e1, mas me sentir um turista quando vou ao Rio de Janeiro (e j\u00e1 fora tr\u00eas vezes antes desta minha ida a S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>Sim, j\u00e1 fui ao Rio. De uma feita passei por l\u00e1 dois pernoites, em 2010, quando participei do Festival Cultural Banco do Brasil. As outras vezes foram mais breves e a primeira delas foi marcada pela mais sensacional sauda\u00e7\u00e3o que uma criatura j\u00e1 ofereceu a uma cidade ao adentrar seus limites: o abundante v\u00f4mito pela janela do \u00f4nibus que eu espalhei pela rua ao passar pelo mangue a caminho da Rodovi\u00e1ria Novo Rio.<\/p>\n<p>Como meu registro no hotel s\u00f3 poderia ser feito a partir das 13h00, aceitei o convite da M\u00e1rcia para gastar a manh\u00e3 a conhecer a Pinacoteca do Estado (a ideia original era irmos ao Museu da L\u00edngua Portuguesa, na Esta\u00e7\u00e3o da Luz, mas, inst\u00e1vel que sou, acabei desanimando com o tamanho da fila e resolvi atravessar a rua). O passeio \u00e0 Pinacoteca n\u00e3o chegou a ser memor\u00e1vel pelo curto tempo que pudemos estar ali. Arte \u00e9 uma coisa que precisamos de tempo para apreciar. N\u00e3o s\u00e3o quaisquer tr\u00eas horas de caminhada que satisfazem. Pode-se, nesse tempo, percorrer todas as salas de um museu, mas que in\u00fatil gin\u00e1stica essa caminhada, se o ritmo da alma n\u00e3o consegue apreciar e absorver tanta pintura, tanta escultura, tanta cor e tanta forma. Ao cabo de pouco mais de uma hora eu j\u00e1 me sentia mentalmente exausto, cansado de tanta arte e  j\u00e1 n\u00e3o conseguindo discernir o que era belo e o que era apenas engra\u00e7adinho. Depois de tantos quadros interessantes, no final eu contemplei a fonte das mulheres no p\u00e1tio interno da Pinacoteca e sorri daquele jeito pueril que indica a superficialidade. As pessoas que est\u00e3o cheias at\u00e9 a borda parecem superficiais, especialmente se a \u00e1gua \u00e9 turva. Ali na Pinacoteca eu me senti t\u00e3o cheio de arte que me reduzi ao comportamento de um garoto de nove anos que v\u00ea um desenho engra\u00e7ado. Talvez eu precise me acostumar com o programa e o lugar, para n\u00e3o ser cheio t\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Sozinho no quarto de hotel, depois de um banho r\u00e1pido, em respeito ao aperto dos paulistas com S\u00e3o Pedro, liguei a televis\u00e3o e dormi uma soneca daquelas com trilha sonora de serrote, da qual s\u00f3 fui salvo pelo cron\u00f4metro do celular. Tomei um t\u00e1xi e fui para o Canto Madalena, um bar simp\u00e1tico, com ares de interior e  de antigamente. Minha pressa acabou me levando ao lugar **antes** de todo mundo, inclusive a Bia, que deveria ser a respons\u00e1vel pela abertura dos trabalhos. Meio sem gra\u00e7a, fui a um mercadinho pr\u00f3ximo, onde saquei cem reais num Banco 24horas e matei o tempo tomando \u00e1gua mineral com g\u00e1s. Tanta \u00e1gua que j\u00e1 cheguei depois ao bar, de volta, utilizando os servi\u00e7os do banheiro.<\/p>\n<p>A noite em si come\u00e7ou quando reconheci a Bia em uma mesa ao fundo e a cumprimentei com uma voz t\u00e3o efusiva e cheia de al\u00edvio que ela, meio espantada, at\u00e9 travou ao responder. Era apenas a satisfa\u00e7\u00e3o de encontrar um rosto conhecido, ou algo assim, em uma cidade onde eu era um estranho. Depois fui me acostumando com a ideia e os outros foram chegando. Sou p\u00e9ssimo para mem\u00f3rias sequenciais, mas acho que foram o Thiago Prada, o Pedro Vianna, o V\u00edtor de Toledo Stuani, Fernando Abreu, o F\u00e1bio Batista, a Thata Pereira, Marcello Pietragalla, o Felipe Holloway e a M\u00e1rcia Saito. Apareceram v\u00e1rios leitores e curiosos (alguns dentre os que estavam frequentando o bar) e j\u00e1 no fim da noite apareceram a Martha \u00c2ngelo e o S\u00e9rgio Ferrari (\u00faltimo a chegar).<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho muita lembran\u00e7a do que exatamente aconteceu. Foi tudo t\u00e3o r\u00e1pido e eu passei tanto tempo falando de literatura que n\u00e3o tive muito tempo para perceber se havia alguma coisa acontecendo em volta. Aut\u00f3grafo \u00e9 pior do que u\u00edsque: depois do segundo voc\u00ea j\u00e1 se sente alto e come\u00e7a a n\u00e3o entender direito o que est\u00e1 rodando em volta. Na verdade a conversa s\u00f3 come\u00e7ou a atingir \u00e1reas extraliter\u00e1rias quando o S\u00e9rgio Ferrari chegou. A\u00ed tivemos nossa sess\u00e3o nostalgia dos tempos do Orkut, que, curiosamente, come\u00e7ou quando exatamente ele reagiu com asco \u00e0 minha observa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1vamos ali em &#8220;uma esp\u00e9cie de orkontro&#8221;.<\/p>\n<p>Foi uma noite bacana, em que tive a oportunidade de apertar a m\u00e3o de pessoas que eram s\u00f3 quadradinhos na tela do computador, mas agora adquiriram materialidade na minha mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Acabamos terminando cedo. Por causa dos hor\u00e1rios de \u00f4nibus e metr\u00f4, dentre todos os motivos. Que cidade mais estranha essa S\u00e3o Paulo de milh\u00f5es de habitantes que ainda obriga seus cidad\u00e3os sem carro a voltar para casa cedo porque o transporte p\u00fablico p\u00e1ra de circular \u00e0 meia-noite. Isto \u00e9 t\u00e3o&#8230; t\u00e3o Cataguases dos anos 80&#8230;<\/p>\n<p>Voltei para o hotel, dormi um sono de oito horas e fui para a Rodovi\u00e1ria, onde esperava pegar o \u00f4nibus de dez e meia da manh\u00e3, mas acabei mudando de ideia, meio por acaso, e peguei o meio dia e meia. Foi melhor assim do que enfrentar as cabulosas sete horas e meia de viagem com o est\u00f4mago sem almo\u00e7o, porque a \u00fanica parada, em Resende, n\u00e3o deu tempo para comer o suficiente (meros vinte minutos), mas mesmo que desse, eu fiquei com d\u00f3 de comer pratos preparados com ouro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de semanas anunciando que apareceria no lan\u00e7amento dos livros da Caligo Editora, vi-me gentilmente for\u00e7ado pelas circunst\u00e2ncias a comparecer, superando minha verdadeira pa\u00fara de cidade grande. O bugre aqui, como ningu\u00e9m deve saber, \u00e9 nativo da ro\u00e7a com orgulho, do tipo que se espanta com o burburinho de Juiz de Fora e que, em outros tempos, ao ouvir o notici\u00e1rio policial das r\u00e1dios Record e Globo, jurava diante da m\u00e3e que nunca poria os p\u00e9s em S\u00e3o Paulo ou no Rio de Janeiro. Mas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1844,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[33,87,41],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1843"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1843"}],"version-history":[{"count":8,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1843\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4685,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1843\/revisions\/4685"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1844"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}