{"id":1855,"date":"2014-09-14T13:44:29","date_gmt":"2014-09-14T16:44:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1855"},"modified":"2017-11-22T23:06:33","modified_gmt":"2017-11-23T02:06:33","slug":"sobre-inveja-e-uma-critica-razoavel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/09\/sobre-inveja-e-uma-critica-razoavel\/","title":{"rendered":"Sobre Inveja e uma Cr\u00edtica &#8220;Razo\u00e1vel&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Minha <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/08\/depois-de-ler-draccon-reli-o-alquimista-e-achei-bom\">recente aprecia\u00e7\u00e3o, ou melhor, &#8220;deprecia\u00e7\u00e3o&#8221;, da obra do tal Raphael Draccon<\/a> atraiu pelo menos uma contesta\u00e7\u00e3o. Segundo certo comentarista no blog LitFanBR, que reproduzira minha postagem, a cr\u00edtica que eu fiz \u00e0 obra de Draccon teria sido motivada pela &#8220;inveja&#8221;, entre outras considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Este post n\u00e3o pretende desqualificar os citados coment\u00e1rios, mas apenas esclarecer alguns pontos levantados, em alguns casos at\u00e9 admitindo a validade do que o comentador pontuou.<\/p>\n<blockquote><p>\n  Sim, voc\u00ea EST\u00c1 com inveja dele. Seja por ele ganhar dinheiro ou pelos livros dele serem lidos aos montes.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>&#8220;Inveja&#8221; \u00e9 uma palavra complicada. Talvez porque, em nossa cultura crist\u00e3, ela seja tida como algo sempre, necessariamente, negativo. Um pecado, uma falha de car\u00e1ter, um defeito argumentativo. Disto resulta que ao detectar &#8220;inveja&#8221; em uma pessoa, isto supostamente desqualificaria os seus argumentos. Argumentos fruto da inveja n\u00e3o s\u00e3o e nem poderiam ser justos.<\/p>\n<p>Parece-me que este racioc\u00ednio \u00e9 falacioso. Gosto de pensar que \u00e9 sempre bom separar bem separado o autor e sua obra, a pessoa e as suas ideias. Assim n\u00e3o sendo, corremos o risco de atingir o autor quando atacamos a obra ou, pior, atacar o autor querendo atingir a obra e n\u00e3o o conseguir. Se separamos corretamente as duas coisas, n\u00e3o h\u00e1 motivo para pensar que uma pessoa movida pela inveja esteja errada desde o princ\u00edpio. Sim, a inveja \u00e9 m\u00e1 conselheira e pode nos induzir a interpretar as coisas errado. Mas nesse caso o mal da inveja est\u00e1 no fruto (argumento). Se o fruto est\u00e1 podre, ent\u00e3o que seja atirado fora. Mas e se o cr\u00edtico, mesmo movido pela inveja, consegue fazer uma cr\u00edtica correta? Por que desqualificar o que foi dito? Somente pela influ\u00eancia da inveja?<\/p>\n<p>A inveja \u00e9 apenas um entre os sentimentos humanos. Tudo o que os seres humanos fazem \u00e9 movido por seus sentimentos. Alguns s\u00e3o bons, outros s\u00e3o ruins e, na maioria dos casos, n\u00f3s que vemos ou lemos o que os seres humanos fazem ou escrevem n\u00e3o temos nenhum ind\u00edcio seguro de quais sentimentos motivaram cada coisa. Atribuir sentimentos ao outro \u00e9 sempre um jogo de adivinha\u00e7\u00e3o. Podemos supor que um ato \u00e9 fruto do amor, mas pode ser por interesse. Podemos enxergar altru\u00edsmo onde s\u00f3 existe o instinto de autopreserva\u00e7\u00e3o. Talvez pensemos que um ato foi ego\u00edsta, mas na pr\u00e1tica o ato pode ter tido uma motiva\u00e7\u00e3o educativa. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o transparentes a ponto de podermos dizer &#8220;isto \u00e9 amor&#8221;, &#8220;isto \u00e9 inveja&#8221; ou &#8220;isto \u00e9 sincero&#8221;. Desta precariedade resulta uma necessidade: se n\u00e3o podemos julgar as inten\u00e7\u00f5es, devemos julgar os atos. Como diz o ditado, &#8220;de boas inten\u00e7\u00f5es o inferno est\u00e1 cheio&#8221;, como dizia Jesus Cristo, &#8220;conhecereis a \u00e1rvore pelo fruto&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o pe\u00e7o a quem leu a cr\u00edtica original que desconsidere a poss\u00edvel motiva\u00e7\u00e3o de &#8220;inveja&#8221; e analise racionalmente o que foi dito. Faz sentido? Ent\u00e3o a &#8220;inveja&#8221; \u00e9 irrelevante. N\u00e3o faz sentido? Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 relevante mesmo que a motiva\u00e7\u00e3o fosse a mais imaculada de influ\u00eancias pecaminosas.<\/p>\n<p>Ainda vou aqui considerar um pouco se a inveja \u00e9 realmente algo t\u00e3o negativo. A considera\u00e7\u00e3o popular \u00e9 a de que existem dois tipos de &#8220;inveja&#8221;, construtiva e destrutiva. A inveja construtiva \u00e9 a que nos impele a emular as pessoas que invejamos, enquanto a destrutiva \u00e9 a que nos faz querer derrubar do pedestal as pessoas que admiramos. &#8220;Inveja&#8221; construtiva costuma ser chamada de idolatria, admira\u00e7\u00e3o, etc. &#8220;Inveja&#8221; destrutiva \u00e9 que \u00e9 a inveja mesmo.<\/p>\n<p>Num primeiro momento pode parecer muito v\u00e1lido distinguir assim. Mas ser\u00e1 que necessariamente uma \u00e9 negativa e a outra, positiva? Penso que \u00e9 t\u00e3o v\u00e1lido procurar destruir uma pessoa que invejamos quando procurar igual\u00e1-la. Tudo depende do foco da inveja. Se eu invejo a qualidade do trabalho de algu\u00e9m e procuro fazer igual, isto \u00e9 muito construtivo e positivo, ao mesmo tempo em que \u00e9 destrutivo e negativo se seu, na mesma situa\u00e7\u00e3o, procurasse abater quem est\u00e1 acima. Mas e se eu invejo um autor pelo seu sucesso mas o abomino por sua qualidade liter\u00e1ria, o que h\u00e1 de negativo em combater o primeiro ressaltando a falta da segunda?<\/p>\n<p>Acredito que em tudo na vida somos convidados a tomar posi\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes isso envolve agir com certa antipatia, tentar destruir aquilo com que n\u00e3o concordamos. O mundo n\u00e3o \u00e9 feito somente de flores. E Raphael Draccon n\u00e3o merece, de forma alguma, ser tratado como uma vestal. Ele mesmo admitiu que boicota autores que fazem cr\u00edticas, ent\u00e3o ele mesmo destr\u00f3i a obra de pessoas que o incomodam ou que ele pensa que podem vir a incomodar. Destr\u00f3i ou tenta destruir, n\u00e3o importa, o efeito \u00e9 igual. Ent\u00e3o se eu vejo algu\u00e9m que se d\u00e1 bem fazendo algo com que eu n\u00e3o concordo, \u00e9 meu direito atacar essa situa\u00e7\u00e3o, procurando fazer com que os outros vejam o que eu vejo. N\u00e3o se trata de uma inveja destrutiva, mas de uma atitude diante de uma situa\u00e7\u00e3o que me incomoda. O mundo seria um lugar melhor se as pessoas tomassem mais atitudes contra o que lhes incomoda.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estou criticando Draccon porque invejo o dinheiro, o poder e o puxa-saquismo de que ele desfruta. Eu at\u00e9 invejo isso, em parte, mas o motivo da cr\u00edtica \u00e9 eu sentir que ele n\u00e3o merece isso. Porque eu o considero um impostor liter\u00e1rio, eu n\u00e3o acho certo que ele desfrute do tipo de sucesso que um autor deveria ter. N\u00e3o \u00e9 que eu o ache mau escritor, eu simplesmente acho que ele \u00e9 um produto de <em>marketing<\/em> que n\u00e3o chega ao n\u00edvel de ser &#8220;mau escritor&#8221;. Ele n\u00e3o est\u00e1 onde est\u00e1 por causa de diverg\u00eancias de estilo, ele e eu n\u00e3o somos autores de nichos diferentes, ou de estilos diferentes, ou de talentos diferentes. Ele e eu n\u00e3o somos a mesma coisa. Negar-me, sob a acusa\u00e7\u00e3o de invejoso, o direito de criticar Draccon \u00e9 negar a todo mundo o direito de criticar aquilo com que n\u00e3o concorda.<\/p>\n<blockquote><p>\n  O tipo de cr\u00edtica que voc\u00ea faz \u00e9 vazia, mesquinha. Apontar que o Pr\u00f3logo tem que ser isso ou aquilo, atesta que sua cultura liter\u00e1ria \u00e9 rasa como um pires. Dizer que o livro dele \u00e9 ruim porque ele fala linche ao inv\u00e9s de lich ou que o rei da terra que ele criou usa bast\u00e3o ao inv\u00e9s de cetro \u00e9 no m\u00ednimo babaquice.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Pode at\u00e9 ser babaquice aos olhos de alguns, mas os fatos citados s\u00e3o fortes ind\u00edcios de que Draccon \u00e9 um escritor que n\u00e3o l\u00ea. Este \u00e9 um tipo de criatura que se prolifera atualmente no pa\u00eds. Muita gente quer escrever, mas n\u00e3o quer ler. Suas refer\u00eancias v\u00eam do cinema, das s\u00e9ries de televis\u00e3o, das novelas e de raros livros lidos. O pr\u00f3prio Draccon cita como suas maiores influ\u00eancias os seriados japoneses <em>tokusatsu<\/em>, os videogames e os jogos de RPG. Como queremos desenvolver a literatura nacional se nem n\u00f3s, os autores, estamos dispostos a l\u00ea-la? Erros de ortografia e pobreza de vocabul\u00e1rio s\u00e3o sintomas de uma desconex\u00e3o da hist\u00f3ria liter\u00e1ria do portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Este desenraizamento do autor \u00e9 nocivo para a literatura nacional, e nem todo o <em>fandom<\/em> reunido em torno desses autores desmente esse efeito delet\u00e9rio. Raphael Draccon \u00e9 um entre muitos autores nacionais cuja obra \u00e9 um acess\u00f3rio, um penduricalho da literatura estrangeira. Sua obra cita e complementa os <em>best-sellers<\/em> que v\u00eam de fora. Remete a uma cultura alheia. O lugar que estes autores ocupam \u00e9 um lugar &#8220;cedido&#8221; pelo mercado, pois serve de linha auxiliar da divulga\u00e7\u00e3o dos produtos culturais importados. Esta rela\u00e7\u00e3o biun\u00edvoca entre uma parte da LitFan nacional e a ind\u00fastria estrangeira do entretenimento \u00e9 um veneno para a cultura nacional e autores como Draccon se locupletam \u00e0s custas disso, adquiriram poder gra\u00e7as a isso, exercem esse poder para sufocar quem est\u00e1 fora ou contra isso.<\/p>\n<blockquote><p>\n  Se querem uma Literatura Fant\u00e1stica Brasileira que preste, fa\u00e7am voc\u00eas tamb\u00e9m cr\u00edticas que prestem.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>O problema est\u00e1 justamente em definir qual seria a &#8220;cr\u00edtica que presta&#8221;. \u00c9 imposs\u00edvel abordar as obras de Draccon sem detectar a sua constrangedora falta de cultura, o seu prec\u00e1rio dom\u00ednio do idioma e a impostura generalizada que \u00e9 o seu trabalho. Uma &#8220;cr\u00edtica que presta&#8221; teria de abordar somente obras que prestam. Se definirmos uma &#8220;cr\u00edtica que presta&#8221; como uma que pesa fatores positivos e negativos, ent\u00e3o ter\u00edamos que criticar somente obras que tenham fatores positivos. E o que h\u00e1 de literariamente positivo em Raphael Draccon? Como disse, h\u00e1 t\u00e3o pouco ali que eu fiquei com a impress\u00e3o, depois de l\u00ea-lo, que Paulo Coelho \u00e9 um escritor bom. Apesar da falta de qualidade da prosa coelhiana, \u00e9 verdade que ele tem refer\u00eancias culturais mais profundas do que as dracconianas (algumas bastante eruditas, como Aleister Crowley, e outras de qualidade e riqueza indiscut\u00edveis, como As Mil e Uma Noites). Boa parte dos problemas da obra de Paulo Coelho poderiam ser facilmente atribu\u00eddos a dislexia do autor e falta de revis\u00e3o por parte da editora (n\u00e3o esque\u00e7amos que as primeiras obras dele foram publicadas &#8220;na marra&#8221;, \u00e0s suas custas, em uma \u00e9poca em que as editoras n\u00e3o o publicariam). Se Paulo Coelho admitisse revis\u00e3o e <em>coaching<\/em> de seu trabalho, teria potencial de escrever coisas muito melhores. Chego a dizer que Paulo tem um talento mal aproveitado, porque ele \u00e9 bastante razo\u00e1vel para tecer tramas e organizar a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>\n  Ningu\u00e9m tem que idolatrar o Dracoon porque ele \u00e9 vendido, agora se voc\u00ea se prop\u00f4s a critic\u00e1-lo, leia e fa\u00e7a uma cr\u00edtica razo\u00e1vel.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Acredito que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ler um livro inteiro para ter o direito de critic\u00e1-lo. Essa \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o desonesta para exigirmos do cr\u00edtico. Especialmente no caso de autores que fazem livros imensos. Escrever obras imensas seria, assim, uma forma f\u00e1cil de evitar cr\u00edticas desfavor\u00e1veis: como ningu\u00e9m tolera ler um calhama\u00e7o de duas mil p\u00e1ginas que n\u00e3o seja bom, o impostor verborr\u00e1gico estaria a salvo de ser malhado.<\/p>\n<p>Como algu\u00e9m j\u00e1 disse num debate do Orkut, a qualidade \u00e9 sempre relativamente superficial, mas a ruindade vai at\u00e9 o osso. A leitura de uma obra longa, mas de qualidade, sempre revelar\u00e1 imperfei\u00e7\u00f5es, que o bom cr\u00edtico deve relativizar, mas uma obra ruim n\u00e3o justifica pelas suas minorit\u00e1rias qualidades a torrente de ruindade que jorra quase o tempo todo. Ent\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel e justo julgar uma obra longa a partir de um punhado de p\u00e1ginas. Aceito que fa\u00e7am isso com a minha obra, por exemplo. O autor n\u00e3o tem o direito de esperar que o leitor tenha a paci\u00eancia de ler sua obra at\u00e9 a p\u00e1gina 170 para come\u00e7ar a encontrar as qualidades, muito menos que o cr\u00edtico tenha.<\/p>\n<p>N\u00e3o farei cr\u00edticas &#8220;razo\u00e1veis&#8221;, mas cr\u00edticas honestas. Se o livro \u00e9 ruim at\u00e9 a p\u00e1gina vinte, ent\u00e3o ele \u00e9 ruim de forma absoluta. A cada p\u00e1gina o autor tem a obriga\u00e7\u00e3o de convencer o leitor a conhecer a seguinte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha recente aprecia\u00e7\u00e3o, ou melhor, &#8220;deprecia\u00e7\u00e3o&#8221;, da obra do tal Raphael Draccon atraiu pelo menos uma contesta\u00e7\u00e3o. Segundo certo comentarista no blog LitFanBR, que reproduzira minha postagem, a cr\u00edtica que eu fiz \u00e0 obra de Draccon teria sido motivada pela &#8220;inveja&#8221;, entre outras considera\u00e7\u00f5es. 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