{"id":189,"date":"2011-11-24T21:36:00","date_gmt":"2011-11-25T00:36:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=189"},"modified":"2017-11-02T14:09:03","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:03","slug":"goiabas-cedulas-e-paes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/11\/goiabas-cedulas-e-paes\/","title":{"rendered":"Goiabas, C\u00e9dulas e P\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p>Quando terminei de contar as notas eu j\u00e1 estava com vontade de chorar. Faltavam dois mil e quinhentos no caixa e j\u00e1 estava atolado at\u00e9 o peito em d\u00edvidas. Contei, recontei, suspirei e, por fim, registrei penosamente a diferen\u00e7a no boletim de caixa, sacramentado pela rubrica rabiscada do supervisor. Com aquilo a minha vida de caixa acabava: at\u00e9 por uma quest\u00e3o de humanidade me &#8220;poupariam&#8221; de trabalhar mais no setor, o que significaria uma lament\u00e1vel queda de quase quarenta por cento no contracheque. Algo lament\u00e1vel, ainda que nos quatro meses anteriores eu tivesse perdido mais do que a comiss\u00e3o me pagava.<\/p>\n<p>Sa\u00ed do servi\u00e7o derrotado. Tinha vontade de sentar num bar e beber at\u00e9 n\u00e3o conseguir mais engolir. S\u00f3 o que me impedia era a lembran\u00e7a de meu pai chegando entorpecido e fedendo a cacha\u00e7a. Como contaria para a minha mulher? Mulheres s\u00e3o compreensivas com v\u00e1rios problemas, exceto os monet\u00e1rios. N\u00e3o queria chegar em casa para enfrentar tudo de novo. J\u00e1 tinha sido ruim das duas primeiras vezes, a terceira seria pior que os infernos. Retirei o carro da garagem e sa\u00ed para o tr\u00e2nsito ca\u00f3tico ainda com o cora\u00e7\u00e3o descompassado.<\/p>\n<p>Havia um buzina\u00e7o em frente \u00e0 Prefeitura, protesto de professores em greve. Um panela\u00e7o na avenida, protesto de flagelados desassistidos pela Prefeitura. Um palha\u00e7o vendendo ingressos na pra\u00e7a. Um rica\u00e7o em seu carr\u00e3o humilhava com a buzina um pobre calhambeque enferrujado cujo motor morrera no cruzamento. Eu ainda tinha vinte quil\u00f4metros at\u00e9 em casa. Quando peguei o asfalto, a cabe\u00e7a me latejava como seu ouvisse as batucadas de um samba sat\u00e2nico e eu nem tinha um comprimido. Mas eu suportaria aquilo. O carro escorria pela estrada quase arrependido de ter sa\u00eddo, n\u00e3o queria acelar como se antecipasse a cilada em casa. Eu nunca tivera o p\u00e9 t\u00e3o leve no acelerador, e nem pensava em economia de gasolina.<\/p>\n<p>J\u00e1 na metade do caminho, deu-me na telha que era cedo, ou que simplesmente precisava sair da estrada. Poderia ter dirigido por um abismo abaixo, mas preferi um caminho estreito e poeirento. Somente quando o carro estava embicado entre barrancos, tossindo o p\u00f3 vermelho do inverno, dei-me conta de que tomara o caminho de casa. N\u00e3o da casa mercen\u00e1ria que alugava para abrigar uma estranha que trouxera da cidade, mas da materna e morna que eu lembrava nos sonhos, o velho s\u00edtio no distrito pequeno, perdido detr\u00e1s de montanhas e de poeira.<\/p>\n<p>Agira por instinto e por ignor\u00e2ncia. N\u00e3o teria escolhido ir l\u00e1. Meu pai estava morto fazia dez anos. Minha m\u00e3e estava muda num quarto de hospital, esperando sua vez. O s\u00edtio estava arrendado para algu\u00e9m que eu nem conhecia e o dinheiro, dividido entre tr\u00eas irm\u00e3os. Tanta coisa tinha mudado, nem lembrava mais quanto tempo ficara longe de Roseiral. Mas estava indo, e naquela estrada eu acelerava mais.<\/p>\n<p>Era noitinha quando meu carro subitamente apontou na pracinha. O rel\u00f3gio da igreja estava parado como na lembran\u00e7a, como se a vida estivesse tamb\u00e9m. Mas as casas, que aos olhos de um estranho pareceriam imut\u00e1veis, mostravam mudan\u00e7as sutis, definitivas, quase todas para pior. Parei o carro na parte alta, desliguei, sa\u00ed afrouxando a gravata e encostei na porta. Os homens que jogavam bisca no boteco notaram minha presen\u00e7a. De onde estava, supus que conversavam sobre mim.<\/p>\n<p>Julho estava frio e seco. A respira\u00e7\u00e3o queimava o nariz e eu tinha uma vontade louca de entrar numa casinha daquelas, dormir e acordar em 1980, quando era moleque e uma nota de dez cruzeiros comprava dez p\u00e3es. Mas nenhuma das casas era m\u00e1quina do tempo, n\u00e3o adiantava entrar para tentar uma segunda chance de consertar as coisas. A vida s\u00f3 tem o rascunho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vi o quintal de Dona Josefa, o muro alto e pintado de cal virgem ainda pichado com propaganda da elei\u00e7\u00e3o passada. Tinha passado tempo suficiente para as goiabeiras crescerem por cima do muro. As malditas goiabeiras. Eu sa\u00edra de Roseiral vinte anos antes para n\u00e3o ter de conviver com a sombra delas na vida.<\/p>\n<p>&#8220;Quinzinho&#8221;. Conseguira bloquear o nome muito tempo, mas bastou ver a folhagem acima do muro para lembrar. T\u00ednhamos sido amigos e fora eu que insistira no convite: ele nem gostava de goiabas. Eu gostava, e preferia as vermelhas, especialmente meio verdes, para morder com sal e sentir a boca salivar intensamente. Ele gostava do desafio: Dona Josefa era ciosa das goiabas com que fazia o doce famoso que vendia na feira de domingo em Santa Teresa. Completava a renda da viuvez porque a pens\u00e3o do falecido n\u00e3o dava para muito. Era crueldade roubar goiabas dela, mas moleques de doze anos n\u00e3o sabem. Pulamos o muro dos fundos e escolhemos uma \u00e1rvore longe da varanda. No calor da tarde a velha se deitava para descansar, era a hora certa para a arte. Hora em que os homens estariam trabalhando e as mulheres, ocupadas nas cozinhas barulhentas fazendo a janta.<\/p>\n<p>Mas o diabo \u00e0s vezes \u00e9 justiceiro dos coitados. Dona Josefa amanhecera naquele dia com uma anima\u00e7\u00e3o inesperada e at\u00e9 os ouvidos de lagarto estavam bons a ponto de ouvir goiaba caindo no ch\u00e3o. Saiu de casa brandindo uma rid\u00edcula vassoura, mas n\u00f3s dois, nem sei porque, tivemos medo como se fosse uma serva de Satan\u00e1s pronta para voar em n\u00f3s com feiti\u00e7os. Largamos as goiabas e subimos o muro do jeito que deu. Fui primeiro: era mais lerdo e Quinzinho ajudou de dentro para eu ajud\u00e1-lo de fora. Ca\u00ed meio de mal jeito, fiquei manco e me arrastei a custo pela cal\u00e7ada. Ele saltou cegamente, confiando que eu estaria l\u00e1 para segur\u00e1-lo. Eu n\u00e3o estava.<\/p>\n<p>Nunca soube direito o que aconteceu. Desde essa \u00e9poca evitei estudar qualquer medicina. Tenho trauma de sangue a ponto de detestar me barbear. Por isso optei por T\u00e9cnico em Contabilidade em vez do Cient\u00edfico quando fui para o segundo grau. Quinzinho quebrou a cabe\u00e7a bem quebrada, isso sei. O socorro demorou, teve que vir ambul\u00e2ncia de longe e os enfermeiros do posto de sa\u00fade nem sabiam o que fazer.<\/p>\n<p>Passei a tarde chorando como um bezerro desmamado achando que ele estava morto. Meu pai teria me dado uma imensa sova se eu j\u00e1 n\u00e3o estivesse em choque de tanto sangue. Ou talvez meu berreiro tenha desarmado sua m\u00e3o e poupado minha bunda de uma surra de relho. Ele voltou para casa muitas semanas depois, vestindo ainda roupa de hospital e de bon\u00e9 na cabe\u00e7a. N\u00e3o falava, tinha um olhar vidrado e movia-se devagar, sempre deitado. Diziam que tinha perdido &#8220;massa&#8221; e a esperan\u00e7a. Dona Juraci n\u00e3o se conformava, mas a Benina, enfermeira do posto, jurava que um tal Doutor Sebasti\u00e3o poderia consertar o Quinzinho, era s\u00f3 ter paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Meus pais praticamente me obrigaram \u00e0 visita. Foi como ver um morto, s\u00f3 que ele tomava soro, sopa e longos suspiros por uma feia abertura no pesco\u00e7o. Mesmo meses depois eu ainda acordava de noite debatendo-me no colch\u00e3o com os bra\u00e7os abertos para amparar a queda imagin\u00e1ria de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Quando formei do segundo grau, achei emprego na cidade e pedi a permiss\u00e3o de meu pai para cair no mundo. S\u00f3 voltei para o enterro do velho e para buscar minha m\u00e3e para o asilo, meus irm\u00e3os \u00e9 que me visitavam, nunca eu. N\u00e3o pedia not\u00edcias de Quinzinho, e os que me encontravam tinham a dec\u00eancia de n\u00e3o d\u00e1-las. Mas eu estava diante da casa de Dona Josefa lembrando Quinzinho e a casa dele ficava a menos de duzentos metros, metros que valiam vinte anos.<\/p>\n<p>Fui caminhando pela rua irregular, como um fantasma de cemit\u00e9rio. Os cachorros n\u00e3o rosnavam nem latiam, as pessoas me cumprimentavam com meneio de cabe\u00e7a ou murm\u00farios inaud\u00edveis. A casa n\u00e3o tinha campainha, era preciso bater na porta. Enquanto esperava, vi pregada no beiral, como se tivesse aparecido naquela hora, uma placa de lat\u00e3o com o logotipo de um refrigerante. A janela que se abriu, n\u00e3o a porta, e uma mo\u00e7a morena, formas fartas e sorriso de piano, apareceu dizendo que n\u00e3o estava pronto. Depois foi que me notou, ou melhor, notou que eu era um estranho.<\/p>\n<p>Aproximei-me da janela e notei que ela estava cheia de borr\u00f5es de farinha pelos bra\u00e7os e os cabelos iam presos em um bon\u00e9 apertado. Dentro da janela havia prateleiras de biscoitos e bolos, uma geladeira.<\/p>\n<p>&#8212; O que \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 pronto ainda?<\/p>\n<p>&#8212; O p\u00e3o da noite. Fica pronto em vinte minutos. Vai esperar?<\/p>\n<p>Disse que sim e pedi um refrigerante para me distrair. Come\u00e7aram a chegar os fregueses do p\u00e3o da noite, todos conhecidos, poucos com dinheiro. Olhavam-me surpresos, sem o que dizer.<\/p>\n<p>Exatos vinte minutos depois ouvi barulho de metal contra metal e adivinhei que retiravam a fornada. Ent\u00e3o a porta abriu e Quinzinho veio, mancando e com o mesmo olhar morti\u00e7o que eu lembrava em pesadelos, mas de p\u00e9 e cheio de farinha. Ele murmurou algo com a morena, que passou a ajud\u00e1-lo a entregar os p\u00e3es e anotar nas cadernetas.<\/p>\n<p>Comprei sete. Dizem que \u00e9 conta de mentiroso, mas exatamente por isso foi o n\u00famero que me veio quando a morena perguntou quantos queria. Paguei, agradeci e fui saindo. N\u00e3o sei se ele me conheceu. Sei que o Doutor Sebasti\u00e3o parece que o consertou um pouco e ele hoje faz p\u00e3o, um bom e respeit\u00e1vel p\u00e3o. Talvez at\u00e9 tenha aquela bonita morena em sua cama \u00e0 noite. Talvez ela tenha aprendido a decifrar o olhar dele.<\/p>\n<p>Volto para casa com os p\u00e3es, sentindo-me palerma. O que Quinzinho e eu ter\u00edamos sido sem aquele dia desastroso? Eu n\u00e3o estaria lamentando uma redu\u00e7\u00e3o de quarenta por cento em um sal\u00e1rio que \u00e9 suficiente para pagar um bom aluguel e o leite para uma linda garota, filha de uma mulher que nunca conheceria em Roseiral. Quinzinho eu n\u00e3o sei aonde estaria, mas hoje d\u00e1 para acreditar que est\u00e1 feliz, pelo menos sem o buraco feio abaixo do gog\u00f3.<\/p>\n<p>Enquanto dirijo, ainda sem pressa, vou mordendo os p\u00e3es ainda quentes. P\u00e3es que sa\u00edram das m\u00e3os do meu amigo, do amigo que estraguei e que o Doutor Sebasti\u00e3o consertou, ao menos um pouco. Fiquei todos esses anos fora de Roseiral, n\u00e3o vi o que aconteceu. Talvez Quinzinho tenha at\u00e9 me conhecido, mas por que raz\u00e3o ele gastaria comigo um boa noite? Escolhi este desterro, tenho \u00e9 que voltar para casa e para a cama de uma mulher vinda de longe, que fala de outro jeito e que me acha um caipira estranho.<\/p>\n<p><em>Conto <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/www.festivalculturalbb.com.br\/index.php?vis=avaliacao.votacaopopular&amp;acao=votar&amp;obrid=1716\">apresentado ao Festival Cultural BB 2011<\/span>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando terminei de contar as notas eu j\u00e1 estava com vontade de chorar. Faltavam dois mil e quinhentos no caixa e j\u00e1 estava atolado at\u00e9 o peito em d\u00edvidas. Contei, recontei, suspirei e, por fim, registrei penosamente a diferen\u00e7a no boletim de caixa, sacramentado pela rubrica rabiscada do supervisor. Com aquilo a minha vida de caixa acabava: at\u00e9 por uma quest\u00e3o de humanidade me &#8220;poupariam&#8221; de trabalhar mais no setor, o que significaria uma lament\u00e1vel queda de quase quarenta por cento no contracheque. 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