{"id":1956,"date":"2014-10-12T10:00:13","date_gmt":"2014-10-12T13:00:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1956"},"modified":"2017-08-13T00:20:24","modified_gmt":"2017-08-13T03:20:24","slug":"o-culto-da-carga-na-literatura-nacional","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/10\/o-culto-da-carga-na-literatura-nacional\/","title":{"rendered":"O Culto da Carga na Literatura Nacional"},"content":{"rendered":"<p>Correndo o risco de perder mais uns dois ou tr\u00eas dos doze ou treze leitores que me restam aqui nesse blog sonamb\u00falico, inicio mais uma treta, com o objetivo \u00f3bvio de ofender as pessoas que gostam de mim e espantar quem ainda se interessa pelo que eu escrevo. Ou para fazer as pessoas de mente aberta terem no que pensar nesse doming\u00e3o, enquanto eu vou visitar fam\u00edlia e amigos em Cataguases. Quem for copiar para seu blog sem me dar cr\u00e9dito, comece no par\u00e1grafo seguinte.<\/p>\n<p><del>Diante da decad\u00eancia evidente da literatura nacional, uma entre outras decad\u00eancias de nossa paisagem cultural, que se rarefaz enquanto se difunde,<\/del> <ins>Diante do estado de s\u00edtio em que vive a nossa cultura, afetando o desenvolvimento de uma identidade nacional e afastando as novas gera\u00e7\u00f5es da continuidade com a tradi\u00e7\u00e3o cultural brasileira,<\/ins> percebe-se <del>nos<\/del> <ins>em boa parte dos<\/ins> praticantes e leitores <del>de tal literatura<\/del> <ins>dos nichos mais populares da literatura p\u00e1tria<\/ins> uma atitude de sacerdotes do culto da carga. <\/p>\n<p>Para que voc\u00ea tenha uma ideia aproximada da gravidade da ofensa que eu estou lan\u00e7ando contra voc\u00ea e contra os seus \u00eddolos eu vou explicar o que \u00e9 o tal &#8220;culto da carga&#8221;, exagerando o que me conv\u00e9m e simplificando o resto.<\/p>\n<p>Nas ilhas da Melan\u00e9sia (principalmente Vanuatu) existe uma religi\u00e3o inteiramente baseada em uma mitologia recente, criada durante a Segunda Guerra Mundial. Aqueles povos, que ainda viviam em um est\u00e1gio cultural muito primitivo, subitamente se viram no meio de um conflito de grandes propor\u00e7\u00f5es entre dois povos muito diferentes, os japoneses e os americanos. <\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil imaginar como a vis\u00e3o da guerra afetou sua cultura. Para eles, uns e outros n\u00e3o se diferenciavam de deuses. Os melan\u00e9sios contemplaram o desenrolar do conflito mais ou menos como um viking teria contemplado uma batalha dos deuses de Asgard contra os gigantes do frio ou como um antigo heleno teria contemplado a Titanomaquia. E \u00e9 claro que eles n\u00e3o entenderam coisa alguma: l\u00ednguas estrangeiras, costumes estrangeiros, tudo t\u00e3o estranho. Armas poderosas, meios incr\u00edveis de comunica\u00e7\u00e3o. Como disse Clarke: &#8220;toda tecnologia suficientemente mais avan\u00e7ada n\u00e3o se distingue de magia&#8221;.<\/p>\n<p>A guerra coincidiu com um per\u00edodo de crise alimentar nas ilhas, causada por tuf\u00f5es e secas. Mas os americanos, de forma muito cavalheiresca (o que \u00e9 incomum em uma guerra e especialmente incomum entre os americanos) dividiram com os nativos os alimentos que recebiam por via a\u00e9rea.<\/p>\n<p>Quando a guerra acabou os melan\u00e9sios se viram abandonados pelos deuses vivos com quem haviam convivido. E novamente tiveram que cultivar seu sustento a partir da pr\u00f3pria terra, sujeitos ao clima e ao azar. Mas a lembran\u00e7a dos feitos fant\u00e1sticos que haviam presenciado se preservou para as gera\u00e7\u00f5es futuras, o que fez com que, gradualmente, este povo desenvolvesse a ideia de que os mesmos feitos poderiam ser repetidos se eles mesmos imitassem o que os americanos faziam.<\/p>\n<p>Em um momento crucial, os melan\u00e9sios perceberam, talvez por influ\u00eancia do colonialismo e da explora\u00e7\u00e3o a que foram depois submetidos, que os americanos n\u00e3o eram exatamente bonzinhos. Por\u00e9m, havia algum tipo de divindade que lhes enviava preciosas cargas do al\u00e9m quando eles repetiam certos gestos como falar ao r\u00e1dio e sinalizar para avi\u00f5es que passavam. Os melan\u00e9sios, n\u00e3o detendo r\u00e1dios e nem compreendendo a tecnologia da avia\u00e7\u00e3o, constru\u00edram r\u00e9plicas em bambu e madeira, improvisaram aeroportos iluminados por tochas, coseram para si imita\u00e7\u00f5es de uniformes e passaram a postar-se como comandantes das for\u00e7as armadas ianques, fingindo falar ao microfone, marchando em determinados dias, fazendo, enfim, tudo o que n\u00e3o fosse estritamente militar, com o objetivo de convencer os misteriosos deuses a enviaram a preciosa carga.<\/p>\n<p>![O Ex\u00e9rcito de John Frum](http:\/\/cargocultsoa11.files.wordpress.com\/2010\/09\/cargo-cult2.jpg)<\/p>\n<p>Boa parte dos jovens autores de nossa literatura age como os cultuadores da carga na Melan\u00e9sia. Eles viram o que os estrangeiros obtiveram em termos de sucesso internacional (a carga) e, como n\u00e3o compreendem o que eles realmente fizeram para obt\u00ea-lo, resolveram imitar os aspectos exteriores a fim de conquistarem o favor dos deuses e receber a carga.<\/p>\n<p>Assim, nossos autores confeccionam para si identidades posti\u00e7as com pseud\u00f4nimos de sonoridade estrangeira, ambientam suas hist\u00f3rias em outros pa\u00edses de forma servil (e n\u00e3o para simplesmente variar o cen\u00e1rio) e nomeiam todos os seus personagens como se fossem personagens de um seriado da moda. Acreditam que envergando esse falso uniforme militar e fingindo falar em uma imita\u00e7\u00e3o em bambu de um telefone real, conseguir\u00e3o tornar-se best-sellers internacionais.<\/p>\n<p>Tal como os deuses n\u00e3o davam a carga aos melan\u00e9sios, mas a deram aos americanos, acreditam esses jovens que o sucesso n\u00e3o foi dado ao autor brasileiro por ser brasileiro. Tal como os melan\u00e9sios fingem ser americanos para enganar os deuses e receberem a carga, os brasileiros fingem ser americanos para enganar o sucesso e venderem livros.<\/p>\n<p>Talvez a principal diferen\u00e7a seja que os melan\u00e9sios jamais receberam qualquer carga, pelo menos n\u00e3o durante o tempo em que sua religi\u00e3o foi praticada sem o conhecimento do mundo exterior (e a carga que receberam depois n\u00e3o \u00e9 exatamente fruto de seus rituais, mas consequencia do desenvolvimento do turismo local, que, olha s\u00f3, foi justamente exacerbado pelas cerim\u00f4nias toscas do culto da carga). Mas os autores brasileiros ocasionalmente a recebem, ainda que limitados ao territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Correndo o risco de perder mais uns dois ou tr\u00eas dos doze ou treze leitores que me restam aqui nesse blog sonamb\u00falico, inicio mais uma treta, com o objetivo \u00f3bvio de ofender as pessoas que gostam de mim e espantar quem ainda se interessa pelo que eu escrevo. Ou para fazer as pessoas de mente aberta terem no que pensar nesse doming\u00e3o, enquanto eu vou visitar fam\u00edlia e amigos em Cataguases. Quem for copiar para seu blog sem me dar cr\u00e9dito, comece no par\u00e1grafo seguinte. 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