{"id":199,"date":"2011-11-04T19:30:00","date_gmt":"2011-11-04T22:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=199"},"modified":"2017-11-02T14:09:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:05","slug":"carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/11\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-3\/","title":{"rendered":"Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque &#8211; Parte 3"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-indice\/\">Voltar ao \u00cdndice<\/a><\/div>\n<p>Na postagem passada eu argumentei que o &#8220;livro eletr\u00f4nico&#8221; entre aspas (marketeado como &#8220;e-book&#8221;) n\u00e3o \u00e9 um produto novo, mas uma tentativa de mercantilizar algo que j\u00e1 existe. E que o objetivo do &#8220;e-book&#8221; n\u00e3o \u00e9 oferecer conte\u00fado, mas control\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 uma ferramenta muito poderosa. T\u00e3o poderosa que ele, praticamente sozinho, acabou com a Idade M\u00e9dia e produziu esta sociedade em que voc\u00ea vive, este Admir\u00e1vel Mundo Novo, cheio de tantas pessoas ador\u00e1veis. N\u00e3o acredite nos historiadores tradicionais: o mundo que n\u00f3s conhecemos n\u00e3o \u00e9 fruto das contradi\u00e7\u00f5es do feudalismo e nem de uma fase de grandes navega\u00e7\u00f5es, mas de uma mudan\u00e7a de mentalidade produzida por uma inven\u00e7\u00e3o que rapidamente revolucionou a transmiss\u00e3o do conhecimento pelo mundo: a imprensa.<\/p>\n<p>Antes da imprensa o conceito de autoria era difuso porque o pr\u00f3prio livro era algo inexistente. Os manuscritos antigos e medievais eram reproduzidos por copistas, que muitas vezes alteravam, adulteravam ou abreviavam o original. Certos tipos de obras, especialmente poesia e m\u00fasica, tinham um car\u00e1ter ef\u00eamero, n\u00e3o eram vistas como &#8220;obras de arte&#8221; no sentido em que hoje as vemos.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Com a imprensa o livro se difunde e com ele se difunde o nome de seu autor, criando a vaidade da originalidade, da autoria. N\u00e3o se passaram dois s\u00e9culos at\u00e9 come\u00e7arem a surgir as primeiras leis regulando os direitos do autor. Estas leis eram, em ess\u00eancia, justas. Procuravam remunerar o criador do conte\u00fado, em vez de deixar todo o lucro nas m\u00e3os do dono da impressora. Permitiram que homens de classes pobres ganhassem a vida sem ser de forma bra\u00e7al: surgiu a figura do &#8220;intelectual&#8221; este ser abjeto e detestado hoje em dia. Junto com ele surgiram profiss\u00f5es, como o jornalismo, a literatura de fic\u00e7\u00e3o, a cr\u00f4nica. O \u00e1pice das leis do direito autoral se consubstanciou na Conven\u00e7\u00e3o de Berna, que assegurou que cada pa\u00eds respeitasse os direitos dos autores nascidos em outros, permitindo assim que o mercado de tradu\u00e7\u00f5es funcionasse, e aumentando os ganhos dos autores.<\/p>\n<p>Quando o autor se tornou profissional, foi necess\u00e1rio que ele passasse a ter prote\u00e7\u00e3o para continuar profissional. Se a prote\u00e7\u00e3o do direito autoral se extinguisse com a sua morte, haveria s\u00e9rios riscos e inconvenientes. Pelo lado do editor\/impressor, havia a possibilidade de que a morte s\u00fabita do escritor lan\u00e7asse em dom\u00ednio p\u00fablico uma obra de que se fizera h\u00e1 pouco uma grande tiragem, causando preju\u00edzo a quem investira nela. Pelo lado do autor, havia a perspectiva de se tornar impublic\u00e1vel \u00e0 medida em que envelhecesse, pois os editores simplesmente esperariam que ele morresse, para poderem ter acesso gratuito \u00e0 sua obra. Por isso foi criada a extens\u00e3o p\u00f3stuma do direito autoral.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, tal como as pens\u00f5es das filhas de militares, nisso tamb\u00e9m se criou uma situa\u00e7\u00e3o escabrosa. Muitas vezes o autor morria e deixava de heran\u00e7a uma renda expressiva em forma de &#8220;royalties&#8221; para parentes que em vida o haviam desprezado, abandonado, tachado de louco etc. Imagine, por exemplo, se Bruna Surfistinha, que at\u00e9 hoje n\u00e3o foi perdoada pelos pais, for casada em regime de separa\u00e7\u00e3o de bens (n\u00e3o sei se \u00e9 ou n\u00e3o e isso n\u00e3o me interessa, a n\u00e3o ser teoricamente, para fins de argumenta\u00e7\u00e3o). Em caso de sua morte agora, os direitos de suas obras escandalosas ficaria sob o controle deles. Como nem os loucos rasgam dinheiro, o mais certo \u00e9 imaginar que eles aproveitariam muito bem esse dinheiro. Usei um caso famoso e pr\u00f3ximo de n\u00f3s, mas casos an\u00e1logos existiram \u00e0s pencas pelo mundo. Tudo gra\u00e7as a extens\u00e3o p\u00f3stuma do direito autoral, que em alguns pa\u00edses chega a absurdos noventa anos!<\/p>\n<p>Eu escrevi tudo isso sobre o direito autoral porque somente entendendo o alcance que ele tem, e a ideologia que existe por detr\u00e1s dele, \u00e9 poss\u00edvel ver porque os &#8220;livros eletr\u00f4nicos&#8221; buscam controlar o fluxo de conhecimento e de informa\u00e7\u00e3o. Existem empresas interessadas em manter em seu lugar a atual estrutura de poder \u2014 que n\u00e3o \u00e9 de todo injusta, como j\u00e1 disse, embora longe de perfeita. Para chegar a esse fim quim\u00e9rico, posto que na contram\u00e3o do rumo indicado pela tecnologia, esses interesses est\u00e3o atacando e solapando a democracia.<\/p>\n<p>Imagine um mundo no qual leis impostas pelos fabricantes de carruagens tentassem impedir os autom\u00f3veis de andar a velocidade maior que a de um cavalo em trote (15 km por hora). Imagine um mundo no qual leis impostas pelos pintores tentassem impedir que os fot\u00f3grafos tirassem mais de uma fotografia por dia, e que fizessem mais de uma c\u00f3pia de cada negativo. Imagine um mundo no qual leis impostas pelos copistas impedissem edi\u00e7\u00f5es de livros acima de vinte exemplares. Agora imagine um mundo no qual leis impostas pelos antigos controladores do conte\u00fado (editores e gravadoras) tentam impedir que os arquivos digitais (por sua pr\u00f3pria natureza transmiss\u00edveis, copi\u00e1veis e alter\u00e1veis) sejam justamente transmitidos, copiados e alterados.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o de novas tecnologias deve ensejar a cria\u00e7\u00e3o de novas estruturas de poder e marcos regulat\u00f3rios, adaptados aos novos tempos. Tentar continuar com as mesmas leis e paradigmas de antes \u00e9 um obst\u00e1culo ao curso da natureza. E toda lei que tenta impedir a natureza de seguir seu curso produz viol\u00eancia. Pois somente com viol\u00eancia \u00e9 poss\u00edvel &#8220;tentar&#8221; resistir \u00e0 natureza. E sempre que a viol\u00eancia vence a natureza, o resultado \u00e9 uma terra arrasada.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima postagem, apesar desta defesa apaixonada do futuro, lhes explicarei porque tenho fasc\u00ednio pelo passado e medo do que est\u00e1 por vir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar ao \u00cdndice Na postagem passada eu argumentei que o &#8220;livro eletr\u00f4nico&#8221; entre aspas (marketeado como &#8220;e-book&#8221;) n\u00e3o \u00e9 um produto novo, mas uma tentativa de mercantilizar algo que j\u00e1 existe. E que o objetivo do &#8220;e-book&#8221; n\u00e3o \u00e9 oferecer conte\u00fado, mas control\u00e1-lo. O livro \u00e9 uma ferramenta muito poderosa. T\u00e3o poderosa que ele, praticamente sozinho, acabou com a Idade M\u00e9dia e produziu esta sociedade em que voc\u00ea vive, este Admir\u00e1vel Mundo Novo, cheio de tantas pessoas ador\u00e1veis. 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