{"id":201,"date":"2011-11-02T19:30:00","date_gmt":"2011-11-02T22:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=201"},"modified":"2017-11-02T14:09:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:05","slug":"carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/11\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-parte-2\/","title":{"rendered":"Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque &#8211; Parte 2"},"content":{"rendered":"<div><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/10\/carta-aberta-ao-senhor-motorista-do-tanque-indice\/\">Voltar ao \u00cdndice<\/a><\/div>\n<p>Comecei a postagem passada dizendo que o &#8220;e-book&#8221; \u00e9 uma &#8220;buzzword&#8221; poderosa, que adquiriu um car\u00e1ter de dogma, e cuja cr\u00edtica \u00e9 retrucada com o an\u00e1tema. Esta \u00e9 uma caracter\u00edstica predominante de nosso tempo: ap\u00f3s d\u00e9cadas de modernismo, caracterizado pelo pensamento multifacetado, vivemos uma era de aspira\u00e7\u00e3o ao pensamento \u00fanico, sob o signo do infame &#8220;fim da Hist\u00f3ria&#8221; apregoado por Francis Fukuyama, nome que ser\u00e1 eternamente lembrado pela ignom\u00ednia. Algumas &#8220;buzzwords&#8221; nomeiam coisas que efetivamente existem, s\u00e3o novas e se consolidam, como foi o caso da internet (que j\u00e1 foi um tema da moda, antes de virar item b\u00e1sico de nossa sociedade). Outras s\u00e3o apenas conceitos desenhados no ar por pessoas interessadas em ganhar o dinheiro de pessoas que gostam de palavras a\u00e9reas. Outras ficam no meio termo: nomeiam coisas que existem, mas n\u00e3o s\u00e3o novas, apenas revestidas de nova apar\u00eancia. Penso que o &#8220;livro eletr\u00f4nico&#8221; est\u00e1 neste terceiro grupo.<\/p>\n<p>A rigor, se julgarmos pelo sentido literal das duas palavras, podemos dizer que existem livros eletr\u00f4nicos desde meados dos anos setenta, quando foi criado o <a href=\"http:\/\/www.gutenberg.org\/\">Projeto Gutenberg<\/a>, com o objetivo de transcrever em formato eletr\u00f4nico a heran\u00e7a cultural da humanidade. Desde ent\u00e3o surgiram outros projetos e outras formas de gera\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e leitura de conte\u00fado textual (e n\u00e3o textual). Um s\u00edtio na internet n\u00e3o deixa de ser um livro eletr\u00f4nico, se contiver texto apropriado para um livro.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Por\u00e9m, quando os market\u00f3logos do mercado p\u00f5em a m\u00e3o em algo, eles procuram criar um produto a partir de uma &#8220;commodity&#8221;. O &#8220;livro eletr\u00f4nico&#8221; etiquetado como &#8220;e-book&#8221; s\u00f3 traz de novo o velho anseio de manter sob controle o conte\u00fado que a internet, an\u00e1rquica por natureza, amea\u00e7ava arrebentar. Os leitores de livros eletr\u00f4nicos sempre procuram restringir o acesso do usu\u00e1rio ao conte\u00fado, criando formatos incompat\u00edveis, licen\u00e7as dificultosas, impedimentos operacionais. Pessoas que adquiriram os primeiros leitores de livros eletr\u00f4nicos e gastaram dinheiro comprando &#8220;livros&#8221; para eles provavelmente hoje se perguntam aonde foram parar: quando o aparelho deu defeito os livros simplesmente sumiram. Arquivos digitais somem. Se para morrer basta estar vivo, para um arquivo digital desaparecer irremediavelmente, basta que ele tenha sido criado.<\/p>\n<p>Como autor eu deveria estar preocupado com o controle sobre o meu texto. E estou. Como ser humano eu deveria estar preocupado com a realidade de que um dia morrerei. Eu estou. Em um caso, como no outro, por\u00e9m, eu enfrento o inevit\u00e1vel: o conhecimento quer circular e as pessoas querem compartilhar aquilo de que gostam. As empresas que vendem produtos culturais gostariam de impedir isso e criam regras absurdas. Se eu fosse seguir tais regras, eu sequer poderia tocar na festinha de anivers\u00e1rio de minha filha o CD da Xuxa que lhe dei de presente, pois est\u00e1 proibida a &#8220;execu\u00e7\u00e3o p\u00fablica&#8221;. Portanto, eu sei que se o meu texto for bom e agradar, ele ser\u00e1 copiado e eu n\u00e3o ganharei dinheiro nenhum com isso. S\u00f3 me resta esperar que pelo menos a maior parte dos copi\u00f5es tenha, pelo menos, a dec\u00eancia de n\u00e3o remover a men\u00e7\u00e3o \u00e0 minha autoria (se bem que confio mais na dec\u00eancia dos cachorros do que na do ser humano, considerado em sua m\u00e9dia).<\/p>\n<p>Portanto, quando s\u00e3o criadas regras para controlar o acesso ao conhecimento, mesmo que tais regras sejam feitas em meu nome (ou seja, em nome dos criadores de conte\u00fado, profissionais ou n\u00e3o), eu sei que elas n\u00e3o me beneficiar\u00e3o, que dificilmente beneficiar\u00e3o aos controladores de tal conte\u00fado (gravadoras, editoras etc.) e que certamente prejudicar\u00e3o \u00e0 humanidade. In\u00fameras s\u00e3o as leis que s\u00e3o criadas e custosos s\u00e3o os procedimentos e processos que s\u00e3o levados a termo em nome do combate \u00e0 pirataria, tal como s\u00e3o in\u00fameros e custosos em rela\u00e7\u00e3o ao combate quixotesco contra as drogas. O ser humano quer anestesiar-se, e ocasionalmente destruir-se, e \u00e9 in\u00fatil tentar suprimir as ferramentas, pois se a necessidade existe, outras ferramentas sempre ser\u00e3o inventadas. O ser humano \u00e9 inteligente e engenhoso, sabe improvisar em caso de necessidade. E o ser humano quer o conte\u00fado. Quer ver o filme, quer ouvir a m\u00fasica, quer ler o livro.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima semana continuarei analisando o tema, desta vez falando sobre o tipo de prote\u00e7\u00e3o e de reconhecimento que realmente me interessam como autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltar ao \u00cdndice Comecei a postagem passada dizendo que o &#8220;e-book&#8221; \u00e9 uma &#8220;buzzword&#8221; poderosa, que adquiriu um car\u00e1ter de dogma, e cuja cr\u00edtica \u00e9 retrucada com o an\u00e1tema. Esta \u00e9 uma caracter\u00edstica predominante de nosso tempo: ap\u00f3s d\u00e9cadas de modernismo, caracterizado pelo pensamento multifacetado, vivemos uma era de aspira\u00e7\u00e3o ao pensamento \u00fanico, sob o signo do infame &#8220;fim da Hist\u00f3ria&#8221; apregoado por Francis Fukuyama, nome que ser\u00e1 eternamente lembrado pela ignom\u00ednia. Algumas &#8220;buzzwords&#8221; nomeiam coisas que efetivamente existem, s\u00e3o novas e se consolidam, como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[77,55,80,17,28,6,113,8],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=201"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5311,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions\/5311"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}