{"id":2183,"date":"2014-12-19T20:02:04","date_gmt":"2014-12-19T23:02:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2183"},"modified":"2017-11-02T14:08:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:08","slug":"perguntas-ao-escritor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/12\/perguntas-ao-escritor\/","title":{"rendered":"Perguntas ao Escritor"},"content":{"rendered":"<p>Esta entrevista se baseia nas perguntas feitas por Michel Laub, em <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/michellaub\/2014\/12\/1564329-perguntas-ao-escritor.shtml\">artigo<\/a> publicado pela Folha de S\u00e3o Paulo <abbr title=\"19 de dezembro de 2014\">hoje<\/abbr>. Como at\u00e9 o momento eu n\u00e3o cheguei a ser procurado por nenhum \u00f3rg\u00e3o de imprensa, resolvi considerar estas boas perguntas como sendo a entrevista que eu ainda n\u00e3o dei. Acredito que dificilmente eu conseguirei ser t\u00e3o espont\u00e2neo e ir\u00f4nico em uma entrevista de verdade, mas de qualquer forma est\u00e1 valendo.<\/p>\n<dl>\n<dt>Se seus livros n\u00e3o existissem, ia fazer alguma diferen\u00e7a para algu\u00e9m al\u00e9m de voc\u00ea?<\/dt>\n<dd>Com quase toda certeza, n\u00e3o. Embora minhas obras j\u00e1 tenham sido elogiadas por muita gente, acredito que o mesmo tipo de prazer est\u00e9tico que elas experimentaram lendo o que eu escrevi poderia ser fru\u00eddo de outras obras liter\u00e1rias. Mesmo que eu esteja enganado em me julgar t\u00e3o descart\u00e1vel, dificilmente eu chegarei a ter essa resposta ainda em vida \u2013 e certamente n\u00e3o a terei depois disso.\n<\/dd>\n<dt>Como seus defeitos interferem no que voc\u00ea escreve? A vaidade, por exemplo.<\/dt>\n<dd>Minha vaidade me impede de julgar que minha vaidade interfere no que eu escrevo\u2026\n<\/dd>\n<dt>Entre escrever um grande livro cujo tema magoar\u00e1 uma pessoa muito pr\u00f3xima e querida ou jamais escrever um grande livro, o que voc\u00ea escolheria?<\/dt>\n<dd>Eu sempre escolho tentar escrever o grande livro. Prefiro cair de um edif\u00edcio do que de uma escada dobr\u00e1vel. Cair (falhar) \u00e9 sempre humilhante, para mim, por isso, \u00e9 melhor que pelo menos a queda seja grande, e esborrachante. Talvez algum dia vejam grandeza nos meus fracassos. A coisa mais deprimente do mundo \u00e9 tentar ir s\u00f3 at\u00e9 a esquina e ficar pelo caminho.\n<\/dd>\n<dt>Se um livro seu muito elogiado se baseasse num fato doloroso da sua biografia, que causou a morte de pessoa(s) muito pr\u00f3xima(s) e querida(s), voc\u00ea preferiria que isso n\u00e3o tivesse acontecido e o livro n\u00e3o existisse?<\/dt>\n<dd>Eu sou fatalista. Eu n\u00e3o acredito em fadas que concedem desejos e tamb\u00e9m acredito que o passado \u00e9 imut\u00e1vel (embora a minha mente trabalhe diuturnamente no sentido de pelo menos modificar a forma como eu o lembro). Por isso eu nunca me peguei pensando em algo assim (e eu tenho uma obra minha, razoavelmente elogiado pelos seus quinze ou vinte leitores, que se baseou em algo tr\u00e1gico).\n<\/dd>\n<dt>Alguma vez voc\u00ea aprendeu algo com uma cr\u00edtica? Se aprendeu, isso mudou seu jeito de escrever?<\/dt>\n<dd>Como poucas pessoas comentam o que escrevo (em geral elas preferem se ofender com os meus valores e com a minha pessoa), eu tenho poucas oportunidades de receber cr\u00edticas construtivas. Mas aproveito bem estas oportunidades, em geral.\n<\/dd>\n<dt>Se mudou, existe diferen\u00e7a entre escrever para agradar \u00e0 cr\u00edtica e, como os autores de best-sellers que voc\u00ea despreza, para agradar ao p\u00fablico?<\/dt>\n<dd>Eu n\u00e3o desprezo autores de <em>best-sellers<\/em>, mas autores de livros ruins que vendem (h\u00e1 \u00f3timos livros que tamb\u00e9m vendem). Mas acredito que escrever para agradar a cr\u00edtica \u00e9 perigoso e pode se tornar um exerc\u00edcio est\u00e9ril. Eu procuro escrever para agradar ao p\u00fablico, apenas acredito que estou procurando atingir a um p\u00fablico que tem um gosto um pouco mais sofisticado e que n\u00e3o engoliria um autor que desse \u201c\u00eanfase ao fraquejo\u201d.\n<\/dd>\n<dt>O que significa o conceito de \u201cindepend\u00eancia\u201d (aspas do entrevistador) no universo liter\u00e1rio? N\u00e3o publicar por grandes editoras? N\u00e3o ter os livros resenhados pela grande imprensa? N\u00e3o participar de eventos liter\u00e1rios patrocinados por estatais ou bancos? Ter posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica diversa da que voc\u00ea imagina ser a posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da m\u00e9dia dos integrantes desse universo?<\/dt>\n<dd>Eu acho que se independente \u00e9 nunca ser proibido de publicar algo que eu quero publicar. Enquanto eu for livre para publicar o que eu quero, mesmo que para essas obras pol\u00eamicas eu tenha que pagar ou botar no prego o meu cacife adquirido antes com outras obras, eu acredito que serei indepenente.\n<\/dd>\n<dt>S\u00f3 por curiosidade: que posi\u00e7\u00e3o seria essa? Votar no governo? Criticar o governo? Se declarar contra as panelinhas e as injusti\u00e7as? Ser contra ou a favor da descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, das ciclovias, do agroneg\u00f3cio?<\/dt>\n<dd>Devido ao respondido acima, esta pergunta n\u00e3o faz sentido. Acredito na liberdade de express\u00e3o at\u00e9 mesmo das ideias de que discordo, e falando em termos liter\u00e1rios isto inclui at\u00e9 mesmo ideias que n\u00e3o se pode abordar em meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, como valores fascistas.\n<\/dd>\n<dt>S\u00f3 por curiosidade 2: quem exerce o \u201cpoder\u201d (aspas do Facebook) no meio cultural? Os que elogiam voc\u00ea, inclusive em reuni\u00f5es de j\u00faris de pr\u00eamios que concedem milhares de reais ao elogiado, fazem parte da conspira\u00e7\u00e3o? Alguma vez voc\u00ea disse n\u00e3o a tais ofertas de leite e mel?<\/dt>\n<dd>Quem exerce o poder s\u00e3o empresas capitalistas que se interessam basicamente por dinheiro. Isto quer dizer que elas publicam aquilo que acham que v\u00e3o vender. Acho que isto n\u00e3o \u00e9 bom nem ruim em si. A \u00fanica coisa ruim \u00e9 que o mercado se tornou t\u00e3o massificado que \u00e9 muito dif\u00edcil um autor que ainda n\u00e3o esteja no esquema, ou que n\u00e3o seja nele introduzido atrav\u00e9s de apadrinhamento, \u201cestoure\u201d como independente para depois se tornar <em>mainstream.<\/em> Na pr\u00e1tica as editoras d\u00e3o muita preval\u00eancia a obras traduzidas e a obras nacionais que dialoguem com a cultura massificada anglo-americana. Isso, para mim, \u00e9 muito ruim.\n<\/dd>\n<dt>Em que turno do dia voc\u00ea escreve? Usa computador ou telex? Tem algum animal de estima\u00e7\u00e3o?<\/dt>\n<dd>Geralmente escrevo \u00e0 noite (exceto agora, que estou de f\u00e9rias). Detalhe que quando escrevo de dia eu consigo escrever mais e melhor. Uso computador, desde 1999 pelo menos. Meus \u00fanicos animais de estima\u00e7\u00e3o s\u00e3o os passarinhos livres, para quem eu deixo alpiste no quintal, para v\u00ea-los vir, pousar, comer e ir embora.\n<\/dd>\n<dt>Bebe?<\/dt>\n<dd>Razoavelmente. O meio termo entre um abst\u00eamio rigoroso e Edgar Allan Poe.\n<\/dd>\n<dt>Qual \u00e9 o seu signo?<\/dt>\n<dd>N\u00f3s taurinos n\u00e3o acreditamos em hor\u00f3scopos, isto \u00e9 s\u00f3 supersti\u00e7\u00e3o de gente pouco evolu\u00edda, ainda n\u00e3o sintonizada com a Era de Aqu\u00e1rio.\n<\/dd>\n<dt>O que voc\u00ea sente quando vai tirar a foto que ser\u00e1 publicada na orelha do livro?<\/dt>\n<dd>Nessas oportunidades eu me lembro do quanto meu queixo \u00e9 feio, meu cabelo \u00e9 rebelde, minhas orelhas s\u00e3o grandes e os meus \u00f3culos de fundo de garrafa interferem com o <em>flash<\/em> da c\u00e2mera.\n<\/dd>\n<dt>O que passa pela sua cabe\u00e7a quando um(a) f\u00e3 em situa\u00e7\u00e3o afetiva \u201cvulner\u00e1vel\u201d (aspas do tribunal e da carceragem) convida voc\u00ea para um caf\u00e9?<\/dt>\n<dd>Sou um homem casado e respeitador da fam\u00edlia. Mas se fosse solteiro\u2026\n<\/dd>\n<dt>Ficar mais velho, mais c\u00e9tico e em v\u00e1rios aspectos mais c\u00ednico \u00e9 bom ou ruim para a literatura que voc\u00ea se prop\u00f5e a fazer?<\/dt>\n<dd>Ainda n\u00e3o sei. Em geral as obras que hoje escrevo s\u00e3o melhores do que as que eu escrevia antes, mas h\u00e1 algumas antiguidades que eu realmente respeito muito e n\u00e3o creio que v\u00e1 superar.\n<\/dd>\n<dt>Quando voc\u00ea l\u00ea o livro de um escritor mais ou menos da sua idade, que disputa mais ou menos os mesmos espa\u00e7os que voc\u00ea, a torcida \u00e9 para que o texto seja bom ou ruim?<\/dt>\n<dd>Se eu pego um livro para ler, quero que o meu tempo seja bem aproveitado. Se os melhores que eu n\u00e3o deixarem espa\u00e7o para mim no mundo liter\u00e1rio, n\u00e3o ligo. N\u00e3o acho que valha a pena ter sucesso sem ter qualidade. Eu s\u00f3 me incomodo quando vejo uma obra malfeita igual \u00e0 bunda de quem a cagou tendo sucesso e todo mundo elogiando como se o ruim fosse bom. Isso mortifica o \u201cventr\u00edloquo\u201d do meu cora\u00e7\u00e3o.\n<\/dd>\n<dt>Voc\u00ea gosta de todos os livros publicados por seus amigos? Se n\u00e3o gosta, isso \u00e9 um segredo seu, sua opini\u00e3o foi dada ao referido amigo ou voc\u00ea fala mal dele pelas costas?<\/dt>\n<dd>N\u00e3o falo mal das pessoas pelas costas, o que explica eu estar queimado com tanta gente. Mas em geral eu n\u00e3o falo mal nem pela frente: meus amigos sabem se eu detestei pela economia de elogios que eu lhes dedico.\n<\/dd>\n<dt>Voc\u00ea convive fraternalmente com algu\u00e9m que, em p\u00fablico ou particular, declarou n\u00e3o gostar dos livros que voc\u00ea escreveu?<\/dt>\n<dd>Ainda n\u00e3o tive esta experi\u00eancia, mas sei que algumas pessoas de quem eu gosto t\u00eam sido econ\u00f4micas com seus elogios \u00e0 minha obra\u2026\n<\/dd>\n<dt>Se pedem para voc\u00ea explicar o sentido de sua obra numa entrevista, como \u00e9 a escolha das frases? O crit\u00e9rio \u00e9 a sinceridade, que refletir\u00e1 de modo desorganizado e hesitante as d\u00e9cadas de um trabalho igualmente desorganizado e hesitante, baseado mais em intui\u00e7\u00e3o emocional que em racionalidade? Ou \u00e9 melhor resumir tudo em termos claros e coerentes, de prefer\u00eancia inteligentes e impactantes, quando n\u00e3o charmosos e engra\u00e7ados, que causar\u00e3o efeito imediato de simpatia e interesse no p\u00fablico, garantindo mais entrevistas (e vendas, e cach\u00eas de feiras de livro) para quem depende dessa exposi\u00e7\u00e3o para pagar boa parte das contas?<\/dt>\n<dd>Se eu conseguisse explicar o sentido de minhas obras eu n\u00e3o precisaria t\u00ea-las escrito. O m\u00e1ximo que consigo fazer \u00e9 dar uns \u201ctoques\u201d ou esclarecer pontos espec\u00edficos.\n<\/dd>\n<dt>Qual \u00e9 a pergunta que nunca foi feita e que explicaria, mais do que as centenas de outras perguntas j\u00e1 feitas por pressa, falta de espa\u00e7o, pregui\u00e7a, ignor\u00e2ncia ou desinteresse (merecido) na sua pessoa, aquilo que voc\u00ea escreve \u2013 e, em larga medida, porque as coisas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o separadas assim, aquilo que voc\u00ea \u00e9?<\/dt>\n<dd>N\u00e3o acho que uma pergunta s\u00f3 resolveria isso. Mas se existe uma pergunta cuja resposta explica muito do que eu sou e penso, esta \u00e9: \u201cpor que voc\u00ea torce pelo Galo?\u201d\n<\/dd>\n<dt>Qual \u00e9 o seu time do cora\u00e7\u00e3o?<\/dt>\n<dd>Adivinha!\n<\/dd>\n<dt>Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es dizia que a maior habilidade de um pol\u00edtico \u00e9 perceber se o seu interlocutor quer dinheiro, prest\u00edgio ou carinho, e que o \u00fanico pecado imperdo\u00e1vel \u00e9 errar a avalia\u00e7\u00e3o \u2013 dando carinho, digamos, a quem quer dinheiro. Ent\u00e3o, se voc\u00ea pudesse se ver \u00e0 dist\u00e2ncia, e sendo um bom velhinho de si mesmo neste Natal, botaria o escritor em quest\u00e3o na lista de mais vendidos, no topo das cita\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e jornal\u00edsticas do nosso tempo ou daria um abra\u00e7o gostoso nele?<\/dt>\n<dd>O topo da lista dos mais vendidos, claro. Com fama e dinheiro voc\u00ea consegue at\u00e9 fazer as pessoas acharem que voc\u00ea escreve bem! \u00c9 uma \u201cmagia\u201d! Depois disso voc\u00ea pode at\u00e9 conquistar os acad\u00eamicos e abra\u00e7os, bem, sempre existe gente disposta a abra\u00e7ar pessoas ricas e famosas.\n<\/dd>\n<\/dl>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta entrevista se baseia nas perguntas feitas por Michel Laub, em artigo publicado pela Folha de S\u00e3o Paulo hoje. Como at\u00e9 o momento eu n\u00e3o cheguei a ser procurado por nenhum \u00f3rg\u00e3o de imprensa, resolvi considerar estas boas perguntas como sendo a entrevista que eu ainda n\u00e3o dei. Acredito que dificilmente eu conseguirei ser t\u00e3o espont\u00e2neo e ir\u00f4nico em uma entrevista de verdade, mas de qualquer forma est\u00e1 valendo. Se seus livros n\u00e3o existissem, ia fazer alguma diferen\u00e7a para algu\u00e9m al\u00e9m de voc\u00ea? 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