{"id":2436,"date":"2014-12-27T08:19:34","date_gmt":"2014-12-27T11:19:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2436"},"modified":"2017-08-13T00:16:07","modified_gmt":"2017-08-13T03:16:07","slug":"impressoes-da-leitura-de-contos-de-philip-k-dick","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/12\/impressoes-da-leitura-de-contos-de-philip-k-dick\/","title":{"rendered":"Impress\u00f5es da Leitura de Contos de Philip K. Dick"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo Philip K. Dick figura na minha lista de autores favoritos, por causa da mirabolante confus\u00e3o que s\u00e3o os seus contos. Aproveitando o tempo livre das f\u00e9rias, resolvi p\u00f4r em dia a leitura de v\u00e1rios livros adquiridos nos \u00faltimos dois anos e que estavam em minha estante criando poeira. Entre estas leituras, a de duas colet\u00e2neas de contos de PKD, um de meus autores favoritos: &#8220;O Vingador do Futuro&#8221; &#8212; colet\u00e2nea oportunista lan\u00e7ada pela Editora Paulic\u00e9ia na \u00e9poca do filme de mesmo nome e adquirida em um sebo &#8212; e  &#8220;Realidades Adaptadas&#8221; &#8212; edi\u00e7\u00e3o recente da Aleph que n\u00e3o deixa de ser, tamb\u00e9m, ligeiramente oportunista ao selecionar os contos pelo crit\u00e9rio de terem sido usados como base para filmes. Em comum, ambas se iniciam com o conto que deu origem ao filme (e aqui cabe fazer uma compara\u00e7\u00e3o entre ambas as tradu\u00e7\u00f5es). <\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o da Aleph, feita por Ludmila Hashimoto, traduziu &#8220;We Can Remember It For You Wholesale&#8221; como &#8220;Lembramos para voc\u00ea a pre\u00e7o de atacado&#8221;, a edi\u00e7\u00e3o da Paulic\u00e9ia, feita por Ricardo Gouveia, preferiu &#8220;Recordamos para voc\u00ea por atacado&#8221;, um t\u00edtulo que ficou perfeito pela economia e por encontrar um sin\u00f4nimo de &#8220;Remember&#8221; que tamb\u00e9m come\u00e7a com a letra erre. A n\u00e3o ser pelo t\u00edtulo, que Gouveia captou melhor que Hashimoto, em minha opini\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer que uma tradu\u00e7\u00e3o seja melhor que a outra. Cada uma tem seus fortes e fracos, mas em geral a tradu\u00e7\u00e3o de Ludmila Hashimoto me parece mais coloquial e menos po\u00e9tica que a de Gouveia, *sinal dos tempos* transcorridos entre as duas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>> Conte\u00fado:<br \/>\n> &#8220;Recordamos para voc\u00ea por atacado&#8221; (We Can Remember It For You Wholesale, 1966)<br \/>\n> &#8220;Segunda Variedade&#8221; (Second Variety, 1953)<br \/>\n> &#8220;Impostor&#8221; (Impostor, 1953)<br \/>\n> &#8220;Relat\u00f3rio Minorit\u00e1rio&#8221; (Minority Report, 1956)<br \/>\n> &#8220;O Pagamento&#8221; (Paycheck, 1953)<br \/>\n> &#8220;O Homem Dourado&#8221; (The Golden Man, 1954)<br \/>\n> &#8220;Equipe de Ajuste&#8221; (Adjustment Team, 1954)  <\/p>\n<p>&#8220;Recordamos para voc\u00ea por atacado&#8221; (nunca vou desistir de promover esta vers\u00e3o do t\u00edtulo, muito obrigado pela sua opini\u00e3o) tem pouqu\u00edssimo a ver com o filme de Paul Verhoeven (&#8220;O Vingador do Futuro&#8221; no Brasil, &#8220;Desafio Total&#8221; em Portugal), que dele retirou pouco mais que a ideia de um oper\u00e1rio que sonha em visitar Marte e contrata uma empresa que implanta mem\u00f3rias falsas apenas para descobrir que ele, de fato, j\u00e1 estivera no planeta vermelho, em uma miss\u00e3o secreta, e tivera a sua mem\u00f3ria apagada para a sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a. <\/p>\n<p>Verhoeven tomou in\u00fameras liberdades com o roteiro, que alteram substancialmente o significado original da hist\u00f3ria e as suas implica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. No filme, Quaid n\u00e3o vai at\u00e9 Marte porque \u00e9 muito caro e sua mulher n\u00e3o o autoriza a fazer tal despesa, ele ent\u00e3o busca a &#8220;Total Recall&#8221; para obter mem\u00f3rias falsas por um pre\u00e7o baixo. Durante o procedimento o soro de verdade que lhe \u00e9 aplicado faz aflorarem mem\u00f3rias de uma viagem real, os funcion\u00e1rios da empresa lhe indenizam, mas ele vai embora  ainda assim acreditando que as suas mem\u00f3rias, agora conscientes, s\u00e3o fict\u00edcias. Os agentes do governo que o haviam originalmente mandado a Marte (para investigar um grupo rebelde) come\u00e7am a persegui-lo (entre eles sua mulher) e ele resolve viajar at\u00e9 l\u00e1 para desvendar seu destino, tornando-se um her\u00f3i no processo (embora a todo momento surjam pessoas dizendo que tudo \u00e9 uma ilus\u00e3o de sua mente). Esta afirmativa de que a verdade \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de uma vers\u00e3o aguada dos conflitos existenciais de Philip K. Dick, pois no conto o ru\u00eddo \u00e9 muito mais intenso, apesar do final fraco. Comecemos que no livro a viagem a Marte \u00e9 uma impossibilidade pr\u00e1tica: n\u00e3o h\u00e1 turismo para l\u00e1 e somente funcion\u00e1rios do governo podem fazer a travessia. Quaid n\u00e3o pode viajar porque \u00e9 um civil, embora tenha o dinheiro necess\u00e1rio (o implante de mem\u00f3ria custa quase o mesmo pre\u00e7o que a viagem custaria, se ele pudesse obter uma autoriza\u00e7\u00e3o para ir). A partir desta discrep\u00e2ncia fundamental, as vers\u00f5es escrita e filmada divergem cada vez mais radicalmente at\u00e9 o ponto em que deixam de sera a mesma hist\u00f3ria. Isto ocorre ap\u00f3s a briga de Quaid com a mulher. <\/p>\n<p>No geral, embora o filme tenha criado uma hist\u00f3ria de her\u00f3i quase tradicional, com uma leve pitada da insanidade de PKD, podemos dizer que o conto \u00e9 inferior em execu\u00e7\u00e3o por causa do seu final, que viola a suspens\u00e3o de descren\u00e7a ao desafiar a probabilidade. Isso, claro, em minha opini\u00e3o. <\/p>\n<p>O segundo conto da edi\u00e7\u00e3o da Aleph \u00e9 &#8220;Segunda Variedade&#8221;, que serviu de base ao roteiro do filme &#8220;Assassinos Cibern\u00e9ticos&#8221; (em Portugal: &#8220;Gritos Mortais&#8221;) &#8212; \u00e9 tamb\u00e9m o conto mais longo do livro, ocupando mais de sessenta p\u00e1ginas.  Tamb\u00e9m aqui os realizadores do filme produziram altera\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao argumento do conto &#8212; e com isso desfiguraram a natureza do dilema moral abordado por PKD. No filme, temos mineradores transformados em soldados, tentando retomar um planeta alien\u00edgena das m\u00e3os de sua popula\u00e7\u00e3o civil rebelada por motivos ecol\u00f3gicos, usando para isso m\u00e1quinas autorreplicantes dotadas de intelig\u00eancia artificial (os &#8220;screamers&#8221;). No conto temos um est\u00e1gio final de uma guerra total entre duas pot\u00eancias hegem\u00f4nicas *da Terra*, uma das quais, o &#8220;bloco americano&#8221; est\u00e1 em vias de exterminar a outra, os &#8220;russos&#8221; (os nomes n\u00e3o s\u00e3o oficiais, mas g\u00edrias entre os soldados) usando os &#8220;screamers&#8221; ap\u00f3s uma guerra nuclear (vencida pelos &#8220;russos&#8221;). Enquanto no filme temos um grupo de militares lutando pela pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia &#8212; ao desconfiarem que os seus comandantes resolveram abandon\u00e1-los por causa da dissemina\u00e7\u00e3o da radia\u00e7\u00e3o, da polui\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e de outros fatores &#8212; no livro temos um grupo de soldados que enfrenta a possibilidade de extin\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida humana.<\/p>\n<p>Em ambos os contos, por\u00e9m, temos a s\u00edndrome do Aprendiz de Feiticeiro, com a humanidade tendo de enfrentar as suas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es para tentar sobreviver. E como se trata de PKD, esta luta envolve quest\u00f5es como &#8220;quem sou eu&#8221;, &#8220;quem \u00e9 o meu inimigo de fato&#8221;, &#8220;o que \u00e9 real e o que \u00e9 ilus\u00e3o&#8221; e outras que te fazem derreter o c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Embora ainda n\u00e3o tenha me satisfeito plenamente, este conto me pareceu, em uma primeira leitura, ser nitidamente superior a &#8220;Recordamos para voc\u00ea por atacado&#8221; porque, embora partindo de uma premissa menos interessante, ele tem uma realiza\u00e7\u00e3o mais regular e o final n\u00e3o exige do leitor um grau excessivo de suspens\u00e3o da descren\u00e7a. O filme, por\u00e9m, \u00e9 uma bobagem que perverte totalmente a qualidade da hist\u00f3ria imaginada por PKD.<\/p>\n<p>Em seguida temos &#8220;Impostor&#8221; (o filme de mesmo nome \u00e9 tremendamente obscuro e eu n\u00e3o o vi para poder comparar se o argumento de PKD foi minimamente respeitado). O conto \u00e9 primoroso e, embora exija um alto grau de suspens\u00e3o da descren\u00e7a, ele funciona sem problemas porque a suspens\u00e3o de descren\u00e7a \u00e9 constru\u00edda de forma gradual e s\u00f3 \u00e9 exigida uma \u00fanica vez. Com apenas vinte p\u00e1ginas, \u00e9 o conto mais curto &#8212; e tamb\u00e9m o mais coeso do livro (se \u00e9 que &#8220;coes\u00e3o&#8221; pode ser menciona em rela\u00e7\u00e3o ao autor).<\/p>\n<p>A narrativa \u00e9, como quase sempre acontece nas obras de PKD, em ordem cronol\u00f3gica (ainda que, nas melhores de suas obras, a cronologia rapidamente passe a ter pouqu\u00edssimo sentido) e, como deve acontecer em um conto de boa qualidade, n\u00e3o tem interrup\u00e7\u00f5es de fluxo. Come\u00e7amos a acompanhar o cientista Spence Ollham quando ele desperta e o seguimos at\u00e9 a manh\u00e3 do dia seguinte. N\u00e3o h\u00e1 idas e vindas temporais (embora nesse intervalo haja tempo para ele ir \u00e0 lua e voltar). O argumento \u00e9 relativamente simples (para os padr\u00f5es de PKD): estamos em guerra com uma civiliza\u00e7\u00e3o alien\u00edgena que possui armas ofensivas superiores \u00e0s nossas em quase todos os aspectos, mas a Terra possui escudos de energia, entre outras armas de defesa, muito superiores. Neste momento a Terra est\u00e1 prestes a construir uma arma ofensiva que pode virar o fluxo da guerra &#8212; e Ollham \u00e9 parte disso at\u00e9 ser preso pela pol\u00edcia secreta com uma acusa\u00e7\u00e3o chocante: a de n\u00e3o ser ele mesmo, mas um impostor alien\u00edgena.<\/p>\n<p>O conto seguinte \u00e9 &#8220;Relat\u00f3rio Minorit\u00e1rio&#8221;, que deu origem ao famoso filme com Tom Cruise. A leitura deste conto explica muita coisa sobre o porqu\u00ea de Hollywood ser uma ind\u00fastria moralmente falida, hoje incapaz de produzir filmes s\u00e9rios. Como foi poss\u00edvel pegarem esta obra estranha, obscura, c\u00ednica e absolutamente *amoral* e transform\u00e1-la em um filme de mocinho contra bandido e um final feliz para cada gosto, como em novela mexicana?<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre o que PKD escreveu e o que se filmou naquela aberra\u00e7\u00e3o superproduzida s\u00e3o t\u00e3o gritantes que \u00e9 quase imposs\u00edvel mencion\u00e1-las sem dar *spoilers* do conto &#8212; o que venho tentando fazer at\u00e9 aqui. Como no filme, temos o conceito de um \u00f3rg\u00e3o policial que prende as pessoas que supostamente vir\u00e3o a cometer crimes, com base em predi\u00e7\u00f5es feitas por &#8220;mutantes prescientes&#8221; (PreCogs, no conto) e cujo diretor \u00e9 incriminado de um crime que supostamente cometer\u00e1. A partir da\u00ed praticamente j\u00e1 nada coincide entre as duas vers\u00f5es.<\/p>\n<p>Comecemos pelo fato de que no filme o dilema central \u00e9 a luta do chefe de pol\u00edcia Anderton para evitar ser preso porque acredita ser inocente. No conto, Anderton imediatamente acredita que sua acusa\u00e7\u00e3o foi resultante de uma manipula\u00e7\u00e3o do sistema, uma conspira\u00e7\u00e3o para afast\u00e1-lo (ele, o fundador da Divis\u00e3o Pr\u00e9-Crime) e p\u00f4r em seu lugar um substituto favorito do governo (Witwer). No filme temos uma motiva\u00e7\u00e3o ego\u00edsta (Anderton n\u00e3o quer ser preso porque acha que \u00e9 inocente), no livro a motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente altru\u00edsta (Anderton acredita que o sistema foi corrompido e se a conspira\u00e7\u00e3o for bem sucedida o governo passar\u00e1 a usar a corrup\u00e7\u00e3o do sistema como uma ferramenta para eliminar os indesej\u00e1veis).<\/p>\n<p>Analisando friamente, o dilme moral abordado por PKD \u00e9 muito mais significativo e corajoso. No filme existe uma cren\u00e7a inerente no sistema: a acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 um erro e Anderton deseja inocentar-se (ainda que saiba que se conseguir ficar sem cometer o crime isso destruir\u00e1 a credibilidade da Pr\u00e9-Crime). No conto existe uma preocupa\u00e7\u00e3o latente com o abuso: o sistema \u00e9 corrupto por natureza (o governo \u00e9 corrupto, o ex\u00e9rcito \u00e9 corrupto e a repress\u00e3o \u00e9 generalizada na socidade, embora &#8220;branda&#8221;) e a Divis\u00e3o Pr\u00e9-Crime \u00e9 supostamente &#8220;limpa&#8221; porque sua precis\u00e3o interessa ao governo (que deseja manter a sociedade livre de crimes para poder assegurar o conformismo). Mais do que isso, o Anderton do conto n\u00e3o pretende inocentar-se, mas desvendar uma interfer\u00eancia indevida no trabalho da Divis\u00e3o Pr\u00e9-Crime (o que, acidentalmente, significaria inocent\u00e1-lo).<\/p>\n<p>**Este par\u00e1grafo cont\u00e9m *spoilers***. A diferen\u00e7a de qualidade entre a vers\u00e3o filmada e a original reside na previsibilidade. Enquanto no filme todos mais ou menos sabemos que Anderton conseguir\u00e1 provar sua inoc\u00eancia &#8212; e para isso tem a ajuda benevolente de gente de dentro do sistema &#8212; no conto n\u00e3o existe nenhuma certeza disso porque as vari\u00e1veis se alternam o tempo todo: aliados trocam de lado e a cada p\u00e1gina Anderton tem de refazer sua interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos. No final, PKD nos oferece uma conclus\u00e3o filos\u00f3fica absurda, mas que se revela verdadeira nos termos em que ele a  coloca: a injusti\u00e7a \u00e9 a \u00fanica forma real de justi\u00e7a, pois a tentativa de implantar justi\u00e7a formal redundaria em mais viol\u00eancia e na pr\u00e1tica generalizada de injusti\u00e7as e isto reinterpreta toda a cadeia de eventos do conto. Anderton, mesmo determinado a provar a pr\u00f3pria inoc\u00eancia, *comete* o crime para legitimar a divis\u00e3o Pr\u00e9-Crime, e o faz para evitar que o ex\u00e9rcito d\u00ea um golpe de estado e reimplante a antiga lei formal baseada na presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia; pois acredita que institui\u00e7\u00f5es corrompidas, como o ex\u00e9rcito do conto, s\u00f3 se prop\u00f5em a fazer o bem quando desejam utiliz\u00e1-lo como pretexto para fazer o mal. **Fim dos *spoilers***<\/p>\n<p>Nem preciso dizer que &#8220;Relat\u00f3rio Minorit\u00e1rio&#8221; foi o conto que mais gostei, entre os desta colet\u00e2nea, mas o conto seguinte, &#8220;O Pagamento&#8221;, tamb\u00e9m \u00e9 muito bom, e s\u00f3 perde a primazia por se tratar de uma hist\u00f3ria envolvendo viagem no tempo &#8212; tema pelo qual eu tenho not\u00e1vel avers\u00e3o. S\u00f3 que, quando se trata de PKD, uma viagem no tempo n\u00e3o \u00e9 qualquer viagem no tempo, e isso ajuda a superar minha dificuldade de digerir o tema.<\/p>\n<p>&#8220;O Pagamento&#8221; &#8212; que deu origem a um filme dirigido por John Woo, o que deve significar muita a\u00e7\u00e3o coreografada e um ritmo alucinante, mas sem reflex\u00f5es &#8212; come\u00e7a com uma premissa interessante: um eletrot\u00e9cnico chega a Nova Iorque em um avi\u00e3o particular, ao final de um contrato de trabalho de dois anos, para receber o seu pagamento. Ao chegar \u00e0 sede da empresa, descobre que, *conforme seu desejo*, em vez de dinheiro a empresa lhe entregar\u00e1 como pagamento um saco de pano contendo sete misteriosos objetos: uma chave codificada, um canhoto de ingresso de cinema (e n\u00e3o um canhoto de passagem, conforme erroneamente traduzido), um recibo de dep\u00f3sito banc\u00e1rio, peda\u00e7o de fio met\u00e1lico, a metade de uma ficha de cassino partida ao meio, uma tira de pano verde e uma passagem de \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Acontece que Jennings, o eletrot\u00e9cnico, n\u00e3o se lembra de ter feito tal pedido, e n\u00e3o se lembra de nada do que fez durante os dois anos de seu contrato: sua mem\u00f3ria referente ao per\u00edodo foi apagada e ele n\u00e3o sabe nem o que fazia e nem porque escolheu tais d\u00edspares objetos. Para piorar as coisas: logo ao sair da sede da empresa ele \u00e9 preso pela pol\u00edcia secreta, que deseja saber o que ele fazia durante seus dois anos de contrato. **Spoilers adiante.** Gradualmente, Jennings percebe que os sete objetos n\u00e3o s\u00e3o aleat\u00f3rios e nem in\u00fateis: na verdade eles v\u00e3o se tornando gradualmente mais importantes, inicialmente *apenas* salvando a sua vida de forma imediata, mas progressivamente ajudando-o a realizar fa\u00e7anhas cada vez mais grandiosas. **Fim dos Spoilers.**<\/p>\n<p>Existe um forte subtexto pol\u00edtico neste conto, e tal subtexto se mostra t\u00e3o prof\u00e9tico e atual que at\u00e9 nos assusta, especialmente aqueles que t\u00eam acompanhado o desenrolar da pol\u00edtica na Europa e nos Estados Unidos. No futuro dist\u00f3pico de PKD (todos os seus futuros parecem s\u00ea-lo) o regime democr\u00e1tico j\u00e1 n\u00e3o existe: o governo \u00e9 uma ditadura, endurecida periodicamente por novos golpes de estado. Neste contexto a vida e a liberdade dos cidad\u00e3os j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam garantias, somente a autonomia das grandes empresas ainda \u00e9 respeitada, porque os governos dependem delas para obter fundos e recursos materiais. Isto leva \u00e0 ir\u00f4nica cena em que Jennings conclui que para se proteger ele precisa estar sob a \u00e9gide de uma grande companhia. \u00c0 primeira vista este *status quo* parece benigno, pois a Construtura Rethrick, para a qual ele trabalhou, parece uma empresa voltada para o bem e, afinal, as empresas parece que protegem seus empregados. Gradualmente essa certeza vira fuma\u00e7a, \u00e0 medida que conhecemos o car\u00e1ter de Earl Rethrick, suas lealdades e seus objetivos. No fim percebemos que nenhum dos personagens merece nossa torcida, afinal.<\/p>\n<p>O conto mais perturbador e pol\u00eamico do volume \u00e9 &#8220;O Homem Dourado&#8221; &#8212; inspirador do filme &#8220;O Vidente&#8221;, que eu tamb\u00e9m n\u00e3o vi e sobre o qual, obviamente, n\u00e3o posso falar. Publicado em 1954, esse conto parece ter sido a fonte de **todo** o conceito dos X-Men e dos argumentos de suas primeiras hist\u00f3rias. Certamente, se PKD n\u00e3o vivesse em um mundo t\u00e3o particular, t\u00e3o raramente interagindo com o nosso mundo real, ele teria percebido ou teria se importado em processar Stan Lee. Ou talvez simplesmente ele n\u00e3o pudesse faz\u00ea-lo, pois as leis americanas de direito autoral eram, at\u00e9 recentemente, bastante desfavor\u00e1veis aos autores.<\/p>\n<p>Ambientado em um momento indefinido do futuro (a tecnologia n\u00e3o \u00e9 radicalmente diferente da nossa, apenas existem alguns objetos &#8220;novos&#8221;), o conto se passa uma ou duas d\u00e9cadas ap\u00f3s uma guerra nuclear que &#8220;contaminou&#8221; a humanidade e desencadeou o surgimento de &#8220;desviantes&#8221; &#8212; humanos mutantes de aspecto quase sempre repulsivo e dotados de habilidades diversas. A humanidade rejeita os &#8220;desviantes&#8221; de uma maneira radical: uma vez identificados, todos s\u00e3o levados para centros de pesquisa onde s\u00e3o estudados por algum tempo e depois sofrem &#8220;eutan\u00e1sia&#8221;. Isto ocorre por causa do temor de que eles, ao possuirem maior aptid\u00e3o evolutiva (ainda que dependente de nichos) acabem por substituir a humanidade.  **Spoilers grav\u00edssimos \u00e0 frente**. Toda essa precau\u00e7\u00e3o se revela apropriada aos olhos da popula\u00e7\u00e3o, especialmente por causa das consequ\u00eancias de se tentar &#8220;introduzir&#8221; alguns tipos desviantes mais benignos (humanos com m\u00faltiplas mamas). Mas os procedimentos da ag\u00eancia de controle dos desviantes ficam em xeque quando descobrem um novo tipo de mutante, que parece ter sido justamente criado para explorar as fraquezas humanas, em vez de explorar nichos da natureza.  **Fim dos spoilers**<\/p>\n<p>Seria imposs\u00edvel falar mais a respeito deste conto sem estragar completamente a experi\u00eancia de quem se proponha a l\u00ea-lo. O m\u00e1ximo que posso dizer \u00e9 que esta ser\u00e1 uma leitura indigesta para feministas (PKD n\u00e3o \u00e9 um autor particularmente mis\u00f3gino, e de fato ele quase sempre apresenta a mulher em p\u00e9 de igualdade com o homem).<\/p>\n<p>O \u00faltimo conto da colet\u00e2nea \u00e9 &#8220;Equipe de Ajuste&#8221;, que inspirou o filme &#8220;Agentes do Destino&#8221; &#8212; que tampouco vi e que n\u00e3o posso, logo, comentar. Tamb\u00e9m datado de 1954, \u00e9poca em que PKD ganhava a vida vendendo contos para revistas, o conto exige imensa suspens\u00e3o de descren\u00e7a, mas como o faz somente uma vez, o leitor \u00e9 conquistado logo de cara para a hist\u00f3ria, que \u00e9 em si um tanto absurda e tem pontos de contato com &#8220;Os Langoliers&#8221; (de Stephen King).<\/p>\n<p>O conto se baseia na premissa de que h\u00e1 inst\u00e2ncias superiores \u00e0 humanidade que interferem na ordem natural das coisas a fim de ajustar as pessoas e as coisas de forma a produzir os desejados efeitos hist\u00f3ricos. Este \u00e9 um conceito que evoca a obra de B\u00f3ris e Arkady Strugatsky, os geniais autores russos de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, cujos &#8220;progressores&#8221; se parecem um tanto com os membros da &#8220;equipe de ajuste&#8221; de PKD. H\u00e1 pontos de contato, tamb\u00e9m, com os &#8220;puppeteers&#8221; os &#8220;outsiders&#8221; do universo ficcional de Larry Niven.<\/p>\n<p>Apesar de sua evidente qualidade, por\u00e9m, este conto n\u00e3o me pareceu t\u00e3o satisfat\u00f3rio quanto os citados &#8220;Relat\u00f3rio Minorit\u00e1rio&#8221;, &#8220;Segunda Variedade&#8221; e &#8220;O Impostor&#8221; e at\u00e9 me pareceu o menos satisfat\u00f3rio do volume.<\/p>\n<p>A colet\u00e2nea da Editora Pauliceia parece ter sido arranjada \u00e0s pressas para se aproveitar da fama do filme &#8220;O Vingador do Futuro&#8221; (todas as vezes que escrevo este t\u00edtulo eu tenho de tossir para arrancar de mim a impress\u00e3o de qu\u00e3o ruim esse t\u00edtulo \u00e9). Apesar disso re\u00fane uma ador\u00e1vel s\u00e9rie de contos, em boa tradu\u00e7\u00e3o &#8212; apesar de n\u00e3o haver introdu\u00e7\u00f5es nem notas biobibliogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>> Conte\u00fado:<br \/>\n> &#8220;Recordamos Para Voc\u00ea Por Atacado&#8221; (We Can Remember It For You Wholesale, 1966)<br \/>\n> &#8220;A Mente Alien\u00edgena&#8221; (The Alien Mind, 1981)<br \/>\n> &#8220;Revanche&#8221; (Return Match, 1967)<br \/>\n> &#8220;N\u00e3o Julgue Pela Capa&#8221; (Not By Its Cover, 1968)<br \/>\n> &#8220;A Formiga El\u00e9trica&#8221; (The Electric Ant, 1969)<br \/>\n> &#8220;A Pequena Caixa Preta&#8221; (The Little Black Box, 1964)<br \/>\n> &#8220;Estranhas Mem\u00f3rias da Morte&#8221; (Strange Memories of Death, 1984)<br \/>\n> &#8220;O Olho da Sibila&#8221; (Eye of the Sibyl, 1987)<\/p>\n<p>&#8220;A Mente Alien\u00edgena&#8221; \u00e9 um conto curtinho sobre a viagem de um &#8220;caminhoneiro espacial&#8221; a um distante planeta cujos habitantes precisam de uma vacina produzida na terra. A viagem \u00e9 significativamente atrasada pela interfer\u00eancia de Norman, o gato de estima\u00e7\u00e3o do \u00fanico tripulante do transporte. Por causa disso, Bedford, o tripulante, mata o animal em um acesso de f\u00faria (e PKD notoriamente detestava gatos) e o ejeta para o espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s chegar ao seu destino, por\u00e9m, a aus\u00eancia do gato se revela um grande problema pois a mente alien\u00edgena funciona de maneira, \u00e0s vezes, muito diferente da humana.<\/p>\n<p>&#8220;A Revanche&#8221; \u00e9 o segundo melhor conto desta colet\u00e2nea, pois \u00e9 o primeiro (a n\u00e3o ser pela j\u00e1 analisado &#8220;Recordamos para voc\u00ea&#8230;&#8221;) em que PKD parte a abordar a dimens\u00e3o psicol\u00f3gica de seus personagens, e da humanidade de forma geral.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 bastante simples: seres alien\u00edgenas que n\u00e3o seguem os tratados interplanet\u00e1rios (&#8220;g\u00e2ngsteres&#8221; do espa\u00e7o, assim digamos) pousam na terra cassinos ilegais. Como o jogo de azar foi proibido em todo o planeta, os adeptos da jogatina correm a tais cassinos aos montes, para grande lucro de tais g\u00e2ngsteres do espa\u00e7o, o que parece fazer muito sentido, mas ent\u00e3o o autor introduz sua nota de insanidade e perverte o senso comum: nos cassinos alien\u00edgenas todas as m\u00e1quinas est\u00e3o programadas n\u00e3o apenas para derrotar o jogador humano inexoravelmente como possuem a habilidade de aprender com o jogador e, desta forma, cada vez que um jogo \u00e9 jogado ele est\u00e1 mais dif\u00edcil ainda de ganhar. A sorte n\u00e3o tem nenhum sentido, pois mesmo as vit\u00f3rias oriundas do acaso s\u00e3o prevenidas pelo aprendizado das m\u00e1quinas, de forma que o jogador *sempre perde*.<\/p>\n<p>Se isto n\u00e3o fosse bastante para desacreditar tais cassinos ainda h\u00e1 uma nota t\u00e9trica: sempre que a pol\u00edcia toma conhecimento de tais cassinos, a nave espacial que os trouxe decola de volta ao espa\u00e7o, incinerando tudo abaixo de si com o seu jato &#8212; o que \u00e9 &#8220;eficiente&#8221;, nas palavras do her\u00f3i, Joseph Tinbane, porque n\u00e3o s\u00f3 os alien\u00edgenas escapam, como destroem toda evid\u00eancia de sua atividade ilegal, impedem a sua identifica\u00e7\u00e3o (n\u00e3o se sabe quem s\u00e3o os g\u00e2ngsteres do espa\u00e7o) e impossibilitam que qualquer conhecimento sobre seus jogos possa ser usado para obter vantagem contra eles.<\/p>\n<p>Mesmo assim, mesmo sabendo que fatalmente perder\u00e3o e que morrer\u00e3o horrivelmente se a pol\u00edcia os descobrir, os jogadores humanos continuam comparecendo, sempre em grande n\u00famero e h\u00e1 at\u00e9 mesmo uma rede subterr\u00e2nea de informantes para circular o conhecimento das datas e locais onde os cassinos pousar\u00e3o. O que faz o ser humano agir assim?<\/p>\n<p>PKD n\u00e3o responde,  e nem \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do ficcionista responder a isso, mas h\u00e1 a sugest\u00e3o de que seja o mesmo motivo que leva as pessoas a fumarem, sabendo que s\u00f3 a doen\u00e7a aguarda quem o faz &#8212; e Joseph Tinbane \u00e9 viciado em rap\u00e9, uma forma agravada de v\u00edcio no tabaco, o que n\u00e3o deixa de ser ir\u00f4nico. <\/p>\n<p>Entretanto a pol\u00edcia sabe que est\u00e1, tamb\u00e9m, em um jogo: o que os alien\u00edgenas querem \u00e9 que a pol\u00edcia, em nome de sentimentos humanit\u00e1rios, deixe de realizar batidas nos cassinos, com o que a jogatina alien\u00edgena teria curso desenfreado &#8212; e j\u00e1 sabemos o quanto ela \u00e9 perigosa. Existe nisso uma met\u00e1fora (talvez n\u00e3o intencional) sobre a guerra \u00e0s drogas. Por causa dos grandes danos sociais que a repress\u00e3o tem causado a sociedades e pa\u00edses inteiros, existe um movimento para legaliza\u00e7\u00e3o das drogas, para que a pol\u00edcia deixe de reprimir. Por\u00e9m sabemos que as drogas, assim como o jogo alien\u00edgena em que \u00e9 imposs\u00edvel ganhar, nada trazem de bom. Ent\u00e3o nos vemos divididos entre uma repress\u00e3o que mata (embora n\u00e3o t\u00e3o espetacular e limpamente como no conto) e uma toler\u00e2ncia que deixaria agirem livremente aqueles que lucram com um dos maiores flagelos da humanidade.<\/p>\n<p>O conto ainda tem um segundo n\u00edvel de jogo, mais imediato, pois Tinbane e os policiais, sabendo que est\u00e3o jogando e que \u00e9 imposs\u00edvel ganhar, *continuam jogando*, metaforica e literalmente. Em desfavor deste conto a \u00fanica coisa que eu poderia dizer \u00e9 que ele talvez se beneficiasse de *n\u00e3o ter um final*, de abandonar os policiais no meio de sua ca\u00e7ada, apenas tendo feito as considera\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas mais profundas. Sei que isso n\u00e3o satisfar\u00e1 ao leitor comum &#8212; tal como certamente n\u00e3o satisfez aos editores que publicaram este conto originalmente &#8212; mas isso seria muito mais honesto.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o Julgue Pela Capa&#8221; \u00e9 o mais ing\u00eanuo e certamente o mais fraco dentre os contos desta colet\u00e2nea. \u00c9 uma historinha simples, sobre como livros encadernados na pele de um animal marciano t\u00eam o seu conte\u00fado adulterado misteriosamente. As adultera\u00e7\u00f5es sempre s\u00e3o no sentido de apoiar a tese da sobreviv\u00eancia da alma, e o conto transparece certo sentido de f\u00e9 religiosa vulgar, o que parece at\u00e9 deslocado na fic\u00e7\u00e3o de PKD. Segundo o autor, o conto foi uma homenagem sua \u00e0 B\u00edblia e uma manifesta\u00e7\u00e3o de seu desejo interior de que a religi\u00e3o fosse verdade.<\/p>\n<p>&#8220;A Formiga El\u00e9trica&#8221; \u00e9 o terceiro melhor conto desta colet\u00e2nea e me parece ter sido a inspira\u00e7\u00e3o da roqueira Pitty para a faixa &#8220;Admir\u00e1vel Chip Novo&#8221;, do \u00e1lbum hom\u00f4nimo, embora ela tenha feito algumas altera\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao argumento do conto.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7a bem simples: Garson Poole, um bem-sucedido empres\u00e1rio, acorda em um hospital depois de ter sido atropelado e ent\u00e3o descobre, para seu espanto, que n\u00e3o \u00e9 quem pensava ser. A sua descoberta, por\u00e9m, \u00e9  s\u00f3 a porta para toda uma s\u00e9rie de novas experi\u00eancias pois ele acredita que est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de experimentar coisas que nenhum outro indiv\u00edduo antes experimentara. E quando PKD resolve fazer seus personagens &#8220;experimentarem&#8221; o resultado nunca \u00e9 confort\u00e1vel, creia em mim.<\/p>\n<p>A religiosidade de PKD parece mais elaborada &#8212; e menos piegas &#8212; no perturbador conto &#8220;A Pequena Caixa Preta&#8221;, que fala sobre um misterioso artefato (de origem desconhecida, talvez alien\u00edgena) atrav\u00e9s do qual as pessoas acompanham todas as experi\u00eancias de um misterioso personagem, Wilbur Mercer, uma esp\u00e9cie de messias da nova era. O culto de Mercer  parece tomar a Terra toda em frenesi, ganhando novos conversos a cada dia n\u00e3o por causa das ideias de seu pregador (que nunca \u00e9 visto, a n\u00e3o ser em imagens de televis\u00e3o) mas por causa da possibilidade de experimentar todas as suas inst\u00e2ncias de prazer **e dor** (principalmente dor). <\/p>\n<p>A necessidade de experimentar a dor, uma dor real e simultaneamente espiritual, \u00e9 o que leva milh\u00f5es e bilh\u00f5es de humanos a se renderem a um culto incompreens\u00edvel e sem sentido &#8212; e isto, paradoxalmente, seduz at\u00e9 aos mais inteligentes, que dele se aproximam inicialmente com o objetivo de estud\u00e1-lo, e possivelmente combat\u00ea-lo. A realidade da dor fict\u00edcia \u00e9 t\u00e3o forte que suplanta a racionalidade humana e amea\u00e7a a pr\u00f3pria sanidade coletiva da humanidade \u00e0 medida em que Mercer, como Cristo, se aproxima de uma Paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de nos levar ao extremo da loucura religiosa, a colet\u00e2nea nos atira violentamente de volta \u00e0 Terra atrav\u00e9s do conto &#8220;Estranhas Mem\u00f3rias da Morte&#8221; que eu, particularmente, considero um dos melhores contos jamais escritos. E \u00e9 um conto destoante na fic\u00e7\u00e3o de PKD, por n\u00e3o ser uma obra de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Trata-se, para come\u00e7o de conversa, de um modelo de &#8220;conto&#8221; no sentido do &#8220;racconto&#8221; italiano e do conto franco-ib\u00e9rico. Existe concis\u00e3o e existe unidade de tempo-espa\u00e7o-a\u00e7\u00e3o. De fato h\u00e1 tanta concis\u00e3o que at\u00e9 o \u00faltimo momento da hist\u00f3ria n\u00f3s s\u00f3 temos a consci\u00eancia de um personagem, nunca nomeado, que nos conta a hist\u00f3ria quase completa em um desenfreado fluxo de consci\u00eancia. Toda a hist\u00f3ria parece existir apenas dentro da mente deste narrador n\u00e3o onisciente e espectador parcial da vida alheia. Ele \u00e9 inquilino de um pr\u00e9dio decr\u00e9pito em vias de ser demolido, em todo o pr\u00e9dio todos os moradores est\u00e3o mudando ou j\u00e1 se mudaram, menos ele e uma senhora misteriosa, que ele apelida de &#8220;a dama do Lysol&#8221; por causa do forte cheiro deste produto de limpeza que o seu apartamento exala.<\/p>\n<p>A Dama do Lysol, a exemplo dele, reluta em deixar seu apartamento. Ele reluta porque n\u00e3o tem dinheiro para comprar outro e porque n\u00e3o consegue um aluguel equivalente. Ele regateia com a construtora at\u00e9 finalmente obter um bom desconto, e um apartamento inferior, e assim se prepara para mudar. A Dama do Lysol, por\u00e9m, \u00e9 uma senhora reclusa, solit\u00e1ria e com aparentes problemas para compreender o mundo moderno. Ele n\u00e3o consegue imaginar que ela possa negociar com os &#8220;falc\u00f5es&#8221; da imobili\u00e1ria, mas ao mesmo tempo n\u00e3o tem a oportunidade de ajud\u00e1-la porque, nos muitos anos em que viveram mesmo pr\u00e9dio, nunca desenvolveram qualquer contato. Por fim vamos percebendo que o narrador \u00e9 t\u00e3o recluso e esquisito quanto a Dama do Lysol, e \u00e9 por isso que sua compaix\u00e3o n\u00e3o se traduz em nenhum tipo de a\u00e7\u00e3o, apesar do crescente sentimento de culpa \u00e0 medida em que o prazo para deixar o pr\u00e9dio se esgota.<\/p>\n<p>O \u00faltimo conto da colet\u00e2nea, e o \u00faltimo de PKD que eu li nesta maratona, foi &#8220;O Olho da Sibila&#8221;, um exemplo da originalidade de PKD, embora aqui ele n\u00e3o tente derreter seu c\u00e9rebro com filosofias insanas. Come\u00e7ando como um conto de ambienta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, &#8220;O Olho da Sibila&#8221; progride em ritmo veloz rumo a outros tempos e espa\u00e7os, de uma forma que s\u00f3 PKD consegue, e de uma forma que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mencionar, nem de soslaio, sem estragar completamente o prazer da leitura.<\/p>\n<p>Ao fim da maratona, consegui estabelecer uma lista dos meus contos favoritos, entre os que li:<\/p>\n<p>1. Estranhas Mem\u00f3rias da Morte<br \/>\n2. Relat\u00f3rio Minorit\u00e1rio<br \/>\n3. Impostor<br \/>\n4. Segunda Variedade<br \/>\n5. A Pequena Caixa Preta<br \/>\n6. A Formiga El\u00e9trica<br \/>\n7. O Olho da Sibila<br \/>\n8. O Pagamento<br \/>\n9. O Homem Dourado<br \/>\n10. Recordamos Para Voc\u00ea Por Atacado<br \/>\n11. A Revanche<br \/>\n12. Equipe de Ajuste<br \/>\n13. A Mente Alien\u00edgena<br \/>\n14. N\u00e3o Julgue Pela Capa<\/p>\n<p>Observando a lista, v\u00ea-se que dos sete primeiros colocados, quatro est\u00e3o na colet\u00e2nea da Editora Paulic\u00e9ia e tr\u00eas na da Aleph (e ambas as colet\u00e2neas t\u00eam, curiosamente, a mesma quantidade de textos). Ao escrever originalmente esta resenha eu n\u00e3o tinha acesso aos t\u00edtulos originais de todos os contos e nem suas datas de publica\u00e7\u00e3o (que obtive posteriormente na Wikipedia). Com base nisso, posso agora afirmar que a colet\u00e2nea da Paulic\u00e9ia reflete um autor mais maduro (por\u00e9m significativamente afetado, tamb\u00e9m, por sua esquizofrenia e pelo uso de drogas). O conto mais recente contido na colet\u00e2nea da Aleph \u00e9 justamente o primeiro, &#8220;Recordamos Para Voc\u00ea Por Atacado&#8221;, que \u00e9 de 1966, e todos os demais s\u00e3o datados da d\u00e9cada anterior, \u00e9poca em que PKD ainda n\u00e3o era um autor profissional firmemente estabelecido. Entre os contos da colet\u00e2nea da Paulic\u00e9ia, o mais antigo \u00e9 &#8220;A Pequena Caixa Preta&#8221;, datado de 1964 e dois foram publicados j\u00e1 nos anos oitenta, embora escritos na d\u00e9cada anterior.<\/p>\n<p>Vale lembrar que estas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas obras de PKD que eu j\u00e1 li. Em minha mem\u00f3ria ainda jazem recorda\u00e7\u00f5es de &#8220;O Homem do Castelo Alto&#8221;, &#8220;Andr\u00f3ides Sonham com Ovelhas El\u00e9tricas&#8221; e v\u00e1rios romances publicados com t\u00edtulos absurdos que eu ainda n\u00e3o consegui identificar em ingl\u00eas. Minha pr\u00f3xima leitura dele ser\u00e1 &#8220;Ubik&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo Philip K. Dick figura na minha lista de autores favoritos, por causa da mirabolante confus\u00e3o que s\u00e3o os seus contos. Aproveitando o tempo livre das f\u00e9rias, resolvi p\u00f4r em dia a leitura de v\u00e1rios livros adquiridos nos \u00faltimos dois anos e que estavam em minha estante criando poeira. Entre estas leituras, a de duas colet\u00e2neas de contos de PKD, um de meus autores favoritos: &#8220;O Vingador do Futuro&#8221; &#8212; colet\u00e2nea oportunista lan\u00e7ada pela Editora Paulic\u00e9ia na \u00e9poca do filme de mesmo nome [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[142],"tags":[20,148,32,59],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2436"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2436"}],"version-history":[{"count":8,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2436\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4666,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2436\/revisions\/4666"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}