{"id":2467,"date":"2015-01-01T17:31:01","date_gmt":"2015-01-01T20:31:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2467"},"modified":"2017-11-02T14:08:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:08","slug":"13-razoes-pelas-quaes-a-orthographia-etymologica-nao-deveria-ter-sido-abolida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/01\/13-razoes-pelas-quaes-a-orthographia-etymologica-nao-deveria-ter-sido-abolida\/","title":{"rendered":"13 Raz\u00f5es Pelas Quaes a Orthographia Etymologica N\u00e3o Deveria Ter Sido Abolida"},"content":{"rendered":"<p>A lingua escripta, nos ensina Marcos Bagno,<a href=\"#fn1\" class=\"footnoteRef\" id=\"fnref1\"><sup>1<\/sup><\/a> n\u00e3o eh de facto a lingua em si, mas uma idealiza\u00e7\u00e3o da lingua falada em determinado momento de sua historia. Idealiza\u00e7\u00e3o posto que os grammaticos n\u00e3o apenas document\u00e3o a lingua conforme a estud\u00e3o, mas tamb\u00e9m introduzem inova\u00e7\u00f5es, regulariza\u00e7\u00f5es, simplifica\u00e7\u00f5es e, lamentavelmente, complica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Eh necessario que a lingua escripta evolua, para que a distancia entre ela e os diversos falares do povo n\u00e3o se torne t\u00e3o grande que tenhamos uma situa\u00e7\u00e3o de diglossia. Esta evolu\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, deve ser natural, n\u00e3o s\u00f3 para que n\u00e3o se rompa a continuidade evolutiva do idioma, mas tamb\u00e9m porque tentativas de reforma linguistica de cima para baixo, de forma impositiva, est\u00e3o fadadas ao fracasso. Eh meu entendimento que a adop\u00e7\u00e3o de uma orthographia dita \u201csimplificada\u201d, em Portugal a partir de 1910 e no Brazil a partir de 1946, n\u00e3o foi um fator significativo para melhorar a proficiencia dos cidad\u00e3os de ambos os paizes em seu vernaculo. A melhora que efectivamente houve, deveu-se mais ao crescimento dos investimentos em educa\u00e7\u00e3o, que teriam sido feitos de qualquer maneira.<\/p>\n<p>Neste artigo pretendo demonstrar que:<\/p>\n<ol>\n<li>\n<p>A orthographia etymologica nunca foi t\u00e3o difficil quanto seus detractores a fizeram parecer<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>A orthographia simplificada, se bem que efetivamente simplificou a graphia de certas palavras, introduziu problemas novos, para os quaes a antiga norma j\u00e1 tinha solu\u00e7\u00f5es simples.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>O uso da orthographia etymologica seria util para facilitar o acesso \u00e1s litteraturas ingleza e franceza, al\u00e9m dos antigos textos latinos.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Escripto na norma etymologica o portuguez se parece mais a uma lingua internacional e sofreria menos resistencia de estudantes estrangeiros.<\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p>Como parte desta demonstra\u00e7\u00e3o, este texto vae todo escripto conforme conven\u00e7\u00f5es etymologicas, com alguns modernismos necessarios dado o tempo transcorrido entre 1946 e hoje, eis que n\u00e3o pretendo escrever archaicamente, mas escrever a lingua de hoje conforme as normas de antigamente.<\/p>\n<h3>A Orthographia Etymologica Foi Producto de Evolu\u00e7\u00e3o Gradual<\/h3>\n<p>A lingua portugueza atravessou cinco periodos principaes em sua historia:<\/p>\n<dl>\n<dt>Romance<\/dt>\n<dd>Caracterizado pela ausencia de escripta, pois os documentos formais eram em latim. O pouco que se sabe desta epocha eh atrav\u00e9s de interpola\u00e7\u00f5es (palavras vulgares que os escriptores empregav\u00e3o por engano)\n<\/dd>\n<dt>Medieval<\/dt>\n<dd>Caracterizado pela ausencia de normas orthographicas, cada autor escrevia conforme sua preferencia, o que causava a existencia de diversas formas para a mesma palavra, conforme os valores phoneticos das lettras nos diversos dialectos, sua mudan\u00e7a atrav\u00e9s dos annos e a tentativa de imita\u00e7\u00e3o de textos antigos.\n<\/dd>\n<dt>Renascentista<\/dt>\n<dd>Caracterizado pelo surgimento de certos padr\u00f5es de escripta, a partir do costume. Novos autores tendem a imitar a forma como os antigos escreviam. Entre os formadores das conven\u00e7\u00f5es, destaca-se o poeta S\u00e1 de Miranda.\n<\/dd>\n<dt>Cl\u00e1ssico<\/dt>\n<dd>Caracterizado pela padroniza\u00e7\u00e3o da escripta do portuguez, inicia-se no seculo XVII, quando se publicam as primeiras grammaticas. Rapidamente s\u00e3o identificadas as origens das palavras e estabelecidos os principios etymologicos da escrita, seguindo uma inspira\u00e7\u00e3o do francez e do inglez, mas tamb\u00e9m do alem\u00e3o e do latim.\n<\/dd>\n<dt>Moderno<\/dt>\n<dd>A partir do in\u00edcio do seculo XX, philologos e escriptores rejeitam a orthographia etymologica (os primeiros muito antes dos segundos) e a denunciam como desnecessariamente complicada. Portugal reforma a orthographia em 1910, unilateralmente, mas n\u00e3o \u00e9 seguido pelo Brazil, por raz\u00f5es politicas, interrompendo a possibilidade de editar-se livros em um paiz e vendel-os no outro. Em 1946 o Brazil faz sua propria reforma, mas adopta muitas graphias divergentes, que ainda impossibilitam o intercambio editorial. Em 1967 a dictadura militar brazileira faz a assim apellidada \u201cReforma Remington\u201d, com o objectivo de simplesmente reduzir o emprego de accentos graphicos e digraphos para facilitar a dactylographia. Esta reforma n\u00e3o foi baseada em estudos philologicos serios, mas no voluntarismo de um regime autoritario. Em 1990, Brazil e Portugal, com pequena participa\u00e7\u00e3o de Angola, principal paiz da \u00c1frica interessado em cultivar o portuguez, chegaram a um Acordo Orthographico, que deveria ter entrado em vigor no anno 2000, mas ainda n\u00e3o foi ractificado por nenhum dos paizes envolvidos.\n<\/dd>\n<\/dl>\n<h3>Sua Aboli\u00e7\u00e3o Foi Resultante de Factores Politicos e Economicos, N\u00e3o Cientificos.<\/h3>\n<p>A orthographia etymologica n\u00e3o foi o resultado de um trabalho de comit\u00e9, mas o producto de seculos de pesquisas e mudan\u00e7as, derivando da coopera\u00e7\u00e3o de inumeros autores, philologos, grammaticos e politicos. Ela poderia ter seguido sua evolu\u00e7\u00e3o gradualmente, removendo-se o que estivesse exagerado, sem necessariamente nos amputar a continuidade historica da lingua portugueza.<\/p>\n<p>Mas, conforme Monteiro Lobato, um dos proponentes da aboli\u00e7\u00e3o da norma etymologica, haveria tres principaes argumentos pela aboli\u00e7\u00e3o da norma etymologica:<\/p>\n<ol>\n<li>Rompimento com a tradi\u00e7\u00e3o em nome da modernidade.<\/li>\n<li>Restabelecimento do intercambio editorial com Portugal.<\/li>\n<li>Simplifica\u00e7\u00e3o \u2013 o \u201cprincipal motivo\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n<p>O rompimento com a tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 um argumento fallacioso (<em>argumentum ad novitatem<\/em>), pois as coisas novas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente melhores que as j\u00e1 existentes. Perseguir a inova\u00e7\u00e3o pela inova\u00e7\u00e3o pode ser, de facto, um obstaculo ao desenvolvimento da cultura nacional. Diversas s\u00e3o as linguas que nunca tiveram reformas orthographicas, ou as tiveram de forma bastante superficial \u2013 e taes linguas n\u00e3o se tornaram piores ou melhores do que o portuguez por causa disso. Entre as que n\u00e3o fizeram reforma alguma, destacam-se o inglez, o francez e o polonez. Entre as que s\u00f3 fizeram reformas superficiaes, o alem\u00e3o, o holandez, o sueco, o dinamarquez, o japonez e o checo.<\/p>\n<p>Cabe lembrar aqui que a introduc\u00e7\u00e3o de reformas profundas e subitas faz parte do arsenal de medidas \u201cmodernizantes\u201d proposto por regimes autoritarios, como se verifica quando enumeramos as linguas que fizer\u00e3o as mais profundas reformas orthographicas no seculo XX. O russo adoptou suas reformas (abolindo dez lettras e modifficando o valor phonetico de outras) sob a tutela do Comissariado do Povo para a Educa\u00e7\u00e3o, da URSS. O turco mudou seu alphabeto por vontade da dictadura de Atat\u00fcrk. O romeno mudou o alphabeto e tamb\u00e9m boa parte do vocabulario sob uma serie de governos monarchicos autocraticos. O chinez adoptou caracteres simplificados por imposi\u00e7\u00e3o da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Cultural\u201d de Mao Zedong. O unico exemplo de reforma linguistica adoptada por uma democracia \u00e9 o do grego, logo ap\u00f3s a queda do \u201cRegimen dos Coroneis\u201d, mas o caso grego \u00e9 muito especifico, visto que a monarchia (e a posterior dictadura) impunham ao povo n\u00e3o s\u00f3 uma escripta archaica (grego polytonico), mas tamb\u00e9m uma lingua que j\u00e1 n\u00e3o se falava mais (katharrevousa, baseado no grego bizantino medieval). Este caso nada tem a ver com a situa\u00e7\u00e3o do portuguez, pois a orthographia etymologica n\u00e3o impunha um padr\u00e3o archaizante para a lingua em si.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do restabelecimento do intercambio editorial com Portugal reflete um \u201cfait accompli\u201d e eh resultado pura e simplesmente do pragmatismo (e dos interesses comerciaes de Lobato, que era editor). N\u00e3o nos diz nada sobre a superioridade da orthographia simplificada, mas sobre a conveniencia de haver uma orthographia unica nos dois lados do Atlantico.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da simplifica\u00e7\u00e3o estamos abordando de forma mais ampla neste artigo e se baseia na ideia de que a orthographia etymologica \u00e9 \u201cmuito mais dif\u00edcil\u201d, conforme Lobato p\u00f5e na boca da Em\u00edlia:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Talvez tenha at\u00e9 carradas de raz\u00e3o. Entretanto, ignora <strong>a ma\u00e7ada que \u00e9 para as crian\u00e7as estarem decorando<\/strong> [1], um por um, o modo de se escreverem as palavras pelo sistema antigo. <strong>Os velhos Carrancas<\/strong>[2] \u00e9 natural que estejam do seu lado, porque j\u00e1 aprenderam pelo sistema antigo e <strong>t\u00eam pregui\u00e7a de mudar;<\/strong>[3] mas as crian\u00e7as est\u00e3o aprendendo agora e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para que aprendam <strong>pelo sistema velho,<\/strong>[4] <strong>muito mais dif\u00edcil.<\/strong>[5] Eu falo aqui em nome da crian\u00e7ada. Queremos a Ortografia Nova porque <strong>ela nos facilita a vida.<\/strong>[6] Quanto menos complica\u00e7\u00f5es, melhor. Por isso vim c\u00e1 conversar com as palavras para conhecer-lhes a opini\u00e3ozinha.<a href=\"#fn2\" class=\"footnoteRef\" id=\"fnref2\"><sup>2<\/sup><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 inegavel a quantidade absurdas que Lobato comete nesta curta fala da Em\u00edlia.<\/p>\n<ol>\n<li>Este \u00e9 um ataque ao systema pedagogico de ent\u00e3o, baseado na decoreba, muito mais do que \u00e1 orthographia etymologica.<\/li>\n<li>Ataque pessoal (argumentum ad hominem) do tipo abusivo: se voc\u00ea defende a orthographia etymologica eh um \u201cvelho carran\u00e7a.\u201d<\/li>\n<li>Ataque pessoal baseado na fallacia do apelo \u00e1 novidade: se voc\u00ea n\u00e3o quer mudar eh porque tem pregui\u00e7a de mudar.<\/li>\n<li>Apelo \u00e1 novidade: as crian\u00e7as devem aprender uma lingua nova.<\/li>\n<li>O autor afirma como verdadeira a sua percep\u00e7\u00e3o de que a orthographia etymologica eh mais dif\u00edcil (evidencia anedotica).<\/li>\n<li>A ortographia simplificada facilitar\u00e1 a vida dos jovens: <em>non sequitur<\/em>, pois as difficuldades dos jovens n\u00e3o s\u00e3o todas por causa da orthographia, mas principalmente por causa do systema de ensino de ent\u00e3o.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Tal campanha de descredito resultou finalmente na aboli\u00e7\u00e3o da orthographia etymologica, mas o systema \u201csimplificado\u201d que se adoptou era t\u00e3o nitidamente inferior que teve de ser \u201creformado\u201d ele pr\u00f3prio n\u00e3o uma, mas <strong>duas<\/strong> vezes (vale lembrar que a \u201csimplifica\u00e7\u00e3o\u201d portugueza foi um pouco menos radical que a nossa).<\/p>\n<h3>A Simplifica\u00e7\u00e3o Causou Regress\u00f5es<\/h3>\n<p>A reforma, tal como feita, inegavelmente simplificou a graphia de muitas palavras, como sceptro e sabbado, mas criou uma serie de complica\u00e7\u00f5es antes inexistentes, tais como palavras de pronuncia muito diferente, distinguidas por um minusculo acento, quando antes o er\u00e3o por lettras (paiz e paes se tornar\u00e3o \u201cpa\u00eds\u201d e \u201cpais\u201d) e uma quantidade de palavras que ficar\u00e3o parecidas com formas pluraes, sem sel-o: \u201cl\u00e1pis\u201d em vez de \u201cl\u00e1piz\u201d, por exemplo.<\/p>\n<h3>A Simplifica\u00e7\u00e3o nos Afasta das Principaes Linguas Europeias<\/h3>\n<p>O portuguez se tornou uma lingua mais isolada, cuja orthographia n\u00e3o segue principios adoptados pelas linguas mais faladas no mundo. Isto cria difficuldades para os estudantes aprenderem idiomas importantes, como francez, inglez, alem\u00e3o e holandez. Isto resulta, tamb\u00e9m, em uma maior difficuldade para adequar o portuguez a novos vocabulos necessariamente importados desta lingua, verifique-se por exemplo a curiosa situa\u00e7\u00e3o do substantivo character que, ipsis litteris, significa, em inglez, simultaneamente uma personalidade (\u201cpessoa de bom character\u201d) e simbolo graphico integrante de um sistema de escripta (\u201ccharacteres chineses\u201d). Da simplifica\u00e7\u00e3o resulta o facto de que os traductores se contorcem para usar este substantivo exclusivamente no plural (\u201clinha de 72 caracteres\u201d) enquanto evitam o seu singular, pelo estranhamento que lhes causa (\u201ccaractere\u201d n\u00e3o soa bem e \u201ccar\u00e1ter\u201d \u00e9 outra coisa).<\/p>\n<h3>A Simplifica\u00e7\u00e3o nos Afasta de Nossa Historia<\/h3>\n<p>A simplifica\u00e7\u00e3o representou uma ruptura na continuidade da evolu\u00e7\u00e3o da lingua portugueza: muitas literaturas sobrevivem ha seculos sem efectuarem reformas orthographicas exatamente para evitar isto (francez, inglez, hollandez, hespanhol, islandes).<\/p>\n<p>De repente, por vontade de um grupo de pessoas, tomou-se de cima para baixo uma decis\u00e3o que lan\u00e7ou \u00e1 obsolescencia bibliothecas inteiras e tornou a leitura de obras antigas mais difficil para os jovens que aprendem a forma simplificada. Este efeito eh semelhante ao ocorrido na China, onde os jovens de hoje n\u00e3o conseguem mais ler os textos publicados antes de 1967.<\/p>\n<h3>Accentos, Accentos <em>Everywhere<\/em>!<\/h3>\n<p>Se \u00e9 verdade que a orthographia etymologica empregava uma maior quantidade de digraphos, eh tamb\u00e9m verdadeiro que a \u201csimplificada\u201d enfiou accentos graphicos em um numero pavoroso de palavras. Tais acentos n\u00e3o apenas devem ser usados conforme varias regras (\u201csimples\u201d) e dezenas de casos especiaes, mas tamb\u00e9m tornam mais trabalhosa a digita\u00e7\u00e3o dos documentos (tal problema eh t\u00e3o real que se fez a \u201cReforma Remington\u201d para minoral-o).<\/p>\n<h3>A Simplifica\u00e7\u00e3o Difficulta o Entendimento de Cognatos<\/h3>\n<p>Ainda que pronunciadas de forma ligeiramente diferente (o que \u00e9 em parte resultante de divergencias dialectais e em parte resultado da influencia reversa da escripta sobre o falar) h\u00e1 palavras que <strong>s\u00e3o<\/strong> cognatas por sua origem e a orthographia simplificada mascara isto, impedindo que os leitores percebam esta rela\u00e7\u00e3o. Citamos os exemplos:<\/p>\n<ol>\n<li>Character, characteristica.<\/li>\n<li>Excep\u00e7\u00e3o, excepcional.<\/li>\n<li>Sec\u00e7\u00e3o, insecto, seccionar, secta.<\/li>\n<li>Rhythma, arrythmia, rhythmo.<\/li>\n<\/ol>\n<h3>A Simplifica\u00e7\u00e3o Difficulta o Entendimento de Conjuga\u00e7\u00f5es Verbaes<\/h3>\n<p>Refiro-me aqui \u00e1 quest\u00e3o dos objectos indirectos, por causa da altera\u00e7\u00e3o da practica etymologica de isolar o pronome, criando-se, assim, de uma \u201ccanetada\u201d, toda uma classe de novos pseudopronomes. Se antes se escrevia \u201cquero dizel-o\u201d, agora temos de escrever \u201cquero diz\u00ea-lo\u201d, uma forma inteiramente artificial, visto que o pronome \u201clo\u201d n\u00e3o \u00e9 empregado em portuguez em nenhum outro contexto.<\/p>\n<h3>Um Accento Eh Mais Lento Para Digitar do que uma Lettra<\/h3>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o representou, tamb\u00e9m, uma regress\u00e3o se considerarmos a evolu\u00e7\u00e3o tecnologica posterior, indo em dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e1 das inven\u00e7\u00f5es humanas. A orthographia etymologica, por utilizar menos accentos, seria mais propria para a escripta electronica. Assim, a simplifica\u00e7\u00e3o, em vez de preparar-nos para o futuro, prejudicou-nos diante dele.<\/p>\n<p>Cada accento adicionado a uma palavra equivale a dois toques: um para a tecla <code>&lt;shift&gt;<\/code> e outro para o accento. Uma lettra adicional equivale a apenas um toque. Digitar uma palavra monossilaba accentuada requer o mesmo esfor\u00e7o de digitar uma palavra de tres lettras.<\/p>\n<p>Ocorre que a orthographia etymologica empregava um numero muito menor de accentos (n\u00e3o se accentuavam as proparoxitonas, por exemplo), compensando amplamente as lettras adiccionaes encontradas em algumas palavras.<\/p>\n<h3>Lettras S\u00e3o Mais Visiveis que Accentos<\/h3>\n<p>Numerosas vezes pessoas de vis\u00e3o falha ou que estejam a ler com pressa podem n\u00e3o perceber a presen\u00e7a de um accento, especialmente o accento agudo, que em algumas fontes eh muito tenue. Um texto em orthographia etymologica eh, assim, mais facil de ler, pois os accentos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o essenciaes \u00e1 comprehens\u00e3o.<\/p>\n<h3>A Simplifica\u00e7\u00e3o Destruiu a Philologia da Lingua Tupy<\/h3>\n<p>Sob o argumento ignorante de que os indios n\u00e3o tinh\u00e3o lingua escripta e, portanto, \u201cn\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma para voc\u00eas andarem a fingir-se de gregas usando esse Y\u201d, Lobato atacou a adop\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente do \u201cY\u201d, mas de outras conven\u00e7\u00f5es graphicas para termos de origem tupy.<\/p>\n<p>Ocorre que a adop\u00e7\u00e3o destas conven\u00e7\u00f5es n\u00e3o era para que os indios se fingissem de gregos, mas para permitir ao leitor discernir a forma\u00e7\u00e3o dos vocabulos (al\u00e9m de que, originalmente, o \u201cY\u201d tinha uma pronuncia differente do \u201cI\u201d e do \u201cU\u201d). Na orthographia etymologica eh facil saber que Iracema n\u00e3o eh o nome de um rio mas que Ypiranga certamente o \u00e9.<\/p>\n<p>A remo\u00e7\u00e3o destas differencia\u00e7\u00f5es contribuiu para difficultar o contacto das pessoas com as raizes indigenas que s\u00e3o t\u00e3o comuns em nossa l\u00edngua, o que aumento nosso desenraizamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e1 nossa cultura.<\/p>\n<h3>A Simplifica\u00e7\u00e3o Atinge Relativamente Poucas Palavras<\/h3>\n<p>A quantidade de palavras com digraphos ou lettras dobradas (que foram \u201csimplificadas\u201d) \u00e9 muito menor do que a quantidade de palavras que receberam accentos. O facto de que at\u00e9 hoje a maioria dos falantes de portuguez tem difficuldade para accentuar correctamente as palavras sugere que a simplifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o atingiu seu objectivo de aproximar a lingua do povo.<\/p>\n<p>Este texto foi integralmente digitado em orthographia etymologica a fim de ser analisado nestes termos, com o objectivo de demonstrar que houve maior quantidade de palavras que receber\u00e3o acento do que houve palavras de que foram removidos digraphos \u2013 mesmo comparando com as normas orthographicas simplificadas que deveri\u00e3o j\u00e1 estar em vigor<\/p>\n<p>At\u00e9 o paragrapho acima, tivemos <code>119<\/code> palavras com lettras dobradas, digraphos ou lettras mudas e <code>149<\/code> palavras que recebem accentos na orthographia actual (e n\u00e3o o recebiam na etymologica), das quaes <code>106<\/code>n\u00e3o continham na orthographia etymologica nem lettras dobradas, nem digraphos e nem lettras mudas. N\u00e3o abordamos palavras cuja orthographia simplesmente mudou, sem que fossem removidas lettras (caso de \u201cetymologia\u201d, \u201ctupy\u201d ou \u201cquaes\u201d).<\/p>\n<p>\u00c9 uma conta simples a se fazer. Com uma m\u00e9dia de 1,2 digraphos por palavra, a orthographia simplificada nos permite economizar 143 characteres ao passo em que nos acrescenta 298 toques. Desses 298 toques podemos subtrair somente a diffeeren\u00e7a entre 149 palavras accentuadas e 106 que n\u00e3o continh\u00e3o accentos na orthographia etymologica (o que resulta em cerca de 50 characteres). Portanto, o texto, at\u00e9 aquelle paragrapho, tem 248 toques adicionais se \u201csimplificado\u201d.<\/p>\n<p>Agora imaginemos qu\u00e3o mais dif\u00edcil era a orthographia simplificada no tempo em que havia o accento grave nas syllabas subtonicas (\u201cf\u00e0cilmente\u201d) e os accentos differenciaes de timbre (am\u00f4r, c\u00eado).<\/p>\n<p>Seria realmente mais difficil aos jovens aprehender algumas poucas palavras com lettras dobradas ou digraphos (estes sempre previsiveis) ou acostumar-se a esta verdadeira floresta de diacriticos?<\/p>\n<h3>Os Principios da Orthographia Etymologica N\u00e3o S\u00e3o Artificiaes<\/h3>\n<p>Uma das principaes cr\u00edticas feitas \u00e1 orthographia etymologica era tachal-a de pseudoetymologica por \u201cignorar as mudan\u00e7as naturaes da lingua\u201d, mas esta critica \u00e9 injusta, porque a orthographia etymologica n\u00e3o necessariamente pretendia engessar o desenvolvimento do idioma (alguns grammaticos, sim), mas documentar na melhor medida do possivel as rela\u00e7\u00f5es entre os vocabulos, considerando tamb\u00e9m suas origens.<\/p>\n<p>Claro, havia excep\u00e7\u00f5es exageradas, como \u201cphthysica\u201d, mas nesses casos era melhor usar outra palavra (como efetivamente se fez, pois esta doen\u00e7a \u00e9 hoje chamada de \u201ctuberculose\u201d) ou fazer uma simplifica\u00e7\u00e3o pontual, ou simplesmente conviver com a monstruosidade (afinal, quantas pessoas precisam escrever \u201csceptro\u201d no dia a dia?).<\/p>\n<p>A validade do principio etymologico estava justamente em desconsiderar varia\u00e7\u00f5es dialectais (as famosas lettras \u201cmudas\u201d n\u00e3o o eram em todos os falares do Brazil e de Portugal, e n\u00e3o se deveria fazer uma reforma orthographica com base no falar de uma ou duas cidades apenas). Em vez de seguir servilmente uma pronuncia regional especifica, a orthographia etymologica seguia o origem da palavra, respeitando suas conex\u00f5es (como nos [citados exemplos][cognatos]).<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 ser artificial, \u00e9 ser neutro. Artificial \u00e9 for\u00e7ar uma nova forma de escripta para verbos transitivos indirectos que resulta na cria\u00e7\u00e3o de um pseudopronome pessoal que n\u00e3o se usa em nenhum outro lugar.<\/p>\n<h3>Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o da orthographia etymologica, ainda que alinhada a outros episodios de planeamento linguistico ocorridos no seculo XX, foi um grande equivoco, que ate hoje nos penaliza cultural e educacionalmente.<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn1\">\n<p>BAGNO, Marcos. \u201cPreconceito Lingu\u00edstico: O que \u00e9, como se faz\u201d. Ed. Loyola.<a href=\"#fnref1\">\u21a9<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn2\">\n<p>LOBATO, J. B. Monteiro. \u201cEm\u00edlia no Pa\u00eds da Gram\u00e1tica\u201d<a href=\"#fnref2\">\u21a9<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A lingua escripta, nos ensina Marcos Bagno,1 n\u00e3o eh de facto a lingua em si, mas uma idealiza\u00e7\u00e3o da lingua falada em determinado momento de sua historia. Idealiza\u00e7\u00e3o posto que os grammaticos n\u00e3o apenas document\u00e3o a lingua conforme a estud\u00e3o, mas tamb\u00e9m introduzem inova\u00e7\u00f5es, regulariza\u00e7\u00f5es, simplifica\u00e7\u00f5es e, lamentavelmente, complica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m. Eh necessario que a lingua escripta evolua, para que a distancia entre ela e os diversos falares do povo n\u00e3o se torne t\u00e3o grande que tenhamos uma situa\u00e7\u00e3o de diglossia. 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