{"id":2483,"date":"2015-01-05T11:36:37","date_gmt":"2015-01-05T14:36:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2483"},"modified":"2017-08-13T00:15:24","modified_gmt":"2017-08-13T03:15:24","slug":"impressoes-da-leitura-de-coracao-das-trevas-de-joseph-conrad","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/01\/impressoes-da-leitura-de-coracao-das-trevas-de-joseph-conrad\/","title":{"rendered":"Impress\u00f5es da Leitura de &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221;, de Joseph Conrad"},"content":{"rendered":"<p>> <b>Aten\u00e7\u00e3o: Este texto cont\u00e9m &#8220;spoilers&#8221; e dever\u00e1 ser lido somente por quem j\u00e1 tenha lido &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221;<\/b>.<\/p>\n<p>Deixei passarem algumas semanas desde minha leitura deste \u00f3timo livro antes de come\u00e7ar a comentar, a fim de evitar que os coment\u00e1rios do tradutor e do editor me influenciassem numa dire\u00e7\u00e3o ou noutra. Para permitir que somente o impacto potente desta obra fenomenal determinasse o que eu escrevia sobre ela. &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221; \u00e9 um cl\u00e1ssico absoluto, e \u00e9 um livro tamb\u00e9m desafiador e simples.<\/p>\n<p>Parte da sua simplicidade deriva de sua estrutura narrativa linear. N\u00e3o existem &#8220;flashbacks&#8221; ou piruetas estruturais, a hist\u00f3ria simplesmente flui, de uma forma enganadoramente simples. Isto pode fazer com que o leitor a atravesse com leveza, e somente uma segunda leitura revela o que h\u00e1 de verdade nas entrelinhas. Lendo prevenido pela antecipada no\u00e7\u00e3o de que se tratava de uma obra assim, eu pude segurar o ritmo de leitura de forma a notar estas sutilezas e fiquei impressionado como Joseph Conrad consegue levar o leitor pela m\u00e3o sem nunca entregar o que ele &#8220;realmente&#8221; est\u00e1 querendo.<\/p>\n<p>Esta novela \u00e9 mais conhecida por ter sido a inspira\u00e7\u00e3o de &#8220;Apocalypse Now&#8221;, de Francis Ford Coppola, mas reduzi-lo a isso \u00e9 at\u00e9 ofensivo: por mais genial que o filme seja, o livro est\u00e1 \u00e0 sua altura, ou at\u00e9 acima. Podemos dizer que o sucesso desta adapta\u00e7\u00e3o f\u00edlmica diz muito mais sobre as limita\u00e7\u00f5es do cinema enquanto linguagem do que se \u00e9 de supor: apesar de todos os seus recursos visuais e sonoros, o filme n\u00e3o consegue captar o grau de cinismo e de ironia amarga que Conrad distribui t\u00e3o sutilmente pelas p\u00e1ginas de sua novela. \u00c9 que as limita\u00e7\u00f5es da literatura exigem uma abordagem que o filme n\u00e3o consegue reproduzir. A outra raz\u00e3o \u00e9 que a transposi\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio n\u00e3o se fez sem perdas.<\/p>\n<p>&#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221;, ambientado no Congo Belga, n\u00e3o \u00e9 somente sobre um homem ensandecido pelo poder no contexto de uma guerra, \u00e9 isso e tamb\u00e9m \u00e9 sobre as hipocrisias e pequenezas do colonialismo. Este aspecto em particular: o colonialismo, n\u00e3o pode ser transposto para o Vietn\u00e3. Por outro lado, o pacifismo latente em &#8220;Apocalypse Now&#8221; \u00e9 uma introdu\u00e7\u00e3o interessante. Pela capacidade de compensar o que se perde com a adi\u00e7\u00e3o de novos elementos \u00e9 que o filme consegue se ombrear com o livro.<\/p>\n<p>Estruturalmente, como dito, \u00e9 uma novela muito simples: um grupo de homens est\u00e1 em um barco no estu\u00e1rio do T\u00e2misa, aguardando a alta da mar\u00e9 para poderem entrar no mar. Enquanto esperam, um deles, Marlow, come\u00e7a a contar uma hist\u00f3ria sobre a \u00e9poca em que foi comandante de uma embarca\u00e7\u00e3o fluvial no Congo Belga. A hist\u00f3ria, inicialmente recebida com desagrado pelos marinheiros, vai aos poucos conquistando sua aten\u00e7\u00e3o, de tal forma que eles acabam n\u00e3o percebendo que a mar\u00e9 sobe e baixa, o que d\u00e1 ao narrador tempo para terminar sua hist\u00f3ria. Ao final, a hist\u00f3ria deixa todos transtornados.<\/p>\n<p>Com essa estrutura muito livro j\u00e1 se escreveu, e de fato \u00e9 um recurso muito f\u00e1cil para um autor iniciante. O que torna &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221; t\u00e3o interessante \u00e9 o seu conte\u00fado, para al\u00e9m do aspecto formal, e a maneira como o autor distribui parcimoniosamente o conte\u00fado, fornecendo ao leitor apenas a informa\u00e7\u00e3o m\u00ednima de que precisa para acompanhar a narrativa. O narrador-personagem, definindo-se como uma pessoa de mentalidade pr\u00e1tica e isento de paix\u00f5es pol\u00edticas, n\u00e3o faz qualquer tipo de considera\u00e7\u00e3o \u00e9tica ou moral sobre o que presencia, em alguns momentos at\u00e9 mesmo as faz no sentido de atenuar o que transparece de desagrad\u00e1vel. Estas raras interfer\u00eancias do narrador nos permitem isent\u00e1-lo de ser um simpl\u00f3rio, situando-lhe firmemente no terreno ideol\u00f3gico da maior parte da popula\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, que era favor\u00e1vel ao colonialismo e o justificava, entre outras coisas, com argumentos como o do &#8220;fardo do homem branco&#8221; (a obriga\u00e7\u00e3o moral da ra\u00e7a &#8220;mais evolu\u00edda&#8221; de apoiar o desenvolvimento daquelas &#8220;atrasadas&#8221;). Por\u00e9m, atrav\u00e9s da idealiza\u00e7\u00e3o do narrador, transparece a verdade que ele deseja nos esconder. Esta luta, entre o fato inarred\u00e1vel e a vis\u00e3o relutante de algu\u00e9m que teima em justific\u00e1-lo \u00e9 que d\u00e1 ao livro a grandeza que ele tem.<\/p>\n<p>Um aspecto inc\u00f4modo do livro \u00e9 o seu tratamento do racismo. Conrad n\u00e3o nos oferece nenhuma vis\u00e3o edulcorada do negro sendo &#8220;civilizado&#8221;, nem tampouco o apresenta como uma v\u00edtima do grande inferno colonial que o Congo Belga efetivamente foi (e este entendimento j\u00e1 era un\u00e2nime mesmo durante a Belle \u00c9poque). O distanciamento oferecido pelo narrador permite que a hist\u00f3ria avance sem ser panflet\u00e1ria, nem piegas e nem t\u00e3o horr\u00edvel que ela revire o est\u00f4mago dos sens\u00edveis. A compreens\u00e3o do horror decorre de uma aproxima\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e intelectual que escorre pelas entrelinhas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que se distancia do negro, para nem reduzi-lo a um bronco que se &#8220;beneficia&#8221; da civiliza\u00e7\u00e3o e nem elev\u00e1-lo crist\u00e3mente ao patamar de indefesa v\u00edtima de um holocausto, o narrador tamb\u00e9m se distancia, gradualmente, dos colonialistas, o que lhe permite apresentar o Sr. Kurtz sem demoniz\u00e1-lo moralmente, permitindo que o pr\u00f3prio leitor fa\u00e7a seus d\u00fabios ju\u00edzos de valor. Kurtz \u00e9 o grande protagonista da hist\u00f3ria, mesmo s\u00f3 aparecendo nela j\u00e1 perto do fim. Ele \u00e9 a grande esfinge que Conrad se prop\u00f5e a &#8220;n\u00e3o decifrar&#8221;, mas que o leitor deve interpretar com base no que lhe \u00e9 dado.<\/p>\n<p>Gradualmente, a simpatia do narrador pelos belgas se esvai, assim como sua sa\u00fade f\u00edsica e mental (Marlow \u00e9 descrito como magro, p\u00e1lido e tr\u00eamulo no come\u00e7o da hist\u00f3ria, o que nos mostra que, apesar de sua fleuma e indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao ambiente congol\u00eas, a verdade \u00e9 que os fatos narrados foram profundamente transformadores para ele). Sua admira\u00e7\u00e3o por Kurtz vai crescendo \u00e0 media que ela se mostra completamente injustificada, de que resulta, no final, ela resultar mais do enigma moral representado por este. <\/p>\n<p>No come\u00e7o da hist\u00f3ria, o narrador se identifica com o contabilista que se veste impecavelmente, considera sua capacidade de evitar a &#8220;degrada\u00e7\u00e3o&#8221; pelos tr\u00f3picos uma evid\u00eancia de for\u00e7a moral. Ao final, ao comentar que Antu\u00e9rpia \u00e9 uma cidade que parece um cemit\u00e9rio, o autor deixa transparecer que j\u00e1 n\u00e3o tem os belgas em t\u00e3o alta conta, enxergando a corrup\u00e7\u00e3o subjacente \u00e0 prosperidade superficial. Esta \u00e9 apenas uma das muitas transforma\u00e7\u00f5es pelas quais passa o personagem, por\u00e9m, curiosamente, esta opini\u00e3o condenat\u00f3ria (ainda que velada) n\u00e3o se transfere a Kurtz, que poderia ser facilmente considerado &#8220;mau&#8221; por ser o perpetrador de todo tipo de absurdos. Por\u00e9m, na vis\u00e3o do narrador, ele \u00e9 uma v\u00edtima &#8220;a floresta chegou cedo at\u00e9 ele&#8221; \u00e9 uma met\u00e1fora para a sua destrui\u00e7\u00e3o moral diante de uma explora\u00e7\u00e3o colonial que parece cada vez mais absurda \u00e0 medida que a conhecemos. Esta destrui\u00e7\u00e3o espelha a do pr\u00f3prio narrador, Marlow, macilento e tr\u00eamulo, e temos de considerar que Kurtz esteve por anos no Congo, enquanto Marlow passou por l\u00e1 apenas um semestre.<\/p>\n<p>O aspecto tr\u00e1gico da novela \u00e9 dado eficazmente por uma \u00fanica palavra, &#8220;horror&#8221;. Se esta palavra fosse empregada pelo narrador, gratuitamente, seria impercept\u00edvel. Mas ao fazer com que seja a \u00faltima palavra proferida pelo moribundo Kurtz, na c\u00e9lebre impreca\u00e7\u00e3o &#8220;o horror! o horror!&#8221; ela serve para potentemente nos dizer que o homem capaz das mais horr\u00edveis atrocidades tinha consci\u00eancia de sua falha moral, tinha se arrependido de seus atos, n\u00e3o era um psicopata. Ent\u00e3o ele se torna, realmente, uma v\u00edtima, uma pessoa comum que teve de cometer atos imensamente cru\u00e9is como parte de um sistema que era, em si, imensamente cruel. Talvez por isso Kurtz tenha sido perdoado por Marlow diante de sua noiva. Ao visit\u00e1-la em Antu\u00e9rpia, Marlow lhe mente sobre a natureza do trabalho de Kurtz e as circunst\u00e2ncias de sua morte, permitindo que ela conserve uma imagem idealizada de seu falecido noivo, propondo-se a guardar eterno luto em sua mem\u00f3ria. <\/p>\n<p>Este \u00e9 um desfecho absolutamente perfeito e necess\u00e1rio. Um final &#8220;feliz&#8221; para a noiva, que \u00e9 uma personifica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria B\u00e9lgica, seria inconsistente com o tom da novela e com as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas. A ilus\u00e3o de que Kurtz era um bom homem equivale \u00e0 atitude da opini\u00e3o p\u00fablica belga em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 col\u00f4nia, recusando-se a crer que l\u00e1 fossem cometidas tais atrocidades &#8212; uma obstina\u00e7\u00e3o que s\u00f3 cedeu em 1912, depois que a condena\u00e7\u00e3o internacional dos m\u00e9todos brutais adotados pelos colonos j\u00e1 se tornara un\u00e2nime. A noiva, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 uma v\u00edtima. Ela sabe a natureza do trabalho de Kurtz no Congo e se ela consegue imaginar que ele o executasse sem crueldade, \u00e9 por absoluta incapacidade mental ou por ignor\u00e2ncia conveniente. Afinal, enquanto Kurtz estava no Congo flu\u00eda continuamente para sua fam\u00edlia e para ela pr\u00f3pria uma riqueza que eles n\u00e3o teriam conseguido facilmente. Assim o leitor n\u00e3o se sente triste pelo destino da mo\u00e7a que se prop\u00f5e a guardar eterno luto por um noivo morto: ela \u00e9 prisioneira da mem\u00f3ria de Kurtz tal como a B\u00e9lgica se aprisiona na lembran\u00e7a do genoc\u00eddio congol\u00eas. Libertar a noiva de seu luto equivaleria a libertar a B\u00e9lgica de sua consci\u00eancia culpada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>> Aten\u00e7\u00e3o: Este texto cont\u00e9m &#8220;spoilers&#8221; e dever\u00e1 ser lido somente por quem j\u00e1 tenha lido &#8220;Cora\u00e7\u00e3o das Trevas&#8221;. Deixei passarem algumas semanas desde minha leitura deste \u00f3timo livro antes de come\u00e7ar a comentar, a fim de evitar que os coment\u00e1rios do tradutor e do editor me influenciassem numa dire\u00e7\u00e3o ou noutra. 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