{"id":253,"date":"2011-08-07T20:57:00","date_gmt":"2011-08-07T23:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=253"},"modified":"2017-11-02T14:09:10","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:10","slug":"o-lobo-do-leme","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/08\/o-lobo-do-leme\/","title":{"rendered":"O Lobo do Leme"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\"> Eu n\u00e3o devia te dizer.  <br \/>\nMas essa lua, mas esse conhaque\u2026  <br \/>\ndeixam a gente comovido como o diabo  <\/p>\n<p>&mdash; Carlos Drummond de Andrade.<\/p><\/div>\n<p>Nos encontramos em um bar imagin\u00e1rio, durante uma digress\u00e3o sonamb\u00falica. Tentei assalt\u00e1-lo com uma pergunta, mas ele \u00e9 refrat\u00e1rio a tais abordagens e sempre reverte a tentativa com uma proposi\u00e7\u00e3o inesperada. Ontem, por exemplo, quando lhe perguntei quem eram as pessoas cujos nomes ele me recomendara conhecer, ele ignorou o que eu dissera e me perguntou se eu tenho escrito. Reconhe\u00e7o que \u00e9 in\u00fatil tentar conduzir a conversa quando se trata dele, ent\u00e3o acabei aceitando a pergunta, na esperan\u00e7a de que as dobras do assunto acabassem por esbarrar na resposta do que eu queria descobrir.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o lhe disse que andava escrevendo pouco, pois preciso de muito sil\u00eancio para refletir, e sil\u00eancio \u00e9 uma mercadoria rara, que bem valeria a pena pagar caro para consumir e que eu queria muito, mas muito mesmo, fazer alguma coisa que atra\u00edsse aten\u00e7\u00e3o, que me trouxesse leitores. Enquanto fal\u00e1vamos disso, e n\u00e3o das outras coisas que eu queria estar discutindo naquele momento, ele ergueu o dedo, como costuma fazer quando est\u00e1 entrando em transe filos\u00f3fico, e decretou, como um profeta diante do Templo:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Acredito que voc\u00ea pode fazer qualquer coisa, desde que n\u00e3o tenha a ilus\u00e3o de que ser\u00e1 lido. Ningu\u00e9m mais l\u00ea ningu\u00e9m. N\u00e3o d\u00e1 mais tempo. H\u00e1 tanto para fazer, tantas sensa\u00e7\u00f5es para experimentar.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0E no entanto o que nos resta fazer: ganhar centavos de aten\u00e7\u00e3o promovendo eventos in\u00fateis? Ficar em casa trancados em nossas ilus\u00f5es, esperando que algu\u00e9m nos leia?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Voc\u00ea fica?<\/p>\n<p>Tive vergonha de admitir que ainda sonhava em ter leitores. Mas ele n\u00e3o me ridicularizou por isso, n\u00e3o ainda. Apenas disse:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0N\u00e3o tenho mais a ilus\u00e3o de que um dia serei lido. Estamos no fim de uma era, meu amigo. Sinto-me como um dos \u00faltimos romanos, talvez um que escreveu depois da queda do Imp\u00e9rio. Sinto-me como se j\u00e1 escrevesse em latim b\u00e1rbaro, como se eu pr\u00f3prio j\u00e1 fosse filho bastardo da civiliza\u00e7\u00e3o que se foi. Que respeito ter\u00e1 o futuro por mim? Ningu\u00e9m se lembra dos decadentes.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Se for mesmo assim, meu amigo, pelo menos nos restar\u00e1 termos vivido e amado, da forma especial com que cada ser humano vive e ama.<\/p>\n<p>Ele ouviu a minha frase com impaci\u00eancia, quase espreitando uma interrup\u00e7\u00e3o para cort\u00e1-la, com a faca ensanguentada de seu pessimismo:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Eu digo mais: n\u00e3o seremos amados.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Nem mesmo pelas putas?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Acreditar nelas \u00e9 uma ilus\u00e3o rom\u00e2ntica est\u00fapida. Putas n\u00e3o s\u00e3o rom\u00e2nticas, s\u00e3o s\u00f3 mulheres pobres ou viciadas vagabundas que se degradam por dinheiro. S\u00f3 p\u00e9ssimos poetas t\u00eam a mania de acreditar que possa haver uma Dama das Cam\u00e9lias. Exceto pela tuberculose, tudo era ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0N\u00e3o quis dizer que a puta nos ame, mas ao vil metal. Quis dizer que ela nos d\u00e1 amor em troca de nosso dinheiro.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Nem isso. A puta n\u00e3o precisa do dinheiro, mas das coisas que ele compra. E sempre escolher\u00e1 quem tenha mais, da mesma forma como o mineiro preferir\u00e1 a jazida maior: para n\u00e3o ter de viver sempre \u00e0 procura.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Ah, mas voc\u00ea est\u00e1 insuport\u00e1vel hoje. Logo quando eu estava sentindo uma vaga inspira\u00e7\u00e3o para escrever uma poesia.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Esse tro\u00e7o de &#8220;vaga inspira\u00e7\u00e3o para poesia&#8221; \u00e9 frescura.<\/p>\n<p>Tive de rir da minha pr\u00f3pria inoc\u00eancia. Eu j\u00e1 devia saber que aquele iconoclasta n\u00e3o resistiria \u00e0 oportunidade de reduzir a p\u00f3 minhas inten\u00e7\u00f5es p\u00f3eticas.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Eu j\u00e1 escrevi poemas, voc\u00ea sabe. Hoje n\u00e3o mais. Eu tive uma revela\u00e7\u00e3o sobre o amor que me matou a poesia: n\u00f3s n\u00e3o amamos ningu\u00e9m, n\u00f3s apenas buscamos satisfa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Como assim, meu amigo?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0N\u00e3o amamos o ser, mas a perspectiva daquilo que o relacionamento com tal ser poder\u00e1 nos dar: prazer, dor, conforto, orgulho, dinheiro. Diga-me, voc\u00ea gosta de amendoeiras, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Ele certamente conhecia minha fixa\u00e7\u00e3o por estas \u00e1rvores curiosas, sendo uma das poucas pessoas a quem eu mostrara alguns antigos textos sobre elas.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Sim, gosto.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0\u00c9 mentira. Voc\u00ea gosta de am\u00eandoas, ou da sombra que a \u00e1rvore lhe d\u00e1. Se a amendoeira n\u00e3o desse am\u00eandoas e nem sombra, voc\u00ea certamente a desejaria destruir.<\/p>\n<p>Naquele momento me senti firme para discordar:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Isto n\u00e3o \u00e9 exatamente verdade: existem v\u00e1rias satisfa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, al\u00e9m da mera utilidade.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Se \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 uma utilidade. Nada que satisfa\u00e7a a algo ou algu\u00e9m \u00e9 in\u00fatil.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Mas mesmo que ela fosse inteiramente in\u00fatil, mesmo que eu a desejasse destruir\u2026 voc\u00ea n\u00e3o acha que o impulso de destruir \u00e9 uma forma de desejo?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Mas nesse caso voc\u00ea gosta \u00e9 da destrui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o da \u00e1rvore in\u00fatil.<\/p>\n<p>Mais uma vez, derrotado. Ele perdeu a poesia, que ainda tenho, mas possui uma agudeza que constrange. E tendo sufocado minha resposta ainda no fundo da garganta, sentiu-se a cavalo para pontificar:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Se voc\u00ea ama a algu\u00e9m, \u00e9 porque essa pessoa lhe faz algum bem. Se essa pessoa cessar de lhe fazer esse bem, voc\u00ea deixar\u00e1 de am\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Creio que h\u00e1 um engano a\u00ed, meu amigo. Voc\u00ea subestima a perversidade do ser humano. Na verdade matamos a amendoeira, apesar da am\u00eandoa e apesar da sombra. O homem \u00e9 como o escorpi\u00e3o da f\u00e1bula.<\/p>\n<p>O meu amigo ergueu as sobrancelhas ao ouvir-me dizer isto. Interrompeu sua profecia por alguns segundos, bateu na mesa, quase derrubando a cerveja, e admitiu, para minha gl\u00f3ria moment\u00e2nea:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Voc\u00ea tem raz\u00e3o! Como n\u00e3o pensei nisso antes!? Isto \u00e9 irracional, mas \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Verdade seja dita, meu amigo, \u00e9 justamente por ser irracional \u00e9 que \u00e9 t\u00e3o humano. \u00c9 mentira que sejamos diferentes dos animais por agirmos racionalmente, n\u00f3s somos diferentes deles porque podemos suicidar-nos. Raz\u00e3o \u00e9 apenas o nome que damos \u00e0quilo que nos diferencia do nosso c\u00e3o, que n\u00e3o sabe dar nomes \u00e0s coisas.<\/p>\n<p>Meu momento de gl\u00f3ria foi abatido em pleno voo por outro ataque de cinismo da parte de meu amigo:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0E quem sabe se o c\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 nomes \u00e0s coisas? \u00c9 poss\u00edvel que apenas n\u00e3o saibamos compreender os nomes que ele d\u00e1.<\/p>\n<p>Parei o copo de cerveja no ar, a meio caminho da trajet\u00f3ria at\u00e9 a boca. Aquelas palavras pareciam caindo da l\u00edngua dele j\u00e1 gravadas em blocos imensos de granito, como t\u00e1buas de mandamentos. Eu n\u00e3o conseguia destruir a impress\u00e3o que elas me causavam. Falhara minha \u00faltima tentativa de salvar a dignidade humana dos efeitos avassaladores da presen\u00e7a de meu amigo naquela mesa de bar. Ele seguia, de sabre em punho, decapitando minhas ilus\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Pode ser. Somos animais, afinal. Embora animais escritores de poesia, animais construtores de canh\u00f5es. E de fato n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre um soneto e um canh\u00e3o: ambos estimulam os mesmos neur\u00f4nios.<\/p>\n<p>Meu amigo pediu a conta, deixou trinta reais sobre a mesa e se foi embora depois de uma despedida breve, durante a qual mal consegui balbuciar um boa noite. A conta veio menos de vinte reais, mas eu me senti roubado, mesmo ficando com o troco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos encontramos em um bar imagin\u00e1rio, durante uma digress\u00e3o sonamb\u00falica. Tentei assalt\u00e1-lo com uma pergunta, mas ele \u00e9 refrat\u00e1rio a tais abordagens e sempre reverte a tentativa com uma proposi\u00e7\u00e3o inesperada. Ontem, por exemplo, quando lhe perguntei quem eram as pessoas cujos nomes ele me recomendara conhecer, ele ignorou o que eu dissera e me perguntou se eu tenho escrito. Reconhe\u00e7o que \u00e9 in\u00fatil tentar conduzir a conversa quando se trata dele, ent\u00e3o acabei aceitando a pergunta, na esperan\u00e7a de que as dobras do assunto acabassem por esbarrar na resposta do que eu queria descobrir.[&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[36,33,79,49,81,91,148,28,89,47,57],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=253"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4905,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/253\/revisions\/4905"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}