{"id":257,"date":"2011-07-29T11:46:00","date_gmt":"2011-07-29T14:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=257"},"modified":"2017-08-13T22:01:22","modified_gmt":"2017-08-14T01:01:22","slug":"garoto-no-quilometro-101","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/07\/garoto-no-quilometro-101\/","title":{"rendered":"\u201cGaroto\u201d no Quil\u00f4metro 101"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o houve julgamento formal. Ficou semanas preso, comendo do p\u00e9ssimo p\u00e3o e da pior sopa. Bateram-lhe um pouco, mas n\u00e3o excessivamente. Um dia, por fim, puseram-no dentro de uma viatura no fim da madrugada, depois de lhe terem dado uma \u00faltima sova, e o levaram por uma estrada de terra, solto e aos solavancos dentro do porta malas. A princ\u00edpio parecera que seria morto em alguma clareira de floresta \u00e0 beira da estrada, mas n\u00e3o foi o que aconteceu. O carro parou em um cruzamento deserto e tr\u00eas agentes abriram a tampa traseira, exumando-o de seu desconforto. Dois estavam armados com fuzis. O terceiro, que parecia ter certa autoridade, tentou p\u00f4r-lhe de p\u00e9 e limpou com um len\u00e7o molhado algumas das manchas de sangue que haviam ficado na gola dura da camisa de flanela azul. Tinha um ar meio paternal, parecendo constrangido ao fazer aquilo.<\/p>\n<p>Devolveu-lhe sua mochila de lona pu\u00edda e entregou-lhe um peda\u00e7o de papel cart\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Tome, garoto, sua passagem para a liberdade.<\/p>\n<p>O &#8220;garoto&#8221; notou que havia outros dois agentes, tamb\u00e9m com fuzis. Perscrutavam o sil\u00eancio doce da floresta outonal. Os quatro n\u00e3o tinham nada da flexibilidade bonachona e grisalha do chefe.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim, &#8220;liberdade&#8221;?<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 livre. Vai.<\/p>\n<p>O &#8220;garoto&#8221; ainda n\u00e3o acreditava. Olhou para o cart\u00e3o, estalando de novo. Ali estava impresso o seu nome completo, em caracteres gordos, batidos e rebatidos por uma m\u00e1quina de escrever que n\u00e3o tinha nenhuma d\u00favida. Mas acima do nome jazia, terr\u00edvel, a explica\u00e7\u00e3o da liberdade que lhe ofereciam: era uma carteira de lobo.[^1]<\/p>\n<p>Era in\u00fatil questionar. Poderia ter sido morto por participar daquela maldita reuni\u00e3o. Alguns tinham sido, aqueles idiotas idealistas. Algu\u00e9m, no entanto, tivera pena de sua ingenuidade e de sua estupidez e lhe salvara de ser esquartejado por um a\u00e7ougueiro ou condenado a definhar nos trabalhos for\u00e7ados. Em vez disso ganhara uma carteira de lobo e nunca mais poderia ver uma rua ou pra\u00e7a com os seus pr\u00f3prios olhos. Sua vida normal acabava ali na encruzilhada. Nunca mais veria Valentina, nunca mais veria o irm\u00e3o Alexandre, nem os bons amigos da faculdade. &#8220;Melhor assim&#8221;, conformou-se, &#8220;melhor viver como um lobo do que ser entregue \u00e0 fam\u00edlia em um saco de ossos, ou emagrecer at\u00e9 o fim erguendo muros in\u00fateis no deserto.&#8221; Nasci ali outro lobo.<\/p>\n<p>Os cinco agentes entraram na pesada e ruidosa limusine e fizeram o retorno. Com os fuzis aparecendo pelas janelas. Teve um pressentimento ruim, correu e pulou pelo barranco, rolando pela encosta. Ouviu as risadas dos homens: &#8220;Temos um lobo esperto, camaradas!&#8221;<\/p>\n<p>O ru\u00eddo da limusine desapareceu na dist\u00e2ncia, mas o &#8220;garoto&#8221; n\u00e3o conseguiu ter coragem suficiente para retornar \u00e0 estrada. Um Kalashnikov \u00e9 capaz de enviar uma bala a dois quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. E um atirador de elite \u00e9 capaz de acertar um homem a essa dist\u00e2ncia. Dois fatos que se casam. Aquele lobo aprendera no primeiro dia que a sobreviv\u00eancia depende de acreditar em pressentimentos ruins.<\/p>\n<p>Por fim, quando a respira\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se aquietar, ergueu-se com muito cuidado e tentou retornar \u00e0 encruzilhada, para ler as placas, entender onde estava, descobrir para onde era o quil\u00f4metro cento e um. Quando subiu de volta encontrou quatro homens barbados, todos vestidos com r\u00fasticas roupas de pele ou l\u00e3 sem tintura. N\u00e3o era preciso perguntar: eram lobos, como ele.<\/p>\n<p>&#8212; Mas o que temos aqui, camaradas!? Um delinquente juvenil? Ou talvez infantil? <\/p>\n<p>O &#8220;garoto&#8221; n\u00e3o respondeu. Engoliu o orgulho sem que ele sequer arranhasse a garganta: se quisesse sobreviver na floresta, teria de ser amigo dos outros lobos. Sozinho, nenhum deles aguentaria o inverno. Apenas ficou s\u00e9rio enquanto as gargalhadas rolavam naqueles rostos brutos. Por fim eles pararam de rir. O mais ruivo deles lhe encarou, com a express\u00e3o mudada, e lhe perguntou com uma voz amistosa, mas que trovejava nos ouvidos como o rompante de um bar\u00edtono:<\/p>\n<p>&#8212; Mas o que esses loucos do Comissariado est\u00e3o fazendo? Por que voc\u00ea est\u00e1 aqui, filho?<\/p>\n<p>&#8212; Associa\u00e7\u00e3o criminosa para conspirar contra o estado e o povo, camarada.<\/p>\n<p>As express\u00f5es dos lobos se franziram. Todos reprovavam. Havia uma certa \u00e9tica entre eles, conforme posteriormente soube. Tinham um certo senso de justi\u00e7a, mesmo sendo, quase todos, criminosos comuns.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o v\u00e3o perguntar quem eu sou?<\/p>\n<p>&#8212; Garoto, aqui na floresta n\u00e3o importa mais quem voc\u00ea era. Importa \u00e9 quem voc\u00ea est\u00e1 disposto a ser. Entre a floresta e o quil\u00f4metro 101 voc\u00ea tem liberdade para ser qualquer coisa que deseje, o \u00fanico problema \u00e9 que voc\u00ea sempre ser\u00e1 um lobo. Aqui na nossa alcat\u00e9ia eu sou chamado de Vermelho. Esse aqui \u00e9 o Orelhudo, aquele \u00e9 o Pintado e o que est\u00e1 l\u00e1 distra\u00eddo \u00e9 o Duende. Voc\u00ea vai ser o Garoto, e isso \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>&#8212; Quem escolhe esses nomes? Parecem nomes de animais, de\u2026 c\u00e3es.<\/p>\n<p>&#8212; Nunca mais diga isso, Garoto. Os nomes s\u00e3o a parte mais importante da identidade de um homem\u2026 e \u00e9 por isso que n\u00e3o usamos nomes &#8212; gargalhou o Vermelho, como se tivesse contado uma piada.<\/p>\n<p>Era verdade, nenhum lobo possui identidade. N\u00e3o possui matr\u00edcula, nem endere\u00e7o, nem sal\u00e1rio e nem emprego. Possui apenas o seu cart\u00e3o, que lhe d\u00e1 o direito de estar vivo, desde que esteja sempre al\u00e9m do quil\u00f4metro 101. <\/p>\n<p>Convidaram-no a seguir com o grupo de volta \u00e0 aldeota onde residiam. Havia l\u00e1 um grupo de lobos, em sua maioria gente do sul. Tinham cumprido pena nos pres\u00eddios da capital e, em vez de enviados de volta \u00e0s suas terras de origem, haviam sido soltos na floresta com carteiras de lobo, talvez na esperan\u00e7a de que o inverno desse cabo de seus traseiros.<\/p>\n<p>Enquanto caminhavam, com o passo cuidadosamente calculado, Pintado puxou conversa, dizendo que o grupo andava ca\u00e7ando pela floresta quando o carro do Comissariado apontou zoeirento na longa reta. Poderia ser um cad\u00e1ver para a floresta devorar, mas era um lobo, vivo. Todos tinham fica surpresos de v\u00ea-lo, especialmente seu salto e sua fuga pelo barranco:<\/p>\n<p>Aqueles canalhas &#8212; explicou &#8212; costumam atirar nas pernas dos infelizes. Se n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m por perto, o coitado sangra at\u00e9 morrer. E no m\u00ednimo fica manco. Voc\u00ea foi esperto de pular.<\/p>\n<p>&#8212; Tive um pressentimento ruim.<\/p>\n<p>&#8212; A floresta favorece quem tem pressentimentos, e que prestam aten\u00e7\u00e3o neles &#8212; interferiu o Vermelho, que claramente parecia ser o l\u00edder do grupo.<\/p>\n<p>Por fim chegaram \u00e0 aldeia, onde as mulheres, em sua maioria camponesas r\u00fasticas, de olhos amendoados e len\u00e7os na cabe\u00e7a, estavam preparando sopa de repolho. O ar estava infectado daquele cheiro forte de gordura e azedo.<\/p>\n<p>Garoto teve permiss\u00e3o para se sentar \u00e0 sombra de uma r\u00fastica tenda de peles, que parecia apegada a uma casa de madeira que somente por milagre parecia ficar de p\u00e9. Ali se sentou, pensativo, chorando os dias de estudante na faculdade, os cabelos macios de Valentina, o calor perfumado de lavanda da cama enorme na casa dos pais. Confortos e esperan\u00e7as definitivamente mortos. Era um lobo. <\/p>\n<p>Uma menina mesti\u00e7a, com os olhos s\u00f3 um pouco mais fechados que o normal, mas com cabelos t\u00e3o claros quanto o de seu pai, vinha agarrada \u00e0 saia rodada da m\u00e3e, que voltava da horta com mais cabe\u00e7as de repolho. Garoto detestava repolho, mas teve a impress\u00e3o de que teria de comer at\u00e9 fartar-se, durante muito tempo. A menina o viu e come\u00e7ou a acompanhar com os olhos enquanto se afastava em dire\u00e7\u00e3o ao que parecia ser uma esp\u00e9cie de cozinha coletiva. Por fim, depois de trocar algumas palavras com a m\u00e3e, largou-a e veio correndo pelo p\u00e1tio poeirento. Parou diante dele, com olhos ardentes de curiosidade. Era um novo lobo na matilha. A jovem cria de algum lobo mais antigo queria saber quem ele era, cheir\u00e1-lo e definir sua natureza.<\/p>\n<p>Garoto pegou ent\u00e3o um peda\u00e7o de palha de pain\u00e7o do ch\u00e3o e a dobrou rapidamente entre os dedinhos, finalmente fazendo com que desparecesse diante dos olhos firmes da menina. Ela riu com o truque barato de m\u00e1gica e Garoto fez uma amiga, pena que ela s\u00f3 tinha seis anos de idade.<\/p>\n<p>Pegou de novo o seu passaporte de lobo e dedicou-lhe mais aten\u00e7\u00e3o. Nunca vira um. Ningu\u00e9m nunca vira. A pr\u00f3pria exist\u00eancia dos lobos era algo quase lend\u00e1rio. S\u00f3 ouvira falar deles com mais detalhes durante os meses de cadeia. Havia muitos l\u00e1 que sonhavam sair para a floresta, mas a maioria morreu sangrando nas m\u00e3os dos torturadores. Garoto sacudiu a cabe\u00e7a tentando esquecer isso. <\/p>\n<p>Viu ent\u00e3o a ofensa estampada naquelas letras rebatidas com for\u00e7a, com manopla intensa de quem tem certeza do que quer. &#8220;Profiss\u00e3o: an\u00e3o de circo&#8221;. Teve ganas de chorar mais uma vez. Dezoito anos de estudos, prestes a formar-se em uma faculdade de engenharia. Noivo para casar. De repente se mete num est\u00fapido grupo de poetas malditos. O que fora fazer l\u00e1, bom Deus dos idiotas? Pronto, a vida que sonhara estava reduzida \u00e0quilo. &#8220;Profiss\u00e3o: an\u00e3o de circo&#8221;. Dezoito anos de estudos em v\u00e3o: para o sistema ele n\u00e3o era, ao contr\u00e1rio dos outros, nem professor, nem m\u00e9dico, nem policial, nem mineiro, nem engenheiro, nem lixeiro, nem sequer um rufi\u00e3o ou um assassino. Era um an\u00e3o. Era definido pela sua baixa estatura e teria de conviver com aquela l\u00e1stima. E pudera ter sido um grande engenheiro se n\u00e3o tivesse se metido a poesia.<\/p>\n<p>[^1]: &#8220;Carteira de Lobo&#8221; (<em>Volchiy Bilet<\/em>) era o apelido coloquial do documento de identidade oferecido pela pol\u00edcia sovi\u00e9tica aos condenados que sa\u00edam da cadeia. Em geral o documento continha a proibi\u00e7\u00e3o de que seu portador se apresentasse a menos de 100 quil\u00f4metros de qualquer centro urbano, sob pena de ser preso ou at\u00e9 executado. Com isso, o indiv\u00edduo tinha de levar uma &#8220;vida de lobo&#8221; nas regi\u00f5es remotas, onde frequentemente eram fundadas pequenas comunidades, a 101 quil\u00f4metros das cidades. Anteriormente o nome havia sido empregado para os diplomas de conclus\u00e3o de concurso que as faculdades ofereciam aos estudantes que colavam grau mas n\u00e3o conseguiam ter uma tese aprovada. Profissionalmente, o efeito disso era o jovem n\u00e3o ter emprego em centros importantes, tendo de ir trabalhar em cidadezinhas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o houve julgamento formal. Ficou semanas preso, comendo do p\u00e9ssimo p\u00e3o e da pior sopa. Bateram-lhe um pouco, mas n\u00e3o excessivamente. Um dia, por fim, puseram-no dentro de uma viatura no fim da madrugada, depois de lhe terem dado uma \u00faltima sova, e o levaram por uma estrada de terra, solto e aos solavancos dentro do porta malas. A princ\u00edpio parecera que seria morto em alguma clareira de floresta \u00e0 beira da estrada, mas n\u00e3o foi o que aconteceu. 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