{"id":259,"date":"2011-07-23T21:29:00","date_gmt":"2011-07-24T00:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=259"},"modified":"2017-11-02T14:09:10","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:10","slug":"impressoes-da-leitura-de-piquenique-na-estrada-dos-irmaos-strugatsky","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/07\/impressoes-da-leitura-de-piquenique-na-estrada-dos-irmaos-strugatsky\/","title":{"rendered":"Impress\u00f5es da Leitura de \u201cPiquenique na Estrada\u201d, dos Irm\u00e3os Strugatsky"},"content":{"rendered":"<p>Retornando hoje de meu breve ex\u00edlio da internet, relato um feito proporcionado pelo meu isolamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s distra\u00e7\u00f5es que existem na Rede: terminei finalmente a leitura de <em>Roadside Picnic<\/em> (t\u00edtulo da tradu\u00e7\u00e3o americana), um cl\u00e1ssico da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sovi\u00e9tica, de autoria dos irm\u00e3os B\u00f3ris e Arc\u00e1dio Strugatsky. Aproveito agora para compartilhar com voc\u00eas minhas impress\u00f5es.<\/p>\n<p>Inicialmente vou dizer umas breves palavras sobre os autores. S\u00e3o tidos pela cr\u00edtica especializada como verdadeiros g\u00eanios liter\u00e1rios incompreendidos, cuja obra n\u00e3o pode ser perfeitamente fru\u00edda pelos ocidentais devido \u00e0 profunda carga lingu\u00edstica que ela possui, mesclando neologismos e arca\u00edsmos, coloquialismos e terminologia cient\u00edfica (e pseudocient\u00edfica). N\u00e3o pude, obviamente, ver nada disso na tradu\u00e7\u00e3o americana (que, ali\u00e1s, me pareceu bastante &#8220;porca&#8221;), mas detectei v\u00e1rios dos outros elementos que s\u00e3o apontados como evid\u00eancias da genialidade dos irm\u00e3os: a curiosa (e sempre inquietante) mistura entre s\u00e1tira, idealismo, cinismo, ate\u00edsmo, supersti\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica de personagens muito densos e complexos. Resumindo: trata-se realmente de um trabalho liter\u00e1rio de alta envergadura. Os irm\u00e3os est\u00e3o, no g\u00eanero fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, na mesma categoria dos &#8220;quatro grandes&#8221; (Asimov, Brabury, Clarke e Heinlein) e, sob certos aspectos, est\u00e3o acima.<\/p>\n<p>Pode parecer surpreendente que eu afirme isso sem ter lido sua obra no original, mas o que de pode entrever nesta tradu\u00e7\u00e3o que li justifica plenamente a reputa\u00e7\u00e3o dos dois: eles s\u00e3o simplesmente ousados al\u00e9m da conta, em todo e qualquer aspecto (exceto na formalidade da narrativa e da pontua\u00e7\u00e3o). Vamos por partes.<\/p>\n<p><em>Roadside Picnic<\/em> \u00e9 uma obra carregada de s\u00e1tira. Pelo que leio das sinopses, todas as obras dos irm\u00e3os Strugatsky s\u00e3o amargamente sat\u00edricas. \u00c9 surpreendente que eles n\u00e3o tenham sido deportados para a Sib\u00e9ria e morrido l\u00e1. Talvez o expediente de deslocar sua s\u00e1tira para mundos inventados do futuro ou pa\u00edses estrangeiros (como o Canad\u00e1, nesse romance) tenha permitido que os censores n\u00e3o percebessem que o alvo da s\u00e1tira era o comunismo.  \u00c9 preciso ser &#8220;muito macho&#8221; para satirizar o comunismo se voc\u00ea nasceu em 1925 na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Os irm\u00e3os Strugatsky foram, e morreram de velhice (embora algumas de suas obras, entre elas esta, tenham sido severamente censuradas antes da publica\u00e7\u00e3o e s\u00f3 tenham sido restauradas ap\u00f3s o fim do comunismo). Em <em>Roadside Picnic<\/em> a s\u00e1tira n\u00e3o est\u00e1 exatamente dirigida ao comunismo, mas ao seu cientifismo. Ao longo do livro os cientistas (mostrados como pessoas idealistas, mas ing\u00eanuas) comportam-se como crian\u00e7as que procuram entender os brinquedos que ganharam. A religi\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 satirizada (neste livro est\u00e1 a c\u00e9lebre frase &#8220;A hip\u00f3tese de Deus nos d\u00e1 uma oportunidade absolutamente incompar\u00e1vel de entender tudo e n\u00e3o saber nada&#8221;), bem como o ideal do <em>self made man<\/em> (os her\u00f3icos personagens do livro se revelam pessoas absolutamente detest\u00e1veis, como Burbridge, ou meros instrumentos da gan\u00e2ncia do &#8220;sistema&#8221;, como o protagonista).<\/p>\n<p>O livro literalmente atira para todos os lados: os personagens s\u00e3o de v\u00e1rios tipos, um comerciante corrupto, um cientista ing\u00eanuo, um ladr\u00e3o que se acha um tipo de her\u00f3i, um cientista absolutamente c\u00ednico, um policial violento, um barman covarde, um negro supersticioso\u2026  cada um deles se relaciona de uma forma diferente com o grande mist\u00e9rio de que fala o livro: as &#8220;Zonas&#8221;.<\/p>\n<p><em>Roadside Picnic<\/em> \u00e9 um livro sobre uma visita extraterrestre ao nosso mundo. Dito assim, parece um livro igual a centenas de outros. Mas quando voc\u00ea o l\u00ea, percebe que h\u00e1 poucos livros parecidos. Para come\u00e7ar, a visita em si \u00e9 apenas uma hip\u00f3tese desenvolvida para explicar um fato: o aparecimento sobre a Terra de sete estranhas &#8220;zonas&#8221; onde ocorrem fen\u00f4menos que contradizem a lei da f\u00edsica, onde se encontram objetos estranhos e inexplic\u00e1veis, onde tudo subitamente parece que se tornou hostil \u00e0 vida como a conhecemos (os p\u00e1ssaros n\u00e3o voam sobre as &#8220;zonas&#8221; e l\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 insetos).<\/p>\n<p>Os extraterrestres n\u00e3o aparecem, ningu\u00e9m os viu (ou sobreviveu ap\u00f3s v\u00ea-los para poder contar). Mas o seu legado, os obetos e fen\u00f4menos que eles deixam para tr\u00e1s, assombram o livro do come\u00e7o ao fim e, revelando o alcance do cinismo dos autores, demonstram-se t\u00e3o indiferentes \u00e0 nossa exist\u00eancia que um personagem chega a dizer que isso foi um sorte, pois se nos tivessem notado, teriam feito conosco como fazemos com as formigas que poderiam atrapalhar nosso piquenique \u00e0 beira da estrada (nesse ponto, l\u00e1 pelo meio do livro, voc\u00ea entende o porqu\u00ea do t\u00edtulo). Para os extraterrestres n\u00f3s nem sequer somos vis\u00edveis. Se os espanh\u00f3is tiveram d\u00favidas se os amer\u00edndios eram humanos, Strugatsky argumenta que talvez n\u00f3s e os Visitantes nem nos reconhec\u00eassemos como seres vivos e pensantes: &#8220;Usualmente uma defini\u00e7\u00e3o trivial [de racionalidade] \u00e9 usada: a raz\u00e3o \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o humana que nos distingue dos animais. Ou seja, uma tentativa de distinguir entre o homem e o seu c\u00e3o, que a tudo entende mas n\u00e3o sabe falar.&#8221;<\/p>\n<p>Resta-nos, ent\u00e3o, coletar os restos de suas fogueiras, as pilhas descarregadas de seus r\u00e1dios, migalhas de seu p\u00e3o, uma pola de pingue-pongue perdida no lago, um talher de pl\u00e1stico quebrado, gotas do \u00f3leo de seu carro que pingaram na grama, o len\u00e7o perfumado, talvez uma camisinha usada\u2026 &#8220;Exatamente. Um piquenique durante a viagem, \u00e0 beira de alguma estrada do universo. E voc\u00ea me pergunta se eles v\u00e3o voltar.&#8221;<\/p>\n<p>Estou agora determinado a continuar lendo as obras de B\u00f3ris e Arc\u00e1dio Strugatsky. Eles s\u00e3o bons, s\u00e3o livros densos e que fazem pensar. S\u00e3o fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para gente que gosta de refletir, e n\u00e3o para jovens obcecados com um v\u00edrus que faz zumbis ou com rob\u00f4s alien\u00edgenas que se transformam em carr\u00f5es. E os t\u00edtulos prometem: <em>Um Besouro no Formigueiro, Segunda Come\u00e7a no S\u00e1bado, Certamente Talvez, Como \u00c9 Duro Ser um Deus, Um Arco \u00cdris ao Longe, Meio-Dia no S\u00e9culo XXII, O \u00daltimo C\u00edrculo do Para\u00edso, O Mowgli do Espa\u00e7o\u2026<\/em> Seria \u00f3timo se estas obras geniais estivessem dispon\u00edveis em portugu\u00eas, mas quase me d\u00e1 vontade de aprender russo para l\u00ea-las.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retornando hoje de meu breve ex\u00edlio da internet, relato um feito proporcionado pelo meu isolamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s distra\u00e7\u00f5es que existem na Rede: terminei finalmente a leitura de Roadside Picnic (t\u00edtulo da tradu\u00e7\u00e3o americana), um cl\u00e1ssico da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sovi\u00e9tica, de autoria dos irm\u00e3os B\u00f3ris e Arc\u00e1dio Strugatsky. Aproveito agora para compartilhar com voc\u00eas minhas impress\u00f5es. Inicialmente vou dizer umas breves palavras sobre os autores. S\u00e3o tidos pela cr\u00edtica especializada como verdadeiros g\u00eanios liter\u00e1rios incompreendidos, cuja obra n\u00e3o pode ser perfeitamente fru\u00edda pelos ocidentais devido [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[142],"tags":[148,32,59],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4915,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259\/revisions\/4915"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}