{"id":2659,"date":"2015-06-20T22:50:48","date_gmt":"2015-06-21T01:50:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2659"},"modified":"2017-08-12T23:40:03","modified_gmt":"2017-08-13T02:40:03","slug":"uma-tentativa-de-explicar-a-falta-do-grande-romance-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/06\/uma-tentativa-de-explicar-a-falta-do-grande-romance-brasileiro\/","title":{"rendered":"Uma Tentativa de Explicar \u201cA Falta do Grande Romance Brasileiro\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Dizem que deu na Folha, mas eu n\u00e3o leio jornal mais \u2014 ent\u00e3o eu s\u00f3 fiquei sabendo atrav\u00e9s do blog do Rodrigo Gurgel, o pol\u00eamico cr\u00edtico liter\u00e1rio, de quem tenho aprendido a gostar (falo do blog e n\u00e3o do cr\u00edtico, porque conhecer o primeiro n\u00e3o equivale a conhecer o segundo). Para quem n\u00e3o sabe do que estou falando, dou um resumo e deixo o [link](http:\/\/rodrigogurgel.com.br\/2015\/06\/a-falha-do-romance-brasileiro\/) para quem queira ler o texto inteiro (e eu recomendo, pois vale a pena).<\/p>\n<p>Gurgel recorda N\u00e9lson Ascher e Manuel Bandeira que, em momentos diferentes, problematizaram uma suposta car\u00eancia de nossa literatura: o &#8220;romance nacional&#8221;:<\/p>\n<p>> onde est\u00e3o as narrativas que, sem preju\u00edzo da qualidade est\u00e9tica, oferecem um painel amplo e razoavelmente expl\u00edcito do per\u00edodo hist\u00f3rico e da sociedade em que se ambientam? <\/p>\n<p>Sejamos mais espec\u00edficos, tanto Ascher quanto Bandeira est\u00e3o em busca de romances, n\u00e3o necessariamente hist\u00f3ricos ou realistas, ou mesmo marginalmente realistas, que ajudem a entender o Brasil como pa\u00eds, com sua hist\u00f3ria, cultura e idiossincrasias:<\/p>\n<p>> Quais s\u00e3o os melhores romances brasileiros sobre a era Vargas, a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, o golpe de 64, a ditadura militar e a transi\u00e7\u00e3o para a democracia? Onde est\u00e3o as sagas que descrevem a trajet\u00f3ria de diversas gera\u00e7\u00f5es de uma fam\u00edlia italiana, \u00e1rabe, japonesa ou judia desde sua chegada a Santos no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 at\u00e9 os anos 90? E as hist\u00f3rias de ascens\u00e3o e queda individual cujo pano de fundo sejam as transforma\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Paulo ou do Rio?<\/p>\n<p>Tendo exposto o problema, Gurgel admite que existem algumas destas obras, mas elas padecem de dois problemas. O primeiro \u00e9 que, &#8220;parafraseando o Dr. Samuel Johnson, o Brasil produz fic\u00e7\u00e3o boa e fic\u00e7\u00e3o realista, mas a fic\u00e7\u00e3o boa n\u00e3o \u00e9 muito realista e a fic\u00e7\u00e3o realista&#8230;&#8221; O segundo problema \u00e9 que as exce\u00e7\u00f5es existentes se limitam em seu escopo geogr\u00e1fico (como a obra de M\u00e1rcio Souza e \u00c9rico Ver\u00edssimo) ou em seu escopo temporal (como o c\u00e9lebre &#8220;Agosto&#8221;, de Rubem Fonseca).<\/p>\n<p>Para deixar melhor exposto o caso \u00e9 preciso citar que o tipo de texto parece faltar em nossa litera\u00adtura, segundo os autores citados, seria algo maior do que o romance de ambienta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica (como muito se fez e se faz por aqui), mas um romance hist\u00f3rico em si. Se bem entendi a pol\u00eamica, Gurgel deseja saber por que nos falta algo como &#8220;Eurico, o Presb\u00edtero&#8221; (Alexandre Herculano) ou &#8220;Guerra e Paz&#8221; (Tolst\u00f3i) \u2014 um romance bem realizado, com ambienta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica rigorosa e preocupado em narrar uma hist\u00f3ria dentro da hist\u00f3ria. N\u00e3o uma fantasia hist\u00f3rica do tipo &#8220;o que teria acontecido se\u2026&#8221; e n\u00e3o uma micro-hist\u00f3ria centrada ao redor do umbigo de um personagem s\u00f3.<\/p>\n<p>Gurgel desenterra um artigo de Manuel Bandeira, no qual enxerga uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o para a car\u00eancia levantada por Ascher:<\/p>\n<p>> Sem d\u00favida, os brasileiros somos bem imaginosos. Mas falta-nos a aptid\u00e3o de combinar tanta abund\u00e2ncia de imagens e, sobretudo, de as exteriorizar artisticamente num entrecho que nos d\u00ea a ilus\u00e3o da vida em toda a sua rica versatilidade.<\/p>\n<p>Como Bandeira n\u00e3o avan\u00e7a muito no diagn\u00f3stico das causas do problema, apenas aventa hip\u00f3teses, Gurgel se aventura a escolher uma que lhe parece mais apropriada. Para o cr\u00edtico, deve haver algum &#8220;v\u00edcio de composi\u00e7\u00e3o, falta de aplica\u00e7\u00e3o ou aus\u00eancia de est\u00edmulo.&#8221; Nesse ponto eu pretendo cortar a bola levantada por Gurgel e cometer minha pr\u00f3pria teoria sobre o caso.<\/p>\n<p>Acredito que n\u00e3o h\u00e1 mesmo a &#8220;falha fundamental de capacidade&#8221; (aventada por Bandeira, mas descartada por Gurgel), mas tampouco h\u00e1 &#8220;v\u00edcio de composi\u00e7\u00e3o&#8221; (pois tivemos e temos autores muito competentes no seu mister), &#8220;falta de aplica\u00e7\u00e3o&#8221; (acredito que a perseveran\u00e7a na litera\u00adtura \u00e9 uma suficiente prova de aplica\u00e7\u00e3o) ou &#8220;aus\u00eancia de est\u00edmulo&#8221; (a arte n\u00e3o precisa ser produzida a partir de est\u00edmulos externos, pois, se assim fosse, as artes teriam alcan\u00e7ado nos pa\u00edses mais ricos o seu maior grau de desenvolvimento, por\u00e9m tal \u00e9 discut\u00edvel). Se h\u00e1 v\u00edcio de composi\u00e7\u00e3o, falta de aplica\u00e7\u00e3o ou aus\u00eancia de est\u00edmulo, estes tr\u00eas fatores n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o sintomas de outro fator mais profundo: o amadorismo. O problema fundamental de nossa literatura, causador de lacunas, como a aus\u00eancia do grande romance nacional que Ascher procurou em v\u00e3o, \u00e9 que a ampla maioria de nossos autores s\u00e3o amadores.<\/p>\n<p>Preciso explicar antes a dicotomia que emprego: um autor amador \u00e9 aquele que se dedica \u00e0 literatura como uma preocupa\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria de sua vida. Algu\u00e9m que precisa trabalhar para se sustentar e que escreve nas horas vagas. O amadorismo n\u00e3o \u00e9 um problema em si, mas a sua preval\u00eancia causa problemas a uma literatura \u2014 entre eles a citada car\u00eancia de romances de grande foco, como o &#8220;romance nacional&#8221; que se busca.<\/p>\n<p>Eu digo mais: o amadorismo \u00e9 uma escola. No meu caso, por exemplo, aos quarenta e dois anos, j\u00e1 n\u00e3o faz diferen\u00e7a se amanh\u00e3 eu ganharei na loteria e poderei me dedicar a escrever, pelo resto da vida. *Eu j\u00e1 me formei um amador* e a minha literatura sempre ser\u00e1 amadora mesmo que eu deixe de pratic\u00e1-la em minhas horas vagas e passe a fazer dela meu hobby de tempo integral. A literatura ser\u00e1 um acess\u00f3rio em minha vida mesmo se eu n\u00e3o fizer mais nada a partir de amanh\u00e3 sen\u00e3o escrever literatura. Porque continuar\u00e1 sendo uma ocupa\u00e7\u00e3o de horas vagas, e n\u00e3o o centro de minha vida e de minhas preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil para eu explicar de que maneiras o amadorismo tolhe e domestica (no mau sentido) o talento de algu\u00e9m, mas preciso tentar. O amador \u00e9 algu\u00e9m que desde a inf\u00e2ncia est\u00e1 predestinado ou circunstancialmente \u00e9 obrigado a ser outra coisa que n\u00e3o um autor. Ele n\u00e3o estuda aquilo que formaria um bom autor, mas aquilo que lhe dar\u00e1 carreira e sal\u00e1rio e satisfar\u00e1 a fam\u00edlia. Ele passa os anos mais criativos de sua vida, a adolesc\u00eancia e a juventude, ocupado com uma profiss\u00e3o (ainda que no fundo a deteste e somente o sonho da literatura o alimente) em vez de ocupar-se em aperfei\u00e7oar a sua escrita. Se algum dia adquire estabilidade profissional e\/ou financeira para poder &#8220;gastar&#8221; algum dinheiro com edi\u00e7\u00f5es, participa\u00e7\u00f5es em eventos ou matr\u00edculas em cursos, j\u00e1 ser\u00e1 tarde para que assimile integralmente tais experi\u00eancias \u2014 e ser\u00e1 tarde para ser visto nelas como algu\u00e9m promissor. *Ningu\u00e9m \u00e9 promissor aos quarenta anos*.<\/p>\n<p>O amadorismo prejudica seriamente a literatura quando ele se instala. Uma literatura feita por amadores tende a produzir obras menos extensas e menos complexas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o mesmo Brasil que n\u00e3o produziu um &#8220;romance nacional&#8221; digno de nome tenha sido o inventor da cr\u00f4nica liter\u00e1ria, g\u00eanero tipicamente nosso, e breve, e leve. A cr\u00f4nica nos explica melhor do que qualquer teoria: \u00e9 um texto fluido, que pode mesclar livremente fantasia e realidade, que tem um desenvolvimento quase necessariamente linear e que brinca na superf\u00edcie, com as palavras, em vez de mergulhar nas profundezas, estruturais.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea deseja romances de amplo foco (ou obras liter\u00e1rias de qualidade alt\u00edssima), precisa de um contexto no qual a arte possa ser feita por jovens, e por jovens de todas as classes (n\u00e3o somente pelos bem-nascidos, que voejam em torno de suas torres de marfim, sem conhecer a realidade das camadas subalternas da sociedade). O tipo de romance que Ascher busca \u00e9 escrito, na maturidade, por aqueles que produziram na juventude obras cheias de ira, de verve, de jogo e de leveza. Em uma tal literatura, os que come\u00e7am leves adquirem peso ao interagirem com outros, ao assimilarem cultura. N\u00e3o se produzem autores maduros em faculdades de economia, administra\u00e7\u00e3o, direito, ou mesmo engenharia. Em alguns casos at\u00e9 se pode produzir algum, se a faculdade tiver um ambiente pouco rigoroso e o aluno for particularmente relapso. Os bons alunos tendem a arranjar boas carreiras, e a literatura continua no fim de semana.<\/p>\n<p>O autor amador n\u00e3o \u00e9 suficientemente profundo para ter *insights* que o levem a sequer detectar a oportunidade do &#8220;romance nacional&#8221;, e quando chega a ter essa ideia, tem tamb\u00e9m a consci\u00eancia de que \u00e9 um alvo al\u00e9m de sua capacidade, por n\u00e3o ter adquirido suficiente erudi\u00e7\u00e3o para atac\u00e1-lo. O autor amador, porque se dedica pouco tempo a escrever, demora a aperfei\u00e7oar sua pena, tarda muito em juven\u00edlias irrelevantes, chega aos quarenta anos indeciso e ainda precisando de leitores beta. N\u00e3o \u00e9 que lhe falte talento \u2014 ele o demonstrar\u00e1 em textos curtos e concisos, nos quais consiga se manter sob controle \u2014 o que lhe falta \u00e9 destreza. Nossos autores podem fazer muita coisa boa, mas eles s\u00e3o essencialmente atletas de fim de semana. \u00c9 \u00f3timo que haja no mundo tanta gente que pratique esporte no fim de semana, mas o pa\u00eds nada ganha de fato se n\u00e3o tiver ligas profissionais. Autores amadores podem ser interessantes, mas a literatura que realmente importa e que impacta \u00e9 feita pelos profissionais.<\/p>\n<p>E antes que me digam que estou dizendo bobagem, gostaria de lhes lembrar que todos os grandes nomes de nossa literatura foram amadores, no sentido em que aqui expliquei. Exce\u00e7\u00f5es ser\u00e3o citadas, claro, mas algumas n\u00e3o s\u00e3o realmente exce\u00e7\u00f5es ou os autores n\u00e3o s\u00e3o realmente grandes. Machado de Assis foi tip\u00f3grafo e depois se tornou escritur\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Agricultura. Lima Barreto foi &#8220;amanuense&#8221; do Minist\u00e9rio da Guerra. Carlos Drummond de Andrade trabalhava no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Guimar\u00e3es Rosa e Vin\u00edcius de Morais foram diplomatas. Continue examinando a lista e veja nas biografias de nossos \u00eddolos, onipresente, uma outra profiss\u00e3o n\u00e3o liter\u00e1ria. Mesmo os que aparentam profissionalismo ainda s\u00e3o, essencialmente, diletantes. Paulo Coelho hoje ganha para escrever, mas ele s\u00f3 chegou aonde chegou porque j\u00e1 era famoso antes (e rico) e pode queimar muito dinheiro em promo\u00e7\u00f5es antes de se fazer conhecido. Algu\u00e9m que se fez autor depois de ter sido outra coisa (compositor e produtor musical), n\u00e3o \u00e9 realmente um autor profissional, n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que viveu de e para escrever.<\/p>\n<p>Esta nossa literatura, feita nas horas vagas, com as sobras das energias de pessoas geniais, n\u00e3o tem como produzir algo de grande envergadura, como os romances de Flaubert (maravilhosamente encadeados) ou mesmo algo que nos defina literariamente, como o &#8220;Abril Despeda\u00e7ado&#8221;, de Ismail Kadar\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem que deu na Folha, mas eu n\u00e3o leio jornal mais \u2014 ent\u00e3o eu s\u00f3 fiquei sabendo atrav\u00e9s do blog do Rodrigo Gurgel, o pol\u00eamico cr\u00edtico liter\u00e1rio, de quem tenho aprendido a gostar (falo do blog e n\u00e3o do cr\u00edtico, porque conhecer o primeiro n\u00e3o equivale a conhecer o segundo). Para quem n\u00e3o sabe do que estou falando, dou um resumo e deixo o [link](http:\/\/rodrigogurgel.com.br\/2015\/06\/a-falha-do-romance-brasileiro\/) para quem queira ler o texto inteiro (e eu recomendo, pois vale a pena). Gurgel recorda N\u00e9lson Ascher e Manuel [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[77,55,57],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2659"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2659"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2659\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4616,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2659\/revisions\/4616"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2659"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2659"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2659"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}