{"id":2665,"date":"2015-06-25T23:54:38","date_gmt":"2015-06-26T02:54:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2665"},"modified":"2017-08-12T23:39:20","modified_gmt":"2017-08-13T02:39:20","slug":"a-falta-do-grande-romance-brasileiro-segunda-versao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/06\/a-falta-do-grande-romance-brasileiro-segunda-versao\/","title":{"rendered":"&#8220;A Falta do Grande Romance Brasileiro&#8221;, Segunda Vers\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>> Esta \u00e9 a vers\u00e3o que postei no pr\u00f3prio site do Rodrigo Gurgel, mais enxuta e mais direta ao ponto.<\/p>\n<p>Eu tenho uma tese sobre o assunto, que ouso compartilhar aqui: a literatura brasileira padece de diletantismo e isso lhe causa uma perda de foco e de profundidade.<\/p>\n<p>&#8220;Diletantismo&#8221;, eu digo, porque n\u00f3s n\u00e3o temos uma estrutura para revelar, remunerar e orientar a forma\u00e7\u00e3o dos escritores. N\u00e3o h\u00e1 revistas publicando contos, n\u00e3o h\u00e1 pr\u00eamios liter\u00e1rios s\u00e9rios e amplamente divulgados, n\u00e3o h\u00e1 perspectiva de carreira para quem apare\u00e7a com um romance estupendo. Na verdade, quase tudo que um jovem autor possa fazer vai lhe custar dinheiro em vez de lhe trazer. Isso tem consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Se a literatura, em vez de ser uma perspectiva de carreira para quem tenha inclina\u00e7\u00e3o \u00e0s letras, aparece como algo custoso, isso vai provocar duas influ\u00eancias, ambas negativas a meu ver.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 que a literatura ser\u00e1 vista como um hobby ou como algo desconectado do processo produtivo cultural e da sociedade como um todo. Deixa de ser parte da ess\u00eancia do ambiente cultural e se torna um acess\u00f3rio. <\/p>\n<p>A segunda influ\u00eancia \u00e9 que esse hobby, por ser custoso, ser\u00e1 acess\u00edvel somente aos bem nascidos ou aos que consigam obter bons empregos. Esta influ\u00eancia se bifurca em duas outras, ainda mais negativas.<\/p>\n<p>Por um lado, a literatura feita pelos bem nascidos tende a ser alienada, mais especialmente em um pa\u00eds como o nosso, onde s\u00e3o t\u00e3o d\u00edspares as condi\u00e7\u00f5es de vida entre diferentes comunidades, tanto horizontalmente quanto verticalmente. <\/p>\n<p>Por outro lado, a literatura feita pelos empregados tende a ser produzida no tempo que lhes sobra, com as energias que ainda lhes restem.<\/p>\n<p>Se a primeira \u00e9 uma literatura sem viv\u00eancia de primeira pessoa, a segunda \u00e9 uma literatura de jorros prec\u00e1rios.<\/p>\n<p>A primeira se baseia em &#8220;pesquisa&#8221;, muitas vezes livresca, ou em informa\u00e7\u00f5es de segunda m\u00e3o, em geral distorcidas ou preconceituosas. A segunda sofre de falta de continuidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou me estender muito sobre a literatura dos bem nascidos porque n\u00e3o \u00e9 o meu caso, apenas citei as impress\u00f5es que ela me evoca, \u00e0s vezes. \u00c0s vezes. Mas a literatura dos empregados tem tudo a ver comigo.<\/p>\n<p>Sem perspectiva de se formar escritor e crescer com isso, o jovem que se acha talentoso precisa dedicar suas melhores energias e os melhores anos de sua vida  a aprender coisas que nada t\u00eam a ver com literatura, perseguir uma carreira extra-liter\u00e1ria e acumular capital at\u00e9 obter seguran\u00e7a material. Enquanto isso praticar\u00e1 a literatura nas horas vagas, com o que lhe reste de \u00e2nimo. Se um dia obtiver a estabilidade sonhada, talvez possa at\u00e9 dedicar-se integralmente a escrever, mas j\u00e1 ser\u00e1 tarde.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 tarde porque os anos que passou tendo a literatura num canto de sua vida, em vez do centro, determinaram que sua escrita se cristalizasse no amadorismo. Ele poder\u00e1 passar a escrever em tempo integral, mas continuar\u00e1 sendo um amador.<\/p>\n<p>Tem sido assim h\u00e1 bastante tempo. Mas o problema do amadorismo \u00e9 grave. <\/p>\n<p>O amador n\u00e3o possui, realmente, os conhecimentos profundos que s\u00e3o necess\u00e1rios para a atividade. A excel\u00eancia reside no profissional, no que pratica continuamente, que se dedica exclusivamente. Um peladeiro, amador, dificilmente ser\u00e1 t\u00e3o bom quanto um jogador profissional. A menos que o primeiro tenha muito talento natural e o segundo seja um grande embuste. O amador sobrevive do inato, do instinto e de alguma coisa que conseguiu ajuntar de conhecimento e pr\u00e1tica ao longo da vida, no tempo que sobrou de sua dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o inerente do amador \u00e9 n\u00e3o ter, portanto, desenvolvida plenamente a capacidade de grande observa\u00e7\u00e3o. Aquela vis\u00e3o larga que permite a um autor profissional delinear um painel detalhado e abrangente de um contexto. O tipo de romance que voc\u00ea procura, o &#8220;romance \u00e9pico&#8221; como eu preferiria cham\u00e1-lo, somente pode ser produzido por algu\u00e9m de grande cultura (para conhecer o assunto) e de grande pr\u00e1tica liter\u00e1ria (para poder manipular toda a complexidade necess\u00e1ria \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma obra de tal f\u00f4lego).<\/p>\n<p>Certamente algu\u00e9m como eu jamais conseguir\u00e1. Por mais que eu tenha uma cultura variada e um bom dom\u00ednio da norma culta, tenho certeza de que um e outro apenas parecem grandes porque a m\u00e9dia \u00e9 baixa: em geral os brasileiros n\u00e3o t\u00eam muita cultura e conhecem mal a norma culta. Ainda mais: o pouco h\u00e1bito de escrita entre n\u00f3s pode criar grandes ilus\u00f5es liter\u00e1rias em pessoas que conseguem ir al\u00e9m do instrumental.<\/p>\n<p>Acima de tudo, o amadorismo se torna cruel quando aqueles que possuem mais dinheiro ou influ\u00eancia utilizam esses recursos para se promoverem, e assim adquirem um protagonismo que n\u00e3o conseguiriam pela simples for\u00e7a de seus livros. Nossa literatura hoje compete com livros escritos por celebridades (at\u00e9 Paulo Coelho era celebridade antes de virar mago literato, tendo sido renomado compositor antes disso) ou que apelam ao senso comum e \u00e0 vulgaridade (como a obra de Bruna Surfistinha). Isso nos leva a concluir que, al\u00e9m de todos os obst\u00e1culos estruturais j\u00e1 citados, que castram a habilidade criativa de tantos autores nacionais, ainda existe a outra bandeja da balan\u00e7a: n\u00e3o h\u00e1 demanda para esse tipo de romance que voc\u00ea procura. Pelo menos n\u00e3o escrito por um autor nacional.<\/p>\n<p>O que nos leva ao problema da forte influ\u00eancia estrangeira, que compete com o produto nacional, mas isso \u00e9 coisa para outro dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>> Esta \u00e9 a vers\u00e3o que postei no pr\u00f3prio site do Rodrigo Gurgel, mais enxuta e mais direta ao ponto. Eu tenho uma tese sobre o assunto, que ouso compartilhar aqui: a literatura brasileira padece de diletantismo e isso lhe causa uma perda de foco e de profundidade. &#8220;Diletantismo&#8221;, eu digo, porque n\u00f3s n\u00e3o temos uma estrutura para revelar, remunerar e orientar a forma\u00e7\u00e3o dos escritores. 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