{"id":2691,"date":"2018-01-02T12:16:49","date_gmt":"2018-01-02T15:16:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2691"},"modified":"2018-01-02T12:23:33","modified_gmt":"2018-01-02T15:23:33","slug":"o-estilo-cucaracha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/01\/o-estilo-cucaracha\/","title":{"rendered":"O Estilo Cucaracha"},"content":{"rendered":"<p>A barata \u00e9 uma criatura que testa a engenhosidade do ser humano, mas tamb\u00e9m os seus dotes marciais. Nada \u00e9 mais revelador do car\u00e1ter de um homem do que o inesperado encontro com uma cascuda voadora a zumbir no escuro. Deve ser por isso que H. P. Lovecraft escreveu que o t\u00edtulo original do <em>Necronomicon<\/em> era <em>Al Azif<\/em>, supostamente \u201co zumbido\u201d. Uma barata voadora no escuro \u00e9 uma amea\u00e7ada alada \u00e0 masculinidade de qualquer barbado f\u00e3 de death metal escandinavo.<\/p>\n<p>Agora h\u00e1 pouco tive um encontro desses que separam os homens dos meninos. Tive alguma sorte, mas n\u00e3o diria que a minha honra restou intacta.<a href=\"https:\/\/sonarcon.net\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/cucaracha.jpg\"><img src=\"https:\/\/sonarcon.net\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/cucaracha.jpg\" width=\"40%\" class=\"alignright size-medium\" \/><\/a><\/p>\n<p>Chego para almo\u00e7ar e vou ao banheiro para tirar a proverbial \u00e1gua do joelho quando ou\u00e7o o estalar e o zumbir que faziam os pelos dos povos antigos eri\u00e7arem no escuro, em lugares desertos. Viro-me, com a agilidade de Bruce Lee e a bicha est\u00e1 na parede, abrindo as asas, pronta para voar e espargir seu terror.<\/p>\n<p>Olho em volta, n\u00e3o tenho inseticida. Olho para baixo, estou cal\u00e7ando botinas sob a cal\u00e7a jeans.<\/p>\n<p>A barata amea\u00e7a voar e pousa na porta do banheiro, \u00e0 meia altura desta, ainda com as asas semiabertas.<\/p>\n<p>Nesse momento de tens\u00e3o, em que os olhinhos compostos da Besta Primordial me encaram sem encarar, o meu corpo raciocina antes de meu c\u00e9rebro e me impele a um gesto de que eu jamais me imaginara capaz. N\u00e3o, n\u00e3o gritei como uma menininha. Do alto de meus cento e dez quilos e de meu protuberante \u201cp\u00e2nceps\u201d eu me ponho de lado e tento acertar a barata com um golpe de <em>kung fu<\/em>.<\/p>\n<p>Pare um momento a leitura e tente imaginar a cena.<\/p>\n<p>Um homem, brasileiro, branco, cis, de classe m\u00e9dia, algo acima do peso, casado, propriet\u00e1rio de um carro compacto, pai de duas meninas, vizinho de um terreno baldio, escritor de m\u00e1 literatura.<\/p>\n<p>Esse homem, que jamais aprendeu a pular corda e que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de correr um quil\u00f4metro sem perder os sentidos, no desespero do duelo com a barata, recorre ao mais improv\u00e1vel dos recursos. Ao recurso que, excelentemente, n\u00e3o tinha. Que Bruce Lee e todos os seus antepassados me perdoem, mas eu tentei acertar a barata com a sola de meu p\u00e9 direito, em um golpe que faria rir a um aluno do Mestre Betinho no primeiro dia de aula.<\/p>\n<p>Acertei a porta com um estrondo, assustando a casa toda. A miserenta da barata fechou as asas, caiu ao ch\u00e3o e escapou debaixo da porta, com a sua dignidade intacta. Nos estalinhos dela eu podia, quase, ouvir risadinhas demon\u00edacas. <em>Al Azif<\/em>.<\/p>\n<p>Nem as meninas acreditaram quando lhes contei, orgulhoso, que consegui executar um \u201cperfeito\u201d golpe de <em>kung fu<\/em>, talvez inventando o estilo \u201ccucaracha\u201d.<\/p>\n<p>A sorte do homem branco cis, h\u00e9tero e de classe m\u00e9dia \u00e9 que o banheiro \u00e9 um dos \u00faltimos basti\u00f5es de privacidade nesse mundo. Pena que n\u00e3o \u00e9 a prova de som.<\/p>\n<p>Blam!<\/p>\n<p>Em algum lugar do inferno das baratas h\u00e1 uma cascuda contando ao Sat\u00e3 dos insetos que um barrigudo metido a besta tentou acert\u00e1-la com uma esp\u00e9cie de rabo-de-arraia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A barata \u00e9 uma criatura que testa a engenhosidade do ser humano, mas tamb\u00e9m os seus dotes marciais. Nada \u00e9 mais revelador do car\u00e1ter de um homem do que o inesperado encontro com uma cascuda voadora a zumbir no escuro. Deve ser por isso que H. P. Lovecraft escreveu que o t\u00edtulo original do Necronomicon era Al Azif, supostamente \u201co zumbido\u201d. Uma barata voadora no escuro \u00e9 uma amea\u00e7ada alada \u00e0 masculinidade de qualquer barbado f\u00e3 de death metal escandinavo. Agora h\u00e1 pouco tive um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[79,39],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2691"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2691"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2691\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5750,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2691\/revisions\/5750"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}