{"id":2735,"date":"2015-10-18T18:26:11","date_gmt":"2015-10-18T21:26:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2735"},"modified":"2017-11-02T14:08:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:05","slug":"dos-livros-interminaveis-e-dos-leitores-abominaveis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/10\/dos-livros-interminaveis-e-dos-leitores-abominaveis\/","title":{"rendered":"Dos Livros Intermin\u00e1veis e dos Leitores Abomin\u00e1veis"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 obras que ganharam para si um status de obrigat\u00f3rias. Isto praticamente \u00e9 a morte para qualquer possibilidade de que sejam enca\u00adradas como \u201cdivertidas\u201d. Ningu\u00e9m supostamente se diverte fazendo o que \u00e9 obrigat\u00f3rio. Como eu, por\u00e9m, tive a sorte de me apro\u00adximar da literatura como um selvagem, sem qualquer tipo de ori\u00adenta\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica enquadrante, pude ler com prazer algumas des\u00adtas obras e agora me espanto que sejam citadas em tal contexto.<\/p>\n<p>\u00c9 recorrente a cita\u00e7\u00e3o de listas de tais obras ileg\u00edveis \u2014 parece haver certo prazer por parte de leitores e leitoras de todo o mundo em atacar o status daquilo que \u00e9 tido como sacrossanto. Eu mesmo fa\u00e7o isso \u00e0s vezes, lembrando aos meus amigos e (raros) leitores o quanto eu detesto as duas mais not\u00e1veis obras de James Joyce, <em>Ulysses<\/em> e <em>Finnegan\u2019s Wake<\/em>. Duas grandes demonstra\u00e7\u00f5es de autor\u00adre\u00adfe\u00adr\u00eancia e egolatria, isto sim.<\/p>\n<p>Este iconoclasmo com as obras que a cr\u00edtica mais idolatra parece bastante necess\u00e1rio, se considerarmos que o sonho molhado da cr\u00ed\u00adtica \u00e9 dirigir o gosto do p\u00fablico at\u00e9 ele se igualar ao seu. Por mais que a cr\u00edtica seja \u00fatil, e ela o \u00e9, acredito que o cr\u00edtico deve ser man\u00adtido em um cercadinho seguro, n\u00e3o lhe devemos dar tanto poder.<\/p>\n<p>Diz-me <a href=\"http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/10\/15\/cultura\/1413381412_585189.html\">uma recente mat\u00e9ria do caderno liter\u00e1rio do El Pa\u00eds<\/a> que o autor brit\u00e2nico Nick Hornby teria encorajado seus lei\u00adtores a queimar os livros chatos. Devemos tomar cuidado ao aceitar sem cr\u00edtica esta brincadeira de Hornby. Primeiro por ele ser brit\u00e2\u00adnico: os habitantes daquela chuvosa ilha t\u00eam um senso de humor sofisticado que frequentemente passa incompreendido por quem est\u00e1 de fora. Suas piadas me lembram aquelas his\u00adt\u00f3rias que cont\u00e1vamos na escola a respeito de nosso clubinho parti\u00adcular: os de fora ouviam e n\u00e3o entendiam. Segundo por\u00adque, <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/04\/queime-um-livro\">como j\u00e1 disse de certa feita<\/a>, o ato de queimar um livro possui um simbolismo negativo demais para que a ideia seja ventilada irresponsavelmente. Queimar livros pode parecer \u201clegal\u201d quando voc\u00ea est\u00e1 atacando um \u00eddolo do sistema, mas n\u00e3o podemos esquecer que o sistema sempre ter\u00e1 mais influ\u00eancia sobre cora\u00e7\u00f5es e mentes e poder\u00e1 facilmente manipular as massas para que queimem o que n\u00e3o interessa ao status quo. Assim, quem come\u00e7a a brincar com fogo pode queimar o que n\u00e3o quer ou, pior, ser jogado no fogo que ateou para outrem. <em>Escritores especialmente n\u00e3o deviam alimentar a ideia da queima de livros, nem mesmo por brincadeira.<\/em><\/p>\n<p>Afinal, n\u00e3o custa lembrar, se uma obra est\u00e1 sendo indicada para as chamas isto significa que provavelmente ela tem poucos defensores. Experimente falar em queimar a obra de Paulo Coelho ou a B\u00edblia. Chutar \u201ccachorros mortos\u201d (segundo o crit\u00e9rio \u201cpop\u201d) \u00e9 muito seguro e \u00e9 uma maneira de atrair aten\u00e7\u00e3o. Assim como Hornby sonha em queimar Dostoi\u00e9vski, o mago pluvioso atacou James Joyce. O que isso prova? N\u00e3o sei exatamente, mas suspeito que deve haver um elo entre os dois epis\u00f3dios e todas as ideias no sentido de suprimir os livros ditos \u201cchatos\u201d.<\/p>\n<p>Isso acontece, por\u00e9m, porque esses livros recebem elogios rasgados de pessoas que s\u00e3o inteligentes, ou parecem ser. Como a maioria n\u00e3o os alcan\u00e7a e n\u00e3o quer admitir que esteja \u201cabaixo\u201d intelectual\u00admente de quem os recomenda, \u00e9 f\u00e1cil aparecer algu\u00e9m que reivin\u00addica o mesmo status dos recomendadores, sugerir o fogo para a obra questionada e obter \u201clikes\u201d e palmas desta maioria que se ofende com o fato de haver obras que desafiam sua compreens\u00e3o. Em vez de simplesmente aceitar que h\u00e1 livros que s\u00e3o esfinges (e, ao mesmo tempo, que n\u00e3o estamos todos obrigados a resolver cada enigma de cada esfinge do mundo), a massa deseja descobrir que o rei est\u00e1 nu, especialmente se for pela boca de uma \u201ccrian\u00e7a\u201d. Mas, e se o rei estiver vestido e a crian\u00e7a maliciosamente gritar que ele est\u00e1 nu? <em>Somente a primeira crian\u00e7a que desmascarou um imperador nu possu\u00eda credibilidade para isso, todas as outras ouviram a hist\u00f3\u00adria e acreditam que v\u00e3o pagar de espertas se \u201cfizerem o povo ver\u201d a nudez real, mesmo que inexistente.<\/em><\/p>\n<p>As obras citadas como ileg\u00edveis no artigo s\u00e3o um apanhado de cl\u00e1s\u00adsicos e de livros recentes que n\u00e3o parecem possuir qualquer caracte\u00adr\u00edstica em comum (embora possam ser agrupadas segundo crit\u00e9rios mais ou menos arbitr\u00e1rios) a n\u00e3o ser o fato de serem <strong>romances<\/strong>, g\u00eanero que parece ter adquirido um status de fetiche nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Romances s\u00e3o necessariamente complexos, sempre o foram, mas tem havido uma tend\u00eancia a confundir o romance com a &#8220;novela&#8221;, g\u00eanero liter\u00e1rio caracterizado por tramas mais longas (\u00e0s vezes rocambolescas), por\u00e9m estruturalmente mais simples e mais focadas na a\u00e7\u00e3o do que na reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu gostaria que esse tipo de debate fosse superado definitivamente e em seu lugar tiv\u00e9ssemos apenas a liberdade do leitor, com a cr\u00edtica atuando como balizadora, mas sem ser vista pela massa como um tipo de or\u00e1culo da verdade. Infelizmente isso n\u00e3o acontecer\u00e1, at\u00e9 porque a simples autoridade imposta naturalmente pelo conhecimento \u00e9 confundida com autoritarismo e pensada como um inimigo a ser derrubado. E o anti-intelectualismo \u00e9 uma das bestas do nosso apocalipse cultural.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 obras que ganharam para si um status de obrigat\u00f3rias. 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