{"id":2781,"date":"2016-01-15T20:08:32","date_gmt":"2016-01-15T23:08:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2781"},"modified":"2017-11-02T14:08:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:05","slug":"os-urubus-estao-sempre-de-olho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/01\/os-urubus-estao-sempre-de-olho\/","title":{"rendered":"Os Urubus Est\u00e3o Sempre de Olho"},"content":{"rendered":"<p>Quase \u00e9 clich\u00ea dizer que a morte \u00e9 a obra final do artista, sendo poucos os que conseguem planej\u00e1-la, fazer dela realmente uma realiza\u00e7\u00e3o. Para a maioria, a morte acontece sorrateira, fora dos palcos j\u00e1 h\u00e1 muito abandonados. Poucos t\u00eam, como David Bowie teve, a chance de deixar um verdadeiro testamento \u00e0 posteridade. Sorte que ele teve por ter conseguido se manter relevante at\u00e9 o fim, quando muitos outros nomes, talvez iguais ou maiores, ficaram pelo caminho.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o \u00e9 mais incomum \u00e9 o uso da morte de uma personalidade como palco. H\u00e1 um ditado antigo, que dizia que depois da guerra h\u00e1 muitos valentes que v\u00e3o ao campo de batalha saquear esp\u00f3lios e cuspir nos mortos. Se j\u00e1 \u00e9 desagrad\u00e1vel explorar a morte de uma pessoa para se promover, ainda fica pior quando a explora\u00e7\u00e3o se faz para <strong>denegrir<\/strong> o falecido e exaltar a si mesmo ou a alguma causa.<\/p>\n<p>A morte \u00e9, tamb\u00e9m, o momento a partir do qual a imagem de uma figura p\u00fablica fica menos protegida. Uma vez que n\u00e3o existe mais a figura do indiv\u00edduo que possa se sentir pessoalmente atingido e buscar repara\u00e7\u00e3o contra acusa\u00e7\u00f5es injustas, exageradas ou falsas; uma vez que est\u00e1 morto o indiv\u00edduo que produzia valor para o esp\u00f3lio legado a seus herdeiros; j\u00e1 n\u00e3o existe mais o mesmo \u00e2nimo em perseguir certos objetivos. Iniciar um processo pode ser custoso, e o morto provavelmente j\u00e1 n\u00e3o ganhar\u00e1 tanto dinheiro. \u00c9 praticamente racional que os herdeiros do esp\u00f3lio n\u00e3o sejam t\u00e3o agressivos na defesa da reputa\u00e7\u00e3o de seu originador. Desta forma, muitas acusa\u00e7\u00f5es que seriam alvo de impiedosos processos durante a vida do acusado acabam sendo deixadas ao esquecimento por seus herdeiros, <em>pois estes n\u00e3o se sentem pessoalmente atingidos<\/em> por coisas ditas a respeito de outra pessoa, ainda que querida.<\/p>\n<p>Agora que David Bowie morreu, surgiu um <a href=\"http:\/\/www.theestablishment.co\/2016\/01\/11\/david-bowie-rape-accusations-sexual-assault\">artigo inacredit\u00e1vel<\/a> na revista americana &#8220;The Establishment&#8221; acusando-o de v\u00e1rios crimes sexuais, ou de atos que <strong>hoje<\/strong> s\u00e3o considerados crimes sexuais. Enquanto vivo foi, o cantor nunca foi condenado por nenhum destes atos, embora alguns deles certamente fossem controversos. N\u00e3o pretendo falar sobre esses atos porque n\u00e3o tenho conhecimento suficiente do assunto, quero falar sobre o oportunismo de se requentar as acusa\u00e7\u00f5es depois da morte dele, sendo que estavam praticamente esquecidas enquanto ele esteve vivo. E, mais que isso, a natureza absurda de alguns argumentos feitos no texto.<\/p>\n<p>Comecemos por este:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Bowie may have transformed pop culture, but his work cannot stand apart from its creator. It may feel worse to reject his music than it does to mourn his death, but no amount of talent transcends rape and sexual assault. He does not get a pass because his lyrics and persona made you feel good.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ou seja:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Bowie pode ter transformado a cultura pop, mas o seu trabalho n\u00e3o pode ser separado de seu criador. Pode ser pior rejeitar a sua m\u00fasica do que lamentar sua morte, mas nenhuma quantidade de talento transcende o estupro e os crimes sexuais. Ele n\u00e3o tem imunidade s\u00f3 porque suas letras e sua personalidade te fazem sentir bem.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O resumo deste par\u00e1grafo atroz \u00e9 que nenhuma realiza\u00e7\u00e3o do ser humano tem valor maior que o ser humano em si. A arte n\u00e3o produz transcend\u00eancia. Esta \u00e9 uma afirmativa t\u00e3o enorme que a gente demora a perceber as implica\u00e7\u00f5es disso. A implica\u00e7\u00e3o mais direta \u00e9 que a arte n\u00e3o tem valor se o artista n\u00e3o for perfeito na vis\u00e3o de quem o resolva julgar. E o artista, por ser pessoa p\u00fablica, est\u00e1 exposto ao julgamento, claro, de qualquer um que o queira julgar. Eu diria, com uma certa necess\u00e1ria maldade, que <strong>se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 capaz de produzir uma obra como a de David Bowie, voc\u00ea tem, pelo menos, gra\u00e7as \u00e0 internet, a possibilidade de atacar o valor art\u00edstico dele<\/strong>. Ou, de forma mais sucinta: <strong>voc\u00ea tenta transformar em chumbo o ouro alheio se n\u00e3o consegue obter o seu<\/strong>.<\/p>\n<p>Rejeitar a m\u00fasica de David Bowie <strong>por causa de suas acusa\u00e7\u00f5es de estupro<\/strong> n\u00e3o faz nada pelas supostas v\u00edtimas, apenas torna o mundo um lugar menos transgressor e menos colorido. Um lugar mais controlado por gente que \u00e9 especialista em medir o m\u00e9rito alheio, caga-regras.<\/p>\n<p>Os artistas, enquanto pessoas, n\u00e3o t\u00eam, de fato, imunidade alguma. Se alguma t\u00eam, \u00e9 pelo dinheiro que ganham com a sua arte, e <strong>em uma sociedade capitalista os que t\u00eam dinheiro desejam (e \u00e0s vezes conseguem) comprar tudo que lhes seja poss\u00edvel, inclusive o que tem mais valor, como a justi\u00e7a.<\/strong> Se <em>avis rara avis cara<\/em>, o valor e a reputa\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a apenas a tornam uma mercadoria mais desej\u00e1vel. A diferen\u00e7a \u00e9 que alguns destes que compram a justi\u00e7a com seu dinheiro produzem trabalhos (art\u00edsticos ou n\u00e3o) que podem, e devem, ser julgados \u00e0 parte de si mesmos. <strong>Se voc\u00ea n\u00e3o deixar\u00e1 de comprar carros Volkswagen apenas porque a marca foi estabelecida originalmente a partir de patentes roubadas da Tcheco-Eslov\u00e1quia e empregando m\u00e3o de obra escrava de poloneses e judeus, por que deixar\u00e1 de ouvir discos de David Bowie s\u00f3 porque ele, em algum momento, cometeu atos question\u00e1veis?<\/strong> O valor intr\u00ednseco dos carros Volkswagen e da m\u00fasica de David Bowie independe de poss\u00edveis pecados originais ou crimes associados.<\/p>\n<p>Exigir que o artista tenha uma conduta impec\u00e1vel \u00e9 um tipo de puritanismo inaceit\u00e1vel em uma sociedade livre. <strong>Se o artista \u00e9 uma pessoa p\u00fablica, \u00e9 natural que seus erros se sobressaiam mais do que os erros de pessoas comuns<\/strong>. A pessoa que escreveu o artigo certamente cometeu seus pecadilhos (embora certamente nenhum t\u00e3o grave quanto aqueles de que acusa David Bowie) mas n\u00f3s nunca saberemos disso porque \u00e9 uma pessoa irrelevante. <strong>Somente as pessoas relevantes t\u00eam seus erros amplificados<\/strong>, portanto, se n\u00e3o quisermos absolutamente renunciar a gostar de <strong>tudo<\/strong> quanto seja produzido por pessoas famosas, teremos de aprender a perdoar, a relevar.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m um recurso ao conforto da ignor\u00e2ncia. Aquele artista &#8220;indie&#8221; de que voc\u00ea gosta n\u00e3o tem graves acusa\u00e7\u00f5es sobre si porque \u00e9 totalmente desconhecido. As fofocas contra quem n\u00e3o tem fama n\u00e3o chegam ao conhecimento geral. Se voc\u00ea se sente confort\u00e1vel por gostar de artistas &#8220;seguros&#8221; que nunca fizeram de errado \u00e9 porque voc\u00ea \u00e9 uma besta que ama a ignor\u00e2ncia, voc\u00ea se sente bem por <strong>n\u00e3o saber<\/strong> nada de errado sobre seus \u00eddolos, o que \u00e9 uma forma tosca de acreditar que a ignor\u00e2ncia \u00e9 uma virtude ou que a irrelev\u00e2ncia (do seu \u00eddolo) \u00e9 um superpoder moral.<\/p>\n<p>Bowie n\u00e3o foi nada disso, foi um homem acossado por uma inf\u00e2ncia traum\u00e1tica (que incluiu a perda quase total da vis\u00e3o do olho esquerdo em uma briga besta com o seu melhor amigo) e que viveu boa parte de sua vida padecendo de toxicomania. Que tenha conseguido produzir uma obra relevante no meio de tudo isso \u00e9 algo que deve nos espantar. Durante boa parte de sua carreira, na segunda metade dos anos 70, Bowie esteve perto do colapso por causa da coca\u00edna e das anfetaminas, chegando a aparecer em p\u00fablico como uma figura p\u00e1lida e esqu\u00e1lida (&#8220;Thin White Duke&#8221;), de aspecto doentio. Esperar que uma pessoa nessas condi\u00e7\u00f5es diferencie corretamente o certo do errado \u00e9 uma ingenuidade (embora, claro, uma pessoa que cometa crimes nesse estado n\u00e3o mere\u00e7a leni\u00eancia).<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de errado em lembrar que o artista agora morto era uma alma atribulada, que cometeu muitos erros e teve muitos motivos para arrependimento. <strong>Mesmo porque, isto ele mesmo o fez<\/strong> em seus \u00faltimos \u00e1lbuns. O errado est\u00e1 em querer isolar este aspecto do artista para negar o valor de sua obra, como foi feito naquele t\u00e9trico par\u00e1grafo.<\/p>\n<p>Vivemos tempos estranhos, em que o conservadorismo extremo, o moralismo mais exacerbado, travestidos de progressismo, atacam as bases iluministas de nossa sociedade e negam valor aos aspectos mais belos da cultura ocidental.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase \u00e9 clich\u00ea dizer que a morte \u00e9 a obra final do artista, sendo poucos os que conseguem planej\u00e1-la, fazer dela realmente uma realiza\u00e7\u00e3o. Para a maioria, a morte acontece sorrateira, fora dos palcos j\u00e1 h\u00e1 muito abandonados. Poucos t\u00eam, como David Bowie teve, a chance de deixar um verdadeiro testamento \u00e0 posteridade. Sorte que ele teve por ter conseguido se manter relevante at\u00e9 o fim, quando muitos outros nomes, talvez iguais ou maiores, ficaram pelo caminho. 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