{"id":284,"date":"2011-06-04T19:33:00","date_gmt":"2011-06-04T22:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=284"},"modified":"2017-08-13T22:03:08","modified_gmt":"2017-08-14T01:03:08","slug":"o-fetiche-do-livro-e-a-polemica-dos-livros-didaticos-malditos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/06\/o-fetiche-do-livro-e-a-polemica-dos-livros-didaticos-malditos\/","title":{"rendered":"O Fetiche do Livro e a Pol\u00eamica dos Livros Did\u00e1ticos Malditos"},"content":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas semanas o Brasil foi assolado pela pol\u00eamica de um livro did\u00e1tico que supostamente toleraria o &#8220;erro de portugu\u00eas&#8221; e, por consequ\u00eancia, provocaria o caos de nosso sistema educacional, corromperia nossa juventude, nos transformaria a todos em homens das cavernas dizendo uga-buga. Agora que esse assunto come\u00e7a a cair no esquecimento merecido que o caso merece, ressuscitam a disc\u00f3rdia citando um suposto livro de matem\u00e1tica que ensinaria que 10-4=7 (olha que absurdo!).<\/p>\n<p>N\u00e3o li nenhum dos dois livros, embora tenha ousado atacar os argumentos dos que se insurgiram contra o primeiro, mas agora que o caso se repete eu come\u00e7o a discernir um padr\u00e3o. E se meu entendimento n\u00e3o estiver horrivelmente equivocado, o tema n\u00e3o vai sair da berlinda nunca \u2014 e j\u00e1 explico porque.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 isolado nesses livros did\u00e1ticos (que podem ser bons ou podem n\u00e3o ser). Erros em livros did\u00e1ticos n\u00e3o mereceriam tanta aten\u00e7\u00e3o se n\u00e3o houvesse uma abordagem caracter\u00edstica do tema &#8220;livro did\u00e1tico&#8221;. Uma abordagem a que eu ouso qualificar de &#8220;fetichista&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o Dicion\u00e1rio de Ci\u00eancias Sociais da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas[^1], fetiche \u00e9 um &#8220;objeto de culto que \u00e9 considerado intrinsecamente potente e\/ou v\u00e1lido devido \u00e0s suas associa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e\/ou rituais, *sem levar em conta a sua utilidade pr\u00e1tica*&#8221; (grifo meu).<\/p>\n<p>Observe que  o fetiche \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, um reposit\u00f3rio de rever\u00eancia, ainda que n\u00e3o funcione. Tem-se rever\u00eancia pelo fetiche de uma forma tal que s\u00e3o inventadas explica\u00e7\u00f5es <i>ad hoc<\/i> para justificar a continuidade de seu uso, mesmo que ele seja in\u00f3cuo. As pessoas continuam usando p\u00e9s de coelho como amuleto, ainda que n\u00e3o melhorem de vida. Elas inventam epis\u00f3dios de &#8220;sorte&#8221; ilus\u00f3ria para justificar seu arraigamento ao objeto.[^2]<\/p>\n<p>Por que estou dizendo que h\u00e1 um comportamento fetichista de algumas pessoas em rela\u00e7\u00e3o ao livro did\u00e1tico? Porque em nossa cultura tradicionalista e autorit\u00e1ria (mais autorit\u00e1ria at\u00e9 do que tradicionalista) o livro \u00e9 visto como um reposit\u00f3rio de saber &#8220;certificado&#8221;, &#8220;autorizado&#8221;, &#8220;seguro&#8221;[^3]. Algu\u00e9m, em algum lugar, sob dire\u00e7\u00e3o de pessoas devidamente habilitadas e diplomadas, com permiss\u00e3o do governo e imprimatur da Igreja, escreveu esse livro maravilhoso que cont\u00e9m todos os &#8220;pontos&#8221; que o aluno precisa aprender para crescer um cidad\u00e3o de bem. O livro did\u00e1tico \u00e9 uma b\u00edblia do ensino.  Tanto \u00e9 assim que quando algu\u00e9m quer passar num concurso uma das primeiras coisas que faz \u00e9 comprar a &#8220;apostila oficial&#8221; ou pelo menos uma apostila que contenha o logotipo daquele concurso espec\u00edfico, bem na capa. Somente os compradores da apostila ter\u00e3o acesso ao conhecimento arcano que abre as portas do concurso. Bem poucos s\u00e3o os que leem o edital e ousam buscar aqueles conhecimentos listados em outros livros diversos ou apostilas soltas. H\u00e1 at\u00e9 quem ache que uma apostila de conhecimentos banc\u00e1rios feita para o concurso do Banco do Brasil n\u00e3o serve para estudar para o concurso da Caixa Econ\u00f4mica Federal\u2026<\/p>\n<p>Dentro de sala de aula o livro-fetiche \u00e9 uma forma de impor a &#8220;verdade&#8221; sobre o aluno inculto. Quando o aluno questiona alguma coisa, o professor triunfantemente aponta impresso l\u00e1 em letras f\u00e1ceis de ler e diz &#8220;t\u00e1 aqui, \u00f3!&#8221;. Com um bom livro did\u00e1tico na m\u00e3o voc\u00ea nem precisa de professor, como sugerem os in\u00fameros cursos disto e daquilo &#8220;sem mestre&#8221; que j\u00e1 andaram pela moda, ou como evocam os cursos \u00e0 dist\u00e2ncia (modinha tecnol\u00f3gica de agora), nos quais o professor \u00e9 substitu\u00eddo por uma esp\u00e9cie de coordenador da turma, que apenas opera (literalmente) a infraestrutura que traz aos alunos o conte\u00fado produzido alhures pelas autoridades competentes. O livro did\u00e1tico emascula a autonomia do professor, mas h\u00e1 muito professor que gosta disso, porque junto dessa castra\u00e7\u00e3o intelectual vem o al\u00edvio de muita responsabilidade: &#8220;eu n\u00e3o ganho o bastante para pensar tudo isso&#8221; (j\u00e1 deve haver algu\u00e9m pensando).<\/p>\n<p>Mas o problema do livro did\u00e1tico com erros \u00e9 real. \u00c9 preciso que seja analisado. Antigamente, em vez desse festival de novidades que aparece a cada ano, com centenas de novos t\u00edtulos que nada acrescentam de novo, havia alguns poucos manuais, que costumavam ser usados durante d\u00e9cadas e cujo processo de edi\u00e7\u00e3o era muito mais demorado do que o de hoje. Parece l\u00f3gico que tais livros fossem mais isentos de falhas grotescas como 10-4=7.<\/p>\n<p>Parece-me natural que haja mais erros nos livros de hoje. Primeiro porque h\u00e1 uma ind\u00fastria do livro did\u00e1tico que cospe mais t\u00edtulos do que o necess\u00e1rio: e n\u00e3o h\u00e1 tempo para revisar e aperfei\u00e7oar os livros antigos. Segundo porque os livros s\u00e3o produzidos a toque de caixa, sem tempo para revis\u00f5es cuidadosas. Existe, portanto, um problema grave na ind\u00fastria do livro did\u00e1tico. Um problema que causa erros frequentes. Seria importante rever isso. Mas, ser\u00e1 que tais problemas justificam tanta histeria?<\/p>\n<p>N\u00e3o justificaria se n\u00e3o houvesse o tal fetichismo. Esses erros minam a credibilidade do livro did\u00e1tico e, por tabela, de outros livros que tamb\u00e9m ditam regras e cren\u00e7as e conhecimentos. Embora o ditado de que &#8220;papel aceita qualquer coisa&#8221; seja do tempo de minha saudosa &#8220;v\u00f3&#8221;, ainda h\u00e1 pessoas que enxergam o livro como uma esp\u00e9cie de ser m\u00edstico (h\u00e1 muitos deles nessa comunidade de escritores, pessoas que se acham especiais porque est\u00e3o escrevendo, at\u00e9 a ponto de mudar seu nick para &#8220;Fulano de Tal, Escritor&#8221; ou &#8220;Sicrano Poeta&#8221;).<\/p>\n<p>Se o livro n\u00e3o fosse visto assim, as pessoas poderiam esperar que o professor simplesmente dissesse aos alunos que &#8220;h\u00e1 um erro de impress\u00e3o na p\u00e1gina X e o resultado correto \u00e9 Y&#8221;. O medo \u00e9 que os alunos comecem a se perguntar o que mais n\u00e3o poderia estar errado em outras p\u00e1ginas do mesmo livro ou de outros. N\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o fa\u00e7am isso, mas h\u00e1 gente que vive em um mundo ideal, no qual os livros &#8220;educam&#8221; os jovens.<\/p>\n<p>Fazia sentido isso, no tempo da ditadura. O livro era previamente censurado. Criar constrangimentos para que o professor mudasse ou acrescentasse &#8220;um jota ou um til&#8221; ao que estava &#8220;no livro&#8221; era muito \u00fatil aos interesses do poder. Hoje essa situa\u00e7\u00e3o mudou um pouco, mas deveria ter mudado mais. J\u00e1 n\u00e3o temos curr\u00edculos engessados e &#8220;coordenadores pedag\u00f3gicos&#8221; para manter os professores estreita e estritamente na linha. Ali\u00e1s, nem temos mais uma ditadura prendendo dissidentes e nem uma Igreja que d\u00ea medo. Mas ainda h\u00e1 os que sentem saudades do poder do livro.<\/p>\n<p>Esse estado de coisas durou muito tempo, e ainda dura. H\u00e1 iniciativas tentando mudar isso, mas n\u00e3o \u00e9 da noite para o dia que se muda uma cultura. Temos uma cultura autorit\u00e1ria, uma cultura de lavagem cerebral, uma cultura de rever\u00eancia ao livro. Quando digo &#8220;rever\u00eancia&#8221; n\u00e3o quero dizer que todos gostem dele, tal como nem todo mundo gosta de um gato preto&#8230; Rever\u00eancia quer dizer reconhecer o poder m\u00edstico que dele &#8220;emana&#8221;. Mesmo os que odeiam o livro n\u00e3o deixam de ter certo fasc\u00ednio por ele enquanto objeto (da\u00ed haver estantes nas casas dos que ficam ricos, ainda que a leitura n\u00e3o fa\u00e7a parte do h\u00e1bito: ter livros \u00e9 distintivo de cultura, de status, de poder) ou pelas pessoas que dele se acercam (da\u00ed a lenda do &#8220;poeta&#8221; e tudo que se fala sobre os &#8220;literatos&#8221;).<\/p>\n<p>Temos que ter o cuidado de n\u00e3o recairmos nessa cren\u00e7a irracional no &#8220;poder do livro&#8221; (que, ali\u00e1s, ecoa em boa parte da literatura de fantasia moderna, in\u00e7ada de grim\u00f3rios, livros malditos, di\u00e1rios de falecidos etc.) quando debatermos sobre erros em livros did\u00e1ticos. Livros did\u00e1ticos s\u00e3o apenas livros. Alguns s\u00e3o bons, outros s\u00e3o ruins. Devemos, \u00e9 claro, preferir os bons, mas devemos ter a capacidade de discernir o que h\u00e1 de bom nos ruins e o que h\u00e1 de ruim nos bons.<\/p>\n<p>Nenhum livro \u00e9 um pacote fechado. Sim, eu disse <b>nenhum<\/b>. \u00c9 uma merda que um livro de matem\u00e1tica contenha 10-3=7, principalmente porque tal coisa tosca \u00e9 fruto de um erro de digita\u00e7\u00e3o combinado com a falta de aten\u00e7\u00e3o de quem revisou e de quem avaliou para comprar e distribuir. Mas n\u00e3o \u00e9 nenhuma grande trag\u00e9dia. Professores de matem\u00e1tica s\u00e3o, supostamente, capazes de reconhecer esta bobagem, e at\u00e9 de a utilizarem de forma l\u00fadica em sala de aula: &#8220;Olha, gente, essa p\u00e1gina do livro tem uma pegadinha. Vamos ver quem \u00e9 bom de subtra\u00e7\u00e3o e vai reconhecer onde est\u00e1 a pegadinha?&#8221; Um bom professor \u00e9 capaz de superar pequenos erros e dar uma grande aula. Mas um professor incompetente se desesperar\u00e1 ante a ideia de que n\u00e3o tem consigo um livro &#8220;seguro&#8221;.<\/p>\n<p>[^1]: Eu ia usar a Wikip\u00e9dia como refer\u00eancia, porque l\u00e1 tem uma defini\u00e7\u00e3o mais sucinta e elegante do termo, mas n\u00e3o quero deixar brecha para que me desqualifiquem como mero &#8220;ledor de Wikip\u00e9dia&#8221;, ent\u00e3o vou me embasar em refer\u00eancias apropriadas, mesmo que isso n\u00e3o seja compreendido ou aceito como um valor por alguns dos que ler\u00e3o este t\u00f3pico.<\/p>\n<p>[^2]: Na verdade esse n\u00e3o \u00e9 o melhor exemplo de um comportamento tipicamente fetichista, mas se eu empregasse um exemplo mais adequado eu fatalmente desviaria o tema do debate sabe l\u00e1 para que dire\u00e7\u00e3o, visto que \u00e9 considerado ofensivo, ainda, empregar na an\u00e1lise de nossa cultura &#8220;civilizada&#8221; categorias originalmente desenvolvidas para estudar os &#8220;selvagens&#8221;.<\/p>\n<p>[^3]: N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as pessoas compram livros intitulados &#8220;B\u00edblia&#8221; disso ou daquilo para estudarem temas cabal\u00edsticos, como linguagens de programa\u00e7\u00e3o ou c\u00f3digos de leis. As pessoas se sentem confort\u00e1veis com a sensa\u00e7\u00e3o de que o livro cont\u00e9m as respostas, o livro as liberta da obriga\u00e7\u00e3o de descobrirem as solu\u00e7\u00f5es por si mesmas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas semanas o Brasil foi assolado pela pol\u00eamica de um livro did\u00e1tico que supostamente toleraria o &#8220;erro de portugu\u00eas&#8221; e, por consequ\u00eancia, provocaria o caos de nosso sistema educacional, corromperia nossa juventude, nos transformaria a todos em homens das cavernas dizendo uga-buga. Agora que esse assunto come\u00e7a a cair no esquecimento merecido que o caso merece, ressuscitam a disc\u00f3rdia citando um suposto livro de matem\u00e1tica que ensinaria que 10-4=7 (olha que absurdo!). 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