{"id":2878,"date":"2016-03-12T22:41:50","date_gmt":"2016-03-13T01:41:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2878"},"modified":"2017-11-02T14:08:03","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:03","slug":"a-beleza-do-coronelismo-a-gente-ve-por-ai","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/03\/a-beleza-do-coronelismo-a-gente-ve-por-ai\/","title":{"rendered":"A Beleza do Coronelismo a Gente V\u00ea por A\u00ed"},"content":{"rendered":"<p>A julgar pelo que ando ouvindo de coment\u00e1rios, na pr\u00f3xima segunda feira (depois de amanh\u00e3) estrear\u00e1 na televis\u00e3o mais uma novela de \u00e9poca em que o canal [ainda] hegem\u00f4nico tentar\u00e1 nos convencer que o latif\u00fandio, o coronelismo e a pistolagem s\u00e3o coisas <em>maneiras<\/em>. N\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade que a televis\u00e3o &#8212; um meio dominado por umas poucas e poderosas fam\u00edlias, aparentadas a tudo quanto h\u00e1 de mais retr\u00f3grado nesse pa\u00eds &#8212; tente fazer a hagiografia da estrutura de classes herdada do per\u00edodo colonial, o que muda \u00e9 que, depois de tanto tempo, a f\u00f3rmula come\u00e7a a parecer gasta e o produto soa cada vez mais repetitivo e posti\u00e7o.<\/p>\n<p>Telenovela nunca foi lugar de se fazer arte, nunca se destacou pela originalidade. Quando muito, a telenovela alicia profissionais competentes de outras \u00e1reas (teatro, cinema, prostitui\u00e7\u00e3o&#8230;) e os coloca, meio desconfortavelmente, nesse novo meio em que tudo &#8220;funciona por m\u00fasica&#8221; &#8212; o que quer dizer que todos os passos s\u00e3o cuidadosamente coreografados e ningu\u00e9m tem a permiss\u00e3o de pensar sozinho. J\u00e1 notaram que ultimamente as novelas s\u00e3o escritas por times de, no m\u00ednimo, tr\u00eas integrantes?<\/p>\n<p>Mas telenovela funcionava bem porque as pessoas n\u00e3o tinham acesso a outra coisa. Quem n\u00e3o estudasse \u00e0 noite e\/ou n\u00e3o tivesse livro em casa tinha exatamente o que para fazer depois que ca\u00eda a noite dos anos oitenta? Ligar a tev\u00ea para assistir o que estivesse passando &#8212; e na maior parte do pa\u00eds o que passava era a Globo, com seu potente e necess\u00e1rio sinal. Hoje a telenovela vem perdendo f\u00f4lego, e at\u00e9 sendo for\u00e7ada a alguma real <em>renova\u00e7\u00e3o<\/em>, porque a internet oferece uma competi\u00e7\u00e3o, ainda que parcial. A constante queda da audi\u00eancia demonstra que est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil segurar os jovens diante da tela nas noites cada vez menos mon\u00f3tonas desse novo s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Por que ent\u00e3o fazer, de novo, uma novela de \u00e9poca que segue um padr\u00e3o t\u00e3o batido quanto o da celebra\u00e7\u00e3o do coronelismo? Ou a novela \u00e9 feita para um p\u00fablico saudosista (assim a televis\u00e3o se conforma com o progressivo envelhecimento do telespectador m\u00e9dio) ou \u00e9 um projeto reacion\u00e1rio (p\u00edfio, visto que a telenovela j\u00e1 n\u00e3o tem o poder de d\u00e9cadas passadas para at\u00e9 interferir na l\u00edngua viva do povo). Pode haver uma terceira alternativa, mas n\u00e3o a vislumbro no momento.<\/p>\n<p>N\u00e3o me preocupa, por\u00e9m, saber as motiva\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 novela. Autor que sou, sei muito bem que as inten\u00e7\u00f5es, na arte, s\u00e3o dif\u00edceis de definir e nem sempre necess\u00e1rias: uma obra escrita para uma coisa pode perfeitamente servir a outra coisa. Ent\u00e3o n\u00e3o quero discutir conspiracionismo, ainda que creia em alguns. Quero apenas observar de que maneiras o passado retr\u00f3grado do Brasil \u00e9 gourmetizado pela televis\u00e3o de forma a parecer uma coisa legal.<\/p>\n<p>Este processo de sanitiza\u00e7\u00e3o da figura do coronel apresenta os seguintes estratagemas:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>A apresenta\u00e7\u00e3o do latifundi\u00e1rio como her\u00f3i.<\/strong> O filho do coronel, retornando da grande cidade onde foi aprender umas sofistica\u00e7\u00f5es descart\u00e1veis de cultura, tem de enfrentar perigos e desafios at\u00e9 se consolidar como coronel-2.0, o que vai requerer o emprego de algumas t\u00e9cnicas modernas aprendidas na cidade e a retomada, tamb\u00e9m, da &#8220;sabedoria&#8221; de seu velho pai.<\/li>\n<li><strong>O desafio ao latif\u00fandio \u00e9 mostrado como mero crime.<\/strong> Os bandidos, ainda que realmente sejam malvados, t\u00eam um objetivo claro de <em>dividir<\/em> o latif\u00fandio, reduzir sua preval\u00eancia. Prefere-se focar no banditismo do que na possibilidade de que esse banditismo resulte de uma demanda reprimida por terra. H\u00e1 que se ressaltar que na ambienta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da vez, ao longo do &#8220;Velho Chico&#8221;, a luta n\u00e3o era s\u00f3 pela posse da terra em si, mas pelo acesso \u00e0 \u00e1gua do rio que corria pelo seco sert\u00e3o.<\/li>\n<li><strong>Os bonzinhos s\u00e3o obedientes \u00e0 l\u00f3gica social coronelista.<\/strong> Assim temos os empregados fi\u00e9is e simp\u00e1ticos, que cumprem as ordens do patr\u00e3o, a empregadinha que um dia foi namoradinha dele, mas que agora tem de se conformar ao seu lugar quando v\u00ea o coronelzinho aparecer com uma mulher de status superior.<\/li>\n<li><strong>A viol\u00eancia \u00e9 um recurso, n\u00e3o empreg\u00e1-la \u00e9 uma concess\u00e3o.<\/strong>  O coronel, ao se abster de resolver um assunto pelas vias de fato, \u00e9 apresentado como dotado de uma sabedoria salom\u00f4nica. O potencial recurso \u00e0 for\u00e7a bruta \u00e9 uma das &#8220;qualidades&#8221; inerentes ao mocinho, que tem de ser forte em um mundo de fortes. Cria-se a impress\u00e3o de que devemos cortejar a amizade com o coronel a fim de escaparmos sua ira.<\/li>\n<li><strong>O fisiologismo tamb\u00e9m faz parte do arsenal.<\/strong> A figura glorificada do coronel inclui no seu aparato as &#8220;amizades&#8221;, ele trata o delegado por tu, recebe o padre e o juiz de paz para almo\u00e7ar, doa para a escola, coopera com a pol\u00edcia&#8230; Em vez de isso ser visto como uma prova da sobreviv\u00eancia de um tipo quase medieval, temos nisso algo a admirar.<\/li>\n<li><strong>A luta pela terra \u00e9 vista como um processo \u00e9pico.<\/strong> Em vez de um enfrentamento violento e covarde, no qual se matava mais de tocaia do que em duelos, existe uma tentativa de romancear a luta pela terra, fazendo-a parecer uma esp\u00e9cie de Il\u00edada, incensando o vencedor como um escolhido, um predestinado. <\/li>\n<li><strong>Romeu e Julieta redivivos.<\/strong> Sempre h\u00e1 aquele momento vergonha alheia em que voc\u00ea percebe que o amor entre filhos de inimigos ser\u00e1 usado como um estratagema. Mais requentado que caf\u00e9 de padaria, o romance entre os que deviam se odiar nunca falta nessas novelas. E o mais ris\u00edvel: quando o romance da certo, as terras das duas fam\u00edlias s\u00e3o unidas (aumentando a concentra\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio e o n\u00edvel geral de injusti\u00e7a social). O povo <em>torce por isso,<\/em> sem entender que est\u00e1 torcendo pela consolida\u00e7\u00e3o ainda maior de um modelo excludente.<\/li>\n<li><strong>A viol\u00eancia como transgress\u00e3o.<\/strong> A capacidade de produzir atos violentos \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a na cultura popular brasileira. \u00c9 um desafio \u00e0s leis do homem e \u00e0s de Deus. Coragem, portanto. Mesmo a viol\u00eancia praticada pelo sistema contra o que se insurge \u00e9 estetizada, espetacularizada. Em &#8220;Renascer&#8221; tivemos a apresenta\u00e7\u00e3o de um esfolamento em hor\u00e1rio nobre, para construir a personagem de um coronel que tinha seu direito de ser mau, pois muito mal lhe fora feito. Esta novela ter\u00e1, com certeza, a sua cena cruel de execu\u00e7\u00e3o ou tortura, j\u00e1 no in\u00edcio.<\/li>\n<li><strong>O para\u00edso no latif\u00fandio.<\/strong> Em vez de um sistema opressor e injusto, o latif\u00fandio agro-exportador \u00e9 mostrado como um lugar id\u00edlico onde as pessoas buscam a felicidade e a encontram, <em>cada qual no seu lugar.<\/em> A felicidade, ali\u00e1s, est\u00e1 em se resignar, fazer aquilo que lhe \u00e9 conferido fazer. A mocinha que um dia se deitou com o patr\u00e3o, tem de engolir o choro e fazer caf\u00e9 para a madame que o coronelzinho trouxe da capital. O empregado que um dia foi seu colega de brinquedo agora tem de acatar suas ordens, no m\u00e1ximo orgulhar-se de poder &#8220;trocar ideias&#8221; com o patr\u00e3o, mesmo sabendo que a decis\u00e3o sobre o valor das ideias sempre ser\u00e1 da parte mais forte. Esses personagens, e todos os outros, se inserem no id\u00edlio da obedi\u00eancia, na beleza do Brasil anterior \u00e0s ideologias revolucion\u00e1rias.<\/li>\n<\/ol>\n<p>N\u00e3o espero que voc\u00ea concorde comigo ou que enxergue a mesma coisa, mas que assista (se for assistir) com um pouco mais de esp\u00edrito cr\u00edtico, e se pergunte se \u00e9 mesmo real aquele universo de fancaria no qual o latif\u00fandio \u00e9 uma coisa maneira.<\/p>\n<p>Apenas pe\u00e7o que se lembre que todo mundo assiste a novela achando que seria o coronelzinho, mas a maioria seria pe\u00e3o de fazenda, alguns poucos seriam agregados urbanos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A julgar pelo que ando ouvindo de coment\u00e1rios, na pr\u00f3xima segunda feira (depois de amanh\u00e3) estrear\u00e1 na televis\u00e3o mais uma novela de \u00e9poca em que o canal [ainda] hegem\u00f4nico tentar\u00e1 nos convencer que o latif\u00fandio, o coronelismo e a pistolagem s\u00e3o coisas maneiras. N\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade que a televis\u00e3o &#8212; um meio dominado por umas poucas e poderosas fam\u00edlias, aparentadas a tudo quanto h\u00e1 de mais retr\u00f3grado nesse pa\u00eds &#8212; tente fazer a hagiografia da estrutura de classes herdada do per\u00edodo colonial, o que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[13,17,85],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2878"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2878"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2878\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5238,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2878\/revisions\/5238"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}