{"id":2917,"date":"2016-05-14T17:32:08","date_gmt":"2016-05-14T20:32:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2917"},"modified":"2017-11-02T14:08:03","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:03","slug":"elegia-pelo-brasil-que-seria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/05\/elegia-pelo-brasil-que-seria\/","title":{"rendered":"Elegia pelo Brasil que Seria"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/13177299_1196844563683374_4395892651873556019_n-227x300.jpg\" alt=\"13177299_1196844563683374_4395892651873556019_n\" width=\"227\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-2918\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/13177299_1196844563683374_4395892651873556019_n-227x300.jpg 227w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/13177299_1196844563683374_4395892651873556019_n-113x150.jpg 113w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/13177299_1196844563683374_4395892651873556019_n-483x640.jpg 483w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/13177299_1196844563683374_4395892651873556019_n.jpg 632w\" sizes=\"(max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/><\/p>\n<p>Consumado o ato final das manobras ritual\u00edsticas que resultaram no fim inexor\u00e1vel de um governo natimorto pelas circunst\u00e2ncias atrozes da nossa pol\u00edtica, resta-nos avaliar a extens\u00e3o do desmonte. A impress\u00e3o inicial destes primeiros dias \u00e9 a frustra\u00e7\u00e3o de uma derrota irrepar\u00e1vel, como se o pa\u00eds tivesse decidido abortar-se. Os sinais enviados pelo novo governo sugerem entreguismo, retrocesso, autoritarismo e obscurantismo, e tudo em modo <em>berserk<\/em>.<\/p>\n<p>A reorganiza\u00e7\u00e3o ministerial sinaliza para uma radical invers\u00e3o de prioridades, e a nova estrutura sugere uma mudan\u00e7a pol\u00edtica que ningu\u00e9m entre os apoiadores do impedimento de Dilma Rousseff poderia esperar. Porque, de fato, toca muito pouco nos temas que moveram o impedimento, e parece cutucar bastante justamente naquilo que a esquerda dizia que eram os motivos reais para o afastamento da presidente: as pol\u00edticas sociais e de soberania nacional.<\/p>\n<p>A MP 726 come\u00e7a com um soco no est\u00f4mago, pois o seu artigo primeiro extingue a a Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o Social da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, a Controladoria Geral da Uni\u00e3o, o Minist\u00e9rio da Cultura, o Minist\u00e9rio das Comunica\u00e7\u00f5es, o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio e o Minist\u00e9rio das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. As atribui\u00e7\u00f5es desses minist\u00e9rios s\u00e3o transferidas a outros, o que pode levar o leitor incauto a imaginar que s\u00e3o medidas secund\u00e1rias. Mas n\u00e3o s\u00e3o. Existe um certo s\u00edmbolo inc\u00f4modo na extin\u00e7\u00e3o desses \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>Muitos de meus amigos escritores andaram engrossando o coro rouco que ajudou a empurrar o antigo governo de seu pedestal. H\u00e1 certo conforto em fazer parte de um grande n\u00famero, \u00e9 preciso um car\u00e1ter forte e uma certa dose de ceticismo (talvez at\u00e9 de cinismo) para evitar juntar-se \u00e0s massas que estendem o bra\u00e7o conforme. Mas escritores n\u00e3o s\u00e3o fil\u00f3sofos e o car\u00e1ter definido nunca foi uma qualidade do ser humano m\u00e9dio, ent\u00e3o \u00e9 natural que muitos que se acham brilhantes tenham envergado uniformes, aceitando ser liderados, por mais que abominassem as &#8220;massas&#8221;.<\/p>\n<p>Alguns desses escritores tiveram a dec\u00eancia de desaparecer dos debates, agora que os primeiros atos do interino se desvelam. H\u00e1 uma certa humildade em n\u00e3o tentar justificar-se quando as consequ\u00eancias da estupidez se avolumam. \u00c9 preciso uma dose excessiva de pedantismo e de autoindulg\u00eancia para ainda cavalgar Rocinante rumo ao moinho depois de saradas as costelas.<\/p>\n<p>Eis que o governo que assumiria na vac\u00e2ncia da presidenta que se foi come\u00e7a por extinguir o Minist\u00e9rio da Cultura. Alguns desses autores que defendiam o impedimento agora tentam minimizar o ato, sabidamente agourento, dizendo que o Minist\u00e9rio se encontrava &#8220;aparelhado&#8221;, que pessoalmente n\u00e3o dependiam dele ou que n\u00e3o era realmente necess\u00e1rio. Alguns chegam a citar que certo pa\u00eds n\u00e3o possui um Minist\u00e9rio da Cultura. Desculpas, esfarrapadas. Outros, meio que em desespero, indagam o que h\u00e1 de especial em um nome, por que defender que exista uma reparti\u00e7\u00e3o com o nome de cultura seria essencial para a cultura? Ingenuidades.<\/p>\n<p>O nome n\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia, o nome \u00e9 o reflexo. Tal como o seu nome n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea, o nome &#8220;Minist\u00e9rio da Cultura&#8221; n\u00e3o \u00e9 a coisa em si. Por\u00e9m, abolir-se o nome \u00e9 algo que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando se abole a coisa. Pode-se abolir a coisa sem abolir o nome, obviamente, mas n\u00e3o se pode abolir o nome sem abolir o que ele representa. N\u00e3o h\u00e1 coisas nem ess\u00eancias n\u00e3o nomeadas, a n\u00e3o ser aquelas n\u00e3o descobertas.<\/p>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o em si n\u00e3o seria uma cat\u00e1strofe se fosse um ato planejado e gradual. Realmente n\u00e3o \u00e9 essencial que exista um \u00f3rg\u00e3o no governo dedicado exclusivamente \u00e0 cultura. Nunca foi necess\u00e1rio. Por\u00e9m, a extin\u00e7\u00e3o s\u00fabita e simples de tal \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o pode ser vista como algo irrelevante ou gratuito.<\/p>\n<p>N\u00f3s, autores, dev\u00edamos ter mais sensibilidade para entender as conota\u00e7\u00f5es das palavras (afinal, usamo-las no dia a dia, para o nosso trabalho). N\u00e3o conseguir compreender entrelinhas deveria ser uma humilha\u00e7\u00e3o para um escritor, assim como empregar fal\u00e1cias para um fil\u00f3sofo. Entanto vivemos em um pa\u00eds onde um dito &#8220;fiofol\u00f3sofo&#8221; (sic) emprega argumentos falaciosos e escritores n\u00e3o veem import\u00e2ncia simb\u00f3lica alguma no Minist\u00e9rio da Cultura. N\u00e3o veem ou fingem n\u00e3o ver, para n\u00e3o terem de rever a pr\u00f3pria ingenuidade em apoiar um processo que se apresentava como reacion\u00e1rio desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>Triste viver em um pa\u00eds onde a ideologia se sobrep\u00f5e de tal forma ao conhecimento que aqueles que produzem cultura n\u00e3o conseguem dar valor aos \u00f3rg\u00e3os criados para trabalhar em prol da cultura. A ideologia faz alguns acreditarem que o Minist\u00e9rio da Cultura mais atrapalha do que ajuda. Certamente h\u00e1 pa\u00edses onde tal minist\u00e9rio n\u00e3o existe, mas nesses pa\u00edses h\u00e1 outras institui\u00e7\u00f5es para executar aquilo que o MinC fazia.<\/p>\n<p>Creio que em parte essa s\u00e9rie de justificativas que tenho visto brotar nos movimentos liter\u00e1rios reflete apenas uma coisa: a vontade de n\u00e3o dar o bra\u00e7o a torcer. Afinal, reconhecer que a medida tomada pelo governo foi obscurantista envolveria rever a pr\u00f3pria participa\u00e7\u00e3o na longa campanha de difama\u00e7\u00e3o e desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo que caiu. Ver-se no espelho como algu\u00e9m que foi usado e agora est\u00e1 sendo descartado \u00e9 humilhante demais, por isso \u00e9 mais digno fingir que &#8220;sou escritor e n\u00e3o sou dessa panelinha&#8221; ou &#8220;nunca precisei do Minist\u00e9rio para nada.&#8221;<\/p>\n<p>Amigos, o MinC n\u00e3o existia &#8220;para n\u00f3s&#8221;, mas, sim, para criar e gerir uma pol\u00edtica cultural nacional que, se viesse a nos beneficiar, o faria apenas indiretamente. Nenhum produtor de cultura tem o direito de reivindicar apoio pelo governo, querer isso seria como se achar uma institui\u00e7\u00e3o. O MinC estava a\u00ed para criar e difundir bibliotecas, museus, centros de cultura, pesquisas de folclore, coisas desse tipo. Voc\u00ea, enquanto consumidor e produtor de cultura acabaria tendo algum tipo de relacionamento com ele &#8212; a menos que, de fato, como muitos &#8220;escritores&#8221; que conhe\u00e7o, voc\u00ea n\u00e3o seja um consumidor de cultura, mas um ignorante. N\u00e3o acho que seja o caso, a vergonha de se radiografar com uma bala no p\u00e9 deve ser a principal raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O que de fato est\u00e1 a ocorrer \u00e9 o enterro precoce de um projeto nacional. N\u00e3o mais o sonho de usar os recursos obtidos com a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo para alavancar a educa\u00e7\u00e3o nacional &#8212; o que nos importa, enquanto escritores, se o povo \u00e9 educado ou n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mesmo? N\u00e3o mais a ideia de projetar uma imagem internacional do Brasil que atra\u00edsse aten\u00e7\u00e3o do mundo para n\u00f3s e para a nossa cultura &#8212; o que ter\u00edamos a ganhar se o nosso pa\u00eds entrasse na moda e gente do mundo todo quisesse ler-nos? Muito melhor um governo que pensa em privatizar at\u00e9 o Ensino M\u00e9dio e que de cara extingue o Minist\u00e9rio que incentivava a tradu\u00e7\u00e3o de literatura brasileira no exterior. Afinal, n\u00e3o dependemos em nada dessa &#8220;panelinha&#8221; e n\u00e3o ter\u00edamos nada a ganhar se o mundo se interessasse por n\u00f3s. N\u00e3o o quer\u00edamos, no fundo, porque tem\u00edamos que o mundo visse o tamanho de nossa mis\u00e9ria, a extens\u00e3o de nossa ignor\u00e2ncia e a precariedade de nossa cultura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Consumado o ato final das manobras ritual\u00edsticas que resultaram no fim inexor\u00e1vel de um governo natimorto pelas circunst\u00e2ncias atrozes da nossa pol\u00edtica, resta-nos avaliar a extens\u00e3o do desmonte. A impress\u00e3o inicial destes primeiros dias \u00e9 a frustra\u00e7\u00e3o de uma derrota irrepar\u00e1vel, como se o pa\u00eds tivesse decidido abortar-se. 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