{"id":2929,"date":"2016-05-27T22:54:49","date_gmt":"2016-05-28T01:54:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2929"},"modified":"2017-11-02T14:08:03","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:03","slug":"render-se-a-jornada-do-heroi-e-conformar-se","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/05\/render-se-a-jornada-do-heroi-e-conformar-se\/","title":{"rendered":"Render-se \u00e0 Jornada do Her\u00f3i \u00e9 Conformar-se"},"content":{"rendered":"<p>Veja bem. H\u00e1 uma quantidade limitada de elementos poss\u00edveis na fic\u00e7\u00e3o. Cabe ao autor utilizar esses elementos de uma forma s\u00e1bia, para construir uma hist\u00f3ria legal. Eventualmente voc\u00ea pode at\u00e9 descobrir um elemento novo, mas n\u00e3o veja isso como obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqueles que prop\u00f5em a Jornada do Her\u00f3i como um paradigma obrigat\u00f3rio est\u00e3o, por\u00e9m, muito errados.<\/p>\n<p>Comecemos pelo \u00f3bvio: impor a Jornada como um <strong>m\u00e9todo<\/strong> para constru\u00e7\u00e3o de narrativas significa criar uma receita de bolo, abolir a criatividade do autor, enfiar todo mundo numa forma.<\/p>\n<p>Se uma hist\u00f3ria pode ser criada apenas seguindo um esquema, ent\u00e3o para que o autor \u00e9 necess\u00e1rio?<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 entendeu que quando idolatra a Jornada voc\u00ea est\u00e1 diminuindo o seu papel e desvalorizando o seu trabalho? J\u00e1 entendeu ou quer que eu desenhe?<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rios problemas com a Jornada, alguns dos quais eu j\u00e1 abordei em uma s\u00e9rie de artigos anteriores aqui do blog, mas \u00e9 imposs\u00edvel falar sobre ela sem lembrar de mais problemas.<\/p>\n<p>Um desses problemas \u00e9 o conservadorismo religioso. A Jornada se baseia em <strong>mitos<\/strong>. Mitos s\u00e3o a religi\u00e3o que ningu\u00e9m mais segue (essa \u00e9, basicamente, a <em>\u00fanica<\/em> diferen\u00e7a entre mito e religi\u00e3o). Isso quer dizer que ela \u00e9 esquem\u00e1tica porque os mitos foram originalmente pensados como uma explica\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da natureza. O her\u00f3i tem um papel religioso. Nas hist\u00f3rias mais antigas, ele encarna um povo. Muitas vezes o her\u00f3i \u00e9 uma esp\u00e9cie de cordeiro sacrificial.<\/p>\n<p>O esquem\u00e3o da Jornada explora, assim, os elementos mais profundos do c\u00e9rebro humano, os centros mais primitivos do instinto. Dizer que isso \u00e9 conservadorismo \u00e9 at\u00e9 eufemismo.<\/p>\n<p>A Jornada acaba se revelando machista (mesmo se o personagem \u00e9 mulher) porque o her\u00f3i \u00e9 um paradigma de homem. A hero\u00edna \u00e9 apenas um arqu\u00e9tipo masculino de g\u00eanero invertido. A Jornada \u00e9 um reflexo do patriarcado. Ela expressa os valores das religi\u00f5es criadas para justificar uma cultura machista.<\/p>\n<p>Deveria soar alguns alarmes na cabe\u00e7a das pessoas quando s\u00e3o aconselhadas a pensar suas hist\u00f3rias segundo os mesmos paradigmas dos mitos gregos, mesopot\u00e2micos, eg\u00edpcios, etc. Afinal, estas mesmas pessoas n\u00e3o seguiriam a medicina desses povos e certamente acreditam que sua matem\u00e1tica ou arquitetura n\u00e3o servem mais para n\u00f3s. Por que o modelo mental dos antigos ainda serve?<\/p>\n<p>Serve porque algu\u00e9m descobriu que estruturar hist\u00f3rias segundo este modelo d\u00e1 <strong>dinheiro<\/strong>. N\u00e3o importa se tamb\u00e9m perpetua o atraso e divulga valores da Idade da Pedra, atrapalhando a mudan\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es sociais. Dinheiro lava tudo.<\/p>\n<p>Mas um dos papeis da literatura \u00e9 questionar. \u00c9 revolucionar. Enquanto autor, voc\u00ea tem uma certa responsabilidade de n\u00e3o ser parte de um rebanho tocado por algum pastor, ou por instintos arcaicos. Voc\u00ea \u00e9 um ser humano, dotado de um telenc\u00e9falo altamente desenvolvido (&#8220;Ilha das Flores&#8221;) e de capacidade de abstra\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea deveria ser capaz de fazer mais do que seguir receitas. Deveria ter coragem de ir a lugares diferentes daqueles aonde todo mundo vai.<\/p>\n<p>A Jornada do Her\u00f3i \u00e9 uma pris\u00e3o mental na qual muitos jovens autores voluntariamente se encastelam, na ilus\u00e3o de que v\u00e3o ganhar tanto dinheiro quanto George Lucas se fizerem o que George Lucas supostamente fez.<\/p>\n<p>Quando essa modinha passar, ter\u00e1 deixado um grande deserto na literatura do s\u00e9culo XXI, um grande deserto no qual as verdadeiras vozes e os verdadeiros dilemas de nossa \u00e9poca n\u00e3o foram testemunhados pela literatura, que estava mais ocupada em narrar estruturas do tempo em que o homem da caverna ca\u00e7ava mamute com pedra pontuda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Veja bem. H\u00e1 uma quantidade limitada de elementos poss\u00edveis na fic\u00e7\u00e3o. Cabe ao autor utilizar esses elementos de uma forma s\u00e1bia, para construir uma hist\u00f3ria legal. 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