{"id":2954,"date":"2016-06-19T20:31:23","date_gmt":"2016-06-19T23:31:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2954"},"modified":"2017-11-02T14:08:02","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:02","slug":"ai-dos-herois","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/06\/ai-dos-herois\/","title":{"rendered":"Ai dos Her\u00f3is"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\"> Ai de v\u00f3s que desejais ser her\u00f3is.  Os vil\u00f5es n\u00e3o vos perdoar\u00e3o os pecados da vossa humanidade&#8230;<br \/>\n&#8212; Profecias do Or\u00e1culo Cataguasense<\/div>\n<p>\u00c9 relativamente confort\u00e1vel ser mau.  Al\u00e9m de incontroverso, pois a m\u00e9dia da humanidade s\u00f3 odeia do mau que ele seja revelado, o mal \u00e9 recompensador.  \u00c9 f\u00e1cil ser mal.  \u00c9 quase irrespons\u00e1vel.  Quem escolhe o caminho do mal pode fazer o que queira e ningu\u00e9m se desapontar\u00e1.  Dos maus somente se espera que cometam o que h\u00e1 de pior.  De fato, algumas pessoas chegar\u00e3o a descobrir, divulgar e valorizar um &#8220;lado positivo&#8221; do malvado.  A posteridade o humanizar\u00e1 analisando os resqu\u00edcios \u00f3bvios de humanidade que lhe restem.  Ah, aquelas fofas imagens de Hitler acariciando um cervo ou sorrindo para louras crian\u00e7as arianas&#8230;<\/p>\n<p>Mas ai de quem pense em fazer o que julgue ser &#8220;bom&#8221;.  Destes que desejam consertar o mundo, n\u00e3o se exigir\u00e1 nada menos que a perfei\u00e7\u00e3o absoluta.  H\u00e1 uma mir\u00edade de dedos sujos que apontar\u00e3o com \u00e2nsia e horror para o lado do escuro de quem se candidate a her\u00f3i.  Os bra\u00e7os dos que est\u00e3o na lama se estendem, carinhosos, para quem tente se limpar.<\/p>\n<p>&#8220;Ele \u00e9 contra a crueldade com os animais, por\u00e9m sonega impostos.<br \/>\n&#8220;Luta contra o abuso sexual infantil, mas j\u00e1 bateu no filho uma vez.<br \/>\n&#8220;Defende o socialismo, mas tem a\u00e7\u00f5es de empresas.<br \/>\n&#8220;Quer a igualdade de todos, mas viaja na primeira classe.<br \/>\n&#8220;\u00c9 nacionalista, mas fala ingl\u00eas.<br \/>\n&#8220;Apoia a igualdade de g\u00eanero, mas tem uma amante.<br \/>\n&#8220;\u00c9 contra o uso de drogas, mas j\u00e1 baixou m\u00fasica pirata da internet.<br \/>\n&#8220;Prega a paz e o amor, mas tem um vizinho que o odeia.&#8221;<\/p>\n<p>Sempre ser\u00e1 f\u00e1cil destruir o trabalho de quem tenta fazer algo pelo bem da humanidade.  S\u00f3 \u00e9 preciso cavar um pouco.  Haver\u00e1 algo.  As pessoas s\u00e3o cheias de pecados, defeitos, contradi\u00e7\u00f5es.  Cada um de n\u00f3s tem sua carga de manchas, culpas e esquecimentos.  Por\u00e9m, somente aqueles que est\u00e3o at\u00e9 a garganta na lama universal da esp\u00e9cie humana ser\u00e3o capazes, pela experi\u00eancia do assunto e pela amplitude de seu radar que abrange muito mais decad\u00eancias do que o comum dos mortais, encontrar as manchas menos \u00f3bvias nas vestes dos anjos.  Nem \u00e9 preciso dizer que \u00e9 cinismo, que \u00e9 inaceit\u00e1vel, mas o mundo \u00e9 dos c\u00ednicos.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m precisa ser perfeito para ter a capacidade de fazer o bem pelo mundo.  N\u00e3o devemos julgar ningu\u00e9m pelas suas fraquezas, mas por suas for\u00e7as.  A mensagem sempre dever\u00e1 ser mais importante do que o mensageiro.  Por mais que os exemplos cativem, o ensinamento certo n\u00e3o perder\u00e1 sua raz\u00e3o de ser somente porque o professor n\u00e3o o consegue praticar.  A maravilha do aprendizado n\u00e3o est\u00e1 na perfei\u00e7\u00e3o do mestre, mas na capacidade que os alunos t\u00eam de compreend\u00ea-lo e, frequentemente, irem al\u00e9m dele.  O feito \u00e9 mais importante que seu autor.  A ideia \u00e9 mais forte que o pensador.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero aqui dizer que dever\u00edamos perdoar simplesmente os defeitos das pessoas e deixar tudo por isso mesmo. Apenas que n\u00e3o podemos desqualificar o que \u00e9 obviamente verdadeiro e bom por causa de aspectos menores relacionados a uma personalidade que \u00e9 imperfeita como toda a humanidade o \u00e9.  N\u00e3o podemos exigir que nossos her\u00f3is sejam deuses.  Eles n\u00e3o s\u00e3o.  Seria intoler\u00e1vel um mundo em que os her\u00f3is fossem perfeitos, porque eles seriam inating\u00edveis, uma casta \u00e0 parte.  \u00c9 bom que os her\u00f3is sejam falhos, porque suas limita\u00e7\u00f5es nos ensinam que eles s\u00e3o como n\u00f3s, e que, portanto, <em>n\u00f3s tamb\u00e9m podemos fazer o bem<\/em>.<\/p>\n<p>Escrevo isso porque me perguntaram por que eu simpatizo com Che Guevara. N\u00e3o podemos descartar seus objetivos, seus ideais e suas motiva\u00e7\u00f5es porque apenas n\u00e3o concordamos com seus m\u00e9todos ou pelas imperfei\u00e7\u00f5es de seu car\u00e1ter. Isto \u00e9 desonesto.  Se desejamos rejeit\u00e1-lo, que seja pelas suas contradi\u00e7\u00f5es e pelas falhas inerentes aos seus ensinamentos. E mesmo assim, o que d\u00e1 grandeza a certos personagens hist\u00f3ricos \u00e9 eles ainda terem algo de relevante a relegar a humanidade, mesmo depois de termos descartado um monturo de erros. Che Guevara \u00e9 um mito da esquerda mundial, e a sua frase, isolada, j\u00e1 lhe daria este status: &#8220;H\u00e1 que endurecer, mas sem perder a ternura jamais.&#8221;<\/p>\n<p>Guevara tinha uma motiva\u00e7\u00e3o clara: compreendeu que os povos da Am\u00e9rica Latina eram oprimidos pelo capitalismo multinacional e decidiu fazer algo a respeito.  Muitas pessoas antes e depois tiveram compreens\u00f5es semelhantes em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo povo e a outros, e tamb\u00e9m decidiram agir de alguma maneira. Gandhi, Martin Luther King, Lenin, Karl Marx, Thomas Jefferson, Robin Hood, George Washington, Jeanne d&#8217;Arc, Nelson Mandela, Mao Zedong, Farabundo Mart\u00ed, Sim\u00f3n Bol\u00edvar, Oliver Crommwell &#8212; acrescente os nomes que desejar.  Alguns fundaram religi\u00f5es, outros come\u00e7aram movimentos pol\u00edticos, outros provocaram guerras.  Alguns falharam, outros conseguiram.  Uns estavam mais equivocados do que corretos, outros mais certos do que errados.  Os m\u00e9todos variam, mas as motiva\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o velhas quanto a humanidade.  Onde houver injusti\u00e7a haver\u00e1 algu\u00e9m pensando em lutar contra ela.<\/p>\n<p>Guevara tinha um ideal: romper os la\u00e7os de depend\u00eancia que mantinham os povos da Am\u00e9rica Latina escravizados em seus pr\u00f3prios pa\u00edses.<\/p>\n<p>Para atingir esse ideal ele escolheu um m\u00e9todo violento. Por algum estranho motivo ele n\u00e3o pensou que simplesmente apelar \u00e0 humanidade dos que controlavam o capitalismo internacional n\u00e3o funcionaria.  Talvez tenha visto e aprendido com o que ocorrera aos que tentaram ficar em cima do muro, como Jacobo Arbenz e Jorge Gait\u00e1n.  Talvez por isso, ou por alguma outra raz\u00e3o, ele tenha entendido que a liberdade precisa ser arrancada das m\u00e3os crispadas do opressor, em vez de recebida gentilmente delas se feita a s\u00faplica certa.<\/p>\n<p>Alguns discordar\u00e3o da estrat\u00e9gia ou do m\u00e9todo, mas \u00e9 f\u00e1cil pensar diferente quando vivemos em um momento diferente.  Podemos pensar que a viol\u00eancia n\u00e3o se justifica, mas o mundo melhorou muito de 1955 para c\u00e1 e n\u00e3o vivemos sob uma ditadura do tipo que envia a uma mo\u00e7a os test\u00edculos de seu amor e os olhos de seu irm\u00e3o em uma caixa de presentes. \u00c9 um tanto hip\u00f3crita pregar aos franceses que a sua revolu\u00e7\u00e3o foi &#8220;desnecessariamente radical&#8221;.<\/p>\n<p>Certamente os her\u00f3is cometeram erros &#8212; e isso vem desde os her\u00f3is da antiguidade. Eles s\u00e3o her\u00f3is porque fazem coisas grandes, terr\u00edveis.  O hero\u00edsmo est\u00e1 em romper com o senso comum, em superar a mediocridade, tornar-se um <em>\u00dcbermensch<\/em>.<\/p>\n<p>Guevara n\u00e3o foi o \u00fanico que errou e nem o \u00fanico que matou e mandou matar.  Como ele, Napole\u00e3o, Churchill, Lincoln, qualquer l\u00edder em posi\u00e7\u00e3o de comando em opera\u00e7\u00f5es de guerra ou revolu\u00e7\u00e3o.  Guerra consiste, basicamente, em matar tantos inimigos quantos sejam necess\u00e1rios para convenc\u00ea-lo a render-se.   Raras s\u00e3o as guerras que seguem at\u00e9 o genoc\u00eddio do inimigo, mas \u00e9 sempre uma possibilidade.  O que se pode fazer \u00e9 avaliar se a guerra era justificada, necess\u00e1ria ou se foi uma temeridade in\u00fatil e sem raz\u00e3o.  Podemos tamb\u00e9m avaliar se as mortes foram em geral necess\u00e1rias, normais ou se foram exageradas, in\u00fateis.  Haver\u00e1 sempre controv\u00e9rsias envolvendo o emprego de viol\u00eancia, mesmo na guerra, e a hist\u00f3ria seguir\u00e1 a ser escrita pelo vencedor, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana foi contra um regime homicida, brutal e corrupto.<\/p>\n<p>Assim, muito h\u00e1 que se admirar em Che, por mais que aceitemos que ele errou, que ele se enganou, que ele fracassou, ou mesmo que ele tenha sido desnecessariamente cruel.  Admirar Che n\u00e3o \u00e9 querer ser igual a ele, mas reconhecer o que lhe resta de grandeza, removendo o resto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ai de v\u00f3s que desejais ser her\u00f3is. Os vil\u00f5es n\u00e3o vos perdoar\u00e3o os pecados da vossa humanidade&#8230; &#8212; Profecias do Or\u00e1culo Cataguasense \u00c9 relativamente confort\u00e1vel ser mau. 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