{"id":2975,"date":"2016-07-22T00:26:17","date_gmt":"2016-07-22T03:26:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2975"},"modified":"2017-11-02T14:08:00","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:00","slug":"o-baile-do-cemiterio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/07\/o-baile-do-cemiterio\/","title":{"rendered":"O Baile do Cemit\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p>Os dois policiais vinham pela rua a p\u00e9, as pernas bamboleantes de cansa\u00e7o, as vistas turvas de sono \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3, torcendo para que nenhuma coisa acontecesse, pudessem chegar \u00e0 delegacia, tomar um ch\u00e1 quente e ficar por uma hora ou duas com as pernas enroladas em um cobertor. Nada acontecia na cidade, n\u00e3o era preciso aquela preciosidade que o delegado ordenava: patrulhar pelas ruas!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 como ser vigia de cemit\u00e9rio \u2014 protestou o Cabo Fabr\u00edcio.<\/p>\n<p>Nem bem o disse os dois ouviram um berro na dire\u00e7\u00e3o do Morro da Formiga, \u00faltimo lugar da cidade na dire\u00e7\u00e3o da terra das flores e das velas.<\/p>\n<p>\u2014 Fabim, o que foi isso?<\/p>\n<p>\u2014 Uma prova de que vida de pol\u00edcia \u00e9 uma merda.<\/p>\n<p>E assim os dois infelizes pol\u00edcias, no frio daquela madrugada de s\u00e1bado de junho de 1962, se afastaram dos \u00faltimos quatrocentos metros que os separavam dos confortos da delegacia e subiram o Morro da Formiga para ver quem era o insolente que gritava \u00e0quela hora, correndo o risco de acordar at\u00e9 os pacatos habitantes da parte mais alta do morro.<\/p>\n<p><center>\u2014 * \u2014<\/center><\/p>\n<p>A lua come\u00e7ava a subir de dentro do horizonte trazendo aquela luz fria e l\u00edquida que apaga o dia definitivamente. Do outro lado do c\u00e9u o sol mergulhava entre ruivas, uma estranha mancha que encolhia em vez de se espalhar, enquanto brotavam estrelas do c\u00e9u, nos buracos entre as nuvens.<\/p>\n<p>Um cavalo chegava \u00e0 cidade, vindo pela solit\u00e1ria estrada da serra, marchando com eleg\u00e2ncia e ressoando cansa\u00e7o pelas narinas. Na esquina da pra\u00e7a o viajante desceu da montaria, amarrou o cabresto em uma viga de madeira ali posta para isso mesmo e deixou um pagamento com o dono da venda, para que tomasse conta do animal e lhe desse \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u2014 Volto depois do baile.<\/p>\n<p>\u2014 Baile?<\/p>\n<p>\u2014 O baile que tem hoje na cidade. Onde \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Amigo, n\u00e3o temos nenhum baile hoje, n\u00e3o que eu saiba.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso ter vindo de t\u00e3o longe para voltar assim. Essa cidade tem que ter algum lugar onde se possa dan\u00e7ar e namorar numa noite de s\u00e1bado. Em \u00faltimo caso tem pelo menos a zona.<\/p>\n<p>\u2014 O delegado fechou, as putas estava tudo doente, tinha um monte de problema l\u00e1. Ali\u00e1s, melhor nem falar nisso em voz alta. O novo delegado \u00e9 um tirano, gosta de prender todo tipo de gente que invente de fazer o que ele n\u00e3o goste.<\/p>\n<p>\u2014 Com a pol\u00edcia eu me entendo. O que eu n\u00e3o entendo \u00e9 como uma cidade dessas n\u00e3o tem um baile num s\u00e1bado.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1 uma vorta por a\u00ed, ent\u00e3o. Poder ter algum numa rua de canto, e eu n\u00e3o \u2019t\u00f4 sabendo.<\/p>\n<p><center>\u2014 * \u2014<\/center><\/p>\n<p>Jacinto Peres escutou o gemido da sanfona e se benzeu. \u201cIn nomine Patri, Filii et Spiriti Sancti, Amen\u201d. O velho coveiro se lembrou dos bons tempos de mo\u00e7o e at\u00e9 teve vontade de ir atr\u00e1s de alguma saia, mas o inverno tinha se deitado em seus ossos, arrancando qualquer vontade de deitar com mo\u00e7as ou vadias. De repente a cama quente lhe daria mais conforto que uma carne fl\u00e1cida que sua virilidade vacilante n\u00e3o contentaria. \u201cOmnia tempus habent, et suis spatiis transeunt universa sub caelo.\u201d<\/p>\n<p>Desdobrou o cobertor e preparava-se para mergulhar nos bra\u00e7os macios da noite quando ouviu os estalos de botas de sola dura subindo pela rua quase vazia. Passos de pol\u00edcia, ao que parecia. Foi \u00e0 janela e espiou pela greta: n\u00e3o era. Pelo meio da rua cal\u00e7ada de pedras chatas subia um homem alto, vestindo um sobretudo cinza-rato e um chap\u00e9u amassado, cal\u00e7ado de botas pretas de salto de madeira e biqueira de metal. O desconhecido seguia o gemido da sanfona.<\/p>\n<p><center>\u2014 * \u2014<\/center><\/p>\n<p>O grito se repetiu. Era de homem, certamente.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos mais depressinha, soldado, acho que temos que salvar uma alma.<\/p>\n<p>\u2014 Ou pelo menos um par de bagos.<\/p>\n<p>E assim os dois pol\u00edcias esticaram os passos, j\u00e1 de cassetetes \u00e0 m\u00e3o, e subiram pela rua cal\u00e7ada de paralelep\u00edpedos gastos.<\/p>\n<p><center>\u2014 * \u2014<\/center><\/p>\n<p>O estranho chegou \u00e0 porta. A sanfona fugia pelas gretas, uma luz vacilante vazava pelos v\u00e3os, e um cheiro incinerado assomou da porta quando uma portinhola se abriu, resposta a uma batida.<\/p>\n<p>\u2014 Quem vem?<\/p>\n<p>O estranho deu seu nome, claro, mas n\u00e3o me cabe aqui romper o mist\u00e9rio. Nomes de gente forasteira s\u00e3o indiferentes: que adianta saber o nome se n\u00e3o se sabe o dono, voc\u00ea ser Pedro ou Matias tanto importa, o homem n\u00e3o \u00e9 seus documentos, mas, sim, o apelido que ganhou na escola, o xingamento de seus desafetos e o nome bobo que ganhou da namorada. Esse nome forasteiro s\u00f3 importa ao governo e \u00e0 Igreja, e nenhum dos dois estava ali dan\u00e7ando ao toque da sanfona.<\/p>\n<p>\u2014 Posso entrar?<\/p>\n<p>A porta se abriu. O estranho entrou, pendurando sobretudo e chap\u00e9u.<\/p>\n<p><center>\u2014 * \u2014<\/center><\/p>\n<p>Os pol\u00edcias chegaram na esquina e olharam em volta. O sil\u00eancio parecia ter medrado do cemit\u00e9rio at\u00e9 ali. Um gato passou pelo telhado de uma casa, arqueou as costas como se visse abantesma e foi miar monstruosamente atr\u00e1s de um cio mais al\u00e9m. E s\u00f3 isso contornava a quietude congelada daquela esquina onde a noite parecia largada como um pacote.<\/p>\n<p>Uma porta se abriu e uma figura saiu, tocada a pontap\u00e9s, mal conseguindo arrastar atr\u00e1s de si um sobretudo cor de rato e um amassado chap\u00e9u. O estranho caiu amontoado ao p\u00e9 dos pol\u00edcias, quase desacordado. Quem o atirou tratou de fechar a porta ao ver os pol\u00edcias. No minuto seguinte o defenestrado j\u00e1 se rastejava para tentar subir sobre os p\u00e9s. Por fim a criatura se sentou. Estava p\u00e1lido como quem viu uma navalha Solingen, o que \u00e9 pior que a morte ou bem parecido.<\/p>\n<p>\u2014 Foi Vossa Senhoria que deste esse berro? \u2014 perguntou o soldado, tentando ser respeitoso e atentando contra toda a concord\u00e2ncia pronominal.<\/p>\n<p>O estranho puxou um f\u00f4lego comprido, levou a m\u00e3o ao peito enquanto estendia a outra para puxar a ponta do d\u00f3lm\u00e3 do cabo.<\/p>\n<p>\u2014 Como voc\u00eas permitem uma coisa dessas?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se permitimos. Primeiro nos conte que foi, pode ser?<\/p>\n<p>\u2014 Chamem um padre, chamem um bispo, chamem nosso senhor Jesus Cristo! \u2014 a voz do estranho saiu desinfetada como um bra\u00e7o para inje\u00e7\u00e3o, ou pelo menos com o mesmo cheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos levar esse cachaceiro inconveniente para se explicar com o delegado! \u2014 sugeriu o Cabo.<\/p>\n<p>\u2014 Por amor de Deus, faz isso n\u00e3o, Cabo Fabri\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>O soldado cochichou nos ouvidos do cabo, que sorriu e depois entrunfou a cara e por fim gargalhou e se dirigiu ao estranho, entre xingamentos que n\u00e3o ficam bem numa hist\u00f3ria contada dessas.<\/p>\n<p>\u2014 Vai-te daqui, criatura. Pega teu cavalo e some dessa cidade por hoje. Ou vai ter que se explicar com o delegado.<\/p>\n<p>O estranho se enfiou de qualquer maneira dentro das mangas do sobretudo e depois enchapelou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Boa noite.<\/p>\n<p>\u2014 Vai com Deus \u2014 disse o soldado.<\/p>\n<p>\u2014 E que o diabo o carregue \u2014 completou o Cabo, depois que o estranho cambaleou al\u00e9m da esquina.<\/p>\n<p><center>\u2014 * \u2014<\/center><\/p>\n<p>O baile tinha luzes fracas, s\u00f3 candeeiros e velas. A sanfona gemia num canto e os pares dan\u00e7avam aos trope\u00e7\u00f5es entre as mesas e cadeiras e o bar. O rec\u00e9m chegado chamou a aten\u00e7\u00e3o das damas, causou certa inveja dos rapazes que n\u00e3o tinham fazendas e nem alaz\u00f5es.<\/p>\n<p>Eram duas e meia da manh\u00e3, no rel\u00f3gio atrasado do forasteiro, quando alguma briga num canto resultou em riscar de faca e estalar de tambores de rev\u00f3lver. O grito aflito e a turma do deixa-disso se misturaram num pisoteio e num alarido e logo havia dois valentes separados por um metro de ch\u00e3o e cada qual agarrado por m\u00e3os de amigos e aliados, os dois, provavelmente, rezando para nenhuma m\u00e3o vacilasse.<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 cansei de falar, Quinzim, eu n\u00e3o quero \u2019oc\u00ea de vorta depois que \u2019oc\u00ea se engra\u00e7ou com a D\u00e9lia. Larga de ser besta e n\u00e3o ca\u00e7a briga com o Otonho, que \u2019oc\u00ea num ganha nada co isso.<\/p>\n<p>\u2014 Din\u00e1, voc\u00ea tem que me perdo\u00e1.<\/p>\n<p>O dono da casa apareceu no meio, tamb\u00e9m receando as navalhas e as balas, e convenceu os brig\u00f5es a se desmontarem:<\/p>\n<p>\u2014 Somos todos amigos, por favor. Sem navalhadas e sem tiros em minha casa.<\/p>\n<p>Enquanto falava, com sua voz lenta de dar sono, carregada de ladainha, os dois brig\u00f5es foram dependendo menos da providencial a\u00e7\u00e3o da turma do deixa disso. Por fim, deixaram as armas no ch\u00e3o, de onde foram apanhadas pela pr\u00f3pria Din\u00e1, que as entregou ao dono do lugar.<\/p>\n<p>Satisfeito de t\u00ea-las \u00e0 m\u00e3o, o propriet\u00e1rio proferiu a salom\u00f4nica decis\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Agora, por favor, os cavalheiros me tenham a bondade de levar esses dois idiotas l\u00e1 para os fundos e dar-lhes uma boa co\u00e7a, para aprenderem a armar confus\u00e3o em minha casa?<\/p>\n<p>Os dois, que j\u00e1 pareciam mais amigos do que irm\u00e3os, deram meia volta e correram para a porta de tr\u00e1s, que praticamente arrebentaram em dois chutes e ganharam a rua e a vida. A turba mal teve tempo de reagir e ir atr\u00e1s, o corredor estreito atalhou a tentativa.<\/p>\n<p>E nisso bateram \u00e0 porta da frente. O porteiro anunciou que mais gente vinha.<\/p>\n<p>\u2014 Agora que o baile fica bom, gente. Vamos fazer isso aqui ferver.<\/p>\n<p>O forasteiro, que assistia a tudo entre goles cavernosos de cacha\u00e7a, cuspiu-a como quem encontra barata na bebida quando a porta se abriu e entraram duas mo\u00e7as das mais bonitas que j\u00e1 vira. E soltou a l\u00edngua:<\/p>\n<p>\u2014 Agora, sim! Que antes isso aqui s\u00f3 tinha mulher feia e magrela. Tava parecendo o baile do cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio gelado agarrou todas as gargantas, menos a do estranho, que n\u00e3o percebeu nada errado no seu gracejo seboso.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o ele sentiu algo estranho na l\u00edngua, meio dormente como quando se bebe veneno. Olhou em volta, atrav\u00e9s da penumbra que se dobrava sobre tudo, seguiu o rego de luz que conduzia seu olhar at\u00e9 a porta, para guiar os passos das duas beldades. E quando olhou de novo, talvez pelo contraste, ou pela bebida a pregar-lhe pe\u00e7as, cada cara parecia emaciada, cava, ba\u00e7a e fria. Teve nojo de beijos dados, n\u00e3o se devolvem fluidos. Os olhos marejaram, a boca amargou.<\/p>\n<p>\u2014 Valha me Deus, de onde que sai tanta caveira?<\/p>\n<p>Um murm\u00fario come\u00e7ou a se alastrar. \u201cIsso j\u00e1 \u00e9 demais. Quem esse gabola pensa que \u00e9?\u201d<\/p>\n<p>Mas a\u00ed, no momento mais medonho de duas d\u00fazias de anos, os olhos do forasteiro viram coisas mais. As duas jovens belas eram outras coisas, ainda piores, talvez, e a \u00fanica coisa mais horr\u00edvel que isso era estarem entre a porta e suas pernas.<\/p>\n<p>\u2014 Deus do c\u00e9u!<\/p>\n<p>\u2014 Ponham esse insolente para fora! \u2014 gritou o dono do baile. Ele tem que aprender a n\u00e3o falar assim da minha mulher e da minha filha.<\/p>\n<p>E assim a porta se abriu, duas botas duras se encontraram com as suas n\u00e1degas e o estranho caiu de bru\u00e7os diante de dois p\u00e9s pretos de botas, empoeirados, mas firmes. Quis olhar para cima, veio-lhe o sobretudo para derrub\u00e1-lo mais uma vez, e uma porta se lhe fechou por tr\u00e1s, como uma tampa de caix\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dois policiais vinham pela rua a p\u00e9, as pernas bamboleantes de cansa\u00e7o, as vistas turvas de sono \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3, torcendo para que nenhuma coisa acontecesse, pudessem chegar \u00e0 delegacia, tomar um ch\u00e1 quente e ficar por uma hora ou duas com as pernas enroladas em um cobertor. Nada acontecia na cidade, n\u00e3o era preciso aquela preciosidade que o delegado ordenava: patrulhar pelas ruas! \u2014 \u00c9 como ser vigia de cemit\u00e9rio \u2014 protestou o Cabo Fabr\u00edcio. 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