{"id":299,"date":"2011-05-01T00:55:00","date_gmt":"2011-05-01T03:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=299"},"modified":"2017-11-02T14:09:14","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:14","slug":"tres-temas-dificeis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/05\/tres-temas-dificeis\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas Temas Dif\u00edceis"},"content":{"rendered":"<p>Entre os v\u00e1rios g\u00eaneros liter\u00e1rios que me atraem existem tr\u00eas que s\u00e3o particularmente de minha prefer\u00eancia: fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e realismo fant\u00e1stico. S\u00e3o, por\u00e9m, tr\u00eas g\u00eaneros que eu pouco ouso praticar, devido \u00e0s in\u00fameras dificuldades envolvidas em cada um deles.<\/p>\n<p>Na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica existe o problema da imagina\u00e7\u00e3o: \u00e9 necess\u00e1rio ser um bom futur\u00f3logo, para que sua obra de hoje n\u00e3o se torne um futuro do pret\u00e9rito dentro de poucos anos, ou logo ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o. E futurologia se faz com informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o com bola de cristal. A maioria dos autores brasileiros de &#8220;fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221; se evade da responsabilidade de conciliar criatividade e ci\u00eancia tomando o atalho dos g\u00eaneros h\u00edbridos, como a fic\u00e7\u00e3o &#8220;steampunk&#8221;, que intencionalmente localiza em um &#8220;futuro do pret\u00e9rito&#8221; a sua a\u00e7\u00e3o, preferindo imaginar como o passado poderia ter sido do que especular sobre como o futuro poder\u00e1 vir a ser. Uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que funciona como f\u00e1bula ou conto de fadas, ambientado a a\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s, em uma gal\u00e1xia muito, muito distante tamb\u00e9m funciona como boa sa\u00edda para a necessidade de coes\u00e3o e coer\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de errado em escrever fic\u00e7\u00e3o desta forma, embora eu, do alto de minha arbitr\u00e1ria opini\u00e3o, considere que esses g\u00eaneros n\u00e3o s\u00e3o fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica &#8220;de verdade&#8221;. Inclusive foram muitas as obras geniais escritas de forma tangente \u00e0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O que est\u00e1 errado \u00e9, ao meu ver, que haja no Brasil t\u00e3o poucos autores tentando fazer fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no duro.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode exigir de um pa\u00eds que ele tenha muitos Asimovs ou Clarkes, especialmente um pa\u00eds que tem esse sistema educacional digno de Praga do Egito, mas seria magn\u00edfico ver mais gente tentando, em vez de cair no terreno f\u00e1cil da fanfic de Guerra nas Estrelas.<\/p>\n<p>O realismo fant\u00e1stico, por sua vez, \u00e9 um tema extremamente incompreendido pelos Brasileiros, que o consideram algo fabul\u00edstico ou at\u00e9 alienado, quando ele possui uma carga de trag\u00e9dia e de den\u00fancia muito forte. Al\u00e9m do mais, por ser um g\u00eanero &#8220;supostamente&#8221; oriundo da Am\u00e9rica hisp\u00e2nica, enfrenta certa rejei\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s, que ainda os vemos como &#8220;outros&#8221;. Digo &#8220;supostamente&#8221; porque n\u00e3o se pode chamar de outra coisa que n\u00e3o &#8220;realismo fant\u00e1stico&#8221; as obras de autores como Franz Kafka, Mikhail Bulgakov e Karel Capek \u2014 e eles escreveram na primeira metade do s\u00e9culo XX, \u00e9poca na qual Garc\u00eda M\u00e1rquez, o definidor do tema, ainda nem era adulto.<\/p>\n<p>Por fim, a fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica merece um tratamento especial\u00edssimo, pois, ao contr\u00e1rio de todos os demais assuntos liter\u00e1rios, \u00e9 um dos poucos definidos pelo seu rigor: eu n\u00e3o posso simplesmente ambientar uma obra no Egito sem respeitar o que se sabe daquele pa\u00eds, ou estaria fazendo uma fantasia ex\u00f3tica que nunca passar\u00e1 de pseudo-hist\u00f3rica. Para merecer o r\u00f3tulo de &#8220;hist\u00f3rica&#8221; a fic\u00e7\u00e3o precisa ser coerente com o conhecimento existente, precisa fazer o leitor gritar &#8220;ah\u00e1&#8221; quando ele estiver lendo um comp\u00eandio hist\u00f3rico e lembrar do livro.<\/p>\n<p>Boa fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 mais rara que \u00e1gua no deserto: a maioria dos autores apenas rotula que sua obra se passa na Espanha Renascentista, nos Estados Unidos do s\u00e9culo XIX ou no Jap\u00e3o Medieval e recorre a algumas tinturas ralas retiradas de enciclop\u00e9dias (as &#8220;cartilhas de alfabetiza\u00e7\u00e3o&#8221; em conhecimentos gerais). Na pr\u00e1tica, produzem hist\u00f3rias ambientadas em uma esp\u00e9cie de &#8220;Terra de Marlboro&#8221;, que s\u00f3 existe nas idealiza\u00e7\u00f5es de quem a concebe. O resultado s\u00e3o duelos de espada segundo rituais que s\u00f3 existiriam na Fran\u00e7a p\u00f3s-revolucion\u00e1ria, caub\u00f3is bebendo u\u00edsque e atirando com Colts e gueixas que vivem s\u00f3 para apaixonar-se pelo primeiro samurai. A a\u00e7\u00e3o de tais hist\u00f3rias se baseia quase unicamente naquilo que est\u00e1 no imagin\u00e1rio coletivo, e n\u00e3o no realmente acontecido. De forma que o leitor de tais obras, se um dia estudar a hist\u00f3ria de tais lugares, se sentir\u00e1 decepcionado por descobrir que n\u00e3o havia duelos ritualizados na Espanha do S\u00e9culo de Ouro, que a arma mais usada no faroeste era a espingarda e que as gueixas n\u00e3o eram mais particularmente &#8220;sofridas&#8221; e nem &#8220;apaixonadas&#8221; que a m\u00e9dia das mulheres japonesas.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou dizendo estas coisas para denegrir estes g\u00eaneros. Somente uma falha na interpreta\u00e7\u00e3o do texto levar\u00e1 algu\u00e9m a pensar isso. Muito, muito pelo contr\u00e1rio. S\u00e3o tr\u00eas g\u00eaneros que respeito muit\u00edssimo exatamente porque vejo neles um grau de dificuldade que considero quase invenc\u00edvel. Tenho a certeza quase absoluta de que jamais conseguirei produzir, em qualquer destes tr\u00eas g\u00eaneros, uma obra de padr\u00e3o internacional. Mas morrerei tentando, claro. Eu miro na Lua, porque \u00e9 melhor falhar em algo grande do que em algo pequeno\u2014 Para voc\u00ea ter uma ideia, eu tenho exatamente uma obra parada em cada um desses g\u00eaneros, e n\u00e3o vejo como desatar.<\/p>\n<p>A obra de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 um romance chamado &#8220;Epifania&#8221;, que possui entre seus temas intelig\u00eancia artificial, coloniza\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria, equa\u00e7\u00e3o do apocalipse, psicologia de massas etc. Escrevi um primeiro cap\u00edtulo e <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/01\/epifania\/\">postei aqui<\/a>, mas estou h\u00e1 meses tentando desenvolver a narrativa e n\u00e3o consigo, porque antevejo o tamanho da pesquisa que terei que fazer sobre todos esses temas. Parte da pesquisa eu at\u00e9 j\u00e1 fiz, consultando um astr\u00f4nomo e um qu\u00edmico a respeito de localiza\u00e7\u00e3o estelas e natureza da composi\u00e7\u00e3o do planeta, mas s\u00e3o tantas coisas a considerar ! Meia-vida de radia\u00e7\u00e3o, probabilidades de colapso das civiliza\u00e7\u00f5es (Equa\u00e7\u00e3o de Drake), conflitos e traumas psicol\u00f3gicos causados pelo confinamento, efeitos da baixa gravidade sobre o corpo humano etc. Me d\u00e1 at\u00e9 arrependimento de ter come\u00e7ado.<\/p>\n<p>Dentro do terreno do realismo fant\u00e1stico eu escrevi um conto chamado <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/01\/fausto-de-souza\/\">&#8220;Fausto de Souza&#8221;<\/a> e outro chamado <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/o-flautista\/\">&#8220;O Flautista&#8221;<\/a> que, obviamente, n\u00e3o est\u00e1 pronto, mas cujas arestas eu n\u00e3o consigo terminar de aparar. O primeiro desviou da inten\u00e7\u00e3o e praticamente virou um texto humor\u00edstico. O segundo me parece irremediavelmente empo\u00e7ado.<\/p>\n<p>Na fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, por\u00e9m, o caso ainda \u00e9 mais grave. Eu tenho um conto longo, com mais de 30 mil caracteres, todo pronto, mas n\u00e3o ouso publicar porque, na af\u00e3 da inspira\u00e7\u00e3o, eu o escrevi diretamente a partir de minha mem\u00f3ria dos tempos de faculdade (sou licenciado em Hist\u00f3ria). Depois que terminei, descobri v\u00e1rios buracos no assunto que precisam ser sanados para que ele tenha credibilidade. Eu pretendo ambientar o conto na Zona da Mata Mineira no s\u00e9culo XIX. N\u00e3o me interessa qualquer outra solu\u00e7\u00e3o, pois tudo se torna sem sentido se isso for mudado. Inclusive as conex\u00f5es que este conto tem e ter\u00e1 com outros contos meus. Mas eu fico retido porque n\u00e3o consigo saber exatamente que tipo de for\u00e7a policial haveria no estado de Minas Gerais no s\u00e9culo XIX, e se tal for\u00e7a atuaria da forma como a descrevi. Suponho que n\u00e3o, mas isso simplesmente invalidaria todo o romance. Veja que ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>Esses tr\u00eas g\u00eaneros t\u00eam em comum, portanto, a exig\u00eancia: s\u00e3o para quem n\u00e3o tem medo de estudar e aprecia uma narrativa rigorosa. Estas obras s\u00e3o &#8220;biscoito fino&#8221; que s\u00f3 agrada a um fino paladar. N\u00e3o pensemos que vender\u00e3o centenas de milhares de exemplares num passe de m\u00e1gica.<\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o existe, para mim, maior prova de valor liter\u00e1rio do que fazer o que se faz nesses tr\u00eas g\u00eaneros: combinar a liberdade do criador, a c\u00e9lebre &#8220;licen\u00e7a po\u00e9tica&#8221;, com a fidelidade \u00e0 realidade, produzindo obras que ficam entre a fic\u00e7\u00e3o e a historiografia. Admiro imensamente quem \u00e9 bem sucedido nesta tarefa, e almejo muito conseguir atingir a maturidade nesses assuntos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os v\u00e1rios g\u00eaneros liter\u00e1rios que me atraem existem tr\u00eas que s\u00e3o particularmente de minha prefer\u00eancia: fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e realismo fant\u00e1stico. S\u00e3o, por\u00e9m, tr\u00eas g\u00eaneros que eu pouco ouso praticar, devido \u00e0s in\u00fameras dificuldades envolvidas em cada um deles. Na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica existe o problema da imagina\u00e7\u00e3o: \u00e9 necess\u00e1rio ser um bom futur\u00f3logo, para que sua obra de hoje n\u00e3o se torne um futuro do pret\u00e9rito dentro de poucos anos, ou logo ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o. 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