{"id":2992,"date":"2016-09-08T22:56:40","date_gmt":"2016-09-09T01:56:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=2992"},"modified":"2017-11-02T14:07:59","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:59","slug":"ha-uma-gota-de-lagrima-em-certas-piadas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/09\/ha-uma-gota-de-lagrima-em-certas-piadas\/","title":{"rendered":"H\u00e1 uma Gota de L\u00e1grima em Certas Piadas"},"content":{"rendered":"<p>Esta semana o humorista S\u00e9rgio Mallandro foi ao programa \u201cThe Noite\u201d, de Danilo Gentilli, e deu uma das mais desconcertantes entrevistas da hist\u00f3ria da televis\u00e3o brasileira. Antes de comentar, gostaria que voc\u00ea assistisse, para que eu n\u00e3o estrague a sua experi\u00eancia com <em>spoilers<\/em>:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Noite (01\/09\/16) - Mallandro causa mal estar durante entrevista\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OnhU7tWAPqU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div class=\"epigraph\">O poeta \u00e9 um fingidor<br \/>\nFinge t\u00e3o completamente<br \/>\nQue chega a fingir que \u00e9 dor<br \/>\nA dor que deveras sente.<\/p>\n<p>&mdash; Fernando Pessoa.<\/p><\/div>\n<p>Ao assistir a entrevista, especialmente ap\u00f3s o seu surpreendente final, fui tomado por uma melancolia inesperada, em vez de meramente rir da engenhosidade de S\u00e9rgio Mallandro em tomar para si as r\u00e9deas do programa e determinar os termos da entrevista de uma maneira t\u00e3o genial que merece ser preservada para a hist\u00f3ria da televis\u00e3o brasileira. Esta melancolia nasceu de uma inc\u00f4moda constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>Ouvi uma piada uma vez: Um homem vai ao m\u00e9dico, diz que est\u00e1 deprimido. Diz que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente s\u00f3 num mundo amea\u00e7ador onde o que se anuncia \u00e9 vago e incerto. O m\u00e9dico diz: &#8220;O tratamento \u00e9 simples. O grande palha\u00e7o Pagliacci est\u00e1 na cidade, assista ao espet\u00e1culo. Isso deve anim\u00e1-lo.&#8221; O homem se desfaz em l\u00e1grimas. E diz: &#8220;Mas, doutor&#8230; Eu sou o Pagliacci.&#8221; Boa piada. Todo mundo ri. Rufam os tambores. Desce o pano.<br \/>&mdash; Allan Moore<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 a sinceridade o que torna S\u00e9rgio Mallandro capaz de convencer a todos de seu drama, de seu sofrimento pessoal por ser sempre identificado como um molec\u00e3o que jamais cresce e que vive a repetir desesperadamente as mesmas piadas toscas de quase quarenta anos atr\u00e1s?<\/p>\n<p>Todo artista vive uma certa dimens\u00e3o tr\u00e1gica: prisioneiro de sua pr\u00f3pria obra, tem a sua carreira determinada pelas expectativas de seus leitores. Assim J. K. Rowling est\u00e1 condenada a escrever livros sobre Harry Potter enquanto viver, porque outros livros que escreva n\u00e3o ter\u00e3o o mesmo sucesso. Assim George R. R. Martin se condenou a escrever Guerra dos Tronos at\u00e9 seu \u00faltimo suspiro de vida. Assim Paulo Coelho extraiu cada gota do fil\u00e3o liter\u00e1rio que encontrou. N\u00e3o somente os escritores e n\u00e3o somente os autores comerciais. Imagino se Mondriaan teria sido t\u00e3o bem sucedido se tentasse pintar naturezas-mortas \u2014 talvez as tenha pintado, mas ningu\u00e9m comprou.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Mallandro n\u00e3o \u00e9 um adulto que n\u00e3o cresceu, um eterno molec\u00e3o. Certamente n\u00e3o. Todos crescemos ao longo da vida, todos mudamos. Imagino que ele, se n\u00e3o \u00e9 um retardado mental, tamb\u00e9m cresceu e mudou. Que sofrimento n\u00e3o deve ser para um homem, j\u00e1 chegando aos seus sessenta anos, ter de colocar um bon\u00e9 virado para tr\u00e1s e atirar ovos na plateia, gritar interjei\u00e7\u00f5es sem sentido e falar com uma eterna voz de adolescente rebelde. O personagem n\u00e3o cola mais no ator, e isso j\u00e1 faz muito tempo. Imagino que Mallandro se incomoda realmente com isso. Sinceridade \u00e9 algo que n\u00e3o se pode fingir. Ele pode n\u00e3o ter cultura para ser realmente o homem interessado em literatura que tentou fingir que era, mas ele deve ter maturidade e discernimento bastantes para se sentir como algu\u00e9m que engordou e tenta vestir as roupas de solteiro.<\/p>\n<p>Assim como o poeta pessoa, que fingia serem fict\u00edcias as suas dores reais, assim como o palha\u00e7o deprimido que precisa fazer rir a uma plateia que quer ver tortadas na cara.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil ser um Mondriaan praticando uma arte respeitada, se j\u00e1 deve ser dif\u00edcil ser uma Rowling, condenada a um personagem, imagino que grau de inc\u00f4modo deve haver em ser um Mallandro, for\u00e7ado a manter um personagem simiesco nascido em uma \u00e9poca em que a maioria de seus f\u00e3s o assistia em televis\u00e3o preto e branco.<\/p>\n<p>Mallandro pode ganhar muito mais dinheiro do que eu com suas palha\u00e7adas, mas eu confesso que tive pena dele. Ele nunca conseguir\u00e1 me convencer de que ainda \u00e9 o molec\u00e3o. Sua trollagem foi muito bem fingida, excessivamente convincente para ser s\u00f3 uma trollagem.<\/p>\n<p>De fato o que ela revela \u00e9 que realmente o dinheiro pode at\u00e9 comprar coisas inesperadas, como a dignidade de um homem ou de uma mulher, mas aquele que se vende sempre fica com uma certa culpa que um dia rebrota.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana o humorista S\u00e9rgio Mallandro foi ao programa \u201cThe Noite\u201d, de Danilo Gentilli, e deu uma das mais desconcertantes entrevistas da hist\u00f3ria da televis\u00e3o brasileira. Antes de comentar, gostaria que voc\u00ea assistisse, para que eu n\u00e3o estrague a sua experi\u00eancia com spoilers: O poeta \u00e9 um fingidor Finge t\u00e3o completamente Que chega a fingir que \u00e9 dor A dor que deveras sente. &mdash; Fernando Pessoa. 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