{"id":3098,"date":"2016-10-14T23:40:05","date_gmt":"2016-10-15T02:40:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3098"},"modified":"2017-11-02T14:07:59","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:59","slug":"gostei-do-nobel-para-o-dylan","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2016\/10\/gostei-do-nobel-para-o-dylan\/","title":{"rendered":"Gostei do Nobel para o Dylan"},"content":{"rendered":"<p>Como sou do tipo que acredita que uma Academia \u00e9 essencialmente uma desculpa para um bando de velhos se concederem pr\u00eamios e ignorar o que se faz de novidade neste mundo, nunca dei muita bola ao Pr\u00eamio Nobel de Literatura. Especialmente porque a maioria de seus agraciados tem pouca relev\u00e2ncia \u201cpop\u201d \u2014 o que significa que trazem pouca pol\u00eamica \u2014 e os que a t\u00eam j\u00e1 est\u00e3o velhos demais para trazerem alguma sacudida ao caret\u00edssimo universo das letras. A coisa mais parecida com tal sacudida foi a concess\u00e3o a Dario F\u00f2, o comediante italiano que adiou por um ano a premia\u00e7\u00e3o de Saramago.<\/p>\n<div id=\"attachment_3100\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3100\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/President_Barack_Obama_presents_American_musician_Bob_Dylan_with_a_Medal_of_Freedom-300x243.jpg\" alt=\"Dylan recebe medalha de Obama.\" width=\"300\" height=\"243\" class=\"size-medium wp-image-3100\" \/><p id=\"caption-attachment-3100\" class=\"wp-caption-text\">Dylan sendo condecorado nos EUA.<\/p><\/div>\n<p>Ao premiar Bob Dylan, por\u00e9m, a Academia sueca, sem fazer nada de muito diferente do que normalmente faz (premiar pessoas j\u00e1 velhas demais para escreverem ainda algo de realmente provocante usando o Nobel como espada ou escudo), conseguiu causar pol\u00eamica. O tipo de pol\u00eamica de que eu gosto. A treta trevosa.<\/p>\n<p>Tenho amigos em ambos os extremos do espectro. Desde alguns que juram que elogiar o pr\u00eamio a Dylan \u00e9 ser um ignorante at\u00e9 os que acham que o que aconteceu \u00e9 o pren\u00fancio do Apocalipse. Esses talvez pensem de acordo com uma frase que cunhei h\u00e1 alguns meses: \u201cos autores de <em>best-sellers<\/em> n\u00e3o ganham o Nobel, em compensa\u00e7\u00e3o compram iates, possuem casas na Su\u00ed\u00e7a e t\u00eam o poder de foder com a vida de quem os critica.\u201d A frase \u00e9 engra\u00e7ada, mas n\u00e3o \u00e9 bem assim que a coisa vai.<\/p>\n<p>Primeiramente h\u00e1 que dizer que n\u00e3o s\u00e3o raros os escritores de <em>best-sellers<\/em> que foram agraciados. Isso inclui desde o Rudyard Kipling, nos prim\u00f3rdios do pr\u00eamio. E temos nosso precedente nacional, a ABL, que \u201cimortalizou\u201d Paulo Coelho, o mais nocivo dos autores nacionais da era pr\u00e9-draconiana. Ent\u00e3o o consolo dos bons autores, os que n\u00e3o t\u00eam iates e nem caviar, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o assegurado assim.<\/p>\n<p>Imaginar-se merecedor exclusivo de honrarias \u00e9 uma forma de orgulho pat\u00e9tico que muito autor complexado tem. N\u00e3o h\u00e1 sequer um dia na hist\u00f3ria deste planeta desde 1900 em que algu\u00e9m n\u00e3o tenha escrito uma obra liter\u00e1ria e acreditado que estava revolucionando a cultura de seu pa\u00eds ou do mundo. Tampouco houve autor que n\u00e3o vivesse sob o imp\u00e9rio da cren\u00e7a de que era um g\u00eanio incompreendido. De genialidades incompreendidas o inferno do esquecimento est\u00e1 cheio. Crer-se um g\u00eanio e crer-se contactado por extraterrestres s\u00e3o coisas que se confundem no fundo da boate quando a luz n\u00e3o est\u00e1 forte.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa ineg\u00e1vel nisso tudo \u00e9 que se a qualidade \u00e9 sempre algo discut\u00edvel, e muito \u201cg\u00eanio incompreendido\u201d de fato n\u00e3o a tem, a falta de qualidade \u00e9 sempre inconteste e vai at\u00e9 o osso, vai al\u00e9m do osso e corta no n\u00edvel at\u00f4mico, causando uma fiss\u00e3o da tosqueira que produz um cogumelo de bo\u00e7alidade. No meio de tudo est\u00e1 o pantanoso terreno que ningu\u00e9m quer habitar, a plan\u00edcie da mediocridade.<\/p>\n<p>Dentre os habitantes de tal plan\u00edcie h\u00e1 numerosos que gostam de negar simultaneamente duas coisas:<\/p>\n<p>a) Que a planura onde habitam seja precisamente esse fabuloso lugar de que falei; b) Que certo g\u00eanero de que n\u00e3o gostam n\u00e3o \u00e9 arte.<\/p>\n<p>Quem teme o r\u00f3tulo da mediocridade \u2014 em vez de abra\u00e7\u00e1-la como uma possibilidade que n\u00e3o depende da vontade, mas de muitas circunst\u00e2ncias incontrol\u00e1veis <em>e do imprevis\u00edvel julgamento alheio<\/em> \u2014 enxerga montanhas em lugares onde Deus bateu bife com um martelo e se cr\u00ea nos p\u00edncaros de uma montanha ampla porque enxerga a curvatura da terra, de t\u00e3o plana que \u00e9 a regi\u00e3o onde est\u00e1.<\/p>\n<p>Isto, por\u00e9m, n\u00e3o impede que enxerguem torto aquilo de que n\u00e3o gostam. Como se tivessem a prerrogativa de definir o que \u00e9 arte ou n\u00e3o. Eu posso n\u00e3o gostar de determinado g\u00eanero e dizer claramente que n\u00e3o gosto, mas n\u00e3o tenho o poder de determinar se \u00e9 ou n\u00e3o arte. Posso dizer que acho que n\u00e3o \u00e9, mas minha opini\u00e3o s\u00f3 tem valor se n\u00e3o for solit\u00e1ria. Muitas vezes somos como aquele cara que sobe numa caixa de frutas e come\u00e7a a pregar o apocalipse.<\/p>\n<p>A Academia sueca premiou um letrista de m\u00fasica. Para alguns isto \u00e9 fenomenal, uma prova de \u201cabertura\u201d, como se isso fosse necessariamente bom. Se toda abertura fosse algo de bom trepana\u00e7\u00e3o seria sensacional e todos far\u00edamos. Para outros \u00e9 uma prova de que o fim est\u00e1 pr\u00f3ximo, \u201carrependei-vos v\u00f3s que lestes Sydney Sheldon ou K\u00e9fera\u201d.<\/p>\n<p>A pergunta que ningu\u00e9m faz \u00e9: <strong>Podemos considerar letras de m\u00fasica como uma forma de literatura?<\/strong><\/p>\n<p>A maioria dos que acham que n\u00e3o est\u00e1 escorada em uma tautologia: a de que letras de m\u00fasicas s\u00e3o menos complexas do que poemas. Este \u00e9 um racioc\u00ednio muito errado.<\/p>\n<p>Se menos complexidade se relacionasse com o valor art\u00edstico de uma express\u00e3o, as tetralogias que tanto criticamos teriam mais valor que os contos de Machado de Assis. Sabemos que n\u00e3o \u00e9 assim. Complexidade \u00e9 uma caracter\u00edstica vazia em si, caso n\u00e3o leve a algo significativo.<\/p>\n<p>Letras de m\u00fasica n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o complexas quanto poemas porque s\u00e3o uma express\u00e3o art\u00edstica diferente. \u00c9 mais f\u00e1cil fazer um desenho do que uma escultura realista porque s\u00e3o express\u00f5es diferentes. Nem todo poeta consegue ser bom letrista e nem todo letrista consegue ser bom poeta, assim como nem todo contista \u00e9 bom romancista e nem todo romancista \u00e9 bom contista.<\/p>\n<p><em>A falta de complexidade das letras de m\u00fasica n\u00e3o tem relev\u00e2ncia para julgar seu car\u00e1ter liter\u00e1rio ou n\u00e3o.<\/em> Ainda mais que uma boa letra n\u00e3o \u00e9 necessariamente a mais complexa. H\u00e1 casos de complexidade a servi\u00e7o da qualidade, como a c\u00e9lebre \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d, de Chico Buarque, mas h\u00e1 casos em que a complexidade \u00e9 mera bo\u00e7alidade, como \u201cMeia Lua Inteira\u201d, do Carlinhos Brown. H\u00e1 casos em que a simplicidade \u00e9 genialidade, como algumas letras de Vin\u00edcius de Morais, e outros em que \u00e9 apenas tosquice, como \u201cAi Se Eu Te Pego\u201d.<\/p>\n<p>Embora eu n\u00e3o pretenda julgar o m\u00e9rito de Bob Dylan (no meu gosto pessoal ele \u00e9 um semideus, mas n\u00e3o falemos disso aqui), eu acredito que, mais do que definir a qualidade art\u00edstica de sua obra, a Academia Sueca botou um fedido bode na sala:<\/p>\n<p><strong>Podemos considerar as letras de m\u00fasica como mais uma express\u00e3o art\u00edstica da literatura?<\/strong><\/p>\n<p>Veja bem, ainda n\u00e3o estamos pensando em colocar em livros did\u00e1ticos letras do \u201c\u00c9 o Tchan\u201d no lugar de poemas de Castro Alves. Trata-se apenas discutir se temos um g\u00eanero liter\u00e1rio novo. E j\u00e1 n\u00e3o era sem tempo discutir isso.<\/p>\n<p>Antes da exist\u00eancia do Pr\u00eamio Nobel, a m\u00fasica pop n\u00e3o existia, somente a folcl\u00f3rica e a erudita. A primeira tinha letras que n\u00e3o eram consideradas como arte, obviamente, e a segunda tinha letras que se baseavam na poesia, quando havia letra. Mas desde o s\u00e9culo XVIII havia transgress\u00f5es, como Mozart, que usou um libreto brega e de horr\u00edvel qualidade liter\u00e1ria para a sua \u00f3pera \u201cA Flauta M\u00e1gica\u201d.<\/p>\n<p>Com o desenvolvimento da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, a can\u00e7\u00e3o pop passou a existir como um g\u00eanero independente, e substituiu a m\u00fasica erudita no gosto das elites. Esse fen\u00f4meno permaneceu ignorado pela cr\u00edtica de arte por muito tempo. Havia uma \u201ccr\u00edtica musical\u201d \u00e0 parte da cr\u00edtica liter\u00e1ria, e n\u00e3o era raro o julgamento do m\u00e9rito da letra estar subordinado ao da m\u00fasica, ou ser feito por music\u00f3logos mais interessados na segunda do que na primeira. Raramente a Academia se interessava pela letra de m\u00fasica, e quando o fazia era para torcer-lhe o nariz.<\/p>\n<p>O Brasil foi, curiosamente, um dos pa\u00edses onde a transgress\u00e3o aconteceu de forma mais extensa, com poetas transitando para a m\u00fasica e vice-versa. Vin\u00edcius de Morais, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Paulo Leminski, N\u00e9lson Motta, Tavinho Paes, Paulo C\u00e9sar Pinheiro\u2026 Houve at\u00e9 quem enxergasse relev\u00e2ncia no sofr\u00edvel Renato Russo, sobre quem ainda teremos de falar\u2026<\/p>\n<p>Ent\u00e3o este pr\u00eamio dado a Dylan \u00e9 culturalmente importante pela discuss\u00e3o que ensejar\u00e1. N\u00e3o \u00e9 um pr\u00eamio qualquer, que possa ser ignorado. \u00c9 um pr\u00eamio que ficar\u00e1 para a hist\u00f3ria, e que nos far\u00e1 pensar pelas d\u00e9cadas futuras.<\/p>\n<p>Pensem nisso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como sou do tipo que acredita que uma Academia \u00e9 essencialmente uma desculpa para um bando de velhos se concederem pr\u00eamios e ignorar o que se faz de novidade neste mundo, nunca dei muita bola ao Pr\u00eamio Nobel de Literatura. Especialmente porque a maioria de seus agraciados tem pouca relev\u00e2ncia \u201cpop\u201d \u2014 o que significa que trazem pouca pol\u00eamica \u2014 e os que a t\u00eam j\u00e1 est\u00e3o velhos demais para trazerem alguma sacudida ao caret\u00edssimo universo das letras. 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