{"id":319,"date":"2011-03-28T16:12:00","date_gmt":"2011-03-28T19:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=319"},"modified":"2017-11-02T14:09:16","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:16","slug":"jesus-me-guiou","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/03\/jesus-me-guiou\/","title":{"rendered":"Jesus Me Guiou"},"content":{"rendered":"<p>Eram tempos bicudos na vida, eu tive de vender meu carro. J\u00e1 n\u00e3o era grande coisa: um fusca 1976 amarelo-ovo que eu detestava. Mesmo assim, vend\u00ea-lo doeu na alma. Doeu porque era um gesto simb\u00f3lico da profunda decad\u00eancia em que estava. Tinha sido quase rico, tinha comprado carro do ano, mas andaria a p\u00e9. Como dizia uma m\u00fasica do Leoni: &#8220;J\u00e1 tive carro e grana e um monte de convites para qualquer lugar&#8221;. Tal como o infeliz personagem da can\u00e7\u00e3o, eu passaria a s\u00f3 andar a p\u00e9, a diferen\u00e7a era que andar passava a ser um sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Foram tr\u00eas anos sem carro, muita sola de sapato gasta e muitas horas de solid\u00e3o e estudo. Projetos que n\u00e3o vingavam, sonhos que morriam. Por fim consegui outro emprego e algum tempo depois pude comprar outra vez um autom\u00f3vel. Nada de extraordin\u00e1rio, um Ford DelRey 89 a \u00e1lcool que me daria um preju\u00edzo de mais de R$3.500,00 no total, entre consertos, alto consumo de combust\u00edvel, pneus novos, lanternagem e uma &#8220;manta&#8221; de R$ 1.200,00 quando tive de vend\u00ea-lo, quase dois anos depois. Desse carro guardo lembran\u00e7as agridoces. Bons e maus momentos, frustra\u00e7\u00f5es e risadas. Uma dessas hist\u00f3rias teve a ver com os adesivos que o antigo dono tinha fixado no vidro traseiro e na lataria da tampa do porta-malas.\u00a0<\/p>\n<p>Provavelmente o DelRey tinha sido de algu\u00e9m muito religioso, talvez at\u00e9 um pastor. Ele tinha nada menos que tr\u00eas adesivos proeminentes (um deles era at\u00e9 fluorescente) com mensagens tipicamente evang\u00e9licas. O primeiro, do lado superior do vidro, em letras grandes e berrantes, dizia &#8220;O Senhor \u00e9 meu pastor, nada me faltar\u00e1&#8221;. Faltava, por\u00e9m, visibilidade, porque este adesivo tapava boa parte da vis\u00e3o do motorista. Isto talvez explicasse as v\u00e1rias marcas de batida que o DelRey tinha na traseira: dar marcha a r\u00e9 olhando para um salmo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o seguro quanto faz\u00ea-lo olhando para o que h\u00e1 por detr\u00e1s do carro. Desse adesivo eu mesmo me livrei logo, usando \u00e1lcool isoprop\u00edlico e uma espuma de cozinha. O segundo adesivo, localizado ao lado do logotipo da Ford, dizia que o ve\u00edculo era &#8220;Propriedade do Senhor Jesus&#8221;. N\u00e3o sei se fora o Senhor Jesus que o vendera para a loja de carros usados, mas tratei de me livrar tamb\u00e9m daquele adesivo quando o lanterneiro remendou as batidas da traseira. O terceiro adesivo, o mais colorido de todos, corria sobre a parte inferior do vidro, ajudando a estreitar ainda mais a vis\u00e3o para a marcha \u00e0 r\u00e9, e dizia &#8220;Pode seguir-me, pois Jesus me guia&#8221;. Este adesivo era o mais problem\u00e1tico, pois tinha sido aplicado sobre um outro, mais antigo e j\u00e1 corro\u00eddo pelo tempo. Eu tentara retir\u00e1-lo, mas logo de in\u00edcio percebera que seria um trabalho complicado e eu n\u00e3o tinha \u00e1lcool suficiente para terminar. Ent\u00e3o deixei o adesivo e acabei rodando com ele durante algumas semanas.<\/p>\n<p>Tive ent\u00e3o uma reuni\u00e3o de trabalho em Juiz de Fora, cidade aonde j\u00e1 tinha ido d\u00fazias de vezes e que eu dizia conhecer &#8220;como a palma de minha m\u00e3o&#8221;. Pela primeira vez em muito tempo eu tive a oportunidade de ir em meu pr\u00f3prio carro, e n\u00e3o poderia viajar de outra maneira. At\u00e9 ficava mais caro ir em meu carro, mas era um prazer que eu quase esquecera. Entrei na cidade cuidadosamente, depois de quase cinco anos, temendo at\u00e9 ter esquecido onde ficava a Rua Halfeld. Passei pela entrada de Caet\u00e9, atravessei o trevo e tomei o &#8220;caminho do morro&#8221;, chegando \u00e0 Avenida Brasil, no Po\u00e7o Rico. Ao chegar ali eu tive uma &#8220;sensa\u00e7\u00e3o estranha&#8221; de que havia &#8220;algo errado&#8221; com o carro que vinha atr\u00e1s de mim: um Gol branco modelo quadrado, talvez ano 89 ou 91.<\/p>\n<p>Tentei lembrar dos filmes de espionagem que assistia quando menino (sempre fora f\u00e3 de James Bond e mesmo aos trinta e tantos anos eu ainda lembrava sequencias inteiras quase de cor) e comecei a pensar o que 007 faria se desconfiasse que algu\u00e9m o estava seguindo. Obviamente o passo inicial era certificar-me de que estava mesmo sendo seguido. Para isso n\u00e3o havia maneira melhor que sair ligeiramente da rota esperada: o perseguidor teria de seguir, denunciando suas inten\u00e7\u00f5es, ou eu escaparia. Tomei a entrada da direita em vez de seguir pela avenida, \u00e0 margem do Paraibuna. O Gol branco entrou comigo. Tomei uma rua \u00e0 direita, depois outra \u00e0 esquerda, depois de novo \u00e0 esquerda. Eu tinha plena confian\u00e7a de onde estava, n\u00e3o havia nenhum receio. O Gol branco me seguia fosse qual fosse o caminho.<\/p>\n<p>Receoso, tomei uma rua que subia em dire\u00e7\u00e3o a um morro. Caramba! Nem sei que rua era aquela. Subi acelerando, mas o velho motor CHT do DelRey come\u00e7ou a engasgar e a tossir, at\u00e9 finalmente travar num solu\u00e7o l\u00e2nguido e fazer o bicho parar no meio da ladeira. Estranho, porque nem na subida \u00edngreme da chegada da cidade o carro sofrera tanto.<\/p>\n<p>Um pavor sobrenatural tomou conta de mim. Meu cora\u00e7\u00e3o parecia uma artilharia antia\u00e9rea. Minhas m\u00e3os estavam t\u00e3o firmes no volante que meus m\u00fasculos do bra\u00e7o do\u00edam de retesados. Foi preciso praticamente uma tor\u00e7\u00e3o de chave inglesa para eu girar o pesco\u00e7o e olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Um homem usando \u00f3culos escuros, vestido de um terno branco riscado de cinza desceu. Ele tinha algo preto na m\u00e3o. Meu Deus! Um rev\u00f3lver! O que ser\u00e1 que eu fiz para mandarem um assassino profissional atr\u00e1s de mim? Larguei o volante, abri a porta do carro com muito cuidado e fui descendo praticamente com as m\u00e3os ao alto, na esperan\u00e7a v\u00e3 de que fosse somente um assalto.<\/p>\n<p>Mas no que fazia isso notei que o volume escuro na m\u00e3o do homem fora ilus\u00e3o de minha mente. Os \u00f3culos escuros eram apenas por causa de lentes fotocrom\u00e1ticas: ele era t\u00e3o m\u00edope quanto eu. Abaixei as m\u00e3os antes mesmo de ter chegado a levant\u00e1-las e tentei desfazer a express\u00e3o r\u00edgida do rosto.<\/p>\n<p>O homem falou, com uma voz calma e pastoral, estilo e vocabul\u00e1rio t\u00edpico de religiosos evang\u00e9licos:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O irm\u00e3o est\u00e1 com problemas?<\/p>\n<p>Admiti que sim, com um simples aceno de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Eu o estava seguindo\u2026 \u2014 a honestidade do homem era comovente, talvez ele nem fosse me assaltar.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0S\u2026 seguindo?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Notei que o irm\u00e3o vem de Leopoldina, eu estou vivendo l\u00e1 desde h\u00e1 uns cinco meses.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas, por que estava me seguindo?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O senhor dirigia como quem conhecia a cidade: eu estava perdido.<\/p>\n<p>A s\u00fabita queda do n\u00edvel de tens\u00e3o teve um efeito t\u00e3o relaxante sobre o meu estado de esp\u00edrito que eu desgracei a rir sem parar, dobrando os joelhos e gargalhando at\u00e9 babar.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O que foi, irm\u00e3o?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o conseguia parar de rir mais. O pobre pastor me seguia sem nenhuma outra inten\u00e7\u00e3o que achar o caminho para o hipermercado, e eu surtara achando que estava num filme do 007. Tive pena do pobre homem, que s\u00f3 queria fazer as compras de m\u00eas. Caramba! Ele estava com a fam\u00edlia dentro do carro: mulher na frente e tr\u00eas crian\u00e7as no banco de tr\u00e1s. Decidira seguir-me, talvez, porque o adesivo dizia que Jesus me guiava.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Meu amigo \u2014 respondi-lhe \u2014 lamento dizer, mas se o senhor me seguiu at\u00e9 aqui porque estava perdido, ent\u00e3o n\u00f3s temos um problema. N\u00e3o encare isso como uma blasf\u00eamia, mas agora eu estou perdido e sem a m\u00ednima id\u00e9ia de onde estou. Eu me perdi quando decidi n\u00e3o acompanhar a Avenida Brasil, justamente porque estava tentando saber se voc\u00ea estava me seguindo\u2026<\/p>\n<p>O pastor pareceu desolado:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Realmente, irm\u00e3o, todos nos perdemos quando sa\u00edmos do caminho tra\u00e7ado por Jesus.<\/p>\n<p>Ele disse isso com a metade de um sorriso no rosto. Parecia ser um bom homem.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas no fim de contas, irm\u00e3o, parece que Jesus realmente nos guiar\u00e1.<\/p>\n<p>Ele fez um gesto com o queixo, que me fez olhar para tr\u00e1s: um policial militar descia do alto do morro, uniformizado, a caminho do trabalho. Tomei a iniciativa de chamar-lhe e pedir ajuda. Ofereci-lhe carona at\u00e9 o centro em troca de orienta\u00e7\u00f5es. Ele aceitou, claro. Uma passagem de \u00f4nibus pode ser pouca coisa para economizar, mas quem desperdi\u00e7a centavos n\u00e3o economiza milh\u00f5es. Enquanto ele entrava no meu carro, casualmente notei uma coincid\u00eancia curiosa: na etiqueta pregada no bolso direito da farda estava escrito &#8220;Cb. Jesus O+&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eram tempos bicudos na vida, eu tive de vender meu carro. J\u00e1 n\u00e3o era grande coisa: um fusca 1976 amarelo-ovo que eu detestava. Mesmo assim, vend\u00ea-lo doeu na alma. Doeu porque era um gesto simb\u00f3lico da profunda decad\u00eancia em que estava. Tinha sido quase rico, tinha comprado carro do ano, mas andaria a p\u00e9. Como dizia uma m\u00fasica do Leoni: &#8220;J\u00e1 tive carro e grana e um monte de convites para qualquer lugar&#8221;. 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