{"id":3291,"date":"2017-01-04T22:07:19","date_gmt":"2017-01-05T01:07:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3291"},"modified":"2017-11-02T14:07:58","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:58","slug":"precisamos-falar-sobre-reis-e-barrigas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/01\/precisamos-falar-sobre-reis-e-barrigas\/","title":{"rendered":"Precisamos Falar Sobre Reis e Barrigas"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 um espectro que ronda a literatura nacional, desde h\u00e1 algum tempo: o ressentimento de uma classe de autores e cr\u00edticos contra o maior defeito da literatura nacional, o seu povo.<\/p>\n<p>A literatura brasileira \u00e9, apesar do que pensem os indiv\u00edduos que residem em suas torres de marfim, a literatura de um povo oprimido, uma literatura de resist\u00eancia. Ela tem de combater a cada dia n\u00e3o somente contra as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es materiais de um pa\u00eds que ainda \u00e9 subdesenvolvido, mas tamb\u00e9m contra um sistema que parece determinado a destru\u00ed-la.<\/p>\n<p>A principal fun\u00e7\u00e3o da literatura de resist\u00eancia \u00e9 chegar at\u00e9 o povo e se manter relevante, porque o sistema procura isol\u00e1-la de seu p\u00fablico e negar-lhe os instrumentos com os quais possa produzir um efeito social.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o difere daquela encontrada nas literaturas hegem\u00f4nicas, das quais a mais preponderante \u00e9 o ingl\u00eas, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Em uma literatura hegem\u00f4nica, embora possa haver centros perif\u00e9ricos de resist\u00eancia contra a massifica\u00e7\u00e3o, o sistema se encarrega de, mal ou bem, perpetuar o fazer liter\u00e1rio como algo culturalmente relevante, ainda que instrumentalizado.<\/p>\n<p>Nas literaturas de resist\u00eancia, o sistema, mesmo que n\u00e3o o fa\u00e7a de maneira intencional e deliberada, procura silenciar toda voz local e subordinar a cultura como um todo a um processo globalizado, no qual fica amea\u00e7ada a qualidade da l\u00edngua subjugada, continuamente encurralada pela press\u00e3o da hegemonia imposta a partir de fora.<\/p>\n<p>Quanto mais cedo os nossos autores perceberem que n\u00e3o s\u00e3o potenciais candidatos a best-seller internacional, projetos de Paulo Coelho, mais cedo come\u00e7aram a agir de maneira coerente com o \u00fanico papel que resta ao autor original em uma literatura de resist\u00eancia: o de subversivo.<\/p>\n<p>A subvers\u00e3o a que me refiro \u00e9 uma atitude inconformista e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>O inconformismo n\u00e3o quer dizer rejeitar de plano tudo que divirja dos valores do autor, mas, sim, utilizar tudo o que seja oferecido pela cultura hegem\u00f4nica como instrumento da difus\u00e3o daquilo que a hegemonia (&#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221;) pretende sufocar.<\/p>\n<p>A solidariedade quer dizer, principalmente, focar no p\u00fablico, que \u00e9, em \u00faltima e \u00fanica ess\u00eancia, a raz\u00e3o de ser do fazer liter\u00e1rio. A literatura n\u00e3o \u00e9 criada para as pedras ou para os animais, n\u00e3o \u00e9 criada para uma vaga posteridade que n\u00e3o sabemos se um dia chegar\u00e1. O escritor deve criar para quem est\u00e1 vivo.<\/p>\n<p>H\u00e1 entre n\u00f3s uma certa classe de autores e cr\u00edticos que desconhece ou desconsidera esta realidade e trata a nossa literatura como um sistema maduro e acabado que n\u00e3o diverge em nada de literaturas mundialmente hegem\u00f4nicas, como o ingl\u00eas, o alem\u00e3o, o franc\u00eas, o russo e, at\u00e9 mesmo, o espanhol.<\/p>\n<p>Por desconsiderarem ou ignorarem a realidade, n\u00e3o percebem que o seu fracasso de p\u00fablico (apesar dos aplausos rec\u00edprocos com que se cumprimentam) \u00e9 conveniente demais. Conformados com a ideia de que \u00e9 o povo que tem defeito, perdem-se em formalismos que, de certa forma, tendem ao classicismo.<\/p>\n<p>Confrontados com o desconforto de sua situa\u00e7\u00e3o, esses autores e cr\u00edticos escrevem textos venenosos contra a literatura comercial, os youtubers, a auto-ajuda e seja l\u00e1 o que for. N\u00e3o h\u00e1 mal nenhum em criticar o que \u00e9 sabidamente ruim, mas ningu\u00e9m deve se iludir achando que isso faz alguma diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>O que muda o mundo n\u00e3o \u00e9 a ironia brandida contra quem a merece. Os p\u00e9ssimos autores que a gente tanto critica n\u00e3o ficam menos ruins e nem ter\u00e3o menos leitores por causa de text\u00f5es como esse.<\/p>\n<p>O que muda o mundo \u00e9 o fazer, \u00e9 ser propositivo. N\u00e3o basta dizer o que n\u00e3o deve ser feito, \u00e9 muito necess\u00e1rio fazer algo efetivo que rompa com o conformismo. Nossa literatura carece de usar botinas, como certa vez disse meu av\u00f4 a respeito de um certo jovem. Car\u00edssimos sapatos podem ser esteticamente mais bonitos, mas n\u00e3o servem para o trabalho duro.<\/p>\n<p>Ser escritor em uma literatura de resist\u00eancia \u00e9 pegar no pesado, \u00e9 virar brejo, \u00e9 lanternar carro velho, \u00e9 bater pasto, \u00e9 carregar sacas de caf\u00e9, \u00e9 dirigir caminh\u00e3o.<\/p>\n<p>Se o povo quer ler hist\u00f3rias sobre vampiros, por que torcer o nariz para isso? Escrevamos hist\u00f3rias de vampiros, por\u00e9m aproveitemo-las para introduzir elementos nossos, uma voz peculiarmente brasileira. Fa\u00e7amos a literatura que o povo quer, mas o povo n\u00e3o deve receber de n\u00f3s somente o que quer. Devemos contrabandear em nossos escritos algo que v\u00e1 al\u00e9m do gozo raso.<\/p>\n<p>Melhor escrevermos esta literatura feia, esta que o povo l\u00ea, do que gastarmos tempo escrevendo o que ningu\u00e9m ler\u00e1 a n\u00e3o ser os resenhistas e os raros f\u00e3s. Nesta literatura &#8220;baixa&#8221; podemos encontrar sustento, tal como, no passado, autores de peso ganharam a vida escrevendo contos policiais, hist\u00f3rias de terror e v\u00e1rios tipos de &#8220;exploitation&#8221;. E neste sustento podemos obter a maior das transgress\u00f5es poss\u00edveis em uma literatura de resist\u00eancia: ficarmos vivos e ativos enquanto autores, apesar do sistema que nos quer substituir por &#8220;ghost-writers&#8221; e tradu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vamos deixar em paz os Draccons e os Coelhos e todos os seus apaniguados rarefeitos. Fa\u00e7amos a literatura poss\u00edvel, fa\u00e7amos a literatura que o povo talvez aceite, mas que o sistema positivamente n\u00e3o quer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um espectro que ronda a literatura nacional, desde h\u00e1 algum tempo: o ressentimento de uma classe de autores e cr\u00edticos contra o maior defeito da literatura nacional, o seu povo. A literatura brasileira \u00e9, apesar do que pensem os indiv\u00edduos que residem em suas torres de marfim, a literatura de um povo oprimido, uma literatura de resist\u00eancia. 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