{"id":3299,"date":"2017-01-20T21:22:17","date_gmt":"2017-01-21T00:22:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3299"},"modified":"2017-11-02T14:07:58","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:58","slug":"como-um-passarinho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/01\/como-um-passarinho\/","title":{"rendered":"Como um Passarinho"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o pude resistir ao &#8220;pequeno apartamento de dois quartos, sem garagem, por apenas R$ 350,00&#8221;. Aluguei. N\u00e3o precisava nem de dois quartos, bastava-me um. Mas n\u00e3o havia aluguel mais baixo na cidade, fazer o que? Algumas novas pe\u00e7as de mob\u00edlia e l\u00e1 estava em meu p\u00e2ntano particular.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o conhecia quase ningu\u00e9m na cidade ainda, ent\u00e3o ficava andando de l\u00e1 para c\u00e1 depois do trabalho enquanto ainda n\u00e3o escurecia, para ver gente, cumprimentar e esticar as pernas duras de ficar sentado o dia todo. Mas isso era pouco &mdash; menos que uma hora, porque j\u00e1 era outono velho e escurecia cedo.<\/p>\n<p>E quando escurecia&#8230; arre, que frio! Nada que assuste a um russo, mas a gente n\u00e3o tem estrutura para ver um term\u00f4metro abaixo de vinte graus. Bateu a primeira brisa fresca a gente j\u00e1 tem medo de resfriado, vento virado, quebranto, cobreiro e at\u00e9 tuberculose. Por isso o brasileiro se encapota em estilo esquim\u00f3 se meramente sonhar que vai esfriar bastante para gear.<\/p>\n<p>A primeira noite que eu dormi em Pequeri fazia 13\u00b0 no term\u00f4metro da pra\u00e7a e eu n\u00e3o quis ver mais temperaturas. Enrolei-me nas cobertas &mdash; e eu n\u00e3o comprara suficientes &mdash; e n\u00e3o desci da cama nem para beber \u00e1gua. De manh\u00e3 at\u00e9 fiquei curioso, mas a cerra\u00e7\u00e3o escondia o term\u00f4metro e eu n\u00e3o tive nenhuma vontade de andar cem metros na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 que eu tinha de ir para satisfazer uma mera curiosidade. &#8220;A curiosidade matou o gato&#8221;, mas n\u00e3o a mim.<\/p>\n<p>Duas ou tr\u00eas semanas depois eu j\u00e1 estava menos molenga e n\u00e3o me apavorei, muito, quando vi 11\u00b0 l\u00e1 fora. Sobre o dia seguinte, por\u00e9m, \u00e9 um pesadelo para eu contar outro dia.<\/p>\n<p>Como eu n\u00e3o tinha ainda trazido nem comprado televis\u00e3o, n\u00e3o havia com que me distrair. A internet, por sua vez, n\u00e3o era exatamente a mesma coisa. Ent\u00e3o andar pela cidade, quando me acostumei com o frio, me levou a descobrir bares onde deixavam a televis\u00e3o ligada para ver os jogos de futebol.<\/p>\n<p>Normalmente a cidade fechava antes de dez da noite, porque o pessoal de l\u00e1, embora zombe dos friorentos de outros lugares, tampouco \u00e9 besta de ficar at\u00e9 tarde batendo joelhos e dentes.<\/p>\n<p>Mas havia um bar que n\u00e3o fechava t\u00e3o cedo, e que estava particularmente aberto naquela noite em que eu queria ver um jogo do Fluminense. Eu nem sabia que o bar existia. Estava dando uma volta pela cidade, dentro do carro, com o aquecedor ligado, tentando achar o que fazer para n\u00e3o ter de dormir cedo demais, quando vi a porta aberta e a luzinha azulada do sinal de tev\u00ea.<\/p>\n<p>Entrei, cumprimentei, pedi uma cerveja e encontrei um cara com quem eu j\u00e1 tinha mais ou menos travado conhecimento. Simp\u00e1tico o sujeito, me apresentou pro resto dos espectadores e me convidou a sentar com eles para dividir o tira-gosto.<\/p>\n<p>Era um verdadeiro grupo de her\u00f3is da na\u00e7\u00e3o tricolor. Todos com as cabe\u00e7as enfiadas em gorros de l\u00e3, com luvas de algod\u00e3o nas m\u00e3os, casacos pesados, rostos avermelhados de frio, orelhas p\u00e1lidas.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1 fazendo onze graus na pra\u00e7a&#8221; &mdash; comentei, batendo dentes porque meu agasalho n\u00e3o era grande coisa.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui em cima&#8221; &mdash; esqueci de falar que o bar era em um morro? &mdash; &#8220;deve estar uns dois a menos&#8221; &mdash; era o dono que falava, sorridente, praticamente sem agasalho, aproveitando a chama do fog\u00e3o onde cozinhava algum tira-gosto, ou fingia cozinhar s\u00f3 para aquentar no calorzinho e catar marra de macho em manga de camisa.<\/p>\n<p>Beb\u00edamos a cerveja bem mais devagar do que o dono do bar gostaria. N\u00e3o que ela estivesse ruim ou muito forte, \u00e9 que naquele frio a efici\u00eancia da geladeira era aumentada, e cada vez que eu levava o dente \u00e0 nata do copo eu me lembrava de um livrinho infantil sobre as &#8220;Terras Geladas&#8221; onde havia a foto de um navio quebra-gelo.<\/p>\n<p>Quando consegu\u00edamos dar uma boa golada, esquent\u00e1vamos a barriga comendo pedacinhos de carne cozida que o dono do bar servira em um prato fundo. Como a carne ia esfriando, a gente compensava usando pimenta.<\/p>\n<p>Havia uma jarra de boca larga cheia de um tipo de pimenta verde que eu nunca vira antes, com um formato de gr\u00e3o de arroz gordinho. Estava preservada em cacha\u00e7a, com um ligeiro toque de azeite. Os outros caras enfiavam um canudinho de pl\u00e1stico, batiam na boca da jarra e deixavam cair no peda\u00e7o de carne somente uma gota, ou duas.<\/p>\n<p>Considero-me, ainda, um sujeito bem resistente a pimenta (embora isso venha diminuindo com os anos). Por isso quis experimentar a pimenta, s\u00f3 que n\u00e3o prestei aten\u00e7\u00e3o em como eles faziam exatamente com o canudinho de pl\u00e1stico &mdash; talvez porque estava meio bebum. Ent\u00e3o botei cinco ou seis gotas daquele l\u00edquido esverdeado em um delicioso e morno naco de carne.<\/p>\n<p>Os homens arregalaram os olhos e gritaram &#8220;ooorra!&#8221; Eu nem dei pela coisa. Mesmo que tivesse dado, o orgulho me obrigaria a comer do mesm\u00edssimo jeito.<\/p>\n<p>O peda\u00e7o de carne, diferente dos dois que eu comera antes, teve um gosto detest\u00e1vel. S\u00f3 n\u00e3o digo intrag\u00e1vel porque eu tinha de engolir logo, ou ent\u00e3o cuspir, mas n\u00e3o poderia manter aquela ma\u00e7aroca na minha boca nem um instante mais.<\/p>\n<p>O sabor n\u00e3o era rico e perfumado como o de pimenta malagueta. Era sem-educa\u00e7\u00e3o, agressivo, \u00e1cido (no sentido de sulf\u00farico) e picante como eu nunca tivera medo de provar. N\u00e3o conseguia engolir, a garganta come\u00e7ava a se fechar. Peguei o copo de cerveja, joguei uma bomba no gelo e o navio quebra-gelo entrou pela banquisa, sorvi um petroleiro inteiro de cerveja. Um copo, dois. Devo ter bebido como um viking corno. A muito custo a cerveja empurrou o peda\u00e7o de carne para dentro, eu quase engasgando.<\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 pimenta de passarinho, Geraldo&#8221; &mdash; s\u00f3 depois de minha desgra\u00e7a algu\u00e9m avisava.<\/p>\n<p>Pude ent\u00e3o respirar melhor, e me surpreendeu que, apesar de minha constri\u00e7\u00e3o nasal, fosse t\u00e3o f\u00e1cil pelo nariz. A pimenta tinha aberto avenidas pelo meu nariz, por onde poderia desfilar toda uma escola de samba. A minha boca inteira ardia como se, em meu desespero, eu tivesse girado o peda\u00e7o de carne at\u00e9 a parte apimentada tocar em cada c\u00e9lula da cavidade oral. Peguei o len\u00e7o para assoar o nariz (mentira) e enxuguei os olhos. Para todos os efeitos o len\u00e7o saiu molhado de catarro, eram l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Percebi que come\u00e7ava a respirar com dificuldade, mas n\u00e3o por causa do nariz. Na verdade eu tinha a impress\u00e3o de que poderia co\u00e7ar meu c\u00e9rebro usando os dois ded\u00f5es na mesma fossa nasal. O problema era mais embaixo: por toda parte onde a carne apimentada tocara os tecidos haviam intumescido, ou melhor, inchado, como se diz em l\u00edngua de gente. Minhas gengivas estavam gordas e apertavam umas contra as outras. Minha l\u00edngua estava paquid\u00e9rmica e, combinada com o c\u00e9u da boca tamb\u00e9m alterado, me impedia de fechar os dentes. Minha garganta estava cerrada e eu sentia pelo goto abaixo uma queima\u00e7\u00e3o, uma gastura, uma esp\u00e9cie de azia para dentro.<\/p>\n<p>Levantei e fui at\u00e9 o banheiro. N\u00e3o liguei para a sujeira. Abri a pia, lavei as m\u00e3os, joguei \u00e1gua no rosto, bochechei com aquela \u00e1gua que eu nem sabia de onde vinha. Minhas gengivas estavam cor de vinho, meus dentes at\u00e9 estavam mais brancos, devia ser o estado de choque. Passarinho que come pimenta sabe o que tem.<\/p>\n<p>Voltei para a mesa, mas n\u00e3o consegui comer mais, apenas beber. Cada copo de cerveja me fazia ouvir harpas de anjos, mas azia para dentro continuava. Demorou duas horas ou mais para eu come\u00e7ar a melhorar. A essa altura eu j\u00e1 estava na cama, que \u00e9 lugar quente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o pude resistir ao &#8220;pequeno apartamento de dois quartos, sem garagem, por apenas R$ 350,00&#8221;. Aluguei. N\u00e3o precisava nem de dois quartos, bastava-me um. Mas n\u00e3o havia aluguel mais baixo na cidade, fazer o que? Algumas novas pe\u00e7as de mob\u00edlia e l\u00e1 estava em meu p\u00e2ntano particular. Eu n\u00e3o conhecia quase ningu\u00e9m na cidade ainda, ent\u00e3o ficava andando de l\u00e1 para c\u00e1 depois do trabalho enquanto ainda n\u00e3o escurecia, para ver gente, cumprimentar e esticar as pernas duras de ficar sentado o dia todo. 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