{"id":3301,"date":"2017-01-25T21:35:11","date_gmt":"2017-01-26T00:35:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3301"},"modified":"2017-11-02T14:07:58","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:58","slug":"relembrando-a-critica-literaria-mais-demolidora-de-todos-os-tempos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/01\/relembrando-a-critica-literaria-mais-demolidora-de-todos-os-tempos\/","title":{"rendered":"Relembrando a Cr\u00edtica Liter\u00e1ria Mais Demolidora de Todos os Tempos"},"content":{"rendered":"<p>Em 1989 o humorista, cartunista, tradutor, poeta e cronista brasileiro Mill\u00f4r Fernandes publicou uma s\u00e9rie de pequenas cr\u00f4nicas sobre a obra do ent\u00e3o presidente Jos\u00e9 Sarney. Estes textos, em seu conjunto, formam a mais demolidora cr\u00edtica liter\u00e1ria jamais publicada em portugu\u00eas. N\u00e3o somente pela notoriedade dos envolvidos &#8212; um presidente da rep\u00fablica e o outro colunista da revista de maior circula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds &#8212; mas tamb\u00e9m pelas incr\u00edveis tiradas com que Mill\u00f4r brinda o texto criticado, o que acaba por eternizar a ruindade de uma obra que era ent\u00e3o elogiada (por puxa-sacos e gente paga para aplaudir) e deixa em p\u00e9ssimos len\u00e7\u00f3is perante a hist\u00f3ria gente do calibre do acad\u00eamico Josu\u00e9 Montello, que prefaciou o livro e foi o indutor de Sarney \u00e0 ABL.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Mill\u00f4r se dirige ao &#8220;romance&#8221; <em>Brejal dos Guajas e Outras Hist\u00f3rias<\/em>, publicado por Sarney em 1988, seguindo uma antiga tradi\u00e7\u00e3o nacional: a de pessoas poderosas que pagam para publicar o que escrevem. Come\u00e7ar a ler as &#8220;notas&#8221; de Mill\u00f4r \u00e9 embarcar num carrossel de ofensas e cr\u00edticas de uma acidez inacredit\u00e1vel e inspiradora, que comprovam que o cr\u00edtico tinha muito mais expressividade (e express\u00e3o) liter\u00e1ria que o criticado. Nas m\u00e3os de Mill\u00f4r, Sarney, o todo poderoso presidente, \u00e9 reduzido \u00e0 sua express\u00e3o mais simples, humilhado e enxovalhado at\u00e9 n\u00e3o restar pedra sobre pedra de sua reputa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. De l\u00e1 para c\u00e1, nunca mais se comentou livro nenhum de Sarney.<\/p>\n<p>Logo no come\u00e7o Mill\u00f4r se desculpa com os que lhe pedem para criticar <em>Marimbondos de Fogo<\/em>, um volume de poemas anterior, de autoria de Sarney. Mill\u00f4r diz que nesse livro Sarney apenas &#8220;atingira a mediocridade&#8221; e que <em>s\u00f3 em Brejal atingiria a oligofrenia liter\u00e1ria, o bestial\u00f3gico em estado puro<\/em>. Esta frase, sozinha, j\u00e1 cont\u00e9m um potencial ofensivo maior do que 90% dos leitores alcan\u00e7am. Dizer que Sarney &#8220;atingira&#8221; a mediocridade \u00e9 sugerir que ele, sem um grande esfor\u00e7o, normalmente reside abaixo dela. Seguida da afirmativa sobre <em>Brejal<\/em>, o que se tem \u00e9 j\u00e1 de cara a sutil afirma\u00e7\u00e3o de que o romance \u00e9 uma obra que fica muito abaixo do med\u00edocre.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed as tiradas s\u00e3o incessantes. Mill\u00f4r diz que Sarney &#8220;atingiu a presid\u00eancia por pura levita\u00e7\u00e3o&#8221; e que &#8220;depois de tudo que j\u00e1 fez ao pa\u00eds, Sarney amea\u00e7a agora abandonar a pol\u00edtica para se dedicar inteiramente \u00e0 literatura&#8221;. Notem o verbo &#8220;amea\u00e7ar&#8221;. &#8220;N\u00e3o se pode confiar o destino de um povo, sobretudo neste momento especialmente dif\u00edcil, a um homem que escreve isso&#8221; &#8212; diz o cr\u00edtico. &#8220;Em qualquer pa\u00eds civilizado <em>Brejal dos Guajas<\/em> seria motivos para impeachment&#8221; &#8212; isso \u00e9 l\u00e1 verdade.<\/p>\n<p>Mas Mill\u00f4r n\u00e3o se limitou a adjetivar, ele fez quest\u00e3o de exemplificar:<\/p>\n<blockquote>\n<p>H\u00e1 solecismos em penca, as ideias nunca se completam e sempre se contradizem. A cidade, que n\u00e3o tem escola, tem professora e alunos, n\u00e3o tendo tel\u00e9grafo transmite telegramas, n\u00e3o possuindo edif\u00edcios p\u00fablicos tem prefeitura, c\u00e2mara de vereadores, juizados de casamento, dois cart\u00f3rios, ostenta uma for\u00e7a policial de pelo menos 12 homens (relativamente, o Rio teria que ter uma for\u00e7a policial de quase meio milh\u00e3o de policiais), \u00e9 dominada por dois primos por pais diferentes (!!!!), &#8220;ricos e poderosos&#8221;, e, tendo s\u00f3 duas ruas (quase uma impossibilidade urban\u00edstica; eu sei como desenhar uma cidade de duas ruas, Ele n\u00e3o sabe), tem duas orquestras (ele quer dizer bandas), e comporta ainda mercado, lojas, igrejas matriz, etc. O verdadeiro milagre brasileiro! Tem mais, essas duas espantosas ruas de 120 casas (com o que Sir Ney quer significar um vilarejo perdido do mundo ), por meus c\u00e1lculos matem\u00e1ticos irrefut\u00e1veis, abrigam uma popula\u00e7\u00e3o de 15.272 pessoas, o que faz do Brejal, em 1945, \u00e9poca da ist\u00f3ria, talvez a maior cidade maranhense, depois de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nas raras ocasi\u00f5es em que Mill\u00f4r parece elogiar, ele est\u00e1 sendo ir\u00f4nico: &#8220;S\u00f3 um g\u00eanio conseguiria fazer um livro errado da primeira \u00e0 \u00faltima frase.&#8221;<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas Mill\u00f4r se prop\u00f5e a revisar a primeira p\u00e1gina do livro, e ent\u00e3o diz, com amarga ironia: &#8220;Fiz tamb\u00e9m ligeiras altera\u00e7\u00f5es de sentido, preparando a base l\u00f3gica do futuro. Coisa que o autor n\u00e3o soube fazer, nem no Brejal, nem no Brasil.&#8221;<\/p>\n<p>Os erros de concord\u00e2ncia sint\u00e1tica e morfologia abundam, mas s\u00e3o piores os erros l\u00f3gicos e os lapsos. O autor diz que certo personagem era de um jeito, mas depois o descreve de outro. Diz que dois personagens s\u00e3o primos, depois diz que s\u00e3o &#8220;de pais diferentes&#8221; (o que \u00e9 \u00f3bvio, pois se o pai fosse o mesmo, seriam irm\u00e3os).  Pela descri\u00e7\u00e3o da cidade, ele deveria ter uns setecentos metros de lado a lado, mas o autor se refere a ela como se fosse t\u00e3o grande que precisasse a not\u00edcia &#8220;correr&#8221; por toda ela, e levava uma tarde. Analisando a cronologia interna, Mill\u00f4r diz que &#8220;a hist\u00f3ria se passa mais ou menos em 1960, por certas dicas do autor. Mas ele n\u00e3o sabe.&#8221; Isto porque o autor fala de v\u00e1rias elei\u00e7\u00f5es em per\u00edodos quinquenais (a primeira desse tipo no Brasil foi em 1945), mas situa a hist\u00f3ria duas d\u00e9cadas antes.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Mill\u00f4r a Sarney, apesar de assistem\u00e1tica e sem rigor cient\u00edfico, conseguiu demolir a reputa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do autor de uma maneira definitiva, e de quebra arrebentou com a de quem o elogiava: Jo\u00e3o Gaspar Sim\u00f5es, Jorge Amado, Carlos Castello Branco, Josu\u00e9 Montello, Luci Teixeira, Ant\u00f4nio Al\u00e7ada Baptista, Lago Burnett. Particularmente chamuscados sa\u00edram Jorge Amado, que ainda desfrutava da fama de comunista, e Josu\u00e9 Montello.<\/p>\n<p>Este epis\u00f3dio permanece como uma evid\u00eancia de que \u00e9 preciso muito pouco para expor a ruindade de uma obra, e que quando o p\u00fablico leitor possui capacidade intelectual para acompanhar a cr\u00edtica, \u00e9 muito dif\u00edcil que ela falhe o alvo.<\/p>\n<p>Infelizmente, por\u00e9m, esta foi praticamente a \u00faltima vez que a cr\u00edtica liter\u00e1ria brasileira funcionou. De l\u00e1 para c\u00e1, temos uma enxurrada de p\u00e9ssimos autores que conseguem pairar acima da cr\u00edtica. Quando algu\u00e9m tenta atac\u00e1-los como Mill\u00f4r, acaba sofrendo nas m\u00e3os dos f\u00e3s. Isso porque o p\u00fablico de hoje j\u00e1 n\u00e3o l\u00ea aquilo de que discorda. Como ningu\u00e9m quer aceitar o que n\u00e3o est\u00e1 de acordo com seus preconceitos, ningu\u00e9m l\u00ea uma cr\u00edtica com a alma desarmada. O resultado \u00e9 a perda da efic\u00e1cia da cr\u00edtica, e esse matagal degenerado de maus autores que desgra\u00e7am a nossa literatura.<\/p>\n<p>Quem queira ler a \u00edntegra do texto do Mill\u00f4r, <a href=\"http:\/\/www2.uol.com.br\/millor\/aberto\/textos\/004\/007.htm\">ele est\u00e1 no UOL<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1989 o humorista, cartunista, tradutor, poeta e cronista brasileiro Mill\u00f4r Fernandes publicou uma s\u00e9rie de pequenas cr\u00f4nicas sobre a obra do ent\u00e3o presidente Jos\u00e9 Sarney. Estes textos, em seu conjunto, formam a mais demolidora cr\u00edtica liter\u00e1ria jamais publicada em portugu\u00eas. N\u00e3o somente pela notoriedade dos envolvidos &#8212; um presidente da rep\u00fablica e o outro colunista da revista de maior circula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds &#8212; mas tamb\u00e9m pelas incr\u00edveis tiradas com que Mill\u00f4r brinda o texto criticado, o que acaba por eternizar a ruindade de uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[183],"tags":[67,20,27],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3301"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3301"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3301\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5209,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3301\/revisions\/5209"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3301"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3301"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3301"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}