{"id":3348,"date":"2017-02-19T12:56:18","date_gmt":"2017-02-19T15:56:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3348"},"modified":"2017-11-02T14:07:57","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:57","slug":"livros-perigosos-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/02\/livros-perigosos-2\/","title":{"rendered":"Livros &#8220;Perigosos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A forma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do ser humano passa por fases nas quais \u00e9 natural e esperado que tenha &#8220;\u00eddolos&#8221; em quem se espelhe. Autores, enquanto humanos que s\u00e3o, passam por isso. O amadurecimento do autor \u00e9 um processo que passa pela supera\u00e7\u00e3o da idolatria, substituindo-a por uma reflex\u00e3o mais profunda sobre a arte. Esse processo implica em deixar de ver uma imagem \u00fanica do \u00eddolo e de sua obra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/1024px-Cigarette_smuggling_with_a_book-1024x683.jpg\" alt=\"Livro com contrabando\" width=\"525\" height=\"350\" class=\"aligncenter size-large wp-image-3350\" \/><\/p>\n<p>Para muitos jovens autores, a ideia de que obra e autor possam estar t\u00e3o separados soa chocante, afinal a ideia do senso comum \u00e9 a de que os autores retiram sua obra de dentro de si mesmos.<\/p>\n<p>Quando eu era adolescente, a minha fam\u00edlia lia as coisas que eu escrevia e se preocupava. Achavam que eu tinha algum tipo de dist\u00farbio psicol\u00f3gico, pensavam em mandar-me a um semin\u00e1rio ou sanat\u00f3rio para &#8220;curar-me&#8221; de meus dem\u00f4nios interiores.<\/p>\n<p>Embora seja ineg\u00e1vel que h\u00e1 muitos jovens que abrigam em si dem\u00f4nios realmente assustadores e que precisariam ser curados, n\u00e3o se pode imediatamente associar o autor e sua obra de uma maneira t\u00e3o pr\u00f3xima. Primeiro porque n\u00f3s n\u00e3o escrevemos sobre quem somos, mas sobre nossa intera\u00e7\u00e3o com o mundo, real ou imagin\u00e1rio. Segundo porque, mesmo que a escrita contenha os dem\u00f4nios reais do autor, sempre ser\u00e1 melhor que estes sejam sublimados na forma de versos ou hist\u00f3rias do que acumulados at\u00e9 se expressarem em epis\u00f3dios de viol\u00eancia. A ideia de que se deve reprimir as manifesta\u00e7\u00f5es de incoformidade inocentemente transformadas em escrita \u00e9 fruto dos preconceitos extremos de uma sociedade profundamente ignorante, que ainda tem uma rela\u00e7\u00e3o fetichista com a escrita, ainda vista entre n\u00f3s como algo m\u00e1gico.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem acredite que a rela\u00e7\u00e3o entre o jovem e seus \u00eddolos e modelos se tornou ainda mais complexa por causa do &#8220;mundo virtual&#8221; ao qual estamos hoje mais relacionados, mas o espa\u00e7o virtual propiciado pela eletr\u00f4nica n\u00e3o \u00e9 essencialmente diferente do espa\u00e7o imagin\u00e1rio antes trazido pelos livros e pelos relatos orais de terceiros. N\u00e3o muda a natureza, mudam apenas a intensidade e a amplitude. Tal como hoje os jovens est\u00e3o conectados ao &#8220;virtual&#8221; pelo computador, os jovens do passado estavam conectados ao imagin\u00e1rio atrav\u00e9s dos livros e das lendas. H\u00e1 quem diga que o mundo virtual sobrevaloriza a imagem em detrimento da realidade e cria uma viv\u00eancia incorp\u00f3rea. Nesse ponto, a diferen\u00e7a relevante n\u00e3o est\u00e1 no meio, material ou virtual, mas na natureza da mensagem, verbal ou ic\u00f4nica.<\/p>\n<p>Falando especificamente de jovens escritores, eles t\u00eam seus \u00eddolos assim como os adolescentes &#8220;normais&#8221;. A grande diferen\u00e7a \u00e9 que a literatura, diferentemente da cultura pop, possui uma mem\u00f3ria mais longa, o que permite que os jovens interajam, apreciem e se conectem com pessoas e obras de muitas d\u00e9cadas ou s\u00e9culos atr\u00e1s. Assim, jovens do s\u00e9culo XXI conhecem e se identificam com obras &#8220;atemporais&#8221; escritas por autores como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Robert E. Howard, Stephen King, Lewis Carroll, Mary Shelley, Bram Stoker e outros. \u00c0 parte o papel que a cultura pop tem na dissemina\u00e7\u00e3o desses nomes angl\u00f3fonos em detrimento de autores oriundos de nossa pr\u00f3pria base cultural, segue verdadeiro que esses autores representam para os jovens de hoje um desafio muito interessante no n\u00edvel intelectual e n\u00e3o devemos desestimular que sejam lidos.<\/p>\n<p>A leitura \u00e9 um h\u00e1bito muito amea\u00e7ado pela experi\u00eancia &#8220;virtual&#8221;, ela precisa ser cultivada e estimulada, em vez de criticada e rotulada. Ainda mais a leitura de autores do passado, que, mesmo trazidos at\u00e9 n\u00f3s por um filtro &#8220;pop&#8221;, carregam uma bagagem de l\u00edngua e de conhecimento capazes de enriquecer os jovens. Quem poder\u00edamos colocar no lugar desses autores? K\u00e9fera e Raphael Draccon?<\/p>\n<p>Evidentemente os autores do passado apresentam desafios que v\u00e3o al\u00e9m da complexidade da l\u00edngua (que os jovens s\u00f3 aceitam quando s\u00e3o obras estrangeiras, por paradoxal que isso seja). Entre esses est\u00e1 a presen\u00e7a de escolhos que parecem incompat\u00edveis com os valores de hoje. H\u00e1 autores do passado que perpetraram racismo, eurocentrismo, machismo ou simplesmente teses cient\u00edficas que depois se mostraram absurdamente erradas. Ler esses autores confrontar\u00e1 o jovem com esses problemas. Mas esses autores ainda precisam ser lidos. Na verdade, os jovens deveriam ler <em>mais<\/em> desses antigos autores, de origens mais diversas, com problemas ainda mais desafiadores. Por que limitar-nos somente aos ingleses e americanos? Por que n\u00e3o ler tamb\u00e9m franceses, portugueses, gregos, russos, japoneses, espanh\u00f3is, brasileiros, suecos&#8230;? No entanto, se tentamos barrar os jovens logo na entrada, que s\u00e3o os nomes oferecidos pela difus\u00e3o pop, como esperamos que eles avancem para dentro da &#8220;casa&#8221; da literatura?<\/p>\n<p>Preocupa-me a campanha que se faz hoje contra autores do passado por causa de suas imperfei\u00e7\u00f5es. Nabokov e Carroll, os ped\u00f3filos. Lobato e Lovecraft, os racistas. Kipling, o imperialista. Stoker, o antissemita. Esse h\u00e1bito representa uma tend\u00eancia perigosa dos tempos de hoje, uma vontade de rejeitar o passado, releg\u00e1-lo a algum &#8220;buraco da mem\u00f3ria&#8221; e reescrever um &#8220;bravo mundo novo&#8221;. Por\u00e9m aqueles que ignoram o passado tendem a repeti-lo.<\/p>\n<p>Enxergamos a cultura e os indiv\u00edduos que viveram no passado como impuros, ignorantes e preconceituosos; ao mesmo tempo em que nos recusamos a enxergar o que temos n\u00f3s mesmos, hoje, de impureza, ignor\u00e2ncia e preconceito.<\/p>\n<p>Tal como Quixote, arremetemos contra moinhos de vento achando que s\u00e3o gigantes. Tal como um desastrado oficial da Primeira Guerra Mundial, torpedeamos golfinhos por medo de submarinos.<\/p>\n<p>\u00c9 extremamente f\u00e1cil identificar e rotular os erros dos mortos. N\u00e3o somente porque eles n\u00e3o se defender\u00e3o, mas porque eles n\u00e3o podem mais corrigir-se. Uma pessoa viva pode fazer autocr\u00edtica, pode dar explica\u00e7\u00f5es. O morto permanece silencioso enquanto interpretamos suas palavras \u00e0 sua revelia.<\/p>\n<p>Mas essa luta contra as nuvens \u00e9 um exemplo claro de aliena\u00e7\u00e3o cultural e de obscurantismo. Fixamo-nos em coisas alheias e distantes, e irrelevantes, em detrimento da realidade imediata e premente. A literatura \u00e9 um prazer optativo e privado, diferentemente do cinema e da m\u00fasica, cujas obras oferecem experi\u00eancias coletivas e t\u00eam grande poder de penetra\u00e7\u00e3o, at\u00e9 involunt\u00e1ria, devido \u00e0 dificuldade de se conter o som e a imagem, meios que se expressam sem necessidade de decodifica\u00e7\u00e3o ativa pelo receptor &#8212; contrariamente \u00e0 literatura.<\/p>\n<p>O poss\u00edvel dano causado por um livro \u00e9 pequeno, se comparado ao imenso dano causado por programas de televis\u00e3o e r\u00e1dio, ou por filmes. Mesmo porque, a leitura \u00e9 um processo muito mais reflexivo. A rela\u00e7\u00e3o do leitor com o livro \u00e9 muito mais questionadora do que com as obras audiovisuais, que penetram em n\u00f3s de maneira sub-rept\u00edcia, sem argumenta\u00e7\u00e3o, e v\u00e3o nos entortando a seu bel-prazer.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o benef\u00edcio trazido pela leitura \u00e9 imenso, se comparado ao pequeno dano trazido pelos escolhos contidos nas obras liter\u00e1rias. Toda leitura liter\u00e1ria confronta o leitor com opini\u00f5es diversas das suas. Opini\u00f5es que cobram reflex\u00e3o, que cobram esfor\u00e7o para entender. Ao tentar imaginar cen\u00e1rios, descri\u00e7\u00f5es, dist\u00e2ncias e rela\u00e7\u00f5es; o leitor ativamente cria em si um mundo que pode n\u00e3o ser o mesmo que o escritor criou. N\u00e3o \u00e9 uma imagem pronta da realidade. A interpreta\u00e7\u00e3o que cada um d\u00e1 \u00e0s palavras do autor \u00e9 um &#8220;lugar&#8221; seu, no qual o autor, especialmente o autor morto, j\u00e1 n\u00e3o tem nenhum poder.<\/p>\n<p>O leitor tem o poder de ressignificar uma obra. N\u00e3o apenas por interpret\u00e1-la \u00e0 sua maneira, mas tamb\u00e9m por reagir a ela. Faz parte da cultura liter\u00e1ria o inconformismo do leitor com o &#8220;final frustrante&#8221;, com o pequeno papel deste ou daquele personagem que tinha bom potencial, com o desastroso desenlace do cl\u00edmax. Se os jovens de hoje j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o rebeldes e questionadores do que leem, a culpa disso n\u00e3o \u00e9 das suas leituras e nem do h\u00e1bito de ler. N\u00e3o \u00e9 a leitura que devemos desestimular. O germe desse mal vem de outros lugares e h\u00e1bitos.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 extremamente importante que estimulemos os jovens a ler, mesmo que leiam obras perigosas. N\u00e3o tenho medo de leitores de obras acusadas de racismo ou coisas piores, mas de pessos que cresceram em uma cultura que ainda fetichiza o livro a ponto de se imaginar que o leitor \u00e9 um imbecil cordeiro que deve seguir como religi\u00e3o aquilo que est\u00e1 nas p\u00e1ginas da obra de um escritor morto h\u00e1 muito tempo. Temos que criar nos jovens a ideia de que os livros trazem prazer, informa\u00e7\u00e3o e fantasia, mas que a verdade \u00e9 uma descoberta que cada um deve fazer.<\/p>\n<p>Por isso, leiam. Leiam principalmente os livros perigosos. O dano que eles lhes podem trazer s\u00e3o \u00ednfimos. Especialmente se voc\u00eas lerem com diversidade e com rebeldia.<\/p>\n<p>O mal n\u00e3o est\u00e1 em lermos, mas no mundo de hoje aparentemente achar que o certo \u00e9 ter aquela mesma velha opini\u00e3o formada que, se est\u00e1 num livro velho, est\u00e1 confirmada e deve ser seguida.<\/p>\n<p>Vai l\u00e1 ler, \u00f3 bicho-pregui\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A forma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do ser humano passa por fases nas quais \u00e9 natural e esperado que tenha &#8220;\u00eddolos&#8221; em quem se espelhe. Autores, enquanto humanos que s\u00e3o, passam por isso. O amadurecimento do autor \u00e9 um processo que passa pela supera\u00e7\u00e3o da idolatria, substituindo-a por uma reflex\u00e3o mais profunda sobre a arte. Esse processo implica em deixar de ver uma imagem \u00fanica do \u00eddolo e de sua obra. 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