{"id":335,"date":"2011-02-20T00:01:00","date_gmt":"2011-02-20T03:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=335"},"modified":"2017-08-12T23:36:02","modified_gmt":"2017-08-13T02:36:02","slug":"pela-eletricidade-por-amor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/02\/pela-eletricidade-por-amor\/","title":{"rendered":"Pela Eletricidade, Por Amor"},"content":{"rendered":"<p>Adormeci na frente do computador, sem terminar a monografia. Com o prazo quase esgotado, passara mais de quatro horas digitando como louco a partir de notas desconexas que reunira nos meses de pesquisa, mas em v\u00e3o. Tanto esfor\u00e7o que minha mente come\u00e7ou a sair de controle e acabei caindo de cara no teclado no meio da madrugada, apesar de todo o caf\u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto tempo fiquei apagado. Podem ter sido segundos ou horas, porque n\u00e3o estava prestando aten\u00e7\u00e3o ao rel\u00f3gio quando dormi. Sei que quando tomei um susto e joguei a cabe\u00e7a para tr\u00e1s em um gesto brusco, eram <tt>04:12<\/tt> e fora disparado o maldito alarme de um autom\u00f3vel que dormia na rua.<\/p>\n<p>Levantei grogue de sono, com a cabe\u00e7a pesando meia tonelada, e fui tomar um banho antes de ir dormir. O calor n\u00e3o estava mais insuport\u00e1vel, mas eu tinha suado demais. Tomei um banho r\u00e1pido e frio, dos que gosto quando vou me deitar. Quando voltei do banheiro, pelado e me enxugando na toalha felpuda que cheirava a mofo e a \u00e1lcool, tomei um susto, que espantou todo sono que ainda pudesse ter.<\/p>\n<p>Tinha deixado o computador ligado. Sa\u00edra t\u00e3o depressa para o banho que n\u00e3o o desligara. O documento da monografia estava aberto no editor de textos e o cursor piscava na tela de f\u00f3sforo verde. Ent\u00e3o notei que o ponto de luz n\u00e3o estava parado \u00e0 espera do toque seguinte: movia-se r\u00e1pido pela tela, deixando atr\u00e1s um rastro de letras e n\u00fameros, mesclados a c\u00f3digos de formata\u00e7\u00e3o <tt>L<sup>A<\/sup>T<sub>E<\/sub>X<\/tt>.<\/p>\n<p>Minha primeira rea\u00e7\u00e3o teria sido \u2014 ou deveria ter sido \u2014 entrar desastradamente na frente do aparelho e ver que raio era aquilo, mas eu costumava ser um sujeito frio, n\u00e3o o tipo que se apavora e surta. Fiquei parado onde estava, ainda sob o batente da porta, olhando de soslaio para o monitor. Acredito que o computador n\u00e3o me &#8220;viu&#8221;, pois continuou cuspindo c\u00f3digo como se os Digitadores do Inferno estivessem ali. Permaneci observando a cena, tentando decifrar mentalmente a sucess\u00e3o de c\u00f3digos que aparecia. Olhei a tomada, na esperan\u00e7a de ver o modem conectado \u00e0 linha telef\u00f4nica, mas n\u00e3o. Teria sido f\u00e1cil admitir como explica\u00e7\u00e3o que algu\u00e9m havia tomado o controle de meu computador dom\u00e9stico e estava fodendo com a minha pobre monografia, mas n\u00e3o poderia haver acesso remoto se n\u00e3o havia conex\u00e3o. Ou poderia?<\/p>\n<p>O computador n\u00e3o chegou a notar minha presen\u00e7a. Quando finalmente parou, havia sido digitado <tt>\\fi<\/tt> e uma sequencia de linhas em branco, como eu tinha por h\u00e1bito fazer ao terminar os cap\u00edtulos. Eu n\u00e3o teria notado mudan\u00e7a no c\u00f3digo do documento se n\u00e3o tivesse tomado o banho r\u00e1pido demais.<\/p>\n<p>Sentei-me fingindo que estava tudo bem, dei <tt>Control-End<\/tt> e digitei algumas ideias aleat\u00f3rias do cap\u00edtulo seguinte. Depois salvei o arquivo no disco r\u00edgido, sempre fazendo a c\u00f3pia de *backup* no disquete e desliguei aquela m\u00e1quina do diabo.<\/p>\n<p>N\u00e3o consegui dormir. Tinha a curiosidade de saber que raio de conte\u00fado teria sido inserido em meu texto, sabe l\u00e1 por quem ou que. Poderia ter compilado e impresso o documento, mas teria demorado muitos minutos se houvesse uma matriz <tt>XY<\/tt>. *Tamb\u00e9m o computador poderia desconfiar*. Preferi deixar para o dia seguinte e tentar pensar melhor.<\/p>\n<p>Quando amanheceu, desisti de tentar dormir e levei o disquete comigo \u00e0 universidade. Sentei-me diante de um terminal p\u00fablico na biblioteca e abri o arquivo para analisar, como leg\u00edtimo &#8220;escovador de bits&#8221;, embora soubesse pouca programa\u00e7\u00e3o. Logo achei ind\u00edcios da patranha.<\/p>\n<p>Ao final do terceiro cap\u00edtulo, havia um <tt>\\iffalse\\iffalse\\fi<\/tt> e pouco antes de onde come\u00e7aria o cap\u00edtulo seguinte, um <tt>\\iffalse\\fi\\fi<\/tt>. Estas enganosas sequ\u00eancias de c\u00f3digos realizavam algo diferente do que prometiam ao olhar distra\u00eddo. Tanto o in\u00edcio quanto o fim do c\u00f3digo oculto estavam, na verdade, ocultando os comandos de in\u00edcio e fim dos comandos de oculta\u00e7\u00e3o, se \u00e9 que voc\u00ea consegue entender. Talvez esta hist\u00f3ria maluca s\u00f3 fa\u00e7a sentido para quem manja um pouco de <tt>L<sup>A<\/sup>T<sub>E<\/sub>X<\/tt>. Mas digamos que tudo ap\u00f3s <tt>\\iffalse<\/tt> \u00e9 ignorado, at\u00e9 chegar um <tt>\\fi<\/tt>. Quem tiver algum talento l\u00f3gico perceber\u00e1 a mal\u00edcia.<\/p>\n<p>O bloco de c\u00f3digo n\u00e3o era leg\u00edvel. Era uma sucess\u00e3o de comandos descrevendo curvas, gr\u00e1ficos, matrizes. Talvez algu\u00e9m realmente louco de usar <tt>L<sup>A<\/sup>T<sub>E<\/sub>X<\/tt> conseguisse o milagre de visualizar a plotagem daquelas f\u00f3rmulas, mas para mim era como contemplar uma sopa de letrinhas verdes no quadro negro do monitor. Queria logo compilar e descobrir no que dava.<\/p>\n<p>Para isso teria, por\u00e9m, que ter permiss\u00e3o da bibliotec\u00e1ria, porque os terminais tinham capacidade limitada e a fila de uso era grande. Ela n\u00e3o se op\u00f4s, diante da pequena quantidade de alunos que estava na faculdade naquele dia anterior a um feriado prolongado. Dirigi-me ao terminal, ent\u00e3o, e ordenei:<\/p>\n<p><tt>latex mono.tex<\/tt><\/p>\n<p>Naquele tempo os computadores podiam levar horas a compilar documentos complexos, como parecia ser o meu. Por isso logo me cansei de ver a dan\u00e7a intermin\u00e1vel das letras el\u00e9tricas que brilhavam verdes como a fosforesc\u00eancia de uma apari\u00e7\u00e3o. Fossem quais fossem os erros, n\u00e3o teria mesmo chance de consertar porque n\u00e3o sabia o que continha o misterioso c\u00f3digo. Ainda fiquei uns minutos refletindo sobre mensagens de *overfull hbox*, lamentando a quebra da margem direita, ou *underfull vbox*, lamentando os par\u00e1grafos separados demais; mas logo me levantei e fui at\u00e9 \u00e0 cantina tomar um caf\u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o contei os minutos na cantina. Ningu\u00e9m faz isso, a n\u00e3o ser os que j\u00e1 est\u00e3o loucos e eu n\u00e3o estava. Voltei com um copo cheio de caf\u00e9 preto, para espantar o sono que ficara da noite sem dormir, e biscoitos salgados que controlariam a fome enquanto n\u00e3o pudesse ter uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel na lanchonete mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Quando retornei ao sagu\u00e3o da biblioteca, notei uma movimenta\u00e7\u00e3o estranha em frente ao computador que deixara compilando. Havia uns tr\u00eas ou quatro caras do \u00faltimo per\u00edodo de Sistemas que contemplavam a dan\u00e7a das letras parecendo fascinados.<\/p>\n<p>\u2014 Caralho, o que \u00e9 isso que esse louco fez? Vai fritar os circuitos do terminal antes de compilar! \u2014 dizia um deles, risonho e preocupado. Aproximei-me quieto, tentando captar a conversa, mas falavam pouco e olhavam muito.<\/p>\n<p>\u2014 A Alana precisa ver isso \u2014 finalmente disse um, dirigindo-se \u00e0 porta em frente, com rapidez de elfo. Pigarreei para anunciar minha presen\u00e7a e os outros olharam com respeito inesperado. Os caras de Sistemas n\u00e3o t\u00eam o h\u00e1bito de olhar com essa express\u00e3o quem n\u00e3o \u00e9 de sua pr\u00f3pria estirpe.<\/p>\n<p>\u2014 Isto aqui \u00e9 seu? \u2014 perguntou um deles, um grandalh\u00e3o de cabelos ressecados e de cor de cenoura.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 sim, por que?<\/p>\n<p>\u2014 Como pode algu\u00e9m de Matem\u00e1tica ser besta de programar um *loop* num documento <tt>L<sup>A<\/sup>T<sub>E<\/sub>X<\/tt>?<\/p>\n<p>\u2014 Um *loop*? Merda!<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o sei de nada, a gente estava passando, viu o computador compilando sozinho e resolvemos olhar o c\u00f3digo, para tentar adivinhar o que \u00e9. Foi a\u00ed que notamos que o c\u00f3digo est\u00e1 em *loop*. O que voc\u00ea estava querendo fazer?<\/p>\n<p>Meus olhos percorreram o cabeamento da sala, notando para meu imenso espanto que aquele terminal, sim, estava conectado.<\/p>\n<p>\u2014 Contaram quantos *loops* ele deu? \u2014 perguntei, j\u00e1 me sentando.<\/p>\n<p>\u2014 Uns dez ou doze nesse meio tempo em que estamos aqui.<\/p>\n<p>\u2014 Dez ou doze, hem? Que diabo ser\u00e1 isso?<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o sabe?<\/p>\n<p>Eu tinha vergonha de confessar, mas preferi ser honesto, afinal eu precisava de ajuda para n\u00e3o ter que, humilhantemente, apertar o bot\u00e3o de reset, como um novato. Eu jamais seria encarado com respeito, sequer pelas namoradas dos caras de Sistemas, aquelas garotas de peitos grandes que cursam &#8220;Estudos Sociais&#8221; e s\u00f3 passam de ano porque s\u00e3o l\u00edderes de torcida.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Achei um documento cheio de c\u00f3digos os mais estranhos e resolvi compilar para ver o que era.<\/p>\n<p>\u2014 Caralho, voc\u00ea \u00e9 maluco? Sabe-se l\u00e1 se n\u00e3o \u00e9 um c\u00f3digo malicioso!<\/p>\n<p>\u2014 Bem, eu n\u00e3o sei se \u00e9 nocivo, mas malicioso isso tenho certeza que \u00e9.<\/p>\n<p>Eles me olharam, sem entender.<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m entende de <tt>L<sup>A<\/sup>T<sub>E<\/sub>X<\/tt>?<\/p>\n<p>O outro cara, que tinha ficado quieto esse tempo todo olhando a dan\u00e7a das letras el\u00e9tricas, acenou com a cabe\u00e7a e fez o caracter\u00edstico &#8220;ah\u00e3&#8221; dos que est\u00e3o dizendo que sim.<\/p>\n<p>\u2014 Devemos deixar compilar ou tentar interromper?<\/p>\n<p>\u2014 <tt>L<sup>A<\/sup>T<sub>E<\/sub>X<\/tt> n\u00e3o vai fritar os circuitos, a menos que comece a ficar recursivo. \u00c9 exatamente isso que eu estou tentando entender, se \u00e9 um loop recursivo ou se \u00e9 apenas circular. Se for recursivo, voc\u00ea vai ter que desligar no bot\u00e3o de rein\u00edcio porque vai travar os sistemas de entrada e sa\u00edda.<\/p>\n<p>Ele tomava notas no seu bloco, em um tipo de taquigrafia pessoal que parecia \u00e1rabe. Demorou quatro minutos ate ele finalmente decretar:<\/p>\n<p>\u2014 Parece que n\u00e3o \u00e9 recursivo. Deve haver uma condicional em algum lugar que est\u00e1 fazendo o <tt>T<sub>E<\/sub>X<\/tt> dar v\u00e1rias passagens no mesmo c\u00f3digo. Mas essa condicional pode resultar verdadeira em algum momento, ent\u00e3o o loop acaba e o arquivo imprim\u00edvel \u00e9 gerado.<\/p>\n<p>Alana chegou. Era a \u00fanica mulher do \u00faltimo ano de Sistemas, era obcecada com criptografia e lia todo tipo de teoria de conspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era bonita e nem simp\u00e1tica, mas os caras da turma queriam t\u00ea-la por perto, fosse como bicho de estima\u00e7\u00e3o ou fonte permanente de an\u00e1lise matem\u00e1tica apurada. Era um leg\u00edtimo &#8220;cr\u00e2nio&#8221;, capaz de efetuar c\u00e1lculos mentalmente com facilidade humilhante. Acima de tudo, tinha a capacidade algo sobrenatural de visualizar gr\u00e1ficos a partir de suas f\u00f3rmulas. Mais que isso, contribu\u00eda sob pseud\u00f4nimo para v\u00e1rios projetos de programa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias faculdades, inclusive a nossa. Alana n\u00e3o assinava seu nome em documento algum.<\/p>\n<p>No momento em que ainda estava sendo informada do acontecido, dois pares de peitos loiros surgiram \u00e0 porta chamando os rapazes de forma que nem Alana e nem eu soub\u00e9ssemos. N\u00e3o sei se ela soube, mas tenho a vis\u00e3o perif\u00e9rica muito desenvolvida. Os dois caras se despediram e sa\u00edram dizendo que tinham que estudar para uma prova e foram levar as duas a alguma festinha. Alana e eu ficamos olhando a tela onde dan\u00e7avam infernalmente as letras.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 sabe o que \u00e9 isso, Alana?<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Eu imaginei que\u2026<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou uma m\u00e1quina, Tony \u2014 ela me interrompeu.<\/p>\n<p>Tive vergonha do modo como a tratava. Naquele dia, em que justamente o seu lado maquinal estava sendo usado, ela me jogava na cara que era um ser humano. De certa forma, mesmo eu n\u00e3o a achando bonita, naquele dia eu me sentia ligeiramente atra\u00eddo. Talvez fosse por notar que as suas orelhas tinham um formato curiosamente harmonioso, suas m\u00e3os min\u00fasculas pareciam esculpidas. Era s\u00f3 n\u00e3o olhar para seus dentes que teimavam em querer sair dos l\u00e1bios ou os \u00f3culos pesados, que ela parecia ter roubado de sua av\u00f3.<\/p>\n<p>Subitamente as letras mudaram de fei\u00e7\u00e3o. A dan\u00e7a infernal parou e o monitor come\u00e7ou a cuspir uma s\u00e9rie de linhas com nomes de arquivo. Era o fecho da compila\u00e7\u00e3o. O *loop* fora interrompido ao encontrar valor positivo. O *prompt* de comando apareceu ent\u00e3o, desafiando enigmaticamente nossa curiosidade. O cursor piscava como se estivesse rindo de mim. Alana foi r\u00e1pida. Curvou-se sobre o teclado e recuou a sequ\u00eancia de comandos at\u00e9 identificar o arquivo que eu compilara. Ent\u00e3o digitou:<\/p>\n<p><tt>more mono.tex<\/tt><\/p>\n<p>O terminal come\u00e7ou a listar o c\u00f3digo, p\u00e1gina a p\u00e1gina, enquanto ela, ainda curvada, parecia ignorar que eu, olhando por dentro do decote folgado do vestido, contemplava seus dois belos seios, que pareciam as divinas mamas da V\u00eanus de Milo e exalavam um perfume madeirado delicioso. Ela n\u00e3o se interessou nem minimamente pelo meu trabalho, mas quando chegou ao famigerado bloco de c\u00f3digo, arregalou os olhos como se tivesse achado um pote de ouro e usou o bra\u00e7o esquerdo para se apoiar no encosto da cadeira, tocando com ele minha nuca, que arrepiou como se estivesse ligado a uma tomada el\u00e9trica. Comecei a suar, talvez de sono ou embriaguez do perfume diab\u00f3lico e da vis\u00e3o daqueles seios mi\u00fados, que pareciam duros como pedras e me imploravam para que os pegasse nas m\u00e3os e apertasse gentilmente como bot\u00f5es para abrir uma passagem secreta ao para\u00edso. Mas quando tentei dizer alguma coisa, acabei dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o prefere se sentar?<\/p>\n<p>Ela ergueu-se, acusando alguma dor nas costas devido \u00e0 posi\u00e7\u00e3o, e arrastou uma cadeira. Sentou-se t\u00e3o perto que todo seu lado esquerdo encostou no meu corpo. Um daqueles seios pontudos cutucava minha axila e minha mente rodopiava sem controle. Queria perder os sentidos rapidamente, antes que ficasse louco e tentasse algo inadequado. Mas n\u00e3o aconteceu nada, porque Alana era r\u00e1pida com os dedos e com a mente: n\u00e3o demorou a terminar de listar o c\u00f3digo. Levantou-se e andou em c\u00edrculos batendo os saltos pesados dos tamancos nos tacos coloridos do ch\u00e3o da biblioteca enquanto gesticulava e balbuciava multiplica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Acho melhor voc\u00ea n\u00e3o entregar a monografia \u2014 disse, por fim.<\/p>\n<p>\u2014 Preciso entregar, ou n\u00e3o consigo cr\u00e9ditos para passar em trigonometria.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho um mau pressentimento sobre isso. De onde disse mesmo que saiu esse documento?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha dito nada, mas ela me olhava com a express\u00e3o aguda, como se soubesse at\u00e9 as vezes que tinha me masturbado no semestre anterior. Alana intimidava, parecia saber de tudo. Mas n\u00e3o me importava, naquele momento, eu sabia que nenhuma outra mulher do universo teria gra\u00e7a para mim.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, nesse exato momento s\u00f3 consigo me lembrar que dormi mal essa noite e preciso sair com voc\u00ea na sexta-feira.<\/p>\n<p>Esta frase a desarmou. Talvez fosse a \u00faltima coisa que imaginava de mim.<\/p>\n<p>\u2014 Sair\u2026 comigo? Na sexta-feira?<\/p>\n<p>\u2014 No s\u00e1bado, se preferir.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que isso logo agora?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a primeira vez que consigo conversar com voc\u00ea a s\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2014 Eu\u2026 preciso pensar.<\/p>\n<p>\u2014 Posso ligar?<\/p>\n<p>Ela deu o n\u00famero de seu telefone e saiu apressada da biblioteca, me deixando sozinho com minha obra. Ent\u00e3o, aproveitando que o lugar estava vazio, comecei a imprimir o <tt>dvi<\/tt>, sem testemunhas.<\/p>\n<p>A impressora matricial deu alguns arrotos e rosnados, antes de finalmente acertar a margem do papel. Ent\u00e3o o cabe\u00e7ote come\u00e7ou a dan\u00e7ar, rabiscando linhas interrompidas que formavam o desenho de letras e gr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>Uma p\u00e1gina, duas, tr\u00eas, vinte, quarenta, noventa e cinco. Quando a impress\u00e3o terminou, dobrei com cuidado toda aquela tripa de formul\u00e1rio cont\u00ednuo e guardei com carinho na maleta e voltei ao meu apartamento no campus.<\/p>\n<p>A primeira coisa que fiz, por\u00e9m, foi ligar. Sentia-me idiota por estar apaixonado, mas nenhum idiota era t\u00e3o feliz, e n\u00e3o importava nada mais se ela apenas dissesse que sairia comigo. E ela disse. Mas depois disso, enfatizou:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o deve entregar a monografia.<\/p>\n<p>\u2014 Tem alguma ideia do que \u00e9 aquele c\u00f3digo?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Os comandos l\u00e1 codificam instru\u00e7\u00f5es vetoriais em PostScript. Algu\u00e9m inseriu no seu texto um c\u00f3digo que &#8220;desenha&#8221; coisas em uma ou mais p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>\u2014 &#8220;Coisas&#8221;, que coisas?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Podem ser gr\u00e1ficos, desenhos, uma fonte, um texto at\u00e9\u2026<\/p>\n<p>Assim que desliguei o telefone, tratei de cortar e encadernar as noventa e cinco p\u00e1ginas, com todo cuidado para que nenhuma rasgasse. Fixei-as num fich\u00e1rio e comecei a folhear, tentando ver onde haviam sido feitas mudan\u00e7as. Ao fim do terceiro cap\u00edtulo come\u00e7ava a coisa. Saltava uma p\u00e1gina, no meio da qual haviam posto algo que parecia uma ofensa direta contra mim:<\/p>\n<p>> \u00abEsta p\u00e1gina foi intencionalmente deixada em branco.<br \/>\n\u00abE as anteriores deveriam ter sido mantidas assim tamb\u00e9m.\u00bb<\/p>\n<p>A p\u00e1gina seguinte era outra capa, com meu nome, identifica\u00e7\u00e3o da faculdade, o mesmo t\u00edtulo, um subt\u00edtulo ligeiramente diferente e um rein\u00edcio do documento, inclusive numera\u00e7\u00e3o, sum\u00e1rio, tudo. Se o tema ainda era \u00abM\u00e9todo de plotagem trigonom\u00e9trica de \u00f3rbitas para sat\u00e9lites geoestacion\u00e1rios\u00bb, o conte\u00fado quase n\u00e3o tinha a ver. Meu texto ainda estava em grande parte l\u00e1, mas entremeado de uma montanha de cita\u00e7\u00f5es de autores de que nunca ouvira falar e f\u00f3rmulas de c\u00e1lculo avan\u00e7ado que eu nem sabia o que eram. Algumas me pareciam referenciar coisas avan\u00e7ad\u00edssimas de f\u00edsica qu\u00e2ntica. V\u00e1rias cita\u00e7\u00f5es eram em alem\u00e3o (Schr\u00f6dinger, Planck, Heidegger, Cantor, Kant), outras em franc\u00eas (Lama\u00eetre, Galois). Autores cl\u00e1ssicos eram citados ao lado de outros que talvez fossem novos e pouco conhecidos. V\u00e1rios trechos n\u00e3o tinham cita\u00e7\u00e3o, mas f\u00f3rmulas acompanhadas de ousadas afirma\u00e7\u00f5es \u00e0 banca, do tipo &#8220;como se pode provar pelo c\u00e1lculo a seguir&#8221;.<\/p>\n<p>Li todo o trabalho e fiquei embasbacado por n\u00e3o conseguir entender nem metade do que ali estava, muito embora meu estilo de reda\u00e7\u00e3o estivesse em cada par\u00e1grafo. Do pouco que entendi, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que propunha um m\u00e9todo atrav\u00e9s do qual sat\u00e9lites poderiam ser i\u00e7ados a uma \u00f3rbita, em vez de lan\u00e7ados at\u00e9 ela por um foguete. Os c\u00e1lculos provariam que a energia necess\u00e1ria a tal sistema seria dezenas de vezes menor, reduzindo o custo do lan\u00e7amento de sat\u00e9lites a uma fra\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o poss\u00edvel, algo revolucion\u00e1rio demais. Eu tinha de entregar a monografia, apesar do alerta de Alana. E o fiz.<\/p>\n<p>Na sexta-feira pela manh\u00e3 fui busc\u00e1-la em seu apartamento. Estava vestida do modo s\u00f3brio de sempre. Trazia apenas bagagem de m\u00e3o e hesitou em entrar no meu carro. Seus seios pareciam invis\u00edveis naquele vestido. A maioria dos caras da faculdade a chamavam \u00abt\u00e1bua de carne\u00bb por isso. Era dif\u00edcil crer que uma mulher aparentemente t\u00e3o reta tivesse seios t\u00e3o curiosamente belos e harm\u00f4nicos, e de um formato e consist\u00eancia t\u00e3o atraentes.<\/p>\n<p>Almo\u00e7amos em um restaurante \u00e0 beira mar, fomos ao cinema e tomamos cerveja no bar panor\u00e2mico do p\u00eder; terminando a tarde no meu apartamento, ouvindo Stones e conversando descontraidamente. N\u00e3o ousei muito coisa. Eu sonhava Alana como se fosse para sempre, e algo que \u00e9 para sempre n\u00e3o precisa de pressa. Apenas nos beijamos, e nesse beijo senti seus seios contra meu peito e tive a certeza do que queria.<\/p>\n<p>\u2014 Alana, pode me achar louco por dizer isso, mas acho que a amo. Acredita em amor \u00e0 primeira vista?<\/p>\n<p>\u2014 Acredito, Tony. Mas amor \u00e0 primeira vista tem que esperar o mesmo tempo que o amor \u00e0 d\u00e9cima oitava vista \u2014 disse ela, algo cruel, apertando o bot\u00e3o da gola do vestido sem decote que usava.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, Alana. O que a gente sonha para sempre n\u00e3o precisa come\u00e7ar agora.<\/p>\n<p>Ela riu e me beijou nos l\u00e1bios, com um tremor na boca que s\u00f3 mais tarde soube ser amor tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, Tony. Leve-me para casa antes que implore para fazer amor com voc\u00ea. Isso n\u00e3o seria bom para nenhum de n\u00f3s dois agora. Estou me sentindo totalmente fr\u00e1gil e insegura. N\u00e3o se aproveite de mim.<\/p>\n<p>Os dias seguintes foram de expectativa. Ningu\u00e9m da Banca Examinadora me contactara ainda, mas eu tinha a estranha sensa\u00e7\u00e3o de que quando lessem o meu trabalho o meu telefone fatalmente tocaria.<\/p>\n<p>Sa\u00ed com Alana na sexta-feira seguinte mais uma vez. N\u00e3o hav\u00edamos tido encontro no fim de semana porque ela viajara para visitar os pais, numa distante fazenda nas chatas plan\u00edcies do Norte. Da segunda vez o encontro se desenvolveu com muito mais fluidez, em parte gra\u00e7as ao trai\u00e7oeiro vinho licoroso que lhe servi. Por\u00e9m, quando ela percebeu que sua cabe\u00e7a n\u00e3o estava mais t\u00e3o firme sobre o pesco\u00e7o, mais uma vez me pediu que a levasse para casa e eu, mais uma vez, me vi moralmente for\u00e7ado a isso.<\/p>\n<p>Levei-a de volta ao seu apartamento no campus. \u00c0quela hora quase n\u00e3o havia viva alma na universidade. Somente os pobres e que vinham de longe, como n\u00f3s dois, pass\u00e1vamos os feriados l\u00e1. Quando sa\u00eda, ela me chamou para dizer, depois de jogar um beijo:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o entregou aquela monografia, entregou?<\/p>\n<p>Fiquei envergonhado:<\/p>\n<p>\u2014 Alana, me perdoe, mas eu a entreguei naquele mesmo dia.<\/p>\n<p>Ela levou as duas m\u00e3os \u00e0 boca, com os olhos totalmente arregalados, e me pediu para entrar. Atirou-me a um sof\u00e1 e come\u00e7ou a trancar obsessivamente janelas e portas. Depois se atirou sobre mim e quando finalmente percebi o que estava acontecendo j\u00e1 est\u00e1vamos nus fazendo amor. Ao terminamos, ainda estendidos no tapete macio da sala, tive que perguntar:<\/p>\n<p>\u2014 Por que isso, Alana? N\u00e3o t\u00ednhamos que esperar, n\u00e3o havia aquela hist\u00f3ria de que o que \u00e9 para sempre n\u00e3o precisa come\u00e7ar hoje.<\/p>\n<p>\u2014 Querido, lamento, mas precisava disso. Se n\u00e3o fosse hoje, talvez n\u00e3o fosse nunca. O que vai terminar hoje precisa come\u00e7ar hoje.<\/p>\n<p>Far\u00f3is altos brilharam no p\u00e1tio e um ru\u00eddo sibilante cortou o ar. Exceto por ele, por\u00e9m, n\u00e3o havia nenhum outro som em todo o campus. Bateram \u00e0 porta.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, querido, lamento muito, muito.<\/p>\n<p>Bateram de novo \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Alana se enrolava no tapete para cobrir sua esguia nudez, enquanto eu tentava me vestir, procurando as pe\u00e7as de roupa espalhadas.<\/p>\n<p>Arrebentaram a porta.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora uma luz fria e azul oscilava. Entraram homens altos e magros, magros como Alana. Falavam uma l\u00edngua estranha e eram estranhamente p\u00e1lidos, como Alana. Senti algo picar o meu peito, olhei e vi um dardo tranquilizante.<\/p>\n<p>\u2026<\/p>\n<p>Acordei aqui. Voc\u00ea tem que acreditar em mim. N\u00e3o sei de nada da morte da Alana. Tem que acreditar em mim.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 dif\u00edcil, Tony. Muito dif\u00edcil. Voc\u00ea entregou \u00e0 Banca Examinadora um bilhete contendo a confiss\u00e3o de que pretendia mat\u00e1-la, e fez exatamente o que o bilhete dizia. Seu esperma foi encontrado no corpo, suas impress\u00f5es digitais est\u00e3o por toda parte, e a pol\u00edcia o achou l\u00e1, ao lado do cad\u00e1ver ainda quente. O que tem para me convencer de que nada dessa hist\u00f3ria \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem que acreditar em mim, Rick. Os *aliens*, eles usam a rede el\u00e9trica para comunicar-se, alguns s\u00e3o brincalh\u00f5es e ficam corrompendo arquivos em nossos computadores, ou talvez queiram nos avisar. Alguns est\u00e3o espionando por a\u00ed. Alana era uma espi\u00e3, Rick.<\/p>\n<p>\u2014 Por isso a matou?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o a matei, Rick. Mesmo ela sendo uma deles n\u00e3o a matei porque a amava, porque era a mulher mais interessante que conheci em toda a minha vida. N\u00e3o a matei, foram eles. Mataram-na porque me avisou para n\u00e3o entregar a monografia, mas n\u00e3o me impediu.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo bem, Tony. Vou ver o que posso fazer. Mas acho que \u00e9 melhor alegar insanidade. Se n\u00e3o fizer isso, vai encarar o corredor da morte. Alana poderia ser alien\u00edgena, mas apareceram dois pais pobres, l\u00e1 do interior do Canad\u00e1, que confiavam no diploma da \u00fanica filha para seu sustento na velhice. Uma hist\u00f3ria comovente, Tony. Nenhum jurado desse pa\u00eds ter\u00e1 simpatia por voc\u00ea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adormeci na frente do computador, sem terminar a monografia. Com o prazo quase esgotado, passara mais de quatro horas digitando como louco a partir de notas desconexas que reunira nos meses de pesquisa, mas em v\u00e3o. Tanto esfor\u00e7o que minha mente come\u00e7ou a sair de controle e acabei caindo de cara no teclado no meio da madrugada, apesar de todo o caf\u00e9. N\u00e3o sei quanto tempo fiquei apagado. 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