{"id":341,"date":"2011-02-05T15:51:00","date_gmt":"2011-02-05T18:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=341"},"modified":"2017-11-02T14:09:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:18","slug":"a-confraria-dos-temerarios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/02\/a-confraria-dos-temerarios\/","title":{"rendered":"A Confraria dos Temer\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p>A Mercearia Santa Cec\u00edlia \u00e9 um desses lugares t\u00edpicos de cidade pequena. L\u00e1 se vende de tudo um pouco, mas principalmente p\u00e3es, bolos e biscoitos. \u00c0quela hora da tarde estava movimentada por dezenas de funcion\u00e1rios de escrit\u00f3rios e lojas, que se revezavam a tomar x\u00edcaras de caf\u00e9 expresso acompanhadas de p\u00e3o fresco com manteiga. O ar estava impregnado destes odores caracter\u00edsticos e da conversa e dos risos das mo\u00e7as e e dos rapazes, cortado pelos olhares fumegantes dos velhos que viam aquelas formas fartas e juvenis, aquela alegria quase esquecida deles. Uma senhora idosa comprava queijo e presunto fatiados, esquecida de tais olhares, preocupada com outra esp\u00e9cie de coisas, como Deus e os netos. Todos era fregueses habituais e se conheciam pelos apelidos. As conversas eram sobre assuntos imediatos, c\u00f3digos instant\u00e2neos derivados de refer\u00eancias espont\u00e2neas. Quem ouvisse dificilmente saberia com exatid\u00e3o do que se falava.<\/p>\n<p>Mas naquela tarde, como em outras anteriores, a conversa foi momentaneamente habitada pela presen\u00e7a de um estranho. As mo\u00e7as deixaram por um momento de tagarelar sobre os mesmos namorados que revezavam no mesmo baile do mesmo clube na pra\u00e7a ali perto, os rapazes deixaram de cruzar olhares com elas, ou com outros rapazes e os velhos, por um momento, esqueceram das pernas das jovens e deixaram livre sua curiosidade sobre o forasteiro que entrou e pediu uma m\u00e9dia com p\u00e3o com manteiga. Ele tinha na voz uma inflex\u00e3o estranha, um jeito de dobrar as consoantes e de prolongar as vogais que denunciava que vinha de longe, talvez at\u00e9 de outro estado. Com alguma sorte poderia ser estrangeiro.<\/p>\n<p>Era um homem sisudo, de nariz ligeiramente adunco e cabelos negros retintos. Sua barba, que devia ser igual, transparecia atrav\u00e9s da pele p\u00e1lida como uma sombra. Estava vestido de uma forma que n\u00e3o chegava a ser extraordin\u00e1ria, mas parecia um pouco fora de moda, ou talvez j\u00e1 fosse a nova moda que ainda n\u00e3o tinha chegado na cidade. Ele chegou andando calmamente, pediu licen\u00e7a com toda educa\u00e7\u00e3o, abriu caminho at\u00e9 o balc\u00e3o de a\u00e7o escovado e, depois de dar um sorriso de propaganda de creme dental, fez seu pedido, mirando nos olhos da balconista de um jeito que a fez se sentir despida. Depois o sorriso se fechou de novo, como se n\u00e3o tivesse sido nunca aberto, e o rosto do estranho ficou a parecer uma m\u00e1scara de madeira.<\/p>\n<p>A balconista aproximou-se dele com cuidado, quase querendo cruzar os bra\u00e7os diante do busto que aparecia excessivamente no decote ousado &#8212; esta curiosa esp\u00e9cie de pudor que as mulheres t\u00eam quando sua ousadia faz efeito. Certificando-se, um pouquinho decepcionada, de que ele j\u00e1 n\u00e3o estava prestando tanta aten\u00e7\u00e3o \u00e0s suas formas, perguntou-lhe o que seria.<\/p>\n<p>&#8212; Uma m\u00e9dia e um p\u00e3o com manteiga na chapa &#8212; ele respondeu.<\/p>\n<p>Sem mostrar rea\u00e7\u00e3o, a balconista deu-lhe as costas e preparou o pedido com a precis\u00e3o peculiar de quem faz a mesma coisa muitas vezes por dia. Com a faca serrilhada, partiu facilmente ao meio um p\u00e3o e o untou com a manteiga meio derretida que estava em um pote ao lado da chapa quente. Com uma esp\u00e1tula, manipulou as fatias at\u00e9 dourarem e depositou-as em um pratinho j\u00e1 coberto por um guardanapo de papel. Depois rodopiou at\u00e9 a m\u00e1quina de expresso e extraiu meio copo de caf\u00e9 densamente negro e perfumado. Trouxe ao balc\u00e3o o pratinho com o p\u00e3o com manteiga e p\u00f4s ao seu lado o copo com caf\u00e9 e completou-o at\u00e9 a borda com leite morno, extra\u00eddo de uma leiteira de a\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8212; Muito obrigado &#8212; agradeceu o estranho.<\/p>\n<p>E contemplou o copo repleto, talvez se perguntando como faria para adicionar o a\u00e7\u00facar. Tendo se certificado de que isto seria bem dif\u00edcil, tratou de sorver um gole inicial sem doce mesmo, ao pre\u00e7o de uma careta e de uma mordida prematura em uma das fatias de p\u00e3o, deliciosamente queimada na borda, como conv\u00e9m. Tendo obtido algum espa\u00e7o no copo, derramou nele um pouco de a\u00e7\u00facar e come\u00e7ou a mexer com a colherinha.<\/p>\n<p>O modo como mexia a colher para misturar o a\u00e7\u00facar, a delicadeza antiquada com que envolveu a fatia de p\u00e3o no guardanapo de papel, sua paci\u00eancia de bebericar o caf\u00e9 com leite entre sopros quase inaud\u00edveis\u2026 Cada uma destas coisas era normal, somente o conjunto delas surtia o efeito de estranhamento. Aquele homem passava impress\u00e3o de meticulosidade, de c\u00e1lculo, uma eleg\u00e2ncia que n\u00e3o era, de forma alguma, habitual.<\/p>\n<p>O estranho n\u00e3o sabia que sua chegada cortara conversas, diminu\u00edra o volume das vozes, retivera aten\u00e7\u00f5es. Teria sido, de certa forma, um conhecimento in\u00fatil, considerando seus objetivos. Objetivos que, por outro lado, eram a principal curiosidade para as pessoas que estavam no estabelecimento enquanto ele inocentemente tomava sua m\u00e9dia e comia seu p\u00e3o com manteiga.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 estava por terminar, chamou novamente a aten\u00e7\u00e3o da balconista, mas da segunda vez n\u00e3o foi para outro pedido:<\/p>\n<p>&#8212; Estou procurando um endere\u00e7o, poderia me ajudar?<\/p>\n<p>A balconista interrompeu por instantes sua volta \u00e0 rotina e lhe concedeu migalhas de aten\u00e7\u00e3o. O estranho tirou do bolso um papel amassado, no qual se lia um endere\u00e7o pr\u00f3ximo, em caligrafia apertada e angulosa &#8212; que at\u00e9 parecia letra de m\u00e9dico. O estranho parecia bom conhecedor da alma humana e, entrevendo a curiosidade feminina, tratou de saci\u00e1-la para comprar coopera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Um amigo que mora nesse endere\u00e7o telefonou me convidando a uma visita. Acontece que nunca vim a essa cidade e n\u00e3o tenho ideia de onde fica esse lugar.<\/p>\n<p>A balconista, tendo conseguido decifrar o hier\u00f3glifos, apontou uma dire\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 pertinho. Segundo pr\u00e9dio, descendo a cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8212; Muito obrigado. Quanto \u00e9 tudo?<\/p>\n<p>Diante do pre\u00e7o, o fregu\u00eas talvez tenha imaginado que at\u00e9 a informa\u00e7\u00e3o tinha sido inclu\u00edda na conta. Mesmo assim agradeceu de novo e seguiu a dire\u00e7\u00e3o indicada. V\u00e1rios olhares se cravaram em suas costas enquanto ele sa\u00eda, mas depois se perderam de novo em suas conversas cotidianas. Talvez apenas o forasteiro tivesse ficado um pouquinho preocupado se tivesse percebido que a mo\u00e7a do caixa, uma loura vesga e magra que usava a roupa larga, talvez para disfar\u00e7ar uma magreza an\u00f4mala, pegou um telefone m\u00f3vel e avisou, numa liga\u00e7\u00e3o brev\u00edssima: &#8220;Ele chegou&#8221;.<\/p>\n<p>O estranho caminhou mais alguns passos, olhando com aten\u00e7\u00e3o as plaquinhas com os n\u00fameros dos pr\u00e9dios, pois j\u00e1 passara antes duas vezes pela mesma rua se notar o 433. Daquela vez, por\u00e9m, conseguiu achar: estava oculto dentro de uma varanda, perto dum vaso de samambaia. Ao lado da varanda subia uma escadaria. &#8220;N\u00famero 433, Segundo Andar.&#8221; S\u00f3 poderia ser l\u00e1.<\/p>\n<p>A porta ficava na lateral do apartamento, oculta da vis\u00e3o da rua gra\u00e7as ao p\u00f3rtico de cimento que havia sobre a sa\u00edda da escadaria, no qual se localizava uma jardineira cheia de voluptuosos arbustos com flores. Tocou a campainha.<\/p>\n<p>O apartamento estava todo fechado e de dentro s\u00f3 se ouvia um ru\u00eddo muito baixo, como o de um aparelho el\u00e9trico funcionando continuamente. A custo p\u00f4de ouvir o raspado de passos que se aproximavam da porta. Conseguiu imaginar o amigo verificando pelo olho m\u00e1gico se era era seguro abrir, e isto deu-lhe a impress\u00e3o de que a vizinhan\u00e7a n\u00e3o seria segura como parecia.<\/p>\n<p>O forasteiro n\u00e3o poderia estar pronto para a cena inusitada com que se deparou quando a porta foi aberta: uma figura vestida de negro dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a, esta quase completamente envolta por um engra\u00e7ado chap\u00e9u pontiagudo, revestido de papel aluminizado. O formato daquele adere\u00e7o concentrou a aten\u00e7\u00e3o do forasteiro, que tinha ganas de rir, mas receava ferir os sentimentos de seu anfitri\u00e3o. Por fim, num esfor\u00e7o da vontade, desviou o olhar do misterioso chap\u00e9u e percebeu que o jovem que atendera \u00e0 porta tamb\u00e9m estava cal\u00e7ado de pantufas de veludo e usava \u00f3culos com aros de pl\u00e1stico, emendados com ep\u00f3xi.<\/p>\n<p>Depois de alguns instantes de estranhamento, o forasteiro p\u00f4de conectar a figura que tinha diante de si com a fotografia conhecida da pessoa que o convidara:<\/p>\n<p>&#8212; V\u00edtor? Que\u2026?<\/p>\n<p>&#8212; Boa tarde, Chico.<\/p>\n<p>&#8212; Eh, sim. Boa tarde. Mas\u2026 que diabo \u00e9 isso na sua cabe\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8212; Isso!? Ah, uma longa hist\u00f3ria. Entre.<\/p>\n<p>Conheciam-se da Internet. Eram copropriet\u00e1rios de uma &#8220;comunidade&#8221; de usu\u00e1rios em um s\u00edtio de relacionamentos. Trocavam mensagens eletr\u00f4nicas quase diariamente, mas n\u00e3o haviam nunca sequer ouvido a voz um do outro. Apesar disso, haviam desenvolvido um respeito m\u00fatuo, constru\u00eddo exclusivamente a partir da capacidade que cada um demonstrava ao argumentar.<\/p>\n<p>Nada disso, por\u00e9m, daria ideia da cena que Francisco achara. A vis\u00e3o de V\u00edtor naqueles trajes, \u00e0quela hora da tarde, n\u00e3o era f\u00e1cil de aceitar racionalmente. E Francisco era um homem do tipo racional e razo\u00e1vel, com atitudes e conceitos bastante normais para os fat\u00eddicos anos 2000. Especialmente considerando o tipo de nicho em que a &#8220;comunidade&#8221; estava inserida.<\/p>\n<p>Para Francisco, as personalidades que empregava na internet eram todas fic\u00e7\u00f5es, imposturas que lhe convinham, pordivers\u00e3o ou por estrat\u00e9gia. Mas sabia separar os &#8220;cavaleiros das trevas&#8221; daquilo que ele pr\u00f3prio realmente era. Sabia, por\u00e9m, que algumas pessoas n\u00e3o t\u00eam a mesma capacidade, ou preferem assumir personalidades semelhantes, dentro e fora do virtual. E nem sempre fica claro qual se baseia em qual. No caso de V\u00edtor, pesava a forte suspeita de que a personalidade real havia sido, de algum modo, alterada pelas experi\u00eancias que o virtual proporcionara.<\/p>\n<p>Aceitou o convite j\u00e1 meio receoso. Temia encontrar, talvez, o por\u00e3o cheio de esqueletos, ou o refrigerador cheio de cad\u00e1veres semidevorados de gar\u00e7onetes. Demorou a se acostumar \u00e0 penumbra que reinou na sala depois que V\u00edtor fechou a porta por onde entrara. As vidra\u00e7as estavam meticulosamente cobertas, deixando passar s\u00f3 algumas gotas esparsas da luz forte do sol de setembro.<\/p>\n<p>Quando os olhos se acostumaram, notou a natureza do estranho brilho que brevemente percebera quando a porta fora aberta da primeira vez: as paredes eram meticulosamente cobertas de papel aluminizado &#8212; certamente o material que vedava as janelas e impedia a luz da primavera de entrar. Mesmo diante de mais esse choque, manteve-se frio e tentou conduzir uma conversa normal:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sabia que voc\u00ea usava \u00f3culos.<\/p>\n<p>&#8212; Ah, sim. Quase s\u00f3 tiro fotos sem. Por causa do reflexo.<\/p>\n<p>Por mais que tentasse se controlar, era imposs\u00edvel. Dentro de suas orelhas lhe gritavam perguntas teimosas, que precisavam ser feitas:<\/p>\n<p>&#8212; O que significa isso, V\u00edtor? Esse papel alum\u00ednio\u2026<\/p>\n<p>V\u00edtor pareceu surpreso pela pergunta:<\/p>\n<p>&#8212; Uai, Francisco? Voc\u00ea, mais do que ningu\u00e9m, deveria saber\u2026<\/p>\n<p>De fato sabia. S\u00f3 n\u00e3o conseguia imaginar que V\u00edtor levasse a s\u00e9rio a hist\u00f3ria de prote\u00e7\u00e3o contra for\u00e7as espirituais malignas que vagam no et\u00e9reo. Para Francisco, grim\u00f3rios eram apenas antigos incun\u00e1bulos medievais e renascentistas com obscuras f\u00f3rmulas de paganismos esquecidos, assunto meramente liter\u00e1rio e hist\u00f3rico, de forma alguma real. Mas ali estava, diante de seus olhos, o copropriet\u00e1rio e principal moderador da comunidade &#8220;Livros Malditos&#8221; residindo em um apartamento de paredes cobertas por papel-alum\u00ednio. A implica\u00e7\u00e3o disso era ainda mais grave: como as for\u00e7as do et\u00e9reo supostamente s\u00f3 se interessavam em impedir a obra dos evocadores, colocar prote\u00e7\u00e3o contra elas significava que o morador daquele apartamento andava conduzindo seus pr\u00f3prios rituais na Tradi\u00e7\u00e3o. Pela primeira vez Francisco se sentiu enervado de estar ali. Tentou contemporizar:<\/p>\n<p>&#8212; V\u00edtor, eu n\u00e3o creio que papel-alum\u00ednio\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Psiu, ou\u00e7a.<\/p>\n<p>Francisco calou a boca e ouviu apenas a passagem de um carro. Algo decepcionante para o outro. Quando quis retomar o assunto, V\u00edtor j\u00e1 tinha sequestrado a conversa para outro rumo:<\/p>\n<p>&#8212; Na verdade \u00e9 algo que tamb\u00e9m venho pensando, Chico. Papel-alum\u00ednio talvez n\u00e3o seja uma prote\u00e7\u00e3o eficaz. Talvez tenhamos de obter algo melhor.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou temer que o V\u00edtor estivesse louco. No caso de estar tentando obter o &#8220;algo melhor&#8221; que Francisco imaginava, loucura teria sido pouco. Mas, mesmo dentro dos limites de sua cren\u00e7a absurda, ele continuava se comportando de forma aparentemente coerente. Convidou-o a sentar-se e ofereceu suco de laranja.<\/p>\n<p>&#8212; H\u00e1 umas coisas de que preciso lhe p\u00f4r a par, Chico. Imagino que recebeu meu convite para a comunidade nova esta semana, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; A &#8220;Confraria dos Temer\u00e1rios&#8221;? Sim, recebi. At\u00e9 j\u00e1 aceitei e, se n\u00e3o me engano, voc\u00ea at\u00e9 me p\u00f4s como copropriet\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8212; Era o m\u00ednimo a fazer, pois voc\u00ea me fez copropriet\u00e1rio da &#8220;Livros Malditos&#8221;. Devo-lhe muito dos meus conhecimentos, caro Francisco. Por isso, mesmo estando a ponto de superar o que voc\u00ea me ensinou, eu me sinto no dever de compartilhar tudo contigo.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 n\u00e3o entendi o prop\u00f3sito da &#8220;Confraria&#8221;. N\u00e3o ficou claro para mim que tipo de experi\u00eancias teremos. Afinal, voc\u00ea diz na descri\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se trata de nada conhecido, nenhum grim\u00f3rio antigo\u2026 Parece que n\u00e3o quer, ou n\u00e3o sabe dizer do que se trata. Ali\u00e1s, foi justamente a curiosidade em saber o tipo de trabalho que voc\u00eas pretendem fazer que me trouxe aqui.<\/p>\n<p>&#8212; Exato, exato. Tive um conhecimento novo esse m\u00eas, Chico. Algo fascinante, inacredit\u00e1vel. No entanto, para ir at\u00e9 o fundo disso que descobri, vai ser preciso obter a ajuda e a energia de mais pessoas. Preciso dessa ajuda para conseguir fazer andar algo que pode mudar nosso entendimento da magia simp\u00e1tica tradicional.<\/p>\n<p>Francisco teve vontade de contar a V\u00edtor que &#8220;magia simp\u00e1tica tradicional&#8221; era para ele apenas objeto de estudos filol\u00f3gicos, antropol\u00f3gicos, hist\u00f3ricos, etc. Reteve a confiss\u00e3o na boca ao pensar que, se V\u00edtor n\u00e3o percebera isso nos dois anos em que fora copropriet\u00e1rio da &#8220;Livros Malditos&#8221;, n\u00e3o seria mesmo elegante &#8212; e nem seguro &#8212; jogar-lhe isso \u00e0 cara naquele momento.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo bem, quando faremos o sacrif\u00edcio humano? &#8212; perguntou, de forma ir\u00f4nica e preocupada. Se desconfiava da sanidade do amigo, melhor averiguar logo at\u00e9 que ponto estava fora de si.<\/p>\n<p>&#8212; Que sacrif\u00edcio humano, Chico? Est\u00e1 doido, ou esqueceu de tudo? Sacrif\u00edcios humanos n\u00e3o s\u00e3o para isso. Estamos falando de for\u00e7as elevadas e n\u00e3o de necromancia barata.<\/p>\n<p>&#8212; Exatamente que tipo de for\u00e7as?<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea logo saber\u00e1.<\/p>\n<p>Francisco sentiu-se meio idiota por ter pensado em sacrif\u00edcio humano, mas era tranquilizador saber que o claro desatino do amigo n\u00e3o atingia propor\u00e7\u00f5es homicidas. Confortado, resolveu jogar segundo as regras do outro. A tarde estava perdida mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Muito bem, ent\u00e3o vamos logo.<\/p>\n<p>&#8212; Venha comigo.<\/p>\n<p>Levantaram-se e sa\u00edram da sala para a copa. L\u00e1 Francisco teve outra vis\u00e3o chocante: havia mais quatro pessoas, tr\u00eas mulheres e um homem, todos vestidos de negro como V\u00edtor, usando semelhantes chap\u00e9us pontudos e revestidos de alum\u00ednio, ao redor de uma mesa de madeira negra.<\/p>\n<p>&#8212; Boa tarde, Gr\u00e3o-Mestre &#8212; disseram em coro.<\/p>\n<p>&#8212; Gr\u00e3o-Mestre? Como?<\/p>\n<p>&#8212; Antes de explicar, Chico, apresento os confrades Valdo, L\u00facia, Patr\u00edcia e C\u00e1tia.<\/p>\n<p>Ele disse os nomes apontando a cada um, cada vez sendo conclu\u00edda com um aceno de cabe\u00e7a. Valdo era um jovem sardento e um tanto magro, que ro\u00eda as unhas desagradavelmente. L\u00facia era a mais alta, a mais corpulenta tamb\u00e9m, a mais desagradavelmente p\u00e1lida. Patr\u00edcia tinha uma pele morena bem mais saud\u00e1vel, uma certa determina\u00e7\u00e3o no olhar que sugeria um pouco de estabilidade emocional. C\u00e1tia, por sua vez, n\u00e3o tinha nenhuma caracter\u00edstica que ressaltasse e poderia ter uma apar\u00eancia quase normal n\u00e3o fosse o <em>piercing<\/em> na l\u00edngua e a maquiagem exagerada. Aquele grupo de confrades n\u00e3o parecia muito promissor.<\/p>\n<p>C\u00e1tia ergueu a voz, firme e rouca, pedindo a Francisco que se sentasse \u00e0 cabeceira da mesa, de costas para uma parede de que pendia uma cortina escura. Ele obedeceu, quase mecanicamente, e aguardou que as coisas caminhassem com naturalidade porque, de fato, n\u00e3o tinha a mais remota ideia do que estava fazendo ali no meio daquela gente. Apenas vestiu uma express\u00e3o s\u00e9ria no rosto, p\u00f4s as m\u00e3os sobre a mesa e olhou para os demais, esperando que lhe dessem a deixa do que deveria dizer ou fazer. Tendo deixado Francisco \u00e0 vontade \u00e0 cabeceira da mesa, V\u00edtor pediu sil\u00eancio e passou a explicar os prop\u00f3sitos da reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Nosso plano \u00e9 executar uma Grande Obra M\u00e1gika, a partir de certas informa\u00e7\u00f5es que descobrimos recentemente. J\u00e1 faz um m\u00eas, pelo menos, que estamos nos reunindo pela Internet para acertar os detalhes. O que nos faltava era s\u00f3 algu\u00e9m com conhecimento dos mist\u00e9rios que nos pudesse guiar pelo Caminho. Ent\u00e3o surgiu o seu nome: voc\u00ea \u00e9 dono da &#8220;Livros Malditos&#8221;, autor de v\u00e1rios artigos sobre antigos grim\u00f3rios e ritos perdidos, artigos que n\u00f3s todos lemos e de que aprendemos muita coisa. Voc\u00ea possui e leu in\u00fameras obras sobre M\u00e1gika, tais como o &#8220;Ramo Dourado&#8221; de James Frazier, o &#8220;Dogma e Ritual&#8221; de Papus, etc. Al\u00e9m disso, voc\u00ea foi o \u00fanico que deu a entender que j\u00e1 tinha ouvido falar do Ritual do Livro Branco. Por isso, embora eu inicialmente n\u00e3o pensasse em traz\u00ea-lo ao grupo, voc\u00ea se mostrou a pessoa mais indicada, mais at\u00e9 do que eu mesmo, para a miss\u00e3o que vamos come\u00e7ar nesta tarde. Amigos, provaremos o Desconhecido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Francisco entendeu o motivo da reuni\u00e3o. O Ritual do Livro Branco era uma das coisas mais estranhas e esquizofr\u00eanicas de que ouvira falar, com alto potencial de causar dem\u00eancia ou, pelo menos, irremedi\u00e1vel perda de tempo. Consistia em tentar produzir o livro m\u00e1gico original a partir da inspira\u00e7\u00e3o de uma &#8220;alma coletiva&#8221; criada em um &#8220;c\u00edrculo de energia m\u00edstica&#8221; reunido em local especialmente configurado &#8212; o que explicava o revestimento de alum\u00ednio, para &#8220;isolar&#8221; influ\u00eancias exteriores, as roupas pretas, para evitar que a aten\u00e7\u00e3o fosse distra\u00edda por cores, e os chap\u00e9us pontiagudos, que funcionariam como antenas de capta\u00e7\u00e3o da tal energia m\u00edstica. Do meio das bobagens que seriam obtidas, os praticantes isolariam padr\u00f5es e textos que permitiriam obter uma revela\u00e7\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o original. Seria um processo longo e dif\u00edcil, pois haveria muito material para analisar e n\u00e3o era poss\u00edvel dividir o trabalho entre dezenas ou centenas de pessoas sem reduzir a qualidade. Talvez por esta raz\u00e3o, o sistema nunca fora implementado antes. Era incr\u00edvel que algu\u00e9m, em pleno s\u00e9culo XXI, tivesse concebido uma coisa t\u00e3o supersticiosa e ignorante do real sentido da magia antiga, mas era conceb\u00edvel que jovens sem nenhuma forma\u00e7\u00e3o em Antropologia ou Hist\u00f3ria se deixassem fascinar por tal coisa. Pelo menos n\u00e3o era um ritual que envolvesse sacrif\u00edcio humano.<\/p>\n<p>Fingindo fechar os olhos, mas mantendo-os ligeiramente abertos, Francisco come\u00e7ou a pensar nas op\u00e7\u00f5es que tinha. Se deixasse o apartamento zombando das cren\u00e7as deles, todos certamente ficariam todos muito ofendidos, mas isso talvez n\u00e3o os demovesse de sua obsess\u00e3o. Se ainda continuassem pensando em fazer magia tentariam faz\u00ea-lo sozinhos, sem a presen\u00e7a de algu\u00e9m mentalmente est\u00e1vel que pudesse interromper a loucura quando a coisa sa\u00edsse dos eixos ou, pior, poderiam encontrar algu\u00e9m ainda mais louco e perigoso para servir-lhe de guia. Mas se ficasse, teria uma chance m\u00ednima de mostrar-lhes, usando sua recente autoridade de Gr\u00e3o Mestre, que era tudo uma grande bobagem. Por isso, ou por ter sido seduzido por esta expectativa de poder, disse &#8220;sim&#8221; ao estranho grupo diante do qual exerceria desde o primeiro momento, o papel de supremo l\u00edder.<\/p>\n<p>&#8212; Eu aceito, claro, mas com uma condi\u00e7\u00e3o: preciso saber, desde j\u00e1, o que voc\u00eas pretendem quando conseguirem preencher o Livro Branco.<\/p>\n<p>Os cinco se entreolharam, meio perdidos, ou receosos.<\/p>\n<p>&#8212; Queremos o conhecimento &#8212; respondeu o sardento.<\/p>\n<p>&#8212; Conhecimento para obter o amor &#8212; disse L\u00facia, sem disfar\u00e7ar os dentes tortos.<\/p>\n<p>&#8212; Poder, controle, autocontrole &#8212; disse V\u00edtor.<\/p>\n<p>As respostas eram coerentes com o tipo de pessoas que os cinco mostravam ser: inseguros, socialmente reclusos e mentalmente inst\u00e1veis. Certamente custava-lhes um esfor\u00e7o imenso o comparecimento \u00e0quela reuni\u00e3o. Para pelo menos um deles aquela poderia ser a primeira vez que entrava em uma casa estranha. Francisco se identificou com eles, de certa forma. Dez anos antes tamb\u00e9m tinha sido inseguro e triste, recluso e cheio de ansiedade pelo amor. Talvez conseguisse ajudar aqueles cinco a superar seus bloqueios sem os sofrimentos que ele pr\u00f3prio tivera que vencer. Esta magia poderia ser mais \u00fatil do que qualquer f\u00f3rmula boba escrita em um caderno. Enquanto estivessem trabalhando naquela obra in\u00fatil, pelo menos estariam construindo rela\u00e7\u00f5es de amizade, rompendo o casulo que os isolava em seus mundos particulares. Com alguma sorte, poderiam desistir daquilo e seguir com a vida, levando algo de bom.<\/p>\n<p>&#8212; Como pretendem conseguir fazer a an\u00e1lise? Das outras vezes em que isso foi tentado n\u00e3o resultou em coisa alguma. Lembro-me agora que uma tal Jeanneline Dubois tentou na Luisiana, h\u00e1 cerca de quarenta anos. Ela ficou oito anos estudando milhares de folhas de rascunhos e s\u00f3 produziu cinco laudas de texto fragment\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8212; Temos algo que n\u00e3o existia h\u00e1 quarenta anos.<\/p>\n<p>Na parede oposta havia um m\u00f3vel de madeira escura, parcialmente coberto por uma toalha bordada. V\u00edtor se levantou, foi at\u00e9 l\u00e1 e o descobriu, mostrando um computador pessoal.<\/p>\n<p>&#8212; Pretende processar eletronicamente os textos?<\/p>\n<p>&#8212; Exato. Este computador foi cuidadosamente preparado para esta tarefa. Para come\u00e7ar, n\u00f3s compramos suas pe\u00e7as separadamente em dep\u00f3sitos de ferro-velho eletr\u00f4nico e o montamos n\u00f3s mesmos. Em seguida compilamos para ele uma distribui\u00e7\u00e3o Linux contendo exclusivamente o <em>software<\/em> de que precisamos. Estamos quase terminando de escrever o c\u00f3digo do compilador que vai analisar as amostras de textos. Quando pronto, imprimiremos o documento com esta impressora.<\/p>\n<p>V\u00edtor abriu a porta e mostrou, no c\u00f4modo ao lado, uma gigantesca m\u00e1quina que parecia sa\u00edda de um filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de trinta anos antes.<\/p>\n<p>&#8212; O que esta impressora tem de especial? Al\u00e9m de enorme?<\/p>\n<p>&#8212; Trata-se de uma laser de baixa defini\u00e7\u00e3o, clone das Apple antigas, ainda do tempo do DOS.<\/p>\n<p>A simples presen\u00e7a daquela impressora ali no apartamento era quase t\u00e3o surreal quanto os chap\u00e9us revestidos de alum\u00ednio.<\/p>\n<p>&#8212; Onde conseguiu esse dinossauro?<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea nem imagina o que se pode comprar nesses s\u00edtios de leil\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o quero nem pensar no quanto ficou caro remeter isso l\u00e1 da R\u00fassia, ou seja de onde for!<\/p>\n<p>&#8212; Com certeza ficou bem caro, mas valeu a pena.<\/p>\n<p>&#8212; Por que?<\/p>\n<p>&#8212; Como voc\u00ea sabe muito, todas as impressoras fabricadas ou homologadas nos Estados Unidos desde h\u00e1 pelo menos vinte anos cont\u00eam um c\u00f3digo de identifica\u00e7\u00e3o embutido no padr\u00e3o da tinta ou na distribui\u00e7\u00e3o do toner. Isto quer dizer que seria poss\u00edvel, com algum trabalho, identificar a origem de qualquer documento, descobrindo qual impressora o imprimiu.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o esta impressora,especificamente, deve ter este padr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 que ela j\u00e1 foi comprada e vendida in\u00fameras vezes. N\u00f3s a compramos, na verdade, de um ferro-velho eletr\u00f4nico, quase a um pre\u00e7o de banana. Gastamos mais dinheiro trazendo-a para c\u00e1 e tentando consertar do que realmente pagamos nela.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo isso para apenas ter uma impressora dif\u00edcil de rastrear? Isto \u00e9 loucura!<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o diga isso, voc\u00ea mesmo j\u00e1 escreveu que &#8220;nada que seja feito para proteger a liberdade de express\u00e3o pode ser chamado de erro&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; De fato, mas\u2026 era necess\u00e1rio chegar a esse ponto?<\/p>\n<p>&#8212; Certamente. O Livro Branco teria o poder de mudar o modo como vemos e entendemos o mundo. Quando ele surgir, metade das religi\u00f5es e filosofias se tornar\u00e1 hist\u00f3ria. Certamente esse impacto n\u00e3o ser\u00e1 bem-vindo e por isso acreditamos que haver\u00e1 um grande interesse em censur\u00e1-lo, seguido de uma tentativa de destruir quem o produziu.<\/p>\n<p>Francisco olhou em volta. Os olhos e rostos daqueles garotos estavam cheios de vontade de mudar o mundo, e eles acreditavam com toda sinceridade que conseguiriam mudar o pr\u00f3prio curso da civiliza\u00e7\u00e3o com os seus atos. Como somos ing\u00eanuos quando jovens! Parece t\u00e3o f\u00e1cil manipular a funda de Davi! Era f\u00e1cil sentir simpatia por eles, mas ao mesmo tempo era dif\u00edcil deixar de lado a impress\u00e3o de que estavam lamentavelmente fora de controle em suas ideias de revolu\u00e7\u00e3o. Era dif\u00edcil at\u00e9 supor que conseguiriam produzir o Livro Branco, ent\u00e3o como dedicar tanta preocupa\u00e7\u00e3o \u00e0s consequ\u00eancias?<\/p>\n<p>&#8212; Preciso saber em que ponto est\u00e3o. Mostrem-me seu trabalho.<\/p>\n<p>V\u00edtor abriu uma pasta preta que estava sobre a mesa e come\u00e7ou a distribuir material. Nessa tarefa ele era ex\u00edmio e s\u00f3 mais tarde Francisco entendeu porque, quando soube que era bibliotec\u00e1rio. Inicialmente vieram blocos de notas pautados e canetas pretas de ponta grossa, adequadas a m\u00edopes. Por fim a apostila, impressa em letras g\u00f3ticas de leitura desconfort\u00e1vel, na qual estava explicado, em linhas gerais, o Ritual do Livro Branco.<\/p>\n<p>A origem da apostila, traduzida de um jeito capenga, como se o tradutor fosse mais fluente em ingl\u00eas que no vern\u00e1culo, era a Internet, um s\u00edtio pseudo pag\u00e3o brit\u00e2nico, cujo endere\u00e7o ficara impresso no rodap\u00e9 de cada p\u00e1gina, certamente por descuido de quem formatara t\u00e3o \u00e0s pressas aquele documento.<\/p>\n<p>&#8212; Na verdade esta \u00e9 a primeira vez em que nos reunimos presencialmente. Todos os contatos anteriores foram pela Internet. Por\u00e9m, tra\u00e7amos um plano geral do que sabemos e do que pretendemos. Esta apostila \u00e9 a que mais se aproxima do que j\u00e1 sabemos. E esta &#8212; indicou outra ainda n\u00e3o traduzida, que parecia estar em um idioma diferente do ingl\u00eas &#8212; parece conter boa parte do que ainda precisamos saber. N\u00e3o temos, infelizmente, o trabalho de Jeanneline Dubois.<\/p>\n<p>&#8212; Posso providenciar isso depois. Agora, por favor, alguns minutos de licen\u00e7a.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a ler. Eram quatorze p\u00e1ginas, uma leitura r\u00e1pida para quem tinha leitura din\u00e2mica. Ao final, depositou a apostila sobre a mesa com cuidado e olhou nos olhos dos confrades.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos precisar de mais do que seis pessoas para fazer tudo isso. Eu j\u00e1 tinha ouvido falar do Ritual do Livro Branco, mas o procedimento que est\u00e1 descrito nesta apostila \u00e9 mais complicado. Jeanneline seguiu um procedimento muito menos complexo, talvez porque trabalhava sozinha e tinha no\u00e7\u00e3o de suas limita\u00e7\u00f5es. Certamente pode funcionar, porque os princ\u00edpios s\u00e3o corretos, mas isso n\u00e3o \u00e9 trabalho para meramente seis pessoas. Na verdade, acho que nem sessenta pessoas, em toda uma vida, conseguiriam levar esta obra at\u00e9 o final.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 esquecendo do computador.<\/p>\n<p>&#8212; Mesmo com o computador continua sendo um Trabalho de H\u00e9rcules. Imagino que o computador s\u00f3 ser\u00e1 \u00fatil na fase de an\u00e1lise textual, isto se tivermos at\u00e9 l\u00e1 conseguido desenvolver um algoritmo de procura que permita localizar os trechos relevantes. Antes sequer de come\u00e7ar a fazer esse processamento, ser\u00e1 preciso obter o material fonte e digitar tudo. Sem falar que alguns elementos n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis de processar eletronicamente, como desenhos, gr\u00e1ficos, acr\u00f3sticos e caligrafias.<\/p>\n<p>&#8212; Na pr\u00e1tica isto quer dizer: &#8220;come\u00e7ar logo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; Na pr\u00e1tica isto quer dizer: &#8220;mais gente&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; Temos mais gente, n\u00e3o se preocupe.<\/p>\n<p>V\u00edtor se ergueu da mesa, ao toque quase impercept\u00edvel de seu telefone m\u00f3vel, e foi abrir a porta. Entraram mais quatro pessoas, entre elas a mo\u00e7a loura e vesga que trabalhava no caixa da mercearia. V\u00edtor beijou-a na boca e lhe fez uma car\u00edcia nos cabelos de m\u00famia. Todos vieram para a copa, onde se localizava a mesa de reuni\u00f5es. Mais cadeiras foram providenciadas.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o somos dez? &#8212; indagou Francisco.<\/p>\n<p>&#8212; Doze &#8212; interveio a rec\u00e9m-chegada namorada do V\u00edtor &#8212; mas os outros tiveram que se atrasar hoje, por compromissos de trabalho.<\/p>\n<p>&#8212; Acha que \u00e9 suficiente, V\u00edtor?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei. Sinceramente n\u00e3o sei. Mas vamos come\u00e7ar com o que temos\u2026<\/p>\n<p>Esta pequena dose de realismo, talvez at\u00e9 de humildade, parecia destoar da autoconfian\u00e7a quase excessiva que predominava no grupo. Ind\u00edcio isolado de racionalidade, sinal de que n\u00e3o havia sido perdido todo o contato com a l\u00f3gica, apesar do comportamento paranoico que o grupo exibia. &#8220;N\u00e3o \u00e9 paranoia quando realmente est\u00e3o atr\u00e1s de voc\u00ea&#8221; &#8212; dizia um antigo humorista. Ser\u00e1 que realmente viriam atr\u00e1s do grupo? Ou estaria Francisco sucumbindo \u00e0s suas ilus\u00f5es?<\/p>\n<p>A loura vesga entregou um embrulho a V\u00edtor, que o guardou na geladeira depois de agradecer com outro beijo que quase dava asco, tanta a feiura da mo\u00e7a. Talvez o beijo fosse uma prova melhor de insanidade do que a pr\u00f3pria conspira\u00e7\u00e3o em que estavam metidos.<\/p>\n<p>&#8212; Com o que, ent\u00e3o, devemos come\u00e7ar a tentar obter o material base dos estudos &#8212; interveio Francisco, tentando evitar que a reuni\u00e3o degringolasse para uma exibi\u00e7\u00e3o de car\u00edcias de V\u00edtor na vassoura de pia\u00e7ava amarela.<\/p>\n<p>&#8212; Exatamente &#8212; disseram v\u00e1rios, em coro ansioso que demonstrava sentimentos possivelmente semelhantes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o todos se sentaram em torno da mesa, enquanto V\u00edtor trazia mais material de trabalho. Francisco olhou pela janela e viu o sol escaldante l\u00e1 fora, pensando consigo que seria melhor ficar pelo menos at\u00e9 a tarde refrescar. &#8220;Depois vou embora e desapare\u00e7o, antes que resolvam me matar&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Mercearia Santa Cec\u00edlia \u00e9 um desses lugares t\u00edpicos de cidade pequena. L\u00e1 se vende de tudo um pouco, mas principalmente p\u00e3es, bolos e biscoitos. \u00c0quela hora da tarde estava movimentada por dezenas de funcion\u00e1rios de escrit\u00f3rios e lojas, que se revezavam a tomar x\u00edcaras de caf\u00e9 expresso acompanhadas de p\u00e3o fresco com manteiga. 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