{"id":351,"date":"2011-01-15T16:12:00","date_gmt":"2011-01-15T19:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=351"},"modified":"2017-11-02T14:09:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:18","slug":"o-tratamento-homeopatico-da-solidao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/01\/o-tratamento-homeopatico-da-solidao\/","title":{"rendered":"O Tratamento Homeop\u00e1tico da Solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Comecei tendo os primeiros sintomas quando era ainda estudante. Vivia longe da fam\u00edlia numa cidade distante e demorei a me enturmar com os meus colegas da faculdade: eles zombavam de meu dialeto, me chamavam de caipira e n\u00e3o compreendiam os meus valores. Isto me afastava das festas das rep\u00fablicas e progressivamente me empurrou para longe da vida social: aluguei um apartamento no centro da cidade e tinha um emprego de meia jornada.<\/p>\n<p>Posteriormente eu me formei e o meu chefe me ofereceu o emprego em tempo integral, com um aumento de tr\u00eas vezes no sal\u00e1rio. Eu fiquei na cidade e todos os meus antigos colegas voltaram para suas casas distantes, entre eles a \u00fanica namorada que eu tive durante cinco anos de estudos. Meus pais continuaram vivendo em Santa Rita do Sul, a duzentos e vinte quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Tentei v\u00e1rias vezes retornar, mas nunca consegui perto de casa um emprego que me pagasse t\u00e3o bem. Era 1999 e eu j\u00e1 ganhava 920 reais por m\u00eas, administrando a contabilidade da empresa.<\/p>\n<p>Nos fins de semana os estudantes sempre iam embora, deixando a cidade vazia como um cen\u00e1rio de filme. Eu sentava na escadaria do adro da igreja no s\u00e1bado \u00e0 tarde, com um lanchinho posto em forma de piquenique. L\u00e1 do alto do morro eu me sentia isolado, desconectado, como se a Matriz existisse em outro universo. Quando passava algum carro l\u00e1 embaixo, na rua, eu quase nem o ouvia: o cal\u00e7amento de pedregulhos fazia os motoristas acelerarem pouco, n\u00e3o chegando a romper a calmaria.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia nada no s\u00e1bado \u00e0 noite, a n\u00e3o ser os bailes da Terceira Idade. A cidade n\u00e3o tinha r\u00e1dio, n\u00e3o tinha discoteca, n\u00e3o tinha exposi\u00e7\u00e3o. Tinha uma infinidade de casas que sediavam rep\u00fablicas, casas que ficavam vazias como mausol\u00e9us quando chegava o fim de semana. Os colegas de trabalho eram quase todos vinte anos mais velhos do que eu, ou ent\u00e3o garotos que viviam em cidades pr\u00f3ximas e voltavam de \u00f4nibus para casa no final da manh\u00e3 de s\u00e1bado. Somente eu ficava, vagando pela cidade como uma alma penada no cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Quando finalmente comprei o carro e consegui aprender a dirigir, j\u00e1 havia me acostumado tanto com a solid\u00e3o que tinha dificuldades para saber aonde ir. Dirigia at\u00e9 o trevo na sa\u00edda da cidade, estacionava em um terreno baldio e olhava, intimidado, para os destinos m\u00faltiplos, para as placas verdes que indicavam lugares distantes. Tinha medo da estrada, medo do trevo, medo da vida.<\/p>\n<p>Demorou muito tempo, por\u00e9m, para que eu percebesse que estava doente. Inicialmente eu pensei que tinha algum tipo de problema do esp\u00edrito e somente depois do fracasso da f\u00e9 entendi que n\u00e3o era nada disso. Mas continuava sozinho.<\/p>\n<p>Havia alguma coisa errada comigo, isso eu sabia. Alguma coisa de muito errada, alguma coisa que me afastava das pessoas, que me podava o caminho da felicidade. Mas em vez de reagir a isso eu me trancava, eu comprava cortinas escuras para as janelas, instalava filme escuro nos vidros do carro, mandava porem corti\u00e7a nos batentes das portas para isolar os ru\u00eddos de fora.<\/p>\n<p>Conheci o Doutor Aristides no clube. Eu tinha comprado uma quota, mesmo sabendo que l\u00e1 s\u00f3 encontraria senectude e solid\u00f5es. Mas o Doutor Aristides era diferente. Tinha uma jovialidade estranha para os seus setenta anos de idade, mesmo sem pintar os cabelos. Sua fala era firme como a de um locutor, seus dedos manuseavam o baralho com a seguran\u00e7a de um m\u00e1gico. Tinha sido m\u00e9dico da Marinha por muitos anos e se acostumara a tratar todo tipo de &#8220;esquisitices&#8221;.<\/p>\n<p>Convidou-me ao seu consult\u00f3rio, com a promessa de curar-me. N\u00e3o prometeu rapidez, no entanto. Era um &#8220;psic\u00f3logo homeopata&#8221;, e acreditava que a cura seria um processo a depender do pr\u00f3prio indiv\u00edduo, em vez de um efeito de medicamentos.<\/p>\n<p>&#8212; Eu poderia receitar-lhe qu\u00edmica maravilhosa, que interferiria com o seu c\u00e9rebro e o faria sorrir. Mas eu n\u00e3o consigo enxergar dentro dos sorrisos das pessoas que usam essas subst\u00e2ncias, n\u00e3o sei se estou realmente fazendo-lhes bem ou prendendo suas almas dentro de sorrisos r\u00edgidos. Por isso eu estou desenvolvendo um novo tratamento, que estou chamando de &#8220;psicologia homeop\u00e1tica&#8221;. Claro que n\u00e3o \u00e9 um tratamento aceito ou recomendado pelo CRP, mas eu posso me dar ao luxo de fazer estas extravag\u00e2ncias agora. Estou aposentado e nada mais tenho a perder no mundo, se resolverem me cassar esta carteirinha preta com essa bela letra grega em dourado. Tenho bastante dinheiro para ser louco e tenho bastante loucos dispostos a tudo para salvar-se de seus dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>&#8212; Estou louco, doutor?<\/p>\n<p>&#8212; Todos estamos, meu amigo &#8212; ele dizia.<\/p>\n<p>N\u00e3o me cobrava pelas consultas. Dizia que j\u00e1 tinha cobrado suficiente ao longo da vida para ter a casa e seu consult\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n\u00e3o estou fazendo caridade, entenda. A n\u00e3o ser, talvez, comigo mesmo.<\/p>\n<p>Demorou muito tempo at\u00e9 que eu entendesse o que o Doutor Aristides quisera dizer com esta observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O tratamento que ele propunha se baseava nos princ\u00edpios de Hahnemann: simila similibus curantur.<\/p>\n<p>&#8212; Para tratar-se de teu mal, o que precisas \u00e9 de pequenas doses controladas deste pr\u00f3prio mal. Assim como amor com amor se cura, solid\u00e3o se curar\u00e1 com solid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; De que forma eu posso ter doses controladas de solid\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Uma das coisas curiosas a respeito dos solit\u00e1rios \u00e9 que frequentemente eles s\u00e3o interrompidos naquilo que fazem em suas horas de solid\u00e3o. Desta forma, mesmo n\u00e3o tendo companhia real, eles n\u00e3o conseguem usufruir plenamente de sua solid\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 preciso que desenvolva m\u00e9todos e rituais que lhe assegurem que os seus momentos de solid\u00e3o sejam de solid\u00e3o verdadeira. Que n\u00e3o sejam interrompidos por um imbecil cobrando-lhe a conta do condom\u00ednio ou por um bo\u00e7al tocando m\u00fasica em uma festinha de anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por isso eu gostava de fazer piquenique no adro da igreja: ali eu estava imerso em meus pr\u00f3prios pensamentos e ningu\u00e9m aparecia para interromper!<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Doutor. N\u00e3o existe o risco de continuar sozinho o tempo todo?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, claro. Como ai dizendo. A falta de frui\u00e7\u00e3o completa da solid\u00e3o nos momentos que deveriam ser-lhe dedicados faz com que o indiv\u00edduo acabe tendo vontade de estar s\u00f3 nos momentos em que deveria buscar companhia. \u00c9 mais ou menos como a fome que se tem durante a tarde quando o almo\u00e7o \u00e9 insuficiente. Mas voc\u00ea n\u00e3o deve comer entre as refei\u00e7\u00f5es, porque isso o tornaria gordo e lerdo com o passar do tempo. Da mesma forma, procurar ficar sozinho em outros momentos em que n\u00e3o deveria estar, far\u00e1 com que se torne arredio e socialmente inapto.<\/p>\n<p>&#8212; E em que consiste o seu tratamento, Doutor?<\/p>\n<p>&#8212; Basicamente em duas coisas: assegurar a solid\u00e3o perfeita e satisfat\u00f3ria nos momentos em que for necess\u00e1rio que o indiv\u00edduo esteja sozinho e, por outro lado, procurar impedir totalmente que a solid\u00e3o se manifeste em todos os demais momentos de sua vida. Acredito que se conseguirmos um grau elevado de preserva\u00e7\u00e3o destes dois momentos distintos, isolando-os entre si, a doen\u00e7a da solid\u00e3o pode ser controlada ou, talvez, at\u00e9 mesmo curada. Estou iniciando o cadastramento de um grupo de volunt\u00e1rios para submet\u00ea-los a este tratamento que concebi. Se desejar participar, eis meu cart\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o tenho dinheiro para um tratamento psicol\u00f3gico longo, Doutor. Ganho bem, mas n\u00e3o t\u00e3o bem assim. A menos que o senhor tenha conv\u00eanio com o meu plano de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o diga isso. Eu n\u00e3o lhe cobrarei nada. O senhor \u00e9 que deveria ser pago por dispor-se a ajudar no progresso da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Peguei o cart\u00e3o enquanto nos desped\u00edamos depois de outra tarde de carteado e fui para casa determinado a ligar. Resolvi, no entanto, que tendo o Doutor me dado uma descri\u00e7\u00e3o t\u00e3o completa e funcional de seu m\u00e9todo, n\u00e3o era necess\u00e1rio que eu o procurasse: poderia automedicar-me, conduzir eu mesmo o tratamento, obtendo minha melhora sem o constrangimento de ter de frequentar um consult\u00f3rio de psic\u00f3logo.<\/p>\n<p>Por isso, acabei ligando para o Doutor Aristides e comecei na segunda feira seguinte o tratamento. Reservei e cronometrei estritamente as horas de minha vida em que deveria passar estritamente s\u00f3, sem a possibilidade de que me interrompessem. Durante estas horas, segundo o Doutor, eu deveria mergulhar o mais profundamente poss\u00edvel em meus pr\u00f3prios pensamentos e ideias, em meus sonhos frustrados de inf\u00e2ncia, em meus projetos pequenos de futuro.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o funcionou. Embora eu tivesse algum sucesso em isolar-me melhor nos momentos de solid\u00e3o, continuava sendo extremamente dif\u00edcil impedir que a solid\u00e3o pervagasse como uma sombra todos os demais momentos de minha vida. Impedir isso se mostrou muito cedo uma coisa imposs\u00edvel, acima das capacidades de um indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>O Doutor Aristides me recebeu sem questionar a demora. Ao lhe indagar a toler\u00e2ncia ele admitiu que a maioria das pessoas nunca aparecia:<\/p>\n<p>&#8212; O ser humano parece acreditar que pode curar-se da solid\u00e3o sozinho.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 conhecia a ess\u00eancia do m\u00e9todo, s\u00f3 n\u00e3o estava a par de sua implementa\u00e7\u00e3o. Surpreendeu-me a longa sequencia de perguntas que o m\u00e9dico me fez. Quando terminamos todos aqueles testes, aquelas perguntas de livre associa\u00e7\u00e3o, aqueles cartazes com borr\u00f5es e outras coisas curiosas; ele me olhou nos olhos e decretou:<\/p>\n<p>&#8212; O tratamento para a solid\u00e3o consiste em um tipo de terapia de grupo.<\/p>\n<p>&#8212; Algo como os alco\u00f3licos an\u00f4nimos? Aquela coisa de reuni\u00f5es em torno de um grande c\u00edrculo e filmes educativos e preces a Deus, etc.?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, absolutamente nada disso. Voc\u00ea n\u00e3o tem um v\u00edcio, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um pecador, voc\u00ea n\u00e3o comete crime algum. Voc\u00ea n\u00e3o precisa de perd\u00e3o e nem de reedifica\u00e7\u00e3o moral. Voc\u00ea \u00e9 um doente que precisa de um tratamento. S\u00f3 que o \u00fanico tratamento poss\u00edvel \u00e9 de uma natureza tal que se torna imposs\u00edvel lev\u00e1-lo adiante sem ajuda.<\/p>\n<p>Ele abriu um arm\u00e1rio cheio de caixas de rem\u00e9dios atravessadas por tarjas pretas. Aqueles frascos diab\u00f3licos bem poderiam estar estampados com caveiras em vez dos logotipos amea\u00e7adores de laborat\u00f3rios m\u00e1gicos localizados em cidades m\u00edticas.<\/p>\n<p>&#8212; Eu poderia lhe receitar alguns desses. Ali\u00e1s, pegue os que quiser no caso de querer ter uma viagem, eu lhe receito as doses seguras.<\/p>\n<p>Afastei-me do arm\u00e1rio como se ele contivesse feiti\u00e7os poderosos.<\/p>\n<p>&#8212; Mas estas subst\u00e2ncias n\u00e3o o curariam. Elas o fariam sorrir, certamente. Elas o fariam perder a vergonha e o fariam sonhar melhor. Todas essas coisas s\u00e3o boas, mas eu n\u00e3o acho bom tomar rem\u00e9dios para elas porque isso a\u00ed &#8212; ele apontou os frascos com o bei\u00e7o &#8212; \u00e9 como antit\u00e9rmico para pacientes tuberculosos. Voc\u00ea quer ficar sem febre? Pode tomar alguns comprimidinhos. Mas a infec\u00e7\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 dentro, roendo a sua vida. Quer rir? Este daqui \u00e9 \u00f3timo &#8212; ele exibiu um frasco de Prozac &#8212; para isso e para outras coisas mais. Mas de que adianta rir com a boca e com a mente consciente se as causas de sua tristeza est\u00e3o l\u00e1 dentro enterradas, prontas para germinar no dia em que a dose falhar ou seu dinheiro para comprar outra caixa tiver acabado? \u00c9 por isso que eu n\u00e3o acredito em rem\u00e9dios. N\u00e3o nos da minha especialidade.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o eu n\u00e3o vou tomar rem\u00e9dios, doutor?<\/p>\n<p>&#8212; Claro que n\u00e3o. A menos que se sinta mais confort\u00e1vel com a ideia de tomar alguma coisa que cause alguns efeitos colaterais. As pessoas costumam gostar de efeitos colaterais. &#8220;\u00c9 o rem\u00e9dio agindo, voc\u00ea tem que suportar isso para melhorar depois&#8221;.<\/p>\n<p>Demos juntos uma boa risada.<\/p>\n<p>&#8212; De vez em quando, filho. De vez em quando voc\u00ea precisa de algumas p\u00edlulas do dem\u00f4nio para poder enfrentar isso a\u00ed &#8212; ele indicou a janela e o grande mundo l\u00e1 fora com o seu queixo mal barbeado. A principal fun\u00e7\u00e3o dos psic\u00f3logos \u00e9 dar as doses certas, demarcar o limite entre sonhos felizes e o paciente ficar catat\u00f4nico e babando.<\/p>\n<p>&#8212; Do jeito que o senhor fala, at\u00e9 parece que algum dia poder\u00e1 me receitar um \u00e1cido.<\/p>\n<p>&#8212; E por que n\u00e3o? Veneno por veneno\u2026 Eu j\u00e1 estou velho demais para acreditar em po\u00e7\u00f5es, meu filho. Se te faz bem, ent\u00e3o tome uma dose segura depois de contratar algu\u00e9m para limpar a bosta que vai cagar na cal\u00e7a durante a viagem\u2026<\/p>\n<p>&#8212; O que vamos fazer agora?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 neste ponto que o m\u00e9todo de tratamento passa a precisar da coopera\u00e7\u00e3o de todos os que est\u00e3o se tratando, e do pr\u00f3prio terapeuta. Voc\u00ea precisa encontrar compromissos, mesmo que f\u00fateis, para impedir que a solid\u00e3o esteja presente nos outros momentos de sua vida. Da mesma forma como durante um tratamento existem momentos em que voc\u00ea est\u00e1 &#8220;tomando o rem\u00e9dio&#8221; e outros nos quais voc\u00ea &#8220;n\u00e3o est\u00e1 tomando o rem\u00e9dio&#8221;; e estes segundos s\u00e3o a maioria. Assim, voc\u00ea dever\u00e1 &#8220;estar sozinho&#8221; durante certo tempo, mas n\u00e3o poder\u00e1 estar sozinho durante o resto do tempo ou estaria tomando o rem\u00e9dio o tempo todo.<\/p>\n<p>&#8212; O que me levaria a uma overdose?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, meu amigo. Overdose \u00e9 um termo alop\u00e1tico. Ele n\u00e3o se aplica nesse caso. Na verdade, quanto mais rem\u00e9dio voc\u00ea tomar para o seu mal, menor ser\u00e1 o efeito. Se voc\u00ea permitir que a solid\u00e3o esteja presente em todos os momentos, mesmo que marginalmente, ent\u00e3o voc\u00ea nunca se curar\u00e1. \u00c9 preciso, em vez disso, reduzir a dose do rem\u00e9dio de forma progressiva at\u00e9 que ela se torne infinitesimal. Somente assim ele se tornar\u00e1 t\u00e3o potente que eliminar\u00e1 a doen\u00e7a de sua alma.<\/p>\n<p>Tendo feito estas observa\u00e7\u00f5es, ele me apresentou ao programa de tratamento. Os demais pacientes, seis ao todo, eram um grupo aleat\u00f3rio de pessoas da cidade. Alguns nascidos l\u00e1, a maioria pessoas vindas de fora. Pessoas de todas as idades, mas a maioria residindo na casa m\u00edstica dos trinta.<\/p>\n<p>Maria Helena Fontes era uma dessas matriarcas do interior que apreciam casa cheia de netos aos domingos e muitos parentes que v\u00eam de longe com hist\u00f3rias. Infelizmente ela tinha ficado vi\u00fava e perdido seu \u00fanico filho em um acidente de autom\u00f3vel, quinze anos antes. N\u00e3o se casara de novo porque n\u00e3o conseguia se recuperar do amor imenso que tivera pelo marido, cujas fotos ainda enchiam a casa. Mesmo que se tivesse casado, por\u00e9m, n\u00e3o teria tido filhos aos quarenta e cinco anos. A fam\u00edlia do marido se afastara dela, a pr\u00f3pria fam\u00edlia morria aos poucos, deixando-a sozinha em uma casa enorme, cuja criadagem ela quase j\u00e1 n\u00e3o podia pagar.<\/p>\n<p>Isabel era professora de educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica em uma escola p\u00fablica. Era bonita, embora o vi\u00e7o j\u00e1 lhe tivesse abandonado. Vivia sozinha em uma casinha herdada do pai, cercada por um jardim e por uma horta, cultivados ambos por suas m\u00e3os que viviam calejadas e sujas da tinta dos quadros que ela ainda insistia em pintar, embora raramente algu\u00e9m comprasse.<\/p>\n<p>Aderbal era um comerciante detestado pelos seus empregados devido a muitos erros cometidos no passado. A mulher o abandonara por causa de uma crise de ci\u00fames que lhe custara dois dentes. Aderbal vivia sob constante supervis\u00e3o da pol\u00edcia e o efeito de v\u00e1rios medicamentos de tarja preta. Seus filhos nunca o visitavam.<\/p>\n<p>Artur era empregado de uma loja de material de constru\u00e7\u00e3o. Era pequeno, feio e dentu\u00e7o, embora dono de voz afinada e de um raro talento com o viol\u00e3o. Infelizmente, voz e viol\u00e3o n\u00e3o importam mais neste mundo que precisa de belos rostos: o m\u00e1ximo que lhe propuseram como carreira art\u00edstica fora emprestar talento para um rosto adequado, em troca de um sal\u00e1rio que seria uma percentagem pequena. Reagira indignado e abortara a carreira. Agora vendia material de constru\u00e7\u00e3o e cantava em bares nos fins de semana. Ganhava pouco e vivia em um apartamento pequeno, de quarto e sala.<\/p>\n<p>Dagmar era enfermeira no Hospital Municipal. Anda sempre maquiada e com as unhas impec\u00e1veis, mas nunca sorria. Na cidade tinha a fama de ser uma s\u00e1dica, do tipo que fazia quest\u00e3o que a inje\u00e7\u00e3o sempre doesse, que o ponto da cirurgia sempre ficasse um pouquinho mais apertado que o necess\u00e1rio ou que o tapa nas n\u00e1degas da crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida fosse um pouco mais forte. Colara grau em uma \u00e9poca em que mulher com diploma ainda era um bicho esquisito no interior. Nunca namorara e provavelmente era virgem aos quarenta e dois anos.<\/p>\n<p>Julieta era uma adolescente gorda e que usava maquiagem pesada. Vestia-se pesadamente, tudo nela passava a impress\u00e3o de peso, de morte, de tristeza. Comia compulsivamente e sentia-se imensamente feia, baleia. N\u00e3o tinha amigos, n\u00e3o tinha namorado. Seus pais a mandavam de um m\u00e9dico para outro, de um regime para outro. Queriam pagar-lhe uma cara cirurgia em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o suportavam mais, queriam consertar a filha gorda a qualquer pre\u00e7o. Mas ela sempre passava em casa as noites solit\u00e1rias de s\u00e1bado, as horr\u00edveis manh\u00e3s de domingo, cada horr\u00edvel dia da semana, especialmente os de escola.<\/p>\n<p>Eles foram os primeiros que eu conheci: depois foram vindo outros, saindo outros.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00eas devem organizar-se de forma a suprimir a solid\u00e3o da vida dos demais nos momentos em que eles n\u00e3o estejam se tratando. Mas apenas nesses momentos. Devem organizar-se de forma que cada um esteja longe dos demais durante certas horas, mas ao mesmo tempo esteja com algu\u00e9m no resto do tempo, para limitar a aplica\u00e7\u00e3o do tratamento aos momentos designados. Como v\u00e3o fazer isso \u00e9 irrelevante, mas o importante \u00e9 limitar a dose.<\/p>\n<p>Organizamo-nos de diversas maneiras. A senhora Fontes fazia bolos e nos convidava para tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3 de domingo em sua casa. O Aderbal tinha uma ch\u00e1cara onde sempre organizava almo\u00e7os de domingo \u00e0 beira da piscina. O Artur nos convidava para estudar com ele para o concurso dos correios. A Isabel nos levava \u00e0s suas aulas de pintura no campo. E assim cada um ajudava a todos os demais no dif\u00edcil controle da solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil porque, mesmo em companhia, havia momentos em que a solid\u00e3o tentava se inserir, como uma cunha, o que poderia destruir a efic\u00e1cia da aplica\u00e7\u00e3o. Era preciso ent\u00e3o que algu\u00e9m se aproximasse e interrompesse a reflex\u00e3o solit\u00e1ria do paciente que se estivesse desgarrando. Manter a solid\u00e3o sob controle, limitada aos momentos em que deveria estar ser parte do tratamento, acabava sendo uma tarefa t\u00e3o complexa que nossas vidas come\u00e7aram a girar em torno disso.<\/p>\n<p>\u00c9ramos um grupo pequeno e difuso, formado por pessoas de temperamentos d\u00edspares e hist\u00f3rias de vida que vinham e iam por estradas que nunca ou raramente se encontrariam de outro modo. Mas todos \u00e9ramos solit\u00e1rios, cobaias do revolucion\u00e1rio tratamento homeop\u00e1tico proposto pelo Doutor Aristides. E por sermos parte daquilo de forma que se tornava cada vez mais obrigat\u00f3ria, acabamos convivendo \u00e0 for\u00e7a uns com os outros, criando v\u00ednculos de amizade ou de afeto.<\/p>\n<p>O tratamento inteiro durou oito meses para mim. Durante este tempo presenciei v\u00e1rias pessoas que se disseram curadas e v\u00e1rios pacientes que chegaram, em momentos distintos. Tamb\u00e9m houve alguns abandonaram o tratamento por raz\u00f5es de for\u00e7a maior, como o Artur, que passou no concurso e foi embora, levando sua solid\u00e3o ainda. Ou como a Isabel, que se matou devido ao pensamento fixo de que o tratamento n\u00e3o adiantaria. Foi uma grande perda. Isabel era bonita, eu gostava dela. A maioria, por\u00e9m, melhorou ou permaneceu em tratamento depois que eu mesmo sa\u00ed.<\/p>\n<p>A minha sa\u00edda, ali\u00e1s, foi gradual. Acredito que l\u00e1 pelo quinto m\u00eas eu j\u00e1 estava &#8220;saindo&#8221; sem o perceber. Foi preciso que o Doutor Aristides me fizesse ver que eu j\u00e1 estava fora. Nas primeiras semanas do tratamento havia pouca<\/p>\n<p>A cura aconteceu, para mim, de uma forma aleat\u00f3ria. O Doutor Aristides me telefonou no fim de semana. Eu estava na praia, em companhia da Eva, minha namorada.<\/p>\n<p>&#8212; Meus parab\u00e9ns, voc\u00ea est\u00e1 estabilizado. Gostaria que viesse ao meu consult\u00f3rio durante a pr\u00f3xima semana para termos uma conversa.<\/p>\n<p>Apareci no consult\u00f3rio t\u00e3o logo voltei. Logo ao entrar fiz a pergunta obrigat\u00f3ria:<\/p>\n<p>&#8212; Estabilizado ou curado?<\/p>\n<p>&#8212; Eu prefiro dizer que est\u00e1 estabilizado. N\u00e3o existe cura real para a solid\u00e3o. Mas tenho analisado a sua progress\u00e3o e posso dizer que voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o precisa do tratamento intensivo. Estou lhe dando alta do grupo de trabalho.<\/p>\n<p>Foi como se removessem o ch\u00e3o sob meus p\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8212; Por que diz isso? Como assim? Eu n\u00e3o vou mais participar do grupo? Fiz algo de errado?<\/p>\n<p>&#8212; Calma, rapaz. Examine a sua pr\u00f3pria vida e entender\u00e1. Isso n\u00e3o \u00e9 uma puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas eu ainda me sinto t\u00e3o s\u00f3 \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>&#8212; Sempre se sentir\u00e1. &#8220;Sentir-se s\u00f3&#8221; \u00e9 uma coisa que acontece com os seres humanos de vez em quando. &#8220;Sentir-se triste&#8221; tamb\u00e9m. N\u00e3o existe nenhum pecado nisso, n\u00e3o \u00e9 crime isso.<\/p>\n<p>&#8212; Quer dizer que voltarei a me sentir mal?<\/p>\n<p>&#8212; Claro que sim, e muitas vezes. A vida tem dessas coisas: dias bons e dias ruins. As pessoas \u00e0s vezes se esquecem disso porque n\u00f3s vivemos em um mundo que parece querer que todos estejam rindo o tempo todo, que todos estejam permanentemente prontos para o sexo, festejando a vida maravilhosa. Mas isso \u00e9 ilus\u00e3o, n\u00f3s dois sabemos que esse mundo \u00e9 uma merda, que todas as pessoas t\u00eam seus dias tortos e que \u00e9 uma sorte quando o seu santo e o da sua mulher est\u00e3o em sintonia para uma boa trepada.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 meio frustrante sair do tratamento assim.<\/p>\n<p>&#8212; Exatamente por isso que voc\u00ea precisa sair.<\/p>\n<p>&#8212; Hem?<\/p>\n<p>&#8212; Uma premissa do tratamento homeop\u00e1tico, mesmo desse tipo estranho de &#8220;homeopatia&#8221; que eu ando praticando, \u00e9 que o rem\u00e9dio s\u00f3 funciona enquanto existe doen\u00e7a. A partir do momento em que a doen\u00e7a deixa de existir o rem\u00e9dio passa a caus\u00e1-la. Sua frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado de sua participa\u00e7\u00e3o no grupo de terapia, e n\u00e3o de deix\u00e1-lo. Desapegue-se, garoto. Bata suas asas e viva sua vida. Aquilo l\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais para voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8212; Mas\u2026 e os meus amigos?<\/p>\n<p>&#8212; Caso n\u00e3o tenha notado, a maioria dos amigos que fez j\u00e1 sa\u00edram do grupo. Procure-os. E a prop\u00f3sito, pague-me o resto dos dois mil reais.<\/p>\n<p>Naquele instante eu me dei conta do quanto fora eficaz o tratamento. A conviv\u00eancia com todas aquelas pessoas diferentes me apresentara a figuras paternais, como a Senhora Fontes ou o pr\u00f3prio doutor, a amigos de verdade, como o Aderbal, uma esp\u00e9cie de afilhada, como a Julieta e at\u00e9 uma namorada, a Eva, com quem planejava me casar.<\/p>\n<p>&#8212; O objetivo do tratamento &#8212; disse-me o doutor indicando-me a sa\u00edda &#8212; n\u00e3o \u00e9 torn\u00e1-lo feliz porque isso \u00e9 imposs\u00edvel nesse mundo. Eu me contendo em tratar a solid\u00e3o das pessoas. Acredito que voc\u00ea \u00e9 mais um de meus casos de sucesso, e sem precisar receitar nada do maldito arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda do consult\u00f3rio passei o cart\u00e3o de cr\u00e9dito com a secret\u00e1ria e deixei o pr\u00e9dio me sentindo como quem acaba de montar um quebra-cabe\u00e7as de duas mil pe\u00e7as, mas descobriu que a figura n\u00e3o fazia nenhum sentido. As palavras do Doutor Aristides eram coerentes, mas eu as ouvia como se elas fossem de madeira. Elas faziam ru\u00eddo em meus ouvidos e n\u00e3o entravam em minha cabe\u00e7a. Eu s\u00f3 conseguia continuar me perguntando de que forma o Doutor Aristides merecera os dois mil reais.<\/p>\n<p>Quando perguntei para Eva, no entanto, ela foi pragm\u00e1tica:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o precisa saber como, querido. Basta voc\u00ea aceitar que ele os mereceu muito.<\/p>\n<p>Um m\u00eas e meio depois nos casamos. O Doutor Aristides n\u00e3o aceitou de maneira alguma o meu convite para padrinho de casamento. Na hora da cerim\u00f4nia, por\u00e9m, o motivo ficou claro: aparentemente n\u00e3o se chamava Aristides o risonho cavalheiro que entrou na igreja levando Eva pelo bra\u00e7o, envergando um rigoroso uniforme de m\u00e9dico da Marinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comecei tendo os primeiros sintomas quando era ainda estudante. Vivia longe da fam\u00edlia numa cidade distante e demorei a me enturmar com os meus colegas da faculdade: eles zombavam de meu dialeto, me chamavam de caipira e n\u00e3o compreendiam os meus valores. Isto me afastava das festas das rep\u00fablicas e progressivamente me empurrou para longe da vida social: aluguei um apartamento no centro da cidade e tinha um emprego de meia jornada. 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