{"id":387,"date":"2010-11-03T04:29:00","date_gmt":"2010-11-03T07:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=387"},"modified":"2017-08-12T23:11:23","modified_gmt":"2017-08-13T02:11:23","slug":"nos-os-botocudos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/11\/nos-os-botocudos\/","title":{"rendered":"N\u00f3s, os Botocudos"},"content":{"rendered":"<p>Aprender coisas novas nos faz pessoas melhores, tal \u00e9 o princ\u00edpio b\u00e1sico que justifica que tanto seja investido, pelos nossos governos ou por nossas fam\u00edlias, para que frequentemos escolas e adquiramos diplomas. Muitas vezes, o que \u00e9 aprendido na &#8220;vida estudantil&#8221; n\u00e3o tem import\u00e2ncia imediata; outras vezes, perturba o equil\u00edbrio do aluno com a comunidade em que ele vive; outras, por fim, ele afeta o equil\u00edbrio do pr\u00f3prio aluno, hipertrofiando certas \u00e1reas de sua personalidade enquanto reprime outras. Por esta raz\u00e3o, existe uma simbologia expl\u00edcita na escolha do curr\u00edculo pelo Estado e a defini\u00e7\u00e3o de prioridades pela fam\u00edlia ou pelo aluno: a determina\u00e7\u00e3o de ensinar isto, mas n\u00e3o aquilo \u00e9 t\u00e3o ideol\u00f3gica quanto a decis\u00e3o de estudar com afinco uma mat\u00e9ria, mas n\u00e3o outras. Em ambos os casos, os valores envolvidos ficam razoavelmente transparentes.<\/p>\n<p>Em nosso pa\u00eds d\u00e1-se uma import\u00e2ncia enorme ao ensino de matem\u00e1tica e de portugu\u00eas. Durante boa parte da &#8220;vida estudantil&#8221; somos bombardeados com cinco aulas de cada durante a semana, dez dos vinte e cinco hor\u00e1rios dispon\u00edveis (incluindo os hor\u00e1rios que ficam inexplicavelmente vagos) s\u00e3o ocupados por estas mat\u00e9rias, cinco aulas para cada uma. Esta \u00eanfase pode n\u00e3o ser suficiente para evitar que a maioria de nossos estudantes (tr\u00eas quartos, na verdade) saia da escola com s\u00e9rias dificuldades para entender textos simples, como vemos nesta reportagem da [Folhas de S\u00e3o Paulo](http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/dimenstein\/imprescindivel\/dia\/gd230402.htm#2) ou [nesse estudo]) da UBE, mas \u00e9 suficiente para inculcar nos alunos que portugu\u00eas e matem\u00e1tica s\u00e3o mat\u00e9rias importantes e que hist\u00f3ria, geografia, literatura, ci\u00eancias etc. n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas tudo se torna ainda mais dif\u00edcil quando se adiciona a quest\u00e3o do bilingualismo ao complexo problema da incompet\u00eancia generalizada da escola brasileira (sim, n\u00e3o existe palavra melhor para definir uma institui\u00e7\u00e3o que falha em 74% dos casos). Embora o Brasil seja um pa\u00eds de uma l\u00edngua s\u00f3, o dom\u00ednio do ingl\u00eas \u00e9 visto, h\u00e1 muitos anos, como um diferencial para a constru\u00e7\u00e3o de uma carreira de sucesso. Isto se deve a v\u00e1rios fatores, n\u00e3o apenas \u00e0 hegemonia econ\u00f4mica americana; ainda que esta seja o principal. Saber ingl\u00eas n\u00e3o \u00e9 importante somente porque nos habilita a ter acesso a um vasto cabedal de conhecimentos produzidos nessa l\u00edngua, \u00e9 tamb\u00e9m um fetiche, uma distin\u00e7\u00e3o de elite, uma forma de exclus\u00e3o social, uma ferramenta para deslumbrar os botocudos.<\/p>\n<p>Isto explica porque nossa elite \u00e9 t\u00e3o perme\u00e1vel a anglicismos, especialmente em certos setores profissionais que funcionam \u00e0 base de &#8220;buzzwords&#8221;, de &#8220;knowledge management&#8221; e &#8220;risk assessment&#8221; para o &#8220;empowerment&#8221; do &#8220;business&#8221; diante do &#8220;marketing&#8221; para agradar aos &#8220;stakeholders&#8221;. Complicar o que \u00e9 f\u00e1cil, turvar o que \u00e9 transparente, s\u00e3o t\u00e9cnicas que aumentam a &#8220;import\u00e2ncia&#8221; daquilo que se est\u00e1 dizendo, d\u00e1 uma aura de conhecimento arcano, de l\u00edngua sagrada, de ritual. *Eu n\u00e3o entendo o que ele est\u00e1 falando, mas deve ser importante, porque tem tanta palavra bonita*.<\/p>\n<p>O ingl\u00eas se presta a isso de forma exemplar. N\u00e3o apenas por ser uma l\u00edngua estrangeira, portanto capaz de adicionar o necess\u00e1rio grau de turbidez ao discurso de quem a emprega, mas tamb\u00e9m por ser a l\u00edngua central, a l\u00edngua do &#8220;imp\u00e9rio&#8221;. Para legitimar essa patranha, essa gente cria o mito de que o portugu\u00eas \u00e9 &#8220;dif\u00edcil&#8221; ou que \u00e9 uma l\u00edngua a que faltam certos mecanismos e voc\u00e1bulos essenciais. As palavras inglesas entram no idioma porque faltam meios para expressar o mesmo conceito em portugu\u00eas, pelo menos \u00e9 a vis\u00e3o dos paj\u00e9s que manipulam estes fetiches lingu\u00edsticos para deslumbrar aos selvagens.<\/p>\n<p>Claro que existem sempre certos conceitos que s\u00e3o dif\u00edceis ou at\u00e9 imposs\u00edveis de traduzir. Desafio algu\u00e9m a traduzir para o ingl\u00eas a palavra alguma destas incr\u00edveis express\u00f5es populares que temos. Mas na cabe\u00e7a de algu\u00e9m que domina assimetricamente os dois idiomas (melhor o ingl\u00eas do que o portugu\u00eas) \u00e9 f\u00e1cil xingar de intraduz\u00edveis palavras que poderiam ser facilmente substitu\u00eddas por outras em nossa l\u00edngua. Isto explica as palavras pomposas que apareceram mais acima, todas elas tidas como or\u00e1culos, como objetos sagrados e intoc\u00e1veis, digo, intraduz\u00edveis.<\/p>\n<p>Certamente uma pessoa que tivesse bom dom\u00ednio do portugu\u00eas saberia traduzir a maior parte delas, mas ah\u2026 temos um problema: o portugu\u00eas \u00e9 uma l\u00edngua &#8220;primitiva&#8221;, ele &#8220;n\u00e3o soa t\u00e3o bem&#8221; quanto o ingl\u00eas, *insn\u2019t it?*<\/p>\n<p>E assim, nas calhas de roda<br \/>\ngira a entortar a dic\u00e7\u00e3o<br \/>\neste monturo de termos<br \/>\nque n\u00e3o acha tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aprender coisas novas nos faz pessoas melhores, tal \u00e9 o princ\u00edpio b\u00e1sico que justifica que tanto seja investido, pelos nossos governos ou por nossas fam\u00edlias, para que frequentemos escolas e adquiramos diplomas. 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