{"id":3894,"date":"2017-04-12T20:45:23","date_gmt":"2017-04-12T23:45:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=3894"},"modified":"2017-11-02T14:07:54","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:54","slug":"autores-que-nao-leem-ensinam-o-que-nao-sabem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/04\/autores-que-nao-leem-ensinam-o-que-nao-sabem\/","title":{"rendered":"Autores que N\u00e3o Leem Ensinam o que N\u00e3o Sabem"},"content":{"rendered":"<p>Uma das consequ\u00eancias da falta do h\u00e1bito da leitura entre nossos autores \u00e9 a falta do dom\u00ednio pleno da l\u00edngua portuguesa, cada vez mais tida como disciplina optativa entre os que escrevem o futuro de nossa literatura. O sucesso de autores como Paulo Coelho e Raphael Draccon, que deixam transparecer em seu texto uma imensa ignor\u00e2ncia da gram\u00e1tica, da estil\u00edstica e da tradi\u00e7\u00e3o de nossa l\u00edngua serve como poderoso argumento em favor da superfluidade da cultura no idioma p\u00e1trio. De repente usar o vocabul\u00e1rio preciso se transformou em &#8220;arca\u00edsmo&#8221;, usar todos os tempos verbais \u00e9 &#8220;pedantismo&#8221;, concord\u00e2ncia perfeita \u00e9 &#8220;preciosismo&#8221;. Para os crimes mais graves, &#8220;algu\u00e9m vai revisar depois&#8221;. O problema \u00e9 que a cada gera\u00e7\u00e3o esse &#8220;algu\u00e9m revisor&#8221; \u00e9, tamb\u00e9m, menos culto, e a exig\u00eancia do p\u00fablico, cada vez mais pr\u00f3xima do r\u00e9s do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses autores, que leram muito pouco os nossos cl\u00e1ssicos e que acham que a mera corre\u00e7\u00e3o da norma culta \u00e9 um &#8220;ismo&#8221;, muitas vezes t\u00eam um bom dom\u00ednio de uma ou duas l\u00ednguas estrangeiras (em geral o ingl\u00eas) as tomam como modelo estil\u00edstico. Isso quando n\u00e3o s\u00e3o apenas monoglotas que leem p\u00e9ssimas tradu\u00e7\u00f5es e que tentam seguir conselhos traduzidos, movidos pelo fasc\u00ednio de uma cultura estranha que idolatram sem conhecer.<\/p>\n<p>Falta a essa gente a no\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de que o portugu\u00eas e o ingl\u00eas s\u00e3o l\u00ednguas diferentes, embora participantes da mesma fam\u00edlia indo-europeia. N\u00e3o se pode aportuguesar normas gramaticais e estil\u00edsticas do ingl\u00eas, assim como n\u00e3o se pode anglicizar as do portugu\u00eas. Mas \u00e9 isso o que normalmente se faz, e geralmente \u00e9 isso que se ensina em todo site da internet onde haja &#8220;dicas de escrita&#8221;. Como dizia o Raul, Deus explica e o diabo fica &#8220;dando uns toques&#8221;. Autores realmente relevantes d\u00e3o aulas e explica\u00e7\u00f5es que est\u00e3o al\u00e9m da compreens\u00e3o imediata dos apressados. Autores ignorantes ficam dando &#8220;dicas&#8221; e &#8220;toques&#8221; que s\u00e3o meras simplifica\u00e7\u00f5es grosseiras de coisas que foram escritas para uma outra l\u00edngua, e para a \u00edndole de outro povo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso nem dizer que as &#8220;dicas&#8221; e os &#8220;toques&#8221; alcan\u00e7am um p\u00fablico maior. Se a maioria das pessoas ignora a maioria das coisas, mesmo as essenciais, \u00e9 natural que a maioria das pessoas acatem aquilo que lhes ofende menos a ignor\u00e2ncia. Nada \u00e9 mais desagrad\u00e1vel a um ignorante do que confrontar-se com essa dura realidade. Mas se lhe dizemos que de fato n\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m do horizonte de seus conhecimentos, ou que aquilo que existe fora das fronteiras curtas de sua ignor\u00e2ncia n\u00e3o vale a pena saber, ent\u00e3o fazemos um amigo. Aquilo que o ignorante mais deseja \u00e9 &#8220;saber&#8221; que n\u00e3o precisa saber. As &#8220;dicas&#8221; e os &#8220;toques&#8221; funcionam estupendamente para isso. O resto \u00e9 &#8220;text\u00e3o&#8221; e &#8220;cont\u00e9m voltinhas&#8221;, \u00e9 prolixidade in\u00fatil, \u00e9 falta de capacidade de s\u00edntese. A pregui\u00e7a mental \u00e9 o novo esporte nacional. Ler d\u00f3i.<\/p>\n<p>Darei um exemplo bem claro para que se documente como est\u00e1 equivocada esta atitude, e maior ainda \u00e9 o equ\u00edvoco dos que se ofenderem, porque ter\u00e3o parado na pol\u00eamica inicial, sem conseguirem entender a explica\u00e7\u00e3o posterior. <em>Qui habet aures audiendi audiat.<\/em><\/p>\n<p>Falemos da voz passiva, esta injusti\u00e7ada.<\/p>\n<p>Recentemente come\u00e7aram a surgir nos grupos liter\u00e1rios dicas segundo as quais os autores deveriam evitar a voz passiva como se fosse uma praga. Portanto guardem esse artigo para futura consulta, voc\u00eas ainda se ofender\u00e3o muito com isso.<\/p>\n<p>Muitos autores que propagam esse conselho n\u00e3o sabem o que \u00e9 voz passiva. Recentemente, um autor que escreve muito bem e que eu at\u00e9 admiro, resolveu &#8220;cagar regra&#8221; e passou uma &#8220;dica&#8221; (olha o diabo a\u00ed) para eliminar &#8220;ao m\u00e1ximo&#8221; o uso da voz passiva. A dica consistia em procurar no seu texto todas as ocorr\u00eancias de &#8220;tinha&#8221; e &#8220;havia&#8221; e verificar o verbo a seguir. Segundo o autor, fazendo isso seria poss\u00edvel identificar e eliminar at\u00e9 95% dos &#8220;casos&#8221; (\u00e9 uma doen\u00e7a?) de voz passiva. Havia at\u00e9 uma recomenda\u00e7\u00e3o de que se substitu\u00edsse a estrutura verbal encontrada por uma simples, como, por exemplo, &#8220;eu havia feito&#8221; por &#8220;eu fiz&#8221;. Este conselho teve muitas curtidas, algumas devidas ao fato de tal autor ser talentoso, mas muitas em raz\u00e3o de um fato observ\u00e1vel de que quanto mais ignorante for um conte\u00fado, mais aplausos ele ter\u00e1, vide o Bolsonaro que nunca me deixar\u00e1 mentir.<\/p>\n<p>Ocorre que seguir esta &#8220;dica&#8221; n\u00e3o eliminaria NENHUMA ocorr\u00eancia de voz passiva sequer, mas induziria o infeliz autor a tentar podar de seu texto o pret\u00e9rito mais-que-perfeito composto! Vejam bem, uma dica para eliminar uma voz verbal induz o autor a trocar um tempo verbal. Em situa\u00e7\u00f5es normais o autor que propalasse esta &#8220;dica&#8221; seria <em>tarred and feathered<\/em> (j\u00e1 que tanto se ama usar anglicismos, usemos este que \u00e9 engra\u00e7ado). Porque n\u00e3o se concebe, em nenhuma literatura s\u00e9ria, que falte um conhecimento t\u00e3o b\u00e1sico a um autor que pretende ser modelo da l\u00edngua do futuro. Mas aqui n\u00e3o, n\u00f3s somos o pa\u00eds onde as grosserias gramaticais de Paulo Coelho s\u00e3o chamadas de &#8220;simplicidade&#8221; e a falta de cultura liter\u00e1ria de Raphael Draccon \u00e9 tida como &#8220;abordagem acess\u00edvel&#8221; ao p\u00fablico jovem. Ent\u00e3o ningu\u00e9m estranha que uma dica sobre voz verbal atinja um tempo verbal. Afinal \u00e9 tudo &#8220;verbal&#8221;.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio conselho de que se deve eliminar a voz passiva \u00e9 uma bestagem (tenho de usar esta palavra mais coloquial para \u00eanfase melhor). Claro que o uso excessivo dela n\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel, mas at\u00e9 mesmo o uso excessivo de \u00e1gua pode fazer mal \u00e0 sua sa\u00fade. N\u00e3o \u00e9 porque alguns morrem afogados que eu devo me submeter a um regime de sede permanente. \u00c9 essencialmente est\u00fapida a ideia de se eliminar da escrita algo que \u00e9 um entre muitos recursos da l\u00edngua. Quem teve a brilhante ideia de dizer que devemos amputar da l\u00edngua alguns de seus aspectos?<\/p>\n<p>Em ingl\u00eas, esse tipo de conselho faz algum sentido porque a voz passiva n\u00e3o soa natural. Nas demais l\u00ednguas germ\u00e2nicas a distin\u00e7\u00e3o entre atividade e passividade \u00e9 muito sutil, devido \u00e0 migra\u00e7\u00e3o da desin\u00eancia do partic\u00edpio para um prefixo e devido \u00e0 tend\u00eancia destas l\u00ednguas a deslocar o verbo auxiliar para o fim da frase. Em ingl\u00eas, devido \u00e0 influ\u00eancia francesa e latina, adotou-se uma voz passiva bizarra. Eliminar esta voz passiva leva o ingl\u00eas de volta para suas ra\u00edzes germ\u00e2nicas. Da mesma forma h\u00e1 o conselho, em ingl\u00eas, de se evitar os poliss\u00edlabos, porque estes s\u00e3o, em sua quase totalidade, latinismos ou galicismos. Ent\u00e3o, eliminar os poliss\u00edlabos significa regermanizar o ingl\u00eas. Em ambos os casos a dica faz sentido e est\u00e1 em sintonia com a hist\u00f3ria do ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Em portugu\u00eas, a voz passiva \u00e9 um recurso gramatical herdado do latim e que ainda segue as estruturas t\u00edpicas das l\u00ednguas rom\u00e2nicas. Ela n\u00e3o soa arcaica e nem posti\u00e7a.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o se deve escrever um texto com excesso de voz passiva porque isto obscurece a a\u00e7\u00e3o e dificulta o entendimento da sequ\u00eancia narrativa, mas h\u00e1 muitas situa\u00e7\u00f5es nas quais a voz passiva \u00e9 o \u00fanico meio poss\u00edvel para se narrar algo. Por exemplo: existem coisas que n\u00e3o podem agir, somente podem ser alvo de a\u00e7\u00e3o. Um recibo, por exemplo, s\u00f3 pode &#8220;ser emitido&#8221;, ele n\u00e3o pode emitir a si mesmo, e sempre for\u00e7ar a coloca\u00e7\u00e3o de um sujeito para emitir o recibo \u00e9 errado, a\u00ed sim, porque, na maioria das vezes, para contornar a necessidade de um uso da passiva, voc\u00ea teria que introduzir um personagem, o que lhe custaria mais palavras a escrever, e ao leitor mais palavras e conceitos para absorver. Existe uma raz\u00e3o pela qual a voz passiva existe: ela \u00e9 \u00fatil. Se ela fosse in\u00fatil, n\u00e3o existiria. Se ela tivesse se tornado in\u00fatil, teria j\u00e1 desaparecido como a mes\u00f3clise, que hoje s\u00f3 resta na boca de poetas antiquados e presidentes pedantes.<\/p>\n<p>Infelizmente, esse tipo de conselho prospera porque, como dito acima, a ilus\u00e3o rasa de conhecer oferece mais conforto do que a verdade. E \u00e9 justamente entre os escritores que vicejam mais vigorosamente as ilus\u00f5es, o tal <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Efeito_Dunning-Kruger\">efeito Dunning-Krueger<\/a>, eles que s\u00e3o especialistas nelas. E nem falemos das diversas ignor\u00e2ncias que nos limitam a todos, mas que a alguns imp\u00f5em tamb\u00e9m uma incapacidade de perceber essas falhas.<\/p>\n<p>Este texto provavelmente atrair\u00e1 mais cr\u00edtica do que quaisquer &#8220;dicas&#8221; e &#8220;toques&#8221; equivocados que pululam pela internet. Mentiras f\u00e1ceis de engolir sempre ser\u00e3o mais populares. N\u00e3o existe nada mais contraproducente no mundo do que dizer a verdade, ningu\u00e9m quer isso. Minta de manh\u00e3 at\u00e9 a noite todos os dias de sua vida e voc\u00ea ter\u00e1 mais amigos, ser\u00e1 mais amado e ter\u00e1 uma pr\u00f3spera carreira profissional. Seja sincero em tudo e voc\u00ea ser\u00e1 o inc\u00f4modo, o chato, o amargo, o sem-educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso eu n\u00e3o costumo ter pena daqueles que s\u00e3o enganados por maus conselhos. Muito antes de ouvirem esse mau conselho, a v\u00edtima rejeitou v\u00e1rios que eram bons. Rejeitou-os porque eram muito prolixos, porque n\u00e3o eram simp\u00e1ticos, porque falavam de dificuldades em vez de prometer para\u00edsos. A culpa, claro, \u00e9 da verdade por n\u00e3o ser t\u00e3o bela quanto a ilus\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das consequ\u00eancias da falta do h\u00e1bito da leitura entre nossos autores \u00e9 a falta do dom\u00ednio pleno da l\u00edngua portuguesa, cada vez mais tida como disciplina optativa entre os que escrevem o futuro de nossa literatura. O sucesso de autores como Paulo Coelho e Raphael Draccon, que deixam transparecer em seu texto uma imensa ignor\u00e2ncia da gram\u00e1tica, da estil\u00edstica e da tradi\u00e7\u00e3o de nossa l\u00edngua serve como poderoso argumento em favor da superfluidade da cultura no idioma p\u00e1trio. 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