{"id":39,"date":"2013-05-15T07:00:00","date_gmt":"2013-05-15T10:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=39"},"modified":"2017-08-13T01:22:40","modified_gmt":"2017-08-13T04:22:40","slug":"traducao-abandonados-em-andromeda-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/traducao-abandonados-em-andromeda-3\/","title":{"rendered":"[Tradu\u00e7\u00e3o] Abandonados em Andr\u00f4meda [3]"},"content":{"rendered":"<p>> [Original de Clark Ashton-Smith](http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/traducao-abandonados-em-andromeda-clark-ashton-smith)<\/p>\n<p>As horas se arrastaram. Eles conversaram com uma loquacidade espor\u00e1dica, mas febril, em um esfor\u00e7o para vencer o nervosismo de que tinham plena, mas incontrol\u00e1vel, consci\u00eancia. Homens fortes e maduros como eram, sentiram-se \u00e0s vezes como crian\u00e7as sozinhas no escuro, com uma horda de monstruosos terrores cercando-os de todos os lados. Quando o sil\u00eancio ca\u00eda, a informul\u00e1vel estranheza e horror das trevas circundantes parecia chegar mais para perto, e eles n\u00e3o ousavam ficar calados muito tempo. O sil\u00eancio dos c\u00e9us difusos e do ch\u00e3o opaco era opressivo com uma amea\u00e7a inimagin\u00e1vel. Uma vez, ouviram um som distante, como o ranger e estalar de uma engrenagem enferrujada. Ele logo cessou e n\u00e3o se repetiu, mas em intervalos longos havia estr\u00eddulos curtos e agudos, como os de insetos, que pareciam vir de mais perto. Eram t\u00e3o altos e desagrad\u00e1veis que os dentes dos tr\u00eas homens iam ao limite quando os ouviam.<\/p>\n<p>Subitamente perceberam que a escurid\u00e3o come\u00e7ava a clarear. Uma cintila\u00e7\u00e3o fria rastejou pelo ch\u00e3o e as massas rochosas se definiram mais claramente. A luz era muito peculiar, pois parecia emanar do solo e subir tremulando em ondas vis\u00edveis como as do calor. Era levemente iridescente, como o nimbo de uma lua entre nuvens, e, ganhando for\u00e7a, logo pareceu compar\u00e1vel ao luar terrestre em seu poder de ilumina\u00e7\u00e3o. Abaixo dela o solo exibia uma cor cinza esverdeada e uma consist\u00eancia que lembrava o barro meio seco. Os lados das forma\u00e7\u00f5es rochosas eram claramente iluminados, embora seus topos permanecessem na sombra. A subst\u00e2ncia musgosa que os cobria tinha uma tonalidade p\u00farpura e era muito comprida, r\u00fastica e peluda.<\/p>\n<p>Os amotinados ficaram muito perplexos com a luz:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 algum tipo de radia\u00e7\u00e3o? \u2014 Perguntou Roverton \u2014 \u00c9 fosforesc\u00eancia? \u00c9 devida a algum micro-organismo luminoso, um tipo de noctiluca?<\/p>\n<p>Ele desceu e olhou mais de perto as ondas tr\u00eamulas de iridesc\u00eancia. Ent\u00e3o soltou uma exclama\u00e7\u00e3o. A luz, ao subir, parecia cheia de gr\u00e3os de poeira infinitesimais, que flutuavam a cerca de trinta cent\u00edmetros do ch\u00e3o em seu voo mais alto. Eles se acumulavam incessantemente at\u00e9 esse n\u00edvel em abundantes milh\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Anim\u00e1lculos de alguma esp\u00e9cie. \u2014 decidiu Roverton \u2014 Evidentemente seus corpos s\u00e3o muito luminescentes, quase d\u00e1 para ler sob essa luz.<\/p>\n<p>Ele olhou seu rel\u00f3gio e viu que os n\u00fameros eram claramente distingu\u00edveis. Depois de um tempo a estranha luminosidade come\u00e7ou a diminuir e desceu para o solo como ela tinha surgido. A escurid\u00e3o restabelecida n\u00e3o foi, por\u00e9m, de grande dura\u00e7\u00e3o. Logo a paisagem exibiu seus contornos mais uma vez, e desta feita a luz veio de uma maneira normal, como a aurora de uma manh\u00e3 nublada. Ficou ent\u00e3o vis\u00edvel uma plan\u00edcie, com ondula\u00e7\u00f5es mal percept\u00edveis e coberta de d\u00fazias de forma\u00e7\u00f5es rochosas esf\u00e9ricas, que se perdia na dist\u00e2ncia por causa dos jatos de vapor agitado que subiam do ch\u00e3o. Uma torrente pregui\u00e7osa e pl\u00fambea corria pela plan\u00edcie, a cerca de sessenta metros de onde Roverton e seus companheiros estavam sentados, at\u00e9 se perder na n\u00e9voa. Logo os vapores, a princ\u00edpio incolores, se tingiram de cores cada vez mais fortes \u2014 rosa, a\u00e7afr\u00e3o, amarelo e p\u00farpura \u2014 como se uma aurora se erguesse por detr\u00e1s. Havia uma claridade no centro desta vis\u00e3o prism\u00e1tica, e era \u00f3bvio que se tratava do corpo solar, Delta Andromed\u00e6, que subira acima do horizonte. O ar ficou rapidamente mais quente. Vendo a torrente pr\u00f3xima, os homens todos se lembraram que estavam excessivamente sedentos. A \u00e1gua talvez n\u00e3o fosse pot\u00e1vel, mas decidiram arriscar. O l\u00edquido era peculiarmente espesso, leitoso e opaco. O gosto era um tanto salobro, mas mesmo assim aliviou sua sede e eles n\u00e3o sentiram efeitos nocivos imediatos.<\/p>\n<p>\u2014 Agora o desjejum, se pudermos achar um. \u2014 disse Roverton \u2014 N\u00e3o nos falta nada a n\u00e3o ser comida, utens\u00edlios e combust\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acho que encontraremos nada disso ficando onde estamos \u2014 observou Adams. De todos os buracos desolados! Vamos!<\/p>\n<p>Come\u00e7ou uma discuss\u00e3o sobre a dire\u00e7\u00e3o que deveriam tomar. Todos se sentaram de novo em uma das massas musgosas roxas para decidir o problema t\u00e3o importante. A paisagem era igualmente est\u00e9ril e assustadora para todos os lados, mas eles por fim concordaram em seguir o fluxo do c\u00f3rrego pl\u00fambeo, que corria para o espet\u00e1culo da aurora. Estavam prontos para levantarem-se quando a pedra em que se sentavam pareceu saltar para cima de repente. Adams se viu estatelado no ch\u00e3o, mas os outros dois foram bastante r\u00e1pidos para salvarem-se do mesmo destino. Assustados, eles saltaram para longe e, olhando para tr\u00e1s, viram que a grande massa tinha se aberto, como se fendida pelo centro, revelando um buraco imenso, bordejado de um material branco que parecia o interior do est\u00f4mago de um animal. O material tremia incessantemente e um liquido gelatinoso brotava de dentro dele, como saliva ou fluido digestivo.<\/p>\n<p>\u2014 Deus do c\u00e9u! \u2014 exclamou Roverton. Quem sonharia com algo parecido? \u00c9 uma planta, um animal, ou ambos?<\/p>\n<p>Ele se aproximou da massa, que n\u00e3o dava sinais de movimento a n\u00e3o ser o estremecimento. Aparentemente ficava enraizada ou profundamente inserida no ch\u00e3o. Ao se aproximar, a produ\u00e7\u00e3o do l\u00edquido gelatinoso se tornou mais copiosa.<\/p>\n<p>Um estr\u00eddulo agudo parecido com os ru\u00eddos ouvidos durante a noite se ouviu ent\u00e3o. Ao voltar-se, os amotinados viram uma criatura das mais singulares voando em sua dire\u00e7\u00e3o. Era grande como uma x\u00edcara de ch\u00e1, mas tinha a apar\u00eancia geral de um inseto em vez de um p\u00e1ssaro. Tinha quatro asas grandes, pontudas e membranosas, um corpo grosso e vermicular, marcado em segmentos, uma cabe\u00e7a fina com dois ap\u00eandices perisc\u00f3picos pretos em cima, uma d\u00fazia de antenas intricadas e um bico verde-amarelado que parecia o de um papagaio. Corpo e cabe\u00e7a eram de um cinza nojento como a cor de um verme. A coisa passou voando por Roverton e pousou na subst\u00e2ncia que ele estivera examinando. Agachando sobre quatro pernas rudimentares e curtas, ela come\u00e7ou a sugar o fluido com seu bico, batendo as asas enquanto o fazia. O fluido jorrou como em ondas e as asas e o corpo da criatura logo estavam brilhando daquele lodo. Ent\u00e3o ela parou de sugar e sua cabe\u00e7a afundou no fluido, ela lutou debilmente para se libertar e ent\u00e3o ficou im\u00f3vel.<\/p>\n<p>\u2014 Eca! \u2014 disse Deming \u2014 Ent\u00e3o \u00e9 isso. Um tipo Andromedano de planta carn\u00edvora ou de papa-moscas. Se as moscas s\u00e3o todas assim, precisaremos de raquetes de t\u00eanis em vez de mata-moscas.<\/p>\n<p>Enquanto ele falava, mais tr\u00eas das criaturas inset\u00f3ides voaram em torno deles e come\u00e7aram a repetir o destino da predecessora. T\u00e3o logo elas estavam bem presas a massa peluda come\u00e7ou a se fechar at\u00e9 que o revestimento branco n\u00e3o estava mais discern\u00edvel. A fenda por onde se abrira mal podia ser detectada e a coisa parecia mais uma vez um grande calhau musgoso. Olhando em torno, os amotinados viram que outras tinham se aberto e esperavam por suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>\u2014 Essas coisas poderiam facilmente devorar a um homem \u2014 meditou Roverton \u2014 e eu detestaria ser pego numa delas. Vamos sair daqui se houver como.<\/p>\n<p>Ele seguiu o caminho ao longo do c\u00f3rrego pregui\u00e7oso. Enquanto seguiam-no, viram muitos mais dos insetos voadores, que n\u00e3o prestaram nenhuma aten\u00e7\u00e3o aparente. Depois que j\u00e1 haviam percorrido umas poucas centenas de metros, Roverton praticamente pisou numa criatura negra que parecia uma enorme minhoca e que se afastava rastejando da margem. Teria um metro de comprimento, seus movimentos eram extremamente vagarosos e os homens passaram por ela com um tremido de repulsa, pois a coisa era mais nojenta que uma serpente ou qualquer verme.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>Roverton tinha parado e estava ouvindo. Os outros tamb\u00e9m pararam e ouviram atentamente. Todos ouviram o som de golpes abafados, perdidos a uma indeterminada dist\u00e2ncia na neblina. O som era quase ritmado em sua repeti\u00e7\u00e3o, mas se interrompia \u00e0s vezes. Quando parava, havia o som estridente de um coro de pipilados agudos.<\/p>\n<p>\u2014 Continuamos? \u2014 Roverton tinha baixado a voz, cuidadosamente. Estamos desarmados e s\u00f3 o diabo sabe no que nos meteremos. Podemos encontrar seres inteligentes, mas n\u00e3o h\u00e1 meios de saber previamente se eles ser\u00e3o hostis ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes que seus companheiros pudessem responder, a neblina se dissipou e revelou um espet\u00e1culo singular. N\u00e3o mais que uns cem metros c\u00f3rrego abaixo, uma d\u00fazia de seres parecidos com pigmeus, com cerca de meio metro de altura, se reunia em torno de uma das massas roxas. Com instrumentos cuja forma geral sugeria facas e machados eles cortavam o revestimento musgoso e arrancavam grandes nacos do material carnoso e branco que havia dentro. Mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia se podia ver que a massa se agitava convulsivamente, como se sentisse os golpes.<\/p>\n<p>Subitamente o corte foi suspenso. Uma vez mais os pipilados se ouviram. Os pigmeus, todos, se voltaram e pareceram olhar na dire\u00e7\u00e3o de Roverton e seus companheiros. Ent\u00e3o o som mudou e ganhou uma nota alta, rascante, como um chamado. Como se o atendessem, tr\u00eas monstruosas criaturas apareceram da neblina. Cada uma teria seis metros de comprimento, e eram todas como lagartos gordos e tinham um n\u00famero indefinido de pequeninas pernas sobre as quais se arrastavam ou rastejavam com admir\u00e1vel rapidez. Cada uma delas tinha quatro selas de um modelo fant\u00e1stico, dispostas em intervalos sobre o dorso. Elas se abaixaram, como se ouvissem um comando, e todos os pigmeus montaram com incr\u00edvel agilidade. Ent\u00e3o, ao som de gritos estridentes, a cavalgada extraterrestre avan\u00e7ou contra os viajantes. N\u00e3o havia tempo para sequer pensar em fugir. A velocidade das criaturas-lagarto era muito mais que a do mais veloz dos corredores: em uns poucos instantes eles alcan\u00e7aram os tr\u00eas homens, cercaram-nos e os contiveram com seu comprimento mastod\u00f4ntico. As criaturas eram ao mesmo tempo grotescas e terr\u00edveis, com suas cabe\u00e7as de sapo atarracadas e seus corpos balofos pintados com desenhos sinistros, em azuis p\u00e1lidos, negros desbotados e amarelos argilosos. Cada uma delas tinha um \u00fanico e arregalado olho que brilhava com uma fosforesc\u00eancia rubra no meio de sua face. Suas orelhas, ou o que pareciam ser orelhas, ca\u00edam ao lado de suas mand\u00edbulas em dobras enrugadas, pendurando-se como barbelas.<\/p>\n<p>Seus ginetes, vistos de perto, eram igualmente bizarros e medonhos. Suas cabe\u00e7as eram grandes e globulares, eram c\u00edclopes, mas possu\u00edam duas bocas, uma em cada lado de um ap\u00eandice como a tromba de um elefante, que ficava dependurada quase at\u00e9 seus p\u00e9s. Seus bra\u00e7os e pernas eram em quantidade normal, mas pareciam ser muito male\u00e1veis e sem ossos, ou tinham uma estrutura \u00f3ssea radicalmente diferente da dos vertebrados terrestres. Suas m\u00e3os tinham quatro dedos com membranas interdigitais translucentes. Seus p\u00e9s tamb\u00e9m possu\u00edam membranas, mas terminavam em longas garras recurvas. Estavam completamente nus, pareciam ser pelados e sua pele exibia uma palidez de chumbo. As armas que carregavam eram feitas de um metal arroxeado, de uma cor parecida \u00e0 do permanganato de pot\u00e1ssio. Algumas eram alabardas de cabo curto, outras eram facas em formato de lua crescente, que terminavam em cabos pesados.<\/p>\n<p>\u2014Deus! \u2014gritou Roverton. Se pelo menos n\u00f3s tiv\u00e9ssemos armas para elefantes ou fuzis autom\u00e1ticos!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acho que encontraremos nada disso ficando onde estamos \u2014 observou Adams. De todos os buracos desolados! Vamos!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As horas se arrastaram. Eles conversaram com uma loquacidade espor\u00e1dica, mas febril, em um esfor\u00e7o para vencer o nervosismo de que tinham plena, mas incontrol\u00e1vel, consci\u00eancia. Homens fortes e maduros como eram, sentiram-se \u00e0s vezes como crian\u00e7as sozinhas no escuro, com uma horda de monstruosos terrores cercando-os de todos os lados. Quando o sil\u00eancio ca\u00eda, a informul\u00e1vel estranheza e horror das trevas circundantes parecia chegar mais para perto, e eles n\u00e3o ousavam ficar calados muito tempo. 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