{"id":396,"date":"2010-10-18T18:58:00","date_gmt":"2010-10-18T21:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=396"},"modified":"2017-11-02T14:09:21","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:21","slug":"consideracoes-sobre-a-imobilidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/consideracoes-sobre-a-imobilidade\/","title":{"rendered":"Considera\u00e7\u00f5es Sobre a Imobilidade"},"content":{"rendered":"<p>Eu devo ser uma das pessoas mais inquietas desta cidade. N\u00e3o por ser irrequieto: n\u00e3o sou nenhum \u00abazougue\u00bb (palavra herdada de minha av\u00f3 que eu guardava numa bonita caixa e fiquei anos tentando encaixar numa cr\u00f4nica, at\u00e9 finalmente conseguir). A quest\u00e3o \u00e9 que eu preciso estar constantemente com a minha mente ocupada de algo. Nenhuma pessoa leva t\u00e3o a s\u00e9rio que a mente vazia \u00e9 a \u00aboficina do dem\u00f4nio\u00bb (e olha que eu nem creio nele).<\/p>\n<p>Pensar \u00e9 imperativo. Se eu n\u00e3o tiver algo s\u00e9rio e \u00fatil para ocupar minhas engrenagens cerebrais eu come\u00e7o logo a inventar futilidades sobre as quais pensar: foi essa a raz\u00e3o e o mecanismo do desenvolvimento de meu h\u00e1bito liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o consigo pensar direito se eu n\u00e3o estiver me mexendo. N\u00e3o necessariamente me exercitando, mas manipulando qualquer coisa j\u00e1 serve. Pode ser um teclado, como nesse momento, uma bolinha de borracha, uma caneta, ou o meu pr\u00f3prio cabelo. Manter o corpo ocupado (ou pelo menos parte dele) me desocupa a mente para malversar voc\u00e1bulos e conceitos e resulta em ideias, que podem virar textos ou redemoinhar rumo ao olvido nas dobras de minha imagina\u00e7\u00e3o confusa e contradit\u00f3ria, que levou dez anos para concluir um romance cuja a\u00e7\u00e3o se desenrola toda em quatro dias.<\/p>\n<p>Quando saio caminhando me bate o desespero de sair tomando nota das coisas. Como n\u00e3o tenho caneta e papel \u00e0 m\u00e3o, vou repetindo e reelaborando as ideias, como um rapsodo antigo que ia compondo seus versos. Quando retorno para casa eu tenho longas frases prontas, escritas numa cad\u00eancia ritmada, com o uso de alitera\u00e7\u00f5es, met\u00e1foras e rimas para servir de marcos mnem\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Quando estou deitado na cama, esperando o sono que ainda n\u00e3o vem, surgem planos para o futuro. Eu j\u00e1 me eduquei para n\u00e3o pensar em fic\u00e7\u00e3o na hora de dormir, para controlar o impulso febril de me levantar da cama, pegar um caderno e escrever trinta ou quarenta p\u00e1ginas de prosa vertiginosa e quase ileg\u00edvel, na minha t\u00edpica caligrafeia vacilante de quem tem uma personalidade t\u00e3o r\u00fastica e rascunhada. Mesmo assim tais epis\u00f3dios ainda acontecem, especialmente se passa da meia noite e ainda n\u00e3o dormi.<\/p>\n<p>Estou explicando tudo isso para tentar fazer-me entender sobre a rea\u00e7\u00e3o exacerbada que eu tive um dia desses, na pra\u00e7a central da cidade, ao contemplar uma cena que talvez n\u00e3o tivesse nenhum efeito em uma pessoa comum.<\/p>\n<p>Eu estava caminhando pela pra\u00e7a, em uma miss\u00e3o profissional, quando me deparei com uma Kombi branca, velha e com marcas de um inc\u00eandio, estacionada sob o sol de fritar ovo. Dentro do ve\u00edculo, sentada no banco traseiro, com as pernas abertas e os bra\u00e7os grossos estendidos sobre o encosto do assento, estava uma mulher imensamente gorda.<\/p>\n<p>O que me incomodou nesta cena n\u00e3o foi a mulher ser gorda: eu nada tenho contra gordos. O que me incomodou n\u00e3o foi ela ser feia: problema dela e do marido dela, n\u00e3o meu. O que me incomodou n\u00e3o foi ela estar usando um vestido que parecia uma cortina ou uma capa de abajur (ela o abajur). Nada disso.<\/p>\n<p>O que me incomodou foi ela estar ali parada, olhando para o tempo com um olhar vago, de quem n\u00e3o est\u00e1 absolutamente pensando em nada.<\/p>\n<p>Para mim \u00e9 dif\u00edcil conceber que algu\u00e9m possa estar olhando para o nada sem pensar em coisa alguma. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o angustiante supor que isso possa estar acontecendo, mais ou menos a sensa\u00e7\u00e3o angustiante que nos toma quando vemos uma pessoa em coma.<\/p>\n<p>Mas simplesmente a mulher estar l\u00e1, inerte, n\u00e3o teria sido suficiente para me chocar tanto se o dia n\u00e3o estivesse t\u00e3o quente, se n\u00e3o brilhasse no c\u00e9u aquele sol de arrebentar mamona. Ver aquela criatura sentada dentro do carro sob aquele sol, conseguindo n\u00e3o pensar em nada. Isso come\u00e7ou a me irritar.<\/p>\n<p>Eu tinha lido dias antes que os animais \u00e1rticos guardam uma camada de gordura sob a pele para proteger-se do frio. Curiosamente, ao ler isso, eu me lembrei que quando era mais magro (vinte e quatro quilos mais magro, para ser exato) eu sentia bem mais frio do que hoje. Ent\u00e3o, ver aquela mulher <span>gorda <\/span>sentada dentro do carro sob aquele sol, suando do jeito que ela estava, mas mesmo assim inerte!\u2026 eis o que me fez passar mal.<\/p>\n<p>Voltei para casa naquele dia sentindo uma d\u00favida existencial profunda, uma sensa\u00e7\u00e3o de quase inconformismo. Aquela mulher era mais fant\u00e1stica, ao meu ver, do que qualquer faquir que dorme sobre pregos ou qualquer milagreiro que caminha sobre brasas. Aquela mulher parecia os quatro santos judeus na fornalha (e considerando o tamanho ela bem poderia ser os quatro juntos).\n<\/p>\n<p>Deve haver uma esp\u00e9cie de beatitude em conseguir n\u00e3o pensar, um tipo talvez de felicidade. Que eu n\u00e3o conhe\u00e7o porque penso o tempo todo em algo. Estou sitiado por ideias e pensamentos que se digladiam o tempo todo, acima e abaixo do n\u00edvel de minha consci\u00eancia. A \u00fanica coisa que falta nesse universo de ideias \u00e9 a compreens\u00e3o de como seria poss\u00edvel a calma daquela mulher.<\/p>\n<p>Minha tentativa de entender aquela mulher \u00e9 como uma tentativa de explicar o sil\u00eancio empregando instrumentos musicais. El\u00e9tricos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu devo ser uma das pessoas mais inquietas desta cidade. N\u00e3o por ser irrequieto: n\u00e3o sou nenhum \u00abazougue\u00bb (palavra herdada de minha av\u00f3 que eu guardava numa bonita caixa e fiquei anos tentando encaixar numa cr\u00f4nica, at\u00e9 finalmente conseguir). A quest\u00e3o \u00e9 que eu preciso estar constantemente com a minha mente ocupada de algo. Nenhuma pessoa leva t\u00e3o a s\u00e9rio que a mente vazia \u00e9 a \u00aboficina do dem\u00f4nio\u00bb (e olha que eu nem creio nele). Pensar \u00e9 imperativo. 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