{"id":412,"date":"2010-09-23T08:13:00","date_gmt":"2010-09-23T11:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=412"},"modified":"2017-11-02T14:09:22","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:22","slug":"o-telefone","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/o-telefone\/","title":{"rendered":"O Telefone"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Meu primeiro texto de fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, datado de 2005 ou pouco antes, incorporando elementos, ent\u00e3o ainda bem vivos, das minhas impress\u00f5es da primeira viagem a\u00e9rea.<\/div>\n<p>Pensei no aparelho tranquilamente pousado \u00e0 cabeceira da pista, reluzindo sua pintura branca sob o sol at\u00edpico daquela tarde de inverno nebulosa e morna e me acalmei. Depois o vi taxiar paquidermicamente em dire\u00e7\u00e3o ao setor de embarque, sob os olhares tensos dos passageiros ainda indecisos se embarcariam ou n\u00e3o. Deteve-se ali, resfolegando como uma ave mitol\u00f3gica, at\u00e9 que todos entrassem.<\/p>\n<p>Entrei quase por \u00faltimo, ainda pensando se valia a pena correr outra vez o risco de voar naquelas aeronaves que t\u00e3o frequentemente andavam sofrendo acidentes horr\u00edveis. Mas qual acidente aeron\u00e1utico n\u00e3o \u00e9 horr\u00edvel? Qual argumento melhora a perspectiva de que n\u00e3o h\u00e1, na verdade, nenhuma verdadeira seguran\u00e7a em nada que o homem fa\u00e7a \u2014 ainda mais estas coisas de voar, t\u00e3o audazes e prec\u00e1rias que um simples p\u00e1ssaro as pode amea\u00e7ar?<\/p>\n<p>Dentro estava aquele ambiente estranho que s\u00f3 quem j\u00e1 esteve nas entranhas de um avi\u00e3o j\u00e1 p\u00f4de ouvir. Aquele zumbido agudo e ininterrupto das turbinas em baixa rota\u00e7\u00e3o, aquele cheiro de combust\u00edvel que sub-repticiamente invade atrav\u00e9s das portas que haviam aberto para que entr\u00e1ssemos, o odor de pl\u00e1stico e tecido lavado com detergente industrial. As comiss\u00e1rias de bordo transitavam pelo corredor orientando-nos com seus uniformes r\u00edgidos e suas faces pintadas de bonecas, suas vozes met\u00e1licas de aut\u00f4matos, quase artefatos, impessoalmente cumprindo rituais meticulosos e repetidos, atos quase m\u00e1gicos a esconjurar os perigos.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>&#8220;Se ocorrer despressuriza\u00e7\u00e3o da cabine, esta luz vermelha se acender\u00e1 e m\u00e1scaras de oxig\u00eanio cair\u00e3o dos compartimentos localizados acima dos assentos. Cubram o nariz e a boca, conforme estou mostrando, e respirem bem devagar para n\u00e3o perderem a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Qualquer ru\u00eddo estranho que perceberem, olhem para n\u00f3s. Se estivermos continuando nossas tarefas normalmente \u00e9 porque nada de anormal est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>&#8220;Se ocorrer alguma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, todos ser\u00e3o orientados a proceder de modo adequado. Em hip\u00f3tese alguma se levantem de seus assentos durante uma situa\u00e7\u00e3o de perigo. Esta atitude s\u00f3 servir\u00e1 para aumentar os riscos.&#8221;<\/p>\n<p>Tranquilizados ap\u00f3s sermos informados de que n\u00e3o h\u00e1 nada que possamos fazer para salvar-nos em caso de problemas, apressamo-nos todos a distrair-nos das possibilidades lendo os jornais, ouvindo m\u00fasica ou assistindo pela janela o desenrolar dos \u00faltimos preparativos.<\/p>\n<p>Esta aeronave dom\u00e9stica possui apenas uma classe, tr\u00eas assentos do lado esquerdo, dois do lado direito em cada fileira. Mais de cem pessoas se acomodam desconfortavelmente para a viagem que durar\u00e1, talvez, tr\u00eas ou quatro horas.<\/p>\n<p>Me pergunto se desta vez ainda conseguirei manter-me calmo diante da perspectiva de estar respirando o mesmo ar que tanta gente. Olho em torno para verificar com quem compartilharei o meu precioso alento e vejo uma miscel\u00e2nea de pessoas unidas apenas pela tens\u00e3o do embarque e pela inexpress\u00e3o em seus rostos.<\/p>\n<p>Uma jovem gr\u00e1vida, loura, de m\u00e3os dadas com seu marido de olhar obtuso e apar\u00eancia bovina. Um turista gringo, com roupas t\u00e3o coloridas como s\u00f3 eles e os palha\u00e7os t\u00eam coragem de usar, pigarreia insistentemente e bate as m\u00e3os com insist\u00eancia contra as pernas, como se espantando a tens\u00e3o de voar sob os cuidados de uma tripula\u00e7\u00e3o do Terceiro Mundo. Uma bela jovem de tra\u00e7os ind\u00edgenas, com dentes t\u00e3o brancos que parecem ser uma ilus\u00e3o, seios grandes e fl\u00e1cidos e cabelo t\u00e3o liso que me convida a correr meus dedos por ele afora. Um jovem negro, entretido com seu computador port\u00e1til, nervosamente ajeitando sobre o nariz seus \u00f3culos sem aros. Um senhor idoso e muito gordo, respirando ruidosamente e nunca fechando a boca desdentada, envolta em pelos desagradavelmente manchados de amarelo. Uma mulher mac\u00e9rrima, de nariz agudo e l\u00e1bios carnudos, quase como uma personagem de desenho animado. Duas mo\u00e7as negras, ambas bel\u00edssimas, vestidas de modo simples e quase elegante, conversam animadamente e gesticulam incompreens\u00edveis indica\u00e7\u00f5es de coisas e pessoas. Um homem jovem, talvez de vinte anos e pouco, excepcionalmente bem-vestido e at\u00e9 parecendo morto, de t\u00e3o calmo e alheio, ouvindo m\u00fasica de seu <em>walkman<\/em> enquanto seus olhos, sob duas cerradas sobrancelhas, permanecem fechados. Duas irm\u00e3s de caridade usando seus uniformes e suas faces impass\u00edveis. Um funcion\u00e1rio de alguma empresa, decerto subalterno (j\u00e1 que usa uniforme), mordendo os dedos com quase um \u00f3dio.<\/p>\n<p>E todos com suas hist\u00f3rias e seus adiamentos aguardam o instante de decolarem rumo a seus destinos. Tantas pessoas com hist\u00f3rias que eu nunca vou conhecer. Ningu\u00e9m interessado em conversar. Como eles me ver\u00e3o, se \u00e9 que me olhar\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8220;Aten\u00e7\u00e3o, senhores passageiros. Mantenham-se em seus assentos e apertem os cintos de seguran\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Olho pela janela e percebo que a aeronave ainda est\u00e1 parada. Subitamente sente-se um leve tranco e ela passa a deslocar-se, a princ\u00edpio t\u00e3o lentamente que parece n\u00e3o poder ir a lugar algum. O aeroporto, neste momento, parece um labirinto intermin\u00e1vel de caminhos n\u00e3o-sinalizados que o piloto tem de decifrar para atingir a pista autorizada e arremeter rumo ao c\u00e9u. Ocasionalmente passamos t\u00e3o junto a outros aparelhos que as asas quase parecem tocar-se. A tens\u00e3o carrega-se sobre n\u00f3s como eletricidade, a ponto de quase podermos ver as fagulhas. As comiss\u00e1rias recolheram-se a seus assentos tamb\u00e9m e est\u00e3o todos esperando o momento de desprendermo-nos no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegamos, ent\u00e3o, \u00e0 pista de decolagem. Qualquer um que visse de muito alto perceberia o aparelho como uma mosca arrastando-se pelo princ\u00edpio de um longo palito negro deitado sobre o ch\u00e3o. Mas para n\u00f3s que dentro dele estamos parece que a pista \u00e9 estreita a ponto de as asas estarem fora e qualquer resvalo no manche poder resultar em sairmos do estreito espa\u00e7o apropriado e cairmos em capotagem dantesca da qual n\u00e3o sobreviver\u00edamos. Um outro tranco, j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o leve quanto o primeiro, e estamos ganhando velocidade a uma taxa impressionante. Leigos como eu sequer estimam a quanto estamos quando, enfim, o comandante faz o avi\u00e3o arremeter de bico rumo ao c\u00e9u, oscilando no ar, por um momento, antes de, finalmente, assenhorar-se de suas for\u00e7as e erguer-se a cortar o ar quase verticalmente.<\/p>\n<p>Sinto o peso de minhas costas me empurrar para tr\u00e1s e a muito custo giro a cabe\u00e7a para olhar atrav\u00e9s da estreita vigia para ver o ch\u00e3o perder muito devagar sua import\u00e2ncia. Vamos subindo como um elevador sem cordas, sacudindo as vezes com as correntes de ar, as turbinas ocasionalmente parecendo engasgar. Ningu\u00e9m sorri neste momento, nem mesmo os mais acostumados. Os que j\u00e1 se calejaram de viagens distraem-se com futilidades enquanto os marinheiros de primeira viagens agarram-se aos seus assentos e preces. Os bravos, em sil\u00eancio. Os fracos, em murm\u00farios. Ningu\u00e9m presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 musiquinha que toca sem parar.<\/p>\n<p>As nuvens v\u00e3o chegando perto. Um certo receio ainda m\u00edstico atinge-nos quando deixamos a esfera original do homem e cruzamos o limiar dos dom\u00ednios amorfos e intoc\u00e1veis dos sonhos antigos. N\u00e3o vemos anjos nem deuses por aqui, apenas ocasionais ilhas de algod\u00e3o que flutuam sob n\u00f3s e deixam suas sombras t\u00eanues na paisagem segmentada do pa\u00eds que est\u00e1 l\u00e1 embaixo, deitado como um animal que jaz \u00e0s margens do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>O aparelho inclina-se ligeiramente \u00e0 esquerda para fazer a ampla curva que nos voltar\u00e1 para o norte-nordeste e \u00e9 neste momento que eu come\u00e7o a me sentir mais estranho que nas vezes antes em que viajara. Novamente o avi\u00e3o sacode e hesita na luta contra a altitude ainda insuficiente. Olho para tr\u00e1s em busca das comiss\u00e1rias para ler em seus rostos respostas para meu medo que acumula-se como uma febre galopante. Nada l\u00e1, elas n\u00e3o est\u00e3o \u00e0 vista e isto em vez de me dizer que a rotina continua me conta que algo est\u00e1 errado e a semente do p\u00e2nico germina dentro de mim, em terreno f\u00e9rtil e amplamente irrigado.<\/p>\n<p>Desta vez a sacudidela foi um arranco, e n\u00e3o como antes. Outros passageiros se agitam, voltam-se, perguntam-se, ou\u00e7o suspiros e o avi\u00e3o oscila ligeiramente da esquerda \u00e0 direita, como um navio ao sabor da mar\u00e9. Fito pela vigia, fixo meus olhos na turbina direita, sobre a qual o sol da manh\u00e3 retine, azedo e claro. Meus olhos leigos nada entendem que possa aumentar a apreens\u00e3o ou me curar a vontade de gritar por Deus, Al\u00e1 ou qualquer entidade sobrenatural que tenha asas e vontade de me tirar desse claro pesadelo.<\/p>\n<p>Recosto a cabe\u00e7a contra o assento e de repente a vibra\u00e7\u00e3o da aeronave muda de frequ\u00eancia. Alguma coisa cai l\u00e1 atr\u00e1s, com um impacto aud\u00edvel. Talvez algu\u00e9m que levantou-se. Outro baque e j\u00e1 ou\u00e7o gritos de desespero. Uma comiss\u00e1ria de bordo adentra o recinto, seu rosto de madeira n\u00e3o move um m\u00fasculo.<\/p>\n<p>&#8220;Aten\u00e7\u00e3o, senhores passageiros. Por favor, mantenham a calma. Estamos atravessando uma zona de turbul\u00eancia e o comandante ter\u00e1 de fazer altera\u00e7\u00f5es no plano de voo. Durante os procedimentos poder\u00e3o ocorrer ru\u00eddos estranhos ou sensa\u00e7\u00f5es de impacto causados pela acelera\u00e7\u00e3o ou pela desacelera\u00e7\u00e3o. Pedimos a todos que permane\u00e7am em seus assentos e conservem a tranquili\u2026.&#8221;<\/p>\n<p>Antes que pudesse terminar um estrondoso estalo se ouve. Olhamos v\u00e1rios de n\u00f3s atrav\u00e9s das vigias do lado direito e vemos, incr\u00e9dulos que a turbina parece estar se desprendendo da asa. Desta vez a mulher de madeira n\u00e3o consegue se manter impass\u00edvel, pois tamb\u00e9m v\u00ea. Olhamos todos em sua dire\u00e7\u00e3o, n\u00e1ufragos de esperan\u00e7as em busca de algum al\u00edvio. Ela n\u00e3o abre a boca, mas engole em seco e seus olhos parecem ser de vidro. De repente brilham estranhamente mais e ela se retira para a parte de tr\u00e1s dizendo &#8220;um momento, por favor&#8221; quase como se n\u00e3o tivesse nada a dizer, mas tinha.<\/p>\n<p>O comandante nitidamente altera o curso da aeronave. J\u00e1 n\u00e3o continu\u00e1vamos na intr\u00e9pida investida para cima. Nivelado a princ\u00edpio, logo o avi\u00e3o principia a inclina\u00e7\u00e3o \u00e0 frente que tanto tem\u00edamos. O \u00e2ngulo de descida revela a urg\u00eancia da manobra e aumenta exponencialmente meu desespero pois, como engenheiro, temo que uma estrutura visivelmente fatigada e fr\u00e1gil como a asa direita talvez n\u00e3o suporte o esfor\u00e7o de desacelerar e estabilizar rumo a um pouso de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Aten\u00e7\u00e3o, senhores passageiros. Aqui \u00e9 o comandante. Estamos iniciando uma descida de emerg\u00eancia. Permane\u00e7am em seus assentos e obede\u00e7am rigorosamente \u00e0s instru\u00e7\u00f5es das comiss\u00e1rias de bordo.&#8221;<\/p>\n<p>Duas mulheres atravessam o corredor, em passos inst\u00e1veis e j\u00e1 sem faces de bonecas. Maquiagens borradas e m\u00fasculos retesados ao m\u00e1ximo, suas vozes s\u00e3o mais por maquinismo que vontade. Elas foram treinadas para ter medo e sobreviv\u00ea-lo, para desesperar-se e salvar-se ao mesmo tempo, para chorar lutando e ajudar sem perguntar. Ensinam-nos a curvar-nos sobre o abd\u00f4men e cruzar os bra\u00e7os para aguardar o poss\u00edvel impacto. Depois de tudo terminado, dever\u00edamos procurar a orienta\u00e7\u00e3o do pessoal de bordo para a evacua\u00e7\u00e3o do aparelho.<\/p>\n<p>E elas logo abandonam-nos outra vez a nossos temores. Encolhidos fetalmemte aguardamos pelo momento crucial. O \u00e2ngulo de descida vai lentamente sendo suavizado, mas temo que a velocidade n\u00e3o. Com o rabo de um olho observo outra vez a turbina direita a tempo de outro impacto desarranjar-nos e v\u00ea-la despregar-se e, numa fina ironia, liberta do peso do aparelho, seguir adiante por instantes, antes de o combust\u00edvel faltar-lhe e ela morrer numa queda quase po\u00e9tica.<\/p>\n<p>A asa direita est\u00e1 espeda\u00e7ada e n\u00e3o resistira a nada mais. O aparelho j\u00e1 n\u00e3o desce em \u00e2ngulo algum, mas precipita-se em parafuso, cortando o ar loucamente como uma peteca. A serra verdejante se aproxima impiedosamente. Uma escurid\u00e3o se abate sobre nossos olhos como se nos recus\u00e1ssemos a ver a fatalidade derradeira. No \u00faltimo instante sinto o aparelho quase nivelar-se, esfor\u00e7o ou sorte, e a oscila\u00e7\u00e3o se estabiliza antes de um horr\u00edvel som arrebentar-nos de todo tipo de controle.<\/p>\n<p>Arrastar de \u00e1rvores. Rugido louco da turbina superior a invadir-nos atrav\u00e9s das janelas quebradas. Muita umidade da floresta purifica o ar curtido de tantas respira\u00e7\u00f5es sobressaltadas. E paramos.<\/p>\n<p>Longos suspiros atravessam todo o aparelho. Aos poucos as cabe\u00e7as v\u00e3o erguendo-se. Gritos de &#8220;Ai, meu Deus!&#8221; misturam-se a palavr\u00f5es. As comiss\u00e1rias voltam trazendo estojos de primeiros-socorros e sorrisos renovados.<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, algu\u00e9m est\u00e1 ferido?<\/p>\n<p>Poucos, bem poucos est\u00e3o. Alguns do fundo tomam a iniciativa de dar vivas ao piloto. V\u00e1rios amea\u00e7am levantar-se. E a essa altura nem as comiss\u00e1rias parecem interessadas em conter a efus\u00e3o de al\u00edvio que incendeia a todos. Menos a mim que me sinto estranho e ainda n\u00e3o entendo o que pode ter acontecido. Mas entendo e estou feliz. E pe\u00e7o apenas que algu\u00e9m que traga-me \u00e1gua t\u00f4nica com gelo e lim\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouve-se outro estrondo. Um grito extremo e diversas pessoas atiram-se ao desespero.<\/p>\n<p>\u2014 Calma, calma! \u2014 solicita o pessoal de bordo \u2014 Este ru\u00eddo foi apenas a abertura das sa\u00eddas de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma das comiss\u00e1rias tenta abrir a porta para a cabina de comando, mas est\u00e1 travada por dentro. Pelo intercomunicador ningu\u00e9m de l\u00e1 responde, nublando por um momento o al\u00edvio que sent\u00edamos. Mas logo a voz cadav\u00e9rica do comandante irrompe dos alto-falantes:<\/p>\n<p>&#8220;Senhores passageiros, dirijam-se para as sa\u00eddas de emerg\u00eancia localizadas, nas partes anterior e posterior da aeronave. As sa\u00eddas disponibilizadas est\u00e3o do lado direito do aparelho.&#8221; \u2014 Come\u00e7a ent\u00e3o a evacua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A escada infl\u00e1vel j\u00e1 est\u00e1 posta. Os primeiros a ir s\u00e3o tripulantes, para postar-se em terra e ajudar os passageiros a descer. N\u00e3o tenho especificamente nenhuma pressa e aguardo a minha vez com resigna\u00e7\u00e3o quase mon\u00e1stica.<\/p>\n<p>Quando finalmente chego \u00e0 porta, olho rapidamente a paisagem externa e me fa\u00e7o escorregar at\u00e9 o ch\u00e3o. Sou recebido por uma comiss\u00e1ria negra, de sorriso pl\u00e1cido e m\u00e3os firmes, que n\u00e3o me diz nada e nem parece me distinguir dos demais.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sorrir ela me ajuda a erguer-me e me liberta na clareira que o avi\u00e3o formou ao pousar, meio de lado, arrastando muito mato e derrubando algumas \u00e1rvores. Estamos em um lugar quase plano, coberto de vegeta\u00e7\u00e3o rasteira e indefin\u00edvel, algumas forma\u00e7\u00f5es rochosas podem ser vistas \u00e0 meia-dist\u00e2ncia, mas os detalhes da paisagem est\u00e3o borrados pela densidade da neblina que desce. Provavelmente \u00e9 algum planalto na Serra. Algum lugar, por\u00e9m, interessante, pois todos olham sem nada ver, todos admiram sem nada reconhecer.<\/p>\n<p>Formamos um grupo em meio \u00e0 neblina, a vinte metros ou menos do corpo machucado da aeronave, que jaz ali como um peixe extra\u00eddo do rio e atirado a um matagal. Percebemos a raz\u00e3o de a cabina de comando n\u00e3o ter podido ser aberta: a frente do aparelho est\u00e1 toda destru\u00edda. Provavelmente ela sofreu o impacto final contra o solo, vitimando sem perspectivas todos, ou quase, l\u00e1 dentro. As comiss\u00e1rias n\u00e3o nos contaram, mas agora sabemos, que aquelas vozes eram grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o destas mortes nos consterna, mas estamos vivos e isto j\u00e1 \u00e9 uma felicidade. Descem os \u00faltimos e logo come\u00e7am vir caixas e mais caixas de coisas que as comiss\u00e1rias trazem dos rec\u00f4nditos traseiros do aparelho. Caixas que provavelmente est\u00e3o repletas destas subst\u00e2ncias a que chamam de comida, de rem\u00e9dios, de utens\u00edlios que talvez nos sejam \u00fateis. Do alto da escada uma das muitas e maquinais mulheres que nos orientaram durante o voo prossegue em miss\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;Senhores passageiros, aten\u00e7\u00e3o. Nossas comunica\u00e7\u00f5es foram destru\u00eddas juntamente com a cabina de comando. Por isso n\u00e3o temos como relatar onde estamos. Teremos de aguardar aqui at\u00e9 que nos encontrem e resgatem. Estamos retirando do avi\u00e3o toda a comida que possu\u00edmos e tamb\u00e9m algum equipamento que pode vir a ser \u00fatil. Estamos fazendo isto porque o avi\u00e3o est\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel e pode cair no abismo a qualquer momento. Principalmente se voltar a chover e o solo ficar menos firme no lugar onde ele est\u00e1 pousado agora.&#8221;<\/p>\n<p>Subitamente nos damos conta do rente que foi nossa sorte, do perto que foi de morrermos todos. O aparelho est\u00e1 ligeiramente adernado \u00e0 esquerda, a asa dianteira resta como um bra\u00e7o amputado e a esquerda mergulha rumo \u00e0 r\u00edspida inclina\u00e7\u00e3o do precip\u00edcio. O &#8220;pouso\u2019\u2018 foi, na verdade, uma queda mais ou menos controlada contra um plat\u00f4 arborizado e a aeronave deslizou por sobre at\u00e9 quase o outro lado, ficando pendente da borda, pronta para cair ao menor vento. Talvez algum dos barulhos que ouvimos depois do fim da aterrissagem tenha sido justamente o deslizar da fuselagem sob seu pr\u00f3prio peso. Essa constata\u00e7\u00e3o me faz admirar ainda mais a coragem das aeromo\u00e7as.<\/p>\n<p>Lamentavelmente avi\u00f5es n\u00e3o costumam carregar muita coisa \u00fatil para acampamentos porque sinceramente n\u00e3o se espera sobrevivam passageiros ou tripula\u00e7\u00e3o ap\u00f3s uma queda. Escovas de dentes com o emblema da companhia n\u00e3o servem para nada quando se est\u00e1 na selva. E a comida toda que havia era aquela que embarcou no aeroporto, j\u00e1 pronta e embalada. Durar\u00e1 por horas apenas e nos deixar\u00e1, depois, passar alguma fome at\u00e9 chegar quem nos salve.<\/p>\n<p>Apesar deste sol morti\u00e7o que brilha sobre n\u00f3s, n\u00e3o se dissipam nem por um segundo as nuvens pesadas que branqueiam e toldam o horizonte. Parece que estamos em uma alta montanha, cercada de abismo, mas com alguma possibilidade de termos sobrevivido fantasticamente. Em nossos rel\u00f3gios ainda \u00e9 meio-dia e est\u00e1 frio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a cabina de comando se abre. Um homem aparece \u00e0 porta. Logo vemos que traz, apoiada a si, uma mulher em uniforme como o seu. Membros da tripula\u00e7\u00e3o da cabina. Sobreviventes como n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ajudam-no a descer. \u00c9 um homem de seus cinquenta anos, est\u00e1 em choque e se conserva calado. A mulher n\u00e3o vai durar. Possui um ferimento extenso atrav\u00e9s do t\u00f3rax. Eu evito olhar, mas me contam que se podem ver costelas atrav\u00e9s do corte. Falece em poucos minutos e de repente descobrimos que temos muito mais sorte do que antes pens\u00e1ramos.<\/p>\n<p>\u2014 Onde estamos, comandante? \u2014 pergunta uma das comiss\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u2014 Nem tenho ideia. No final os aparelhos de navega\u00e7\u00e3o pareciam enlouquecidos. Eu olhava para aqueles ponteiros todos girando e era como se nada fizesse sentido. S\u00f3 sei que estamos, provavelmente, a cerca de uns cento e vinte quil\u00f4metros a leste de onde partimos.<\/p>\n<p>Uma das aeromo\u00e7as interfere:<\/p>\n<p>\u2014 Cento e vinte quil\u00f4metros a leste n\u00e3o pode ser. Isso seria j\u00e1 sobre o Oceano Atl\u00e2ntico. E n\u00e3o sei de nenhuma ilha montanhosa em frente \u00e0 costa nesta altura do litoral.<\/p>\n<p>\u2014 Sei o que vi at\u00e9 o momento em que tudo come\u00e7ou a dar errado e ca\u00edmos aqui. Decolamos em dire\u00e7\u00e3o a sudeste, iniciamos uma manobra de convers\u00e3o para norte-nordeste atrav\u00e9s do leste. Tive de desviar mais para o leste para escapar de uma zona de turbul\u00eancia muito forte e evitar uma tempestade. Ent\u00e3o, antes que o avi\u00e3o chegasse \u00e0 altura de cruzeiro, come\u00e7amos a perder for\u00e7a e a turbina direita foi a se despregar. Quando vi o que ia acontecer pensei em descer para tentar fazer um pouso de emerg\u00eancia no Rio de Janeiro, talvez at\u00e9 uma amerissagem. Ent\u00e3o eu de repente vi terra e tive que tentar estabilizar para n\u00e3o bater e viemos de barriga e meio de lado contra este plat\u00f4. O avi\u00e3o bateu de nariz contra o ch\u00e3o, mas por sorte virou de lado em vez de explodir. Arrastou por quase um quil\u00f4metro e parou nesta beirada que parece uma fal\u00e9sia ou uma borda de plat\u00f4.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do comandante n\u00e3o fazia mesmo muito sentido. Mas \u00e0quela altura saber o que ocorrera n\u00e3o era a sequer a terceira de nossas preocupa\u00e7\u00f5es. T\u00ednhamos de decidir o que fazer, j\u00e1 que o r\u00e1dio fora destru\u00eddo e a comida n\u00e3o duraria mais que horas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o apareceram umas luzes em meio \u00e0 distante neblina. Eu fui um dos que a avistaram. Juntamente com outros, j\u00e1 que a maioria n\u00e3o parecia ter se apercebido da novidade, afastei-me e pude ver que eram na verdade v\u00e1rias e de diversos tamanhos e cores, apenas haviam parecido uma e uniforme por causa da dist\u00e2ncia e do efeito da neblina amortecendo as cores e borrando os contornos.<\/p>\n<p>Aproximava-se muito lentamente, ou talvez estivesse vindo de muito longe e fosse muito grande. Ao fixar mais a aten\u00e7\u00e3o, percebi que v\u00e1rios est\u00e1vamos simultaneamente olhando \u2014 o que talvez explique a como\u00e7\u00e3o que se seguiu quando aquelas luzes que vinham exatamente em nossa dire\u00e7\u00e3o desapareceram na dist\u00e2ncia sem chegar, como se o objeto que as portasse houvesse feito uma curva imposs\u00edvel no ar e retornado exatamente ao ponto de origem.<\/p>\n<p>Nosso grupo era constitu\u00eddo de dezenas de pessoas diferentes em cor, ra\u00e7a, casta e credo e est\u00e1vamos todos assustados e sem a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o de onde era ou do que pod\u00edamos fazer. Perguntar &#8220;o que foi aquilo?&#8221; era a atitude mais comum enquanto nada mais aparecia para fazer. O piloto percebeu e tratou de organizar passatempos para que pud\u00e9ssemos ficar ocupados at\u00e9 o resgate sem perdermos a cabe\u00e7a. Recebemos a incumb\u00eancia de percorrer aquela plan\u00edcie nas alturas para determinar seu tamanho \u2014 j\u00e1 que a neblina se espessava e impedia vermos mais que palmos al\u00e9m sem a interfer\u00eancia da brancura sobre as luzes e as formas.<\/p>\n<p>\u2014 Estou imaginando que este plat\u00f4 seja bem comprido em algum sentido, mas bem estreito em outro. Vamos usar lanternas para n\u00e3o nos perdermos uns dos outros e vamos tentar chegar \u00e0s bordas.<\/p>\n<p>Havia mais de vinte lanternas dispon\u00edveis, o que facilitou o trabalho \u2014 embora elas fossem todas de baixa pot\u00eancia. Uma lanterna mais potente, ligada a um gerador, foi colocada junto ao avi\u00e3o. O primeiro explorador seguiu em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria levando uma lanterna port\u00e1til, caminhou at\u00e9 que a luz em suas m\u00e3os ficasse quase impercept\u00edvel. Comunicando atrav\u00e9s de piscadelas em c\u00f3digo, foi-lhe ordenado que voltasse um pouco e esperasse. O segundo explorador o alcan\u00e7ou e seguiu adiante, fazendo o mesmo tipo de arranjo. E assim, sucessivamente, vinte pessoas se revezaram sem chegar \u00e0 borda do abismo.<\/p>\n<p>Retornaram todos e continuava a ignor\u00e2ncia entre saber ou nem pensar em que.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o d\u00e1 para ir mais longe porque a neblina est\u00e1 se adensando \u2014 dizia o piloto. Se voc\u00eas se separarem mais v\u00e3o se perder uns dos outros e a\u00ed passaremos tamb\u00e9m a ter a preocupa\u00e7\u00e3o por vinte pessoas perdidas neste planalto desconhecido.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho uma ideia \u2014 sugeri. Porque n\u00e3o fazemos uma varredura em c\u00edrculo depois que estabelecermos outra vez a fila das lanternas?<\/p>\n<p>\u2014 Boa ideia \u2014 concordou o jovem executivo com seus nervosos \u00f3culos sem aro. Voc\u00ea quer ir na frente desta vez?<\/p>\n<p>Senti-me honrado pela oferta e \u2014 diante do medo que j\u00e1 estava se instalando em todos \u2014 aceitei o encargo.<\/p>\n<p>A longa fila de vinte pessoas com lanternas na m\u00e3o se formou outra vez (desta vez mais curta que antes, devido ao aprofundamento do entardecer, adensando ainda mais a neblina). Na ponta da fila ia eu, pisando garbosamente e com muito medo aquele ch\u00e3o estranho e inst\u00e1vel que \u00e0s vezes parecia um carpete fofo e em outras era como um p\u00e2ntano turfoso.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a varredura, do sul para o norte. Cada membro estava \u00e0 dist\u00e2ncia de conversa do outro \u2014 e no sil\u00eancio daquela obscuridade branca vozes incorp\u00f3reas trocavam impress\u00f5es do que aparecia, principalmente impress\u00f5es do nada (porque, al\u00e9m de receios, nada havia).<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o eu o vi. Havia uma esp\u00e9cie de montanha que n\u00e3o hav\u00edamos visto e ela devia estar a um quil\u00f4metro do avi\u00e3o, n\u00e3o mais. Dela eu s\u00f3 via a f\u00edmbria, uma orla verdejante de coisas que pareciam musgos de um pret\u00e9rito perdido.<\/p>\n<p>\u2014 Eu acabo de ver alguma coisa \u2014 confessei. Vou sair do seu \u00e2mbito de vis\u00e3o para ir l\u00e1. Oriente-se pela minha voz. Se eu parar de falar, volte ao avi\u00e3o e tente buscar ajuda.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7a isso, cara! N\u00f3s n\u00e3o sabemos nem onde estamos.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo que me consta isto aqui \u00e9 qualquer lugar no norte do Paran\u00e1 ou na serra da Mantiqueira, dependendo de quanto o comandante bebeu hoje antes de voar.<\/p>\n<p>O rapaz que vinha atr\u00e1s de mim tentou me convencer a n\u00e3o fazer aquela loucura, mas eu a faria ainda que ele tentasse me la\u00e7ar. E ele tinha medo demais para tentar me seguir aonde eu estava indo.<\/p>\n<p>\u2014 Parece ser uma montanha. \u00c9 uma uma grande massa de rocha negra suja de musgo e l\u00edquens. Em alguns lugares parece haver folhas mirradas de plantas min\u00fasculas e licop\u00f3dios. Mas, hei! Esta coisa est\u00e1 mais perto e \u00e9 menor do que parecia!<\/p>\n<p>Meu interlocutor insistiu pela \u00faltima vez para que eu voltasse, mas eu o ouvia apenas como um suave murm\u00fario na dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 Definitivamente isto aqui \u00e9, no m\u00e1ximo, uma pedra grande com alguma vegeta\u00e7\u00e3o em cima. Estou come\u00e7ando a rodear em sentido hor\u00e1rio. Se a base for mais ou menos no esquema em que estou vendo, deve ter um di\u00e2metro de noventa metros, n\u00e3o muito mais.<\/p>\n<p>Rodeando a rocha, ent\u00e3o, foi que percebi a estranh\u00edssima vis\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Estou rodeando e at\u00e9 agora n\u00e3o vi nada. Hei!? O que \u00e9 isso? Sujeito! Voc\u00ea n\u00e3o vai acreditar no que eu estou vendo aqui agora? Um orelh\u00e3o!<\/p>\n<p>A voz do pen\u00faltimo da fila era quase inaud\u00edvel \u00e0quela altura:<\/p>\n<p>\u2014 Volte, tem alguma coisa errada! Voc\u00ea est\u00e1 delirando.<\/p>\n<p>N\u00e3o estava. Diante de mim estava um telefone p\u00fablico azul-real. Novo como se tivesse sido acabado de instalar. Localizado dentro de uma \u00e1rea quadrada recortada na pedra maci\u00e7a. S\u00f3 mesmo rodeando a montanha de perto ou aproximando-se dela exatamente de frente para a entrada de labirinto era poss\u00edvel ver aquela pe\u00e7a de absurdo jazendo entre as nuvens naquela manh\u00e3 de sexta-feira. E o mais extraordin\u00e1rio foi que, no instante exato em que meus p\u00e9s pisaram pela primeira vez o recinto em que ele estava, ele tocou. E tocou ainda muitas vezes antes de eu ter coragem de atender.<\/p>\n<p>Se eu lhe contasse o que havia do outro lado da linha, ou tudo que aconteceu depois, voc\u00ea n\u00e3o acreditaria. Muitas vezes uma hist\u00f3ria tem que terminar assim, porque tentar ir al\u00e9m quebrar\u00e1 o encanto. Deixo cada um de voc\u00eas com sua interpreta\u00e7\u00e3o, mesmo porque eu n\u00e3o tenho muita certeza nem da minha, apenas do estranho mecanismo atrav\u00e9s do qual eu lhes chego, e das estranhas coincid\u00eancias que passaram a permear a minha exist\u00eancia nesta nova condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apenas reservo-me o direito de relatar o que ouvi, e de esperar que cada leitor encontre uma explica\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria. Quando peguei aquele telefone e o levei ao ouvido eu senti um formigamento no meu bra\u00e7o, uma vontade louca de colocar de volta no gancho, de sair correndo no meio da neblina ou me atirar do penhasco. Porque sem que eu tivesse perguntado havia do outro lado uma voz que repetia &#8220;Terminou, terminou, terminou!&#8221; e quando eu gritei de volta &#8220;o que? o que? o que?&#8221; fez-se sil\u00eancio naquele lugar, como se eu estivesse s\u00f3 a flutuar entre nuvens brancas. Ouvi um sinal de liga\u00e7\u00e3o interrompida, pus de volta o aparelho e peguei de novo, e tive esta estranha necessidade de falar, mesmo sabendo que ningu\u00e9m est\u00e1 me ouvindo a\u00ed do outro lado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu primeiro texto de fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, datado de 2005 ou pouco antes, incorporando elementos, ent\u00e3o ainda bem vivos, das minhas impress\u00f5es da primeira viagem a\u00e9rea. Pensei no aparelho tranquilamente pousado \u00e0 cabeceira da pista, reluzindo sua pintura branca sob o sol at\u00edpico daquela tarde de inverno nebulosa e morna e me acalmei. 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