{"id":414,"date":"2010-09-22T04:26:00","date_gmt":"2010-09-22T07:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=414"},"modified":"2017-11-02T14:09:22","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:22","slug":"literatura-e-politica-para-todos-e-para-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/literatura-e-politica-para-todos-e-para-ninguem\/","title":{"rendered":"Literatura e Pol\u00edtica: Para Todos e Para Ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>Nietzsche colocou em seu livro &#8220;Assim Falou Zaratustra&#8221; um subt\u00edtulo interessante: &#8220;um livro para todos e para ningu\u00e9m&#8221;. Trata-se de uma declara\u00e7\u00e3o quase esf\u00edngica: como um livro pode, ao mesmo tempo, ser destinado a todo mundo e a ningu\u00e9m? A solu\u00e7\u00e3o do enigma surge quando voc\u00ea analisa o livro em si, pelo seu conte\u00fado e pela sua forma. Quanto \u00e0 forma, \u00e9 um livro para todos devido ao estilo b\u00edblico e linear da narrativa (sim, embora escrito por um fil\u00f3sofo, trata-se de uma narrativa): sup\u00f4s o autor que estas escolhas tornariam o livro acess\u00edvel a praticamente todos os que fossem alfabetizados. Por isso &#8220;um livro para todos&#8221;. No entanto, o conte\u00fado desta obra \u00e9 particularmente dif\u00edcil, por lidar com dilemas existenciais cuja pr\u00f3pria reflex\u00e3o \u00e9 rejeitada por estes seres cordatos que habitam as civiliza\u00e7\u00f5es, esse <em>homo vulgaris<\/em> que persegue a gratifica\u00e7\u00e3o de seus desejos imediatos tal e qual um c\u00e3o correndo atr\u00e1s do pr\u00f3prio rabo. Por isso \u00e9 um livro para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>H\u00e1 certos assuntos sobre os quais falamos que deveriam ser tamb\u00e9m agraciados com um subt\u00edtulo equivalente: para todos, porque \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel falar deles de uma forma que muita gente entenda; para ningu\u00e9m, porque \u00e9 quase imposs\u00edvel achar quem se interesse por eles. Um de tais assuntos \u00e9 a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O lugar comum (que \u00e9 o sistema atrav\u00e9s do qual pensam, de forma quase exclusiva, as pessoas sem imagina\u00e7\u00e3o e\/ou sem intelig\u00eancia pr\u00f3pria) dita (no sentido de &#8220;ditadura&#8221;) que &#8220;pol\u00edtico \u00e9 tudo safado&#8221; \u2014 talvez porque as pessoas que assim o dizem espelham os pol\u00edticos em si mesmas. Embora eu n\u00e3o ponha a m\u00e3o no fogo por nenhum pol\u00edtico, essa afirmativa \u00e9 pregui\u00e7osa e burra. Pregui\u00e7osa porque \u00e9 um preconceito e porque exime quem assim pensa da obriga\u00e7\u00e3o de informar-se (ai, isso envolve ler, ah, e ler d\u00f3i), de refletir, de discutir e de concluir. \u00c9 muito mais f\u00e1cil dizer que todo pol\u00edtico \u00e9 safado e n\u00e3o ter que se dar a esse trabalho.<\/p>\n<p>Como voc\u00eas j\u00e1 devem ter percebido, existe uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre a nossa postura diante dos livros e as causas desse desastre que \u00e9 a nossa pol\u00edtica. Nosso povo l\u00ea pouco, e por ler pouco ele n\u00e3o sabe quase nada daquilo que n\u00e3o diga respeito ao seu horizonte imediato. E por ser ignorante daquilo que n\u00e3o lhe diz respeito de forma direta, ele n\u00e3o \u00e9 capaz de discutir a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Acontece que os ignorantes n\u00e3o v\u00e3o querer admitir isso. No fundo, apesar do desprezo verbal pela cultura que vive na boca de muita gente, ser ignorante n\u00e3o \u00e9 bonito. Ent\u00e3o \u00e9 preciso sentar em cima desse rabo grande e peludo e fingir que ele n\u00e3o existe. A incompet\u00eancia de ter uma discuss\u00e3o sobre pol\u00edtica \u00e9 mascarada pelo desinteresse, justificado pela constata\u00e7\u00e3o, necessariamente desinformada, de que todo pol\u00edtico \u00e9 safado.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que essas pessoas que assim pensam est\u00e3o duplamente equivocadas. N\u00e3o apenas est\u00e3o partindo para uma conclus\u00e3o preconceituosa (porque \u00e9 uma generaliza\u00e7\u00e3o desinformada), mas est\u00e3o abordando o problema pelo lado errado: pol\u00edtica n\u00e3o se faz de cima para baixo. \u00c9 perfeitamente justific\u00e1vel a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00f3s n\u00e3o temos nenhum tipo de controle sobre o que pensam e fazem os pol\u00edticos nas altas esferas do poder. Mas eles n\u00e3o chegaram l\u00e1 de paraquedas, eles passaram por um longo processo, que muitas vezes come\u00e7ou numa candidatura \u00e0 verean\u00e7a em sua cidade. E \u00e9 nesse momento que a pol\u00edtica distante se torna pr\u00f3xima que vemos, com maior vergonha, o quanto as mesmas pessoas ignorantes s\u00e3o tamb\u00e9m desonestas.<\/p>\n<p>Safado \u00e9 povo, n\u00e3o o pol\u00edtico. O pol\u00edtico \u00e9 safado porque ele \u00e9 parte do povo. Talvez se os nossos pol\u00edticos fossem estrangeiros eles fossem menos safados (ou mais). Mas como eles s\u00e3o brasileiros como n\u00f3s, eles s\u00e3o t\u00e3o safados quanto somos, na m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Safado \u00e9 o eleitor que vende seu voto em troca de cimento, de um emprego, de gasolina, de um par de t\u00eanis ou de dinheiro. Quem prostitui a sua opini\u00e3o em troca de vantagens imediatas (tal qual o macaco da f\u00e1bula, que vende a cauda por um p\u00e3o) n\u00e3o tem moral para acusar os nosso pol\u00edticos de coisa alguma.<\/p>\n<p>Safado \u00e9 o eleitor que se orgulha de ser parte do curral eleitoral de um pol\u00edtico: &#8220;aqui no bairro tal a gente vota \u00e9 no fulano&#8221;, ou &#8220;sicrano \u00e9 o candidato da cidade X&#8221;. Abdicando da pr\u00f3pria opini\u00e3o e aceitando ser levado no cabresto (como burro que \u00e9), esse eleitor vai reclamar do que?<\/p>\n<p>Essas coisas que eu disse acima n\u00e3o s\u00e3o filosofias profundas, dignas de um Nietzsche, de um Schopenhauer ou de um Espinoza. S\u00e3o coisas simples e claras que para concluir basta voc\u00ea pensar com calma e somar dois com dois. No entanto elas ser\u00e3o incompreendidas e recha\u00e7adas. A transpar\u00eancia do racioc\u00ednio ser\u00e1 rejeitada pela oposi\u00e7\u00e3o do conte\u00fado ao que \u00e9 confort\u00e1vel ao leitor. &#8220;Eu fiz isso, diz minha mem\u00f3ria. Eu n\u00e3o posso  ter feito isso, diz meu orgulho. Por fim a mem\u00f3ria cede&#8221;.<\/p>\n<p>Por isso estas palavras que disse s\u00e3o para todos e para ningu\u00e9m. S\u00e3o para todos porque qualquer um que saiba ler as ler\u00e1 e compreender\u00e1. Para ningu\u00e9m porque com elas n\u00e3o ganharei nenhum seguidor no blogue, n\u00e3o farei nenhum amigo, n\u00e3o receberei sequer um elogio, n\u00e3o mudarei a postura de um eleitor sequer. O ser humano nunca muda, de fato: apenas se torna, cada vez mais, aquilo que \u00e9. A \u00fanica mudan\u00e7a poss\u00edvel \u00e9 a que se faz nas gera\u00e7\u00f5es futuras, atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o de nossos filhos. Esta \u00e9 a trag\u00e9dia da humanidade: os est\u00fapidos t\u00eam mais filhos e t\u00eam mais tempo para ensinar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nietzsche colocou em seu livro &#8220;Assim Falou Zaratustra&#8221; um subt\u00edtulo interessante: &#8220;um livro para todos e para ningu\u00e9m&#8221;. Trata-se de uma declara\u00e7\u00e3o quase esf\u00edngica: como um livro pode, ao mesmo tempo, ser destinado a todo mundo e a ningu\u00e9m? A solu\u00e7\u00e3o do enigma surge quando voc\u00ea analisa o livro em si, pelo seu conte\u00fado e pela sua forma. 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