{"id":4292,"date":"2017-05-06T12:56:39","date_gmt":"2017-05-06T15:56:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=4292"},"modified":"2017-08-21T23:47:34","modified_gmt":"2017-08-22T02:47:34","slug":"modificacao-corporal-sintoma-de-nossa-falta-de-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/05\/modificacao-corporal-sintoma-de-nossa-falta-de-liberdade\/","title":{"rendered":"Modifica\u00e7\u00e3o Corporal: Sintoma de Nossa Falta de Liberdade"},"content":{"rendered":"<p>Tive um inc\u00f4modo *insight* esta semana, um que mudou minha maneira de ver a cultura pop atual. J\u00e1 faz algum tempo que os fil\u00f3sofos andam a dizer que nos tornamos produtos no contexto do capitalismo; que nossas emo\u00e7\u00f5es, desejos, planos e medos aumentam ou diminuem (\u00e0s vezes at\u00e9 se criam) conforme est\u00edmulos dirigidos pela propaganda de massas, que, sozinha, prova a inviabilidade da democracia, pela sua capacidade de \u201cmanufaturar o consenso\u201d, nas palavras de Noam Chomsky.[^2]<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 todo dia que podemos tomar uma no\u00e7\u00e3o assim abstrata  e dar-lhe uma aplica\u00e7\u00e3o imediata na vida real. Quando encontramos uma tal correspond\u00eancia podemos, subitamente, sentir aquele tremor das m\u00e3os, aquele ferver do sangue que nos convence de que estamos diante de um imenso monolito negro.<\/p>\n<div id=\"attachment_4295\" style=\"width: 260px\" class=\"wp-caption alignright\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4295\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Kane_Caw_Wacham-851x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"525\" height=\"632\" class=\"size-medium wp-image-4295\" \/><p id=\"caption-attachment-4295\" class=\"wp-caption-text\">Mulher amer\u00edndia com seu beb\u00ea em um equipamento para deforma\u00e7\u00e3o cranial.<\/p><\/div>\n<p>O *insight* a que me refiro se refere \u00e0 populariza\u00e7\u00e3o de toda forma de modifica\u00e7\u00e3o corporal ao longo do s\u00e9culo XX. At\u00e9 que chegamos \u00e0 nossa cultura de hoje, em que j\u00e1 est\u00e1 ficando estranho um jovem n\u00e3o ter tatuagens, nem *piercings*, nem qualquer outra forma de interven\u00e7\u00e3o obsessiva em sua apar\u00eancia.<\/p>\n<p>Cabe dizer, logo de come\u00e7o, que tatuagens e *piercings*, embora um pouco mais evidentes, n\u00e3o s\u00e3o essencialmente diferentes de formas mais tradicionais de modifica\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia. O ser humano, desde a mais remota antiguidade, sempre praticou alguma forma de &#8220;aperfei\u00e7oamento&#8221; do seu corpo segundo um padr\u00e3o antinatural. Raspar pelos, alisar cabelos, pintar unhas, delinear olhos, tatuar a pele, afiar os dentes, deformar p\u00e9s ou cabe\u00e7as, inserir objetos nos l\u00e1bios ou no nariz; eventualmente at\u00e9 mesmo mutilar pequenos peda\u00e7os do corpo (na circuncis\u00e3o, tanto masculina como a feminina). Tudo isso a humanidade sempre fez e n\u00e3o deve ser visto como antinatural, por mais que nos pare\u00e7a doloroso, desnecess\u00e1rio ou absurdo.[^1]<\/p>\n<p>O *insight* a que me refiro n\u00e3o procura explicar porque esses m\u00e9todos de modifica\u00e7\u00e3o corporal s\u00e3o hoje t\u00e3o prevalentes, porque \u00e9 prov\u00e1vel que a modifica\u00e7\u00e3o corporal sempre tenha existido e sido bastante popular. Em vez disso ele explica porque esses m\u00e9todos **n\u00e3o se tornaram menos populares** e at\u00e9 cresceram em popularidade. Sigam-me os bons.<\/p>\n<p>No passado, essas modifica\u00e7\u00f5es corporais sempre foram ditadas pelas normais sociais r\u00edgidas das civiliza\u00e7\u00f5es. Os homens romanos da \u00e9poca cl\u00e1ssica, por exemplo, apenas cortavam o cabelo \u00e0 escovinha e raspavam os pelos de seus corpos. N\u00e3o o faziam somente por querer, mas porque esta era a norma social que um patr\u00edcio deveria seguir. Somente escravos estrangeiros teriam longas cabeleiras, torsos peludos ou tatuagens. Mesmo o h\u00e1bito de usar a barba s\u00f3 se popularizou por causa de imperadores que a usaram \u2014 e estes s\u00f3 o fizeram porque queriam exibir pelagem de cor rara, como Nero, que se apresentava como *Lucius Domicius \u00c6nobarbus* (L\u00facio Dom\u00edcio Barba-cor-de-vinho). Se um romano livre se apresentasse tatuado, peludo, cabeludo e sujo; tal estado seria considerado uma ofensa \u00e0 sua fam\u00edlia e aos seus antepassados. Muito provavelmente ele seria morto no ato, para expiar o seu pecado contra os *lares*, os deuses de sua fam\u00edlia.  Supondo que n\u00e3o houvesse tatuagens, mas apenas pelagem, cabelos e sujeira, ele poderia alegar algum tipo de priva\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria e solicitar um ritual de purifica\u00e7\u00e3o \u2014 assim salvando-se.<\/p>\n<p>Outras modifica\u00e7\u00f5es corporais foram ditadas por raz\u00f5es sanit\u00e1rias (presume-se que a circuncis\u00e3o foi inventada pelos povos do deserto para prevenir doen\u00e7as decorrentes da falta de higiene) ou por uma obsess\u00e3o por mostrar-se &#8220;alin\u00edgena&#8221; aos olhos do povo (como as cabe\u00e7as deformadas dos maias). Outras foram for\u00e7adas nos oprimidos por caprichos est\u00e9ticos dos opressores, como os &#8220;p\u00e9s de lotus&#8221; das antigas chinesas ou os &#8220;pesco\u00e7os de girafa&#8221; das beldades de algumas tribos da Birm\u00e2nia. As tatuagens tribais dos polin\u00e9sios e os botoques dos amer\u00edndios s\u00e3o rituais de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida adulta, dos quais os indiv\u00edduos n\u00e3o podiam escapar devido \u00e0 press\u00e3o do grupo, assim como os calouros das faculdades dificilmente conseguem escapar da sanha imbecil dos trotes.<\/p>\n<p>O que explica, ent\u00e3o, que essas pr\u00e1ticas dolorosas, frequentemente perigosas para a sa\u00fade (e aqui eu me refiro mais a certos tratamentos capilares do que a tatuagens!) e nem sempre resultantes em mais &#8220;beleza&#8221; (ainda que esse conceito seja t\u00e3o relativo) continuem populares em uma cultura como a nossa, ocidental e moderna, t\u00e3o liberta de opress\u00f5es e t\u00e3o desconstru\u00edda?<\/p>\n<p>Aqui entra, com areia e sem vaselina, o meu *insight*.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o vivemos em uma cultura liberta de opress\u00f5es. Apenas vivemos em uma cultura *diferente* das culturas do passado. Todos os fatores que obrigavam os nativos da polin\u00e9sia a se tatuarem pelo corpo todo ainda est\u00e3o presentes entre n\u00f3s. Ainda existem rituais de passagem que obrigam a isso e at\u00e9 a coisas piores. O que mudou \u00e9 unicamente que a nossa cultura deixou de se monol\u00edtica, mas caracteriza-se por conter em si diversas &#8220;tribos&#8221; (oh, caramba, como esse termo \u00e9 inadequado!), o que nos d\u00e1 a ilus\u00e3o de que podemos &#8220;optar&#8221; por uma outra conforme queiramos. Algumas tribos realmente obrigam que seus membros se tatuem, como certas gangues criminosas (procure saber da &#8220;Mara Salvatrucha&#8221;), outras querem que eles tenham cabelos grandes (metaleiros t\u00eam de ser carecas ou cabeludos, raros t\u00eam cabelo curto) e outras pedem que fa\u00e7am cinquenta tarefas e se matem no fim.<\/p>\n<p>A opress\u00e3o est\u00e1 em todo lugar, multiforme. Nascemos dentro de algum subgrupo e temos acesso a um determinado conjunto de &#8220;obriga\u00e7\u00f5es&#8221; e &#8220;interditos&#8221;, que desde cedo nos s\u00e3o impostos como o certo, o belo e o moral. Qualquer desvio dos padr\u00f5es do grupo onde nascemos gera uma tens\u00e3o que sempre traz algum tipo de custo emocional. <\/p>\n<p>Para todos os demais que n\u00e3o est\u00e3o inseridos em nenhum grupo suficientemente definido, que se julgam membros do amplo e confort\u00e1vel &#8220;mainstream&#8221;, vem-nos a propaganda e a moda para nos induzir a comportamentos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o &#8220;mainstream&#8221; \u00e9 uma tribo, tamb\u00e9m ele possui seu conjunto pr\u00f3prio de opress\u00f5es veladas. No passado o &#8220;consenso&#8221; da sociedade exigia que as &#8220;pessoas de bem&#8221; tivessem corpos limpos e puros, cabelos bem cuidados, roupas discretas. Era a \u00e9poca do capitalismo industrial baseado na produ\u00e7\u00e3o em massa. Cinquenta milh\u00f5es de cal\u00e7as cinzas tinham de ser vendidas a algu\u00e9m, e nenhuma encontraria comprador se a moda dissesse que era errado ter a mesma cor de cal\u00e7a que outra pessoa. Entendeu o desenho?<\/p>\n<p>Esse modelo de produ\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a dar sinais de esgotamento na metade do s\u00e9culo XX. Seu \u00faltimo grande esfor\u00e7o foi o Plano Marshall, com sua imensa reconstru\u00e7\u00e3o da Europa como o mais careta dos continentes. Logo a seguir a tecnologia come\u00e7ou a permitir a produ\u00e7\u00e3o abaixo custo de quantidades menores. Ent\u00e3o passou a ser poss\u00edvel ganhar dinheiro vendendo a diferen\u00e7a \u2014 e cobrando um pouco mais por isso, claro.<\/p>\n<p>Como isso se relaciona com a modifica\u00e7\u00e3o corporal? Simultaneamente \u00e0 nova aceita\u00e7\u00e3o das cores aberrantes nas roupas, passou-se a aceitar tamb\u00e9m os estilos capilares aberrantes. Massifica-se a ind\u00fastria de produtos de beleza, para que todo cabelo &#8220;rebelde&#8221; possa ser &#8220;domado&#8221; e todo cabelo &#8220;sem volume&#8221; possa ser &#8220;moldado&#8221;. Nenhum cabelo est\u00e1 certo. Se \u00e9 crespo, faz-se escova. Se \u00e9 liso, faz-se permanente. Se \u00e9 preto, pinta-se de louro. Se \u00e9 louro, pinta-se de preto. Simplesmente ningu\u00e9m est\u00e1 certo, todos precisam modificar-se de alguma maneira, comprando algum produto.<\/p>\n<p>As joalherias, claro, adorariam a ideia de que as pessoas usassem mais do que somente brincos nas orelhas, um em cada. Por que n\u00e3o incutir no povo a ideia de argolas no nariz, m\u00faltiplos brincos na mesma orelha, perfurar os mamilos para passar an\u00e9is, atravessar a l\u00edngua com um prego qualquer&#8230;? Cada um desses objetos tem um pre\u00e7o e d\u00e1 um lucro. E os que forem ricos n\u00e3o querer\u00e3o usar porcarias: comprar\u00e3o de prata e ouro, talvez com pedras. De que maneira levar isso ao &#8220;mainstream&#8221;? Entra em cena o rock rebelde, os *punks* de Malcolm McLaren, os Sex Pistols, que come\u00e7aram com alfinetes de seguran\u00e7a nas orelhas, para semear a ideia. Dez anos depois surgiram as primeiras orelhas com m\u00faltiplos brincos. Vinte anos depois argolas e an\u00e9is por toda parte j\u00e1 eram vis\u00e3o comum.<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m foi obrigado a isso, foi?<\/p>\n<p>A influ\u00eancia da propaganda se fez de maneira sutil. Subitamente, num curto intervalo de tempo, todos os principais jogadores de futebol do mundo come\u00e7arem a tatuar-se nos bra\u00e7os, nas regi\u00f5es n\u00e3o cobertas pelos uniformes, a fim de fazerem propaganda de suas convic\u00e7\u00f5es? Logo havia programas sobre tatuadores na tev\u00ea paga, e transformaram as oficinas de tatuagem em ambientes chiques. A tatuagem seguiu o processo do *piercing* e dos tratamentos de cabelo: come\u00e7ou como algo &#8220;natural&#8221; de algum povo, depois uma coisa rebeldemente descontra\u00edda, ent\u00e3o virou identidade de um grupo e logo chegou ao mainstream.<\/p>\n<p>Nossa cultura continua a ser, em quase tudo, conformada por press\u00f5es que s\u00e3o exercidas sobre n\u00f3s desde que nascemos, e n\u00e3o percebemos. Nossos preconceitos s\u00e3o constru\u00eddos em n\u00f3s gradualmente, e tamb\u00e9m nossas identidades de grupo. E os que s\u00e3o bem-sucedidos em desconstruir-se ficam isolados, peixes sem cardume, fragilizados diante da maioria inclemente que sempre tem tochas e forcados para perseguir o &#8220;monstro&#8221; quando ele aparecer. H\u00e1 cinquenta anos o &#8220;monstro&#8221; era um motoqueiro tatuado que ouvia rock. Descobrir quais os monstros de hoje eu deixo como um exerc\u00edcio para o leitor. Um exerc\u00edcio com muitas respostas verdadeiras, pois nossa cultura deixou de ser monol\u00edtica e \u00e9 prov\u00e1vel que cada regi\u00e3o tenha seu &#8220;monstro&#8221; caracter\u00edstico.<\/p>\n<p>[^1]: Nunca \u00e9 demais repetir porque apenas uns oito por cento dos brasileiros conseguem interpretar textos complexos: *modifica\u00e7\u00e3o corporal* aqui inclui tudo que interfira na apar\u00eancia natural de uma pessoa. Desde simplesmente pentear os cabelos at\u00e9 amputar uma perna por achar bonito andar de muleta. Defini assim de maneira ampla porque eu n\u00e3o quero, de maneira alguma, dar a entender que esse texto se refere somente a uma forma ou outra. Pode deixar essa pedra a\u00ed no ch\u00e3o, garoto.<br \/>\n[^2]: Ainda n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas, mas \u00e9 uma obra essencial: [Manufacturing Consent](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Manufacturing_Consent).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tive um inc\u00f4modo *insight* esta semana, um que mudou minha maneira de ver a cultura pop atual. 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