{"id":4393,"date":"2017-08-08T23:18:25","date_gmt":"2017-08-09T02:18:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=4393"},"modified":"2017-08-08T23:18:25","modified_gmt":"2017-08-09T02:18:25","slug":"sobre-a-necessidade-de-discutir-com-idiotas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/08\/sobre-a-necessidade-de-discutir-com-idiotas\/","title":{"rendered":"Sobre a Necessidade de Discutir com Idiotas"},"content":{"rendered":"<p>Alfred Russell Wallace, um respeitado cientista ingl\u00eas do s\u00e9culo XIX, que havia descoberto a evolu\u00e7\u00e3o por sele\u00e7\u00e3o natural antes de Charles Darwin, certa vez ficou injuriado com um an\u00fancio publicado em uma revista local por um sujeito chamado John Hampdem, que tinha mais dinheiro do que cultura, na qual se desafiava qualquer cientista a provar que a terra era redonda atrav\u00e9s da medida do n\u00edvel do Rio Bedford, que havia sido medido em 1838 por um agrimensor chamado Samuel Birley Rowbotham. Hampdem, fascinado com esses resultados, pelo potencial de justifica\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia que ofereciam, prop\u00f4s-se a pagar \u00a3500 (cerca de R$ 100.000,00 em dinheiro de hoje) a quem demonstrasse a falsidade do trabalho de Rowbotham e a esfericidade da terra.<\/p>\n<p>Como todo cientista ingl\u00eas injuriado que se preze, os quais eram bastante parecidos com as caricaturas deles feitas por Jules Verne em suas obras, Wallace resolveu entrar no desafio, provar a esfericidade da terra e ganhar uma grana f\u00e1cil. Mas, como diz a sabedoria popular, nada \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de ganhar do que um dinheiro f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Foi realmente f\u00e1cil para Wallace refazer as medidas de Rowbotham de maneira correta (ele era um p\u00e9ssimo agrimensor, provavelmente) e igualmente f\u00e1cil convencer o editor da revista (e juiz do desafio) a pagar o pr\u00eamio. O dif\u00edcil foi evitar a tempestade de merda que se abateu depois sobre sua vida.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/pombo-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-4395\" \/><\/p>\n<p>Arrependido de seu desafio e absolutamente n\u00e3o convencido de que a terra era redonda, Hampdem passou a perseguir Wallace para exigir de volta seu dinheiro, chamando-o de charlat\u00e3o e de fraudador. Wallace n\u00e3o tinha a menor inten\u00e7\u00e3o de devolver as \u00a3500, n\u00e3o s\u00f3 porque as julgava honestamente ganhas, mas tamb\u00e9m porque uma boa maneira de se punir um imbecil \u00e9 faz\u00ea-lo perder dinheiro.  Mas Hampdem n\u00e3o se deteve diante da impassividade cavalheiresca de Wallace e chegou a amea\u00e7\u00e1-lo fisicamente. N\u00e3o tendo sucesso nisso (pois Wallace, em seus cinquenta e poucos anos de idade, ainda estava em excelente forma f\u00edsica), Hampdem recorreu \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas universais da justi\u00e7a \u00e9 a sua imprevisibilidade. Humanos que s\u00e3o, os ju\u00edzes costumam falhar exatamente nas mesmas situa\u00e7\u00f5es em que o grosso da humanidade falha. Ju\u00edzes podem ser criaturas dif\u00edceis. Frequentemente exigem provas de coisas que imaginamos provadas em si mesmas (como a esfericidade da terra ou a inoc\u00eancia do r\u00e9u at\u00e9 que se demonstre evid\u00eancia de culpa). Podem ser simp\u00e1ticos com os argumentos mais claros, que nem sempre s\u00e3o os mais verdadeiros (n\u00e3o esque\u00e7amos de que as mentes embotadas adoram luzes fortes e que os intelectos lentos preferem explica\u00e7\u00f5es mais r\u00e1pidas e rasas). Tudo isso para dizer que a justi\u00e7a, querendo ser justa, tomou uma s\u00e9rie de decis\u00f5es que tornaram a vida de Wallace um inferno.<\/p>\n<p>Comecemos pela insist\u00eancia de Hampdem, que iniciou diversos processos com as mais diversas alega\u00e7\u00f5es, recolhendo donativos de simpatizantes para financiar sua batalha judicial. Como a ignor\u00e2ncia \u00e9 o recurso mais abundante do planeta, mesmo na Inglaterra, houve muita gente para doar-lhe dinheiro e com isso Hampdem, um sujeito apenas remediado, teve mais recursos jur\u00eddicos a seu dispor que o &#8220;rico cavalheiro&#8221; Wallace. Ele tamb\u00e9m atraiu advogados que queriam mostrar servi\u00e7o em casos rumorosos &#8212; e o caso logo se tornou famoso no pa\u00eds todo.<\/p>\n<p>Apesar de Hampdem chegar a ser preso por ame\u00e7as de morte a Wallace e de ser tamb\u00e9m condenado a indeniz\u00e1-lo por difama\u00e7\u00e3o (um valor irris\u00f3rio), no fim da longa batalha judicial (na qual Wallace acabou gastando mais do que \u00a3500 em custas processuais e honor\u00e1rios de advogados) a justi\u00e7a, por &#8220;piedade&#8221; do &#8220;homem simples do povo&#8221;, aceitou o argumento de Hampdem, segundo o qual Wallace j\u00e1 teria se voluntariado para o experimento depois que Hampdem j\u00e1 havia desistido do desafio e tentava obter de volta o seu dinheiro (que fora depositado \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do editor da revista e juiz da quest\u00e3o).<\/p>\n<p>Com isso Wallace teve de devolver os \u00a3500 a Hampdem, que se safou do caso com puni\u00e7\u00f5es m\u00ednimas por tudo o que dissera de ruim contra o cientista, e que ainda p\u00f4de se vangloriar de t\u00ea-lo vencido na justi\u00e7a e assim &#8220;provado&#8221; que a terra era plana. A mesma multid\u00e3o de ignorantes que lhe doara dinheiro se deleitou com isso, afinal, se a justi\u00e7a decidiu, ent\u00e3o que se cumpra, a terra fica at\u00e9 piramidal, se um juiz assim mandar, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Para c\u00famulo de sua desgra\u00e7a, Wallace ainda teve a sua reputa\u00e7\u00e3o junto \u00e0 Royal Society praticamente enxovalhada pelo caso. N\u00e3o que os cientistas acreditassem nas sandices de Hampdem, mas eles acusaram Wallace de imaturidade e de &#8220;temeridade&#8221;, por aceitar discutir com um not\u00f3rio imbecil um fato cient\u00edfico inquestion\u00e1vel. Do outro lado do Atl\u00e2ntico, o americano Mark Twain, que acompanhara o caso, cunhou sobre o epis\u00f3dio uma frase que se tornou c\u00e9lebre:<\/p>\n<p>> Nunca discuta com os idiotas, eles o far\u00e3o descer a seu n\u00edvel, e a\u00ed o vencer\u00e3o pela experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Hampdem tinha experi\u00eancia em ser idiota, e tinha conex\u00f5es com in\u00fameros outros idiotas, que lhe ofereciam recursos e apoio moral, at\u00e9 mesmo na justi\u00e7a, onde a idiotice n\u00e3o deixa de chegar. Wallace jamais teve qualquer chance: era praticamente um &#8220;caba\u00e7o&#8221; entre os idiotas, f\u00e1cil de empurrar para l\u00e1 e para c\u00e1. Tolhido pelos ventos da estupidez coletiva, ele acabou derrubado e jamais se recuperou. Vinte anos depois estava negando a efic\u00e1cia das vacinas e terminou sua carreira cient\u00edfica em total desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Normalmente \u00e9 isso o que acontece com quem se prop\u00f5e a &#8220;debater&#8221; na internet. Debates na internet s\u00e3o exatamente como a aposta de Hampdem, feita atrav\u00e9s de um antepassado pr\u00e9-hist\u00f3rico da internet: os classificados de revistas e jornais. Debates na internet s\u00e3o um ritual de desafio entre idiotas, que arrastam asas e abrem rodas como perus em um terreiro de fazenda. Quem fa\u00e7a mais barulho, avermelhe mais o papo e grite glu-glu mais alto costuma ser tido como vencedor, pois num debate entre *pessoas* o vencedor \u00e9 quem se imp\u00f5e pela presen\u00e7a, n\u00e3o quem tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Os grandes debatedores, assim como os grandes pol\u00edticos e os grandes oradores, precisam ser mentirosos. N\u00e3o se convence o p\u00fablico com verdades, porque as verdades s\u00e3o limitadas. A verdade tem aplica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, ela n\u00e3o se adapta \u00e0 necessidade das circunst\u00e2ncias. \u00c9 muito f\u00e1cil &#8220;vencer&#8221; um debate na internet dizendo que um p\u00e3o n\u00e3o cura dor de cabe\u00e7a ou que uma chave de fenda n\u00e3o serve para passar manteiga num biscoito. Voc\u00ea talvez se assuste com essas afirmativas, mas n\u00e3o se assusta quando uma cavalgadura declara triunfante que a teoria da evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o explica a origem da vida ou que a obra de Marx \u00e9 toda inv\u00e1lida porque o &#8220;socialismo&#8221; revolucion\u00e1rio &#8220;falhou&#8221;. <\/p>\n<p>Quando o especialista tenta argumentar com a verdade, nas condi\u00e7\u00f5es limitadas em que ela pode ser demonstrada, o mentiroso manipulador distorce as condi\u00e7\u00f5es do argumento com fal\u00e1cias, ou puramente com linguagem abusiva (tal como o peru que abre a roda, arrasta as asas no ch\u00e3o, faz &#8220;tuuum&#8221; e grita &#8220;glu-glu&#8221;). <\/p>\n<p>Essa disparidade entre a verdade e a manipula\u00e7\u00e3o quando postas frente a frente, em um debate estilo programa de audit\u00f3rio, inspirou a cria\u00e7\u00e3o do meme do pombo enxadrista, que \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o da frase de Mark Twain em termos t\u00e3o verbalmente abusivos quanto os debatedores de internet costumam usar:<\/p>\n<p>> N\u00e3o se joga xadrez com um pombo: ele vai derrubar as pe\u00e7as, cagar no tabuleiro e sair voando. Ent\u00e3o voc\u00ea vai parecer idiota, por querer jogar xadrez com um pombo.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 extremamente verdadeiro, mas n\u00e3o muda um fato: se os idiotas nunca forem desafiados eles se multiplicar\u00e3o e tendem \u00e0 hegemonia. \u00c9 necess\u00e1rio barrar o discurso animalesco na internet, impedir que o Macaco Ti\u00e3o continue a atirar suas fezes nas pessoas e ainda ser considerado atra\u00e7\u00e3o popular do zool\u00f3gico. <\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 que o debate contra esses discursos de ignor\u00e2ncia \u00e9 simultaneamente imposs\u00edvel e essencial.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel porque n\u00e3o se joga xadrez com um pombo. <\/p>\n<p>Essencial porque a t\u00e1tica de ignorar a estupidez n\u00e3o est\u00e1 funcionando. Os discursos rasos e ignorantes est\u00e3o crescendo, amplificados pela solidariedade formid\u00e1vel dos imbecis, que formam clubes com extraordin\u00e1ria solidez.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o creio que seja poss\u00edvel aos especialistas levar a efeito esse enfrentamento. Pessoas de intelecto mais desenvolvido costumam ter uma dificuldade muito grande para entender os comportamentos de bandos humanos. Nem o proverbial cego no tiroteio fica t\u00e3o perdido quanto um soci\u00f3logo \u00e0 solta na sociedade real. Porque o aprofundamento do conhecimento cria tamb\u00e9m um distanciamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mas algu\u00e9m precisa fazer isso. Se n\u00e3o vamos esperar que pessoas de grande capacidade intelectual o fa\u00e7am, temos de faz\u00ea-lo n\u00f3s mesmos. N\u00e3o ser\u00e3o os soci\u00f3logos, nem os bi\u00f3logos e nem os matem\u00e1ticos que se engajar\u00e3o em debates na internet contra criaturas como Sinotti e o Kataguri, ou mesmo o Olavo de Carvalho. Mas n\u00f3s precisamos enfrent\u00e1-los. N\u00f3s que n\u00e3o somos brilhantes e nem temos curr\u00edculos lustrosos, n\u00f3s que n\u00e3o vamos emprestar o brilho de  nossa derrota \u00e0 causa desses not\u00f3rios farsantes.<\/p>\n<p>Temos de enfrent\u00e1-los no seu terreno e com pelo menos algumas de suas armas. Temos que mostrar que somos igualmente capazes de derrubar as pe\u00e7as, cagar no tabuleiro e sair voando. Temos que saber abrir a roda, arrastar a asa e fazer &#8220;glu-glu&#8221;. N\u00e3o \u00e9 para educar o povo, porque o povo odeia a verdade, tem avers\u00e3o ao conhecimento e tem medo da complexidade, enquanto ama a mentira, se compraz na ignor\u00e2ncia e busca a superficialidade. A ideia \u00e9 competir com dem\u00f4nio pela oficina dispon\u00edvel que \u00e9 a cabe\u00e7a vazia do povo.<\/p>\n<p>No fim o que importa \u00e9 angariar simpatizantes para boas causas, mesmo que eles n\u00e3o saibam porque. Se h\u00e1 tanta gente disposta a destruir o mundo achando que o est\u00e1 salvando, d\u00e1 no mesmo conseguir quem ajude a salvar o mundo enquanto delira achando que o est\u00e1 a destruir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alfred Russell Wallace, um respeitado cientista ingl\u00eas do s\u00e9culo XIX, que havia descoberto a evolu\u00e7\u00e3o por sele\u00e7\u00e3o natural antes de Charles Darwin, certa vez ficou injuriado com um an\u00fancio publicado em uma revista local por um sujeito chamado John Hampdem, que tinha mais dinheiro do que cultura, na qual se desafiava qualquer cientista a provar que a terra era redonda atrav\u00e9s da medida do n\u00edvel do Rio Bedford, que havia sido medido em 1838 por um agrimensor chamado Samuel Birley Rowbotham. 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